Cantarolando e sentindo o blues: “St. James Infirmary”

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A jovem Meg White descobriu esta canção e a apresentou para seu companheiro Jack fazer sua própria versão nos White Stripes. Assim como Meg, eu também descobri esse clássico do blues através de um desenho da Betty Boop.

No episódio de 1933, a Betty Boop faz as vezes de uma Branca de Neve sensual e, assim como na história original, reproduz a cena macabra em que ela fica morta dentro de um caixão de vidro. Porém, para acompanhar a morbidez da cena, o criador Max Fleischer preparou uma das cenas mais legais de desenho animado que eu já vi: enquanto o caixão de vidro cai num buraco para o submundo, o palhaço Koko – personagem recorrente nos desenhos da Betty Boop –  canta um blues sofrido sobre um rapaz que foi ao hospital ver o corpo de sua amante, enquanto se transforma em um fantasma. Super a ver com a verdadeira vibe da Branca de Neve morta:

Eu fui à enfermaria St. James, eu vi minha garota lá

Ela estava esticada em uma mesa comprida e branca

Tão doce, tão fria, tão formosa

Deixe-a ir, deixe-a ir, Deus a abençoe

Seja lá onde ela estiver

Ela pode procurar em todo este mundo

Mas nunca vai encontrar outro homem gentil como eu

A voz do palhaço é de Cab Calloway, que fazia parte das big bands mais populares nos anos 30 e 40. Os movimentos do palhaço Koko também foram inspirados em Calloway, que era famoso por suas apresentações performáticas. A propósito, ele faz uma participação no filme “Irmãos Cara de Pau” (1980), cantando “Minnie The Moocher.

O blues cantado por Koko é “St. James Infirmary”, uma canção tradicional sem data ou autoria certa. Acredita-se, porém, que suas diversas versões têm origem na canção britânica de 1770, “The Unfortunate Rake”, em que narra a visita de alguém a um hospital – provavelmente para tratar doenças venéreas – e, sabendo que vai morrer, dá instruções sobre o que fazer em seu funeral.

Assim como na original britânica, a tradicional americana de 100 anos depois também possui passagens com instruções sobre o que o narrador quer que façam em seu funeral. Outras versões que originaram “St. James Infirmary” também podem ser encontradas como “Gambler’s Blues” [ou o “blues do apostador”], datadas entre o final do século XIX e começo do XX, e são atribuídas principalmente aos negros americanos.

Voltando à Betty Boop morta, enquanto Koko canta e dança como em cortejo ao caixão de vibro, o cenário de fundo vai ficando cada vez mais macabro, com várias caveiras ao fundo e referências à bebedeira e jogatina. O cenário criado no desenho não é por acaso, isso porque a canção se refere mesmo a um ambiente de submundo, típico entre os negros do começo do século XX dos EUA, época em que a canção tradicional chegou aos bardos dos jovens americanos. A simbologia das caveiras também pode ser associada aos funerais de Nova Orleans, com referências à cultura vudu.

St. James Infirmary, como um blues tradicional que se preze, tem infinitas regravações e versões. Desde Joe Cocker até White Stripes, como falei no começo do texto. A mais famosa delas talvez seja a do Louis Armstrong, que é também uma das mais tristes, vibe de lamento, mesmo. Eu mesma já tive a oportunidade de estar em um funeral em que o falecido pediu para tocar esta versão, o que foi feito. Foi uma das experiências mais tristes, mas, se serviu para alguma coisa, foi para sentir verdadeiramente O BLUES.

Tamanho não é documento: cantarolando 10 músicas curtinhas

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Esta semana estava relembrando esse disco que já dá para ser considerado um clássico independente brasileiro, o “Noisecoregroovecocoinvenenado(2006) da banda paraibana Zefirina Bomba, e reparei que a maioria das músicas têm menos de 2 minutos. Aliás, boa parte delas nem chega a 1 minuto. Pauleiras na medida certa, direto ao ponto e que deixam um aftertaste de satisfação. Tipo um bocado caprichado ou um Yakult.

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Algumas músicas curtas, apesar de deixarem aquele gostinho de quero-mais, são tão redondinhas que nos dão a sensação de que se fossem maiores, estragaria. É sobre este sentimento que trata a coluna de hoje, que, em vez de gastar as tintas com uma canção só, vai homenagear 10 faixas curtíssimas para cantarolar o dia inteiro sem enjoar.

A primeira delas é a hipnótica “O Que é que tem pra tu ver na TV”, do Zefirina Bomba. No mundo do hardcore, não é incomum as canções serem curtas, diretas intensas e imediatas. Essa do Zefirina se destaca porque passa uma ideia tão simples quanto sincera, a letra é “O que é que tem pra tu ver na TV? Comercial.” – não precisa dizer mais nada. Mas principalmente, a bateria foge daquela batida reta típica de HC para dar um peso estilo Dave Grohl arretado – alias, Guga é um dos melhores bateristas que já vi ao vivo. O resultado, depois que a música termina é um grande “minha nossa”.

Ainda no mundo do punk/hardcore, a canção “Wasted”, do Black Flag é uma expressiva e suficiente canção de 51 segundos sobre um cara que fez muitas merdas enquanto estava bêbado. Considerando outras canções do BF, como a “Drinking and Driving”, talvez a letra na verdade esteja zombando desse moleque que faz um monte de merda para parecer “cool”, em vez de estar enaltecendo suas realizações. Mas também pode ser uma letra absolutamente literal, o que não a deixa menos interessante e franca. Aliás, o EP de estréia do Black Flag, Nervous Breakdown (1979) em que está a Wasted, é um ótimo exemplo de concisão e suficiência, já que só tem 5 minutos de duração.

Na lista também tem Beatles, com a singela hidden track de 23 segundos no disco Abbey Road” (1969), intitulada “Her Majesty”. É uma mini-canção satírica sobre a rainha Elizabeth II escrita pelo Paul McCartney. Essa faixa era para ficar entre a “Mean Mr. Mustard” e a Polythene Pam” – aliás, duas canções curtinhas de pouco mais de 1 minuto, que muito bem poderiam fazer parte desta lista também. Mas o Sir Paul não achou que combinou, e pediu que a cançãozinha fosse destruída. Porém, a gravadora EMI tinha uma política de não destruir nada que fosse gravado pelos Beatles, então a pequena “Her Majesty” foi inserida no disco após um trecho de silêncio depois da última faixa, sem ser listada na tracklist, tornando-se a primeira hidden track da história. Os Beatles inventando moda (meio sem querer), pra variar.

A próxima faixa é uma verdadeira obra-prima de 1:55 minutos. “Renaissance Fair” (1967), do Byrds. Essa canção é aparentemente simples, mas na verdade é cheia de detalhes nos lugares certos. Ela fala de uma feira renascentista – provavelmente em um sonho – com várias cores, música, aromas de especiarias e pessoas com flores no cabelo. Esse cenário descrito na canção é embalado pelas impecáveis harmonias vocais, e um mix de guitarras com um saxophone, que dão um climão e te levam pro sonho junto com eles. Essa dá pra ouvir em loop.

Mantendo o clima ‘renascentista’ da lista, outra pérola de 1:23 minutos é a “Cheap Day Return” do Jethro Tull. A canção acústica, assim como várias do “Aqualung” (1970), tem uma influência forte dos violões do Bert Jansch e Roy Harper, ou seja, folkão britânico de primeira, trazendo essa vibe medieval perfeito para as flautas do Ian Anderson e seu vocal com muita expressão.

Ainda nos folkões britânicos, não poderia faltar uma do Incredible String Band, a “Son of Noah’s Brother” (1968). Possivelmente uma referência bíblica, a letra da canção mais curta desta lista é a frase “Many were the lifetimes of the Son of Noah’s brother/
See his coat the ragged riches of the soul [muitas foram as vidas do filho do irmão de Noé/ veja seu casaco, as riquezas esfarrapadas da alma]”. A linguagem solene contrasta com a simplicidade da canção, mas a letra é uma frase tão completa que já se faz suficiente pra sustentar e dar força para a faixa, tanto que é uma cançãozinha muito querida do disco “Wee Tam and The Big Huge”.

Em uma vibe parecida está a “El Rey” (1973), do Secos e Molhados. É outro caso, assim como a do Incredible String Band, em que a concisão da música faz você pensar mais ainda no que ela significa. Nessa dos Secos e Molhados, é pintada uma cena de um rei, ou alguém com muito poder, passando diante do observador. A letra é repleta de símbolos e imagens concretas, como uma poesia barroca dessacralizada, como os modernistas faziam. Logo de cara, ele joga a decadência do poder para nós com a imagem do “rei andar de quatro”, causando um choque inicial que em seguida é quebrada com o “quatro caras diferentes”, que pode significar algo como as máscaras do poder. Sem contar nas imagens das celas cheias de gente, e das velas, representando as mortes causadas pelo monarca. Isso ainda num contexto da ditadura militar… Essa música dá para viajar muito, merece um post só pra ela. Brilhante.

A próxima música é do meu maldito favorito, Walter Franco. A faixa “Água e Sal” está no disco “Ou Não” (1973). Eu sempre involuntariamente cantarolo esta música enquanto tomo bando de sal para neutralizer as energias – às vezes precisa, recomendo muito. Mesmo sem querer, muitas músicas do Walter Franco têm meio que uma função de mantra, e essa é uma delas.

Eu já fiz um post aqui nesta coluna sobre a representante Britpop dessa lista [veja aqui], a “Far Out” do Blur. Ela tem a versão extendida, mas eu não consigo me acostumar com ela maior do que os 1:40 min que estão no disco “Parklife” (1994) . É a essência do Syd Barrett suficientemente capturada pra deixar qualquer um satisfeito depois de ouvir.

Para fechar, “Horn” do Nick Drake. Que coisa mais linda, gente. Essa faixa instrumental, lenta, violão simples mas muito característico do estilo de Nick Drake. Apenas ouçam.

Playlist:

Cantarolando a natureza sazonal das coisas em “Turn! Turn! Turn!”, do Byrds (1965)

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The Byrds

A coluna de hoje está homenageando a canção “Turn! Turn! Turn!”, invocada pelos Byrds. O hit de 1965, além do icônico som daquela Rickenbacker de 12 cordas e das lindas harmonias vocais que são a marca registrada dos Byrds, carrega em si uma sabedoria milenar.

A letra se refere a uma passagem da Bíblia, do livro Eclesiastes 3:1-8. Se formos ver, a idéia é muito parecida com um dos pensamentos que se desenvolveu no taoísmo, no sentido de que nada é permanente nem absoluto, mas sim, as coisas funcionam num eterno fluxo entre dois opostos, no tempo em que devem ocorrer, conforme o ritmo que própria Natureza ditar. O símbolo do yin-yang ilustra isso direitinho [aliás, o cara que inventou esse símbolo é o melhor designer de todos os tempos, não acham?].

A passagem da Bíblia é a seguinte:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

A letra de “Turn! Turn! Turn!” é praticamente uma transcrição dessa passagem, exceto pelas respostas “vire, vire, vire”, as quais acabam dando um movimento para a música com a imagem literal de giro, retorno, fluxo. Quase que numa ciranda, dando um sentido concreto à idéia da letra.

Além disso, também acrescentou-se uma última frase após o “tempo de paz”: eu juro que não é tarde demais. Essa última frase deu o tom da intenção pacifista da música. Isso porque um pedido de paz é uma afirmação de sua posição política – algo muito importante na época, especialmente entre os artistas folk, no contexto da guerra do Vietnã. Essa versão da letra foi originalmente escrita pelo cantor folk Peter Seeger, conhecido por seu engajamento político e lutas pelos direitos civis nos EUA.

A versão de Peter Seeger é tipicamente folk (veja aqui), já a do Byrds, arranjada pelo guitarrista Jim McGuinn, dá à canção a estrutura de rock, formando o característico folk-rock da banda. A batida, que ele chama de estilo “samba”, dá uma cara meio psicodélica e fluida para a faixa.

O mais legal desse tipo de música é seu caráter atemporal e a ideia libertadora. Dá para cantar essa letra como se fosse um hino, cuja lição principal seria aprendermos a viver com esperança, o desapego, coragem para mudanças e confiança na Natureza (ou no Tao, ou em Deus – filosoficamente falando, excluindo qualquer sentido religioso aqui, porque né, convenhamos, as estruturas de são capazes de corromper até as coisas mais neutras, mas não entremos nesse mérito).

Ou, melhor ainda, dá pra simplesmente cantar essa canção a plenos pulmões porque ela é bonita demais. Aproveitem.

Desperte a lua em você com Linda Perhacs, “Moons and Cattails” (1970)

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Linda Perhacs
Linda Perhacs

A canção cantarolada de hoje, “Moons and Cattails”, está em um dos discos mais femininos que já ouvi, o Parallelograms” (1970), de Linda Perhacs. É o primeiro disco dela, que, assim como a Vashti Bunyan, só lançaria seu próximo álbum mais de 40 anos depois, em 2014.

Uma das coisas que mais gosto desse disco é que a energia feminina nas músicas é escancarada e colocada como protagonista. Mas antes de falar da música em si, só vou esclarecer rápida e superficialmente o que será considerado aqui neste texto como “energia feminina” ou “energia masculina”.

Lembremos que todos nós – assim como todas as coisas na Natureza – carregamos tanto energias masculinas quanto femininas. Algumas características de cada energia podem aparecer mais ou aparecer menos em cada indivíduo, o que não tem nada a ver com gênero ou sexualidade. Nossos aspectos masculinos, associados ao arquétipo do Sol, ou energia yang, seriam no sentido da iniciativa, ação, objetividade, proteção, poder, inteligência intelectual. Em desequilíbrio, podem levar à agressividade, opressão, violência, frieza, rigidez, etc. Já nossos aspectos femininos, representados pela Lua, ou energia yin, têm a ver com a nutrição, beleza, receptividade, sedução, acolhimento, sensibilidade, conexão com a Natureza. O desequilíbrio da energia feminina pode nos levar à fúria absoluta e irracional, assim como a uma excessiva passividade.

Logo de cara, dá para perceber que o nosso modo de vida, baseado no patriarcado, faz com que essas energias sejam desequilibradas em cada um de nós, de modo que temos essas energias polarizadas e em conflito. No caso, vivemos em uma lógica que tem em vista e prestigia muito mais aspectos masculinos do que femininos, resultando nos problemas todos que conhecemos muito bem, desde a opressão do machismo, até a nossa desconexão com a natureza.

Mas o que isso tem a ver com a canção “Moons and Cattails”, da Linda Perhacs? Primeiro, porque sua voz é completamente feminina, sem medo de parecer frágil e sem grandes arrobos técnicos, e ainda assim é forte e acolhedora. Mas, principalmente, esta canção remete tipicamente ao universo da “bruxaria”, ou de rituais ancestrais pagãos. A ideia da “bruxa” – historicamente atribuída como algo pejorativo, reforçando o desequilíbrio que falei acima – é tipicamente feminina, e vive em total congruência com a natureza, observando seus fenômenos e os aplicando na vida. Não à toa, as canções desse disco foram escritas por ela após um período de imersão no mato.

Nessa canção, talvez nem intencionalmente, ela lembra do aspecto cíclico da luz e da sombra, o Sol e a Lua, pela pedra basalto. Basalto é uma pedra vulcânica negra, formada a partir do magma, ou seja, do fogo.

Come along Back to dark nights… To the heavy sleep of fire To the naked blackness Of basalt [“Venha de volta às noites escuras, para o sono profundo do fogo, para a escuridão pura do basalto”]

 

Essa canção representa muito bem o que seria um som intimamente feminino. Nesse sentido, a pioneira foi Joni Mitchell, que abriu o campo para as outras cantoras/compositoras da época, fora do estilo country e soul, segundo afirma a própria Linda. Para competir com Joni Mitchell, a Warner Bros. assinou com Linda Perhacs, porém esta não alcançou o sucesso comercial esperado.

Por aqui, 40 anos depois, no cenário da música independente, muitas artistas estão surgindo com uma proposta voltada para um sentido parecido com esse: o do autoconhecimento atrelado à busca da valorização do feminino, a conexão com a natureza e os aspectos místicos e lunares da vida. É o caso de artistas como a Ava Rocha, a Papisa e o disco da Cinnamon Tapes.

Cantarolando “Novo Tempo” (1980), o bilhete premiado perdido de Ivan Lins

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Ivan Lins Novo Tempo

Já começo o Cantarolando de hoje esclarecendo que, pessoalmente, eu não consigo gostar de Ivan Lins, talvez por influência do meu pai, que sempre demonstrou antipatia e certa irritação por ele.

Mesmo sabendo que ele é um dos grandes compositores brasileiros, autor de diversos hits da MPB, trilhas de novelas e de reconhecimento internacional. Além dos artistas brasileiros, teve suas músicas interpretadas por grandes nomes gringos como Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald – aliás, não tem nada que a Ella Fitzgerald cante que não fique bom, até em português esquisito.

A canção “Novo Tempo” bombou nas rádios brasileiras no ano de seu lançamento, em 1980. Com uma letra daquelas da leva de possíveis trilhas sonoras para o movimento pró-democracia, no contexto da cada vez mais decadente – mas ainda presente – ditadura militar, “Novo Tempo” dá um tom esperançoso para os jovens ouvintes.

Porém, independentemente da letra, a canção tem um tremendo apelo pop. Tanto que chamou a atenção dos ouvidos de Quincy Jones, o então produtor do Michael Jackson. Jones, ao se deparar com as linhas melódicas, sentimentais e grudentas de “Novo Tempo”, entrou em contato com Ivan Lins para que sua composição pudesse fazer parte do repertório do novo disco solo do Michael Jackson. No caso, para fazer parte do álbum que viria a ser, até hoje, o disco mais vendido de toda a história da humanidade, “Thriller (1982)”.

A partir daí, travou-se meses de negociações jurídicas. Como acontece muito comumente em contratos de cessão de direitos autorais, a proposta era leonina – abusiva, exageradamente desproporcional. Coisa de 90% para eles e 10% para o autor. Hoje sabemos, até que não seria nada mal, financeiramente, embolsar 10% dos royalties de uma faixa do “Thriller”, sem contar a visibilidade que daria para Ivan como compositor. Mas, em 1980, Michael Jackson apesar de já ser grande, ainda não era MICHAEL JACKSON, o ícone, o rei do pop, o artista em escala estratosférica em termos de sucesso e popularidade.

Como sabemos, a canção acabou não entrando para o “Thriller”, que acabou sendo lançado antes mesmo de as longas negociações terem sido encerradas.

A parceria entre Quincy Jones e Michael Jackson rendeu três discos brilhantes – e talvez os mais importantes – da carreira solo de Michael Jackson, “Off The Wall (1979)”, “Thriller” e “Bad (1987)”. Porém, Jones sempre foi um grande admirador da música brasileira, e acabou ajudando Ivan Lins a ingressar no mercado internacional de qualquer forma, quando gravou as canções “Dinorah Dinorah” e “Love Dance” no disco do cantor e guitarrista de soul George Benson, o qual estava produzindo, chamado “Give Me The Night (1980)”. Esse disco alcançou bastante sucesso nos EUA.

Enfim, gostando ou não, tenho que reconhecer a qualidade das composições do Ivan Lins, inclusive do seu vocal. Mas agora só resta a curiosidade eterna de como teria sido a versão de Novo Tempo no Thriller – acredito eu, muito mais interessante do que a original. O próprio Ivan Lins admite que, caso tivesse aceitado o contrato, possivelmente ele estaria morando em algum paraíso como as Ilhas Fiji, desfrutando de sua fortuna. Termino com uma citação de meu pai sobre o assunto: “Se ele tivesse aceitado, todos ficariam felizes: ele, o Michael Jackson e eu, que não teria que aguentar tanto Ivan Lins no rádio”.

Os Rolling Stones rasgando a camisa em “Shattered” (1978)

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Rolling Stones
Rolling Stones

O período do meio para o fim dos anos 70 foi decisivo para o mundo pop. Você já deve ter percebido, este é um texto sobre o punk. Imaginemos só o quanto que coisa toda de hippie já estava dando no saco, pelo menos para grande parte dos jovens. Especialmente os jovens que não se viam representados mais pela estética, pelo discurso e pela música dos anos anteriores. John Lydon, o Johnny Rotten, diz que os hippies àquela altura eram elitistas, e muitos artistas ficaram ricos e isolados em mansões, e se viam com superioridade, o que acabava por esvaziar o discurso de paz e amor [aliás, quando li isso, logo me remeteu à “elite namastê” que existe hoje, mas isso não vem ao caso agora].

Musicalmente, os artistas eram quase sempre virtuosos, e as canções eram superproduzidas. Além disso, o rock’n’roll estava sendo tratado como um evento grandioso, ou seja, distante da vida normal e fodida dos jovens que viviam naquela época. Então, de repente esses jovens adultos se deparam com seus artistas favoritos, os ídolos da rebeldia dos anos 60 como, por exemplo, o Rolling Stones, e percebem que seus heróis já estão distantes, foram engolidos pelo showbizz.

Por sua vez, os Rolling Stones sentiram sua própria obsolescência diante das novas e pungentes tendências da música. Nesse contexto é que a canção “Shattered” aparece. A começar pela abordagem toda do disco Some Girls” (1978), que é propositalmente influenciada pela sonoridade do punk. A linha das guitarras de “Shattered” poderiam perfeitamente estar no Nevermind the Bollocks” (1977). Há algo de bonito nisso, como se o criador estivesse sendo influenciado pela criatura. Mas, principalmente, há algo de esperto.

Até a capa de Some Girls tem estética punk

Uma vez que o punk estourou para o mundo, a música, a moda, a estética nunca mais seriam as mesmas. O punk era tudo isso ao mesmo tempo, justamente para marcar uma mudança de atitude: tudo era uma afirmação – até mesmo a não afirmação, como fez Richard Hell com sua “blank generation”. Vale notar que inicialmente, não havia um padrão específico para identificar o visual punk, inclusive a moda era bastante livre e variada, sendo que cada pessoa inventava sua própria afirmação fashion.

O padrão da roupa rasgada e cabelo espetado veio pouco depois de os Pistols estourarem na Inglaterra – ou de Richard Hell ter começado a moda no underground novaiorquino, não se sabe ao certo quem começou. O fato é que era esse um dos visuais mais marcantes do jovem da época, a ideia é chamar a atenção para exacerbar a decadência. Look at me! I’m shattered [Olhe para mim! Estou em frangalhos]

Naquela época, Mick Jagger e Keith Richards adoravam frequentar Nova York, e inevitavelmente absorver elementos de uma nova cultura efervescente – aliás, em constante intercâmbio com Londres. Portanto o cenário decadente, boêmio de drogas e prostituição da cidade também servem de tema para “Shattered”:

Laughter, joy, and loneliness and sex and sex and sex and sex
Look at me, I’m in tatters
I’m a shattered
Shattered

[Risadas, alegria, e solidão e sexo e sexo e sexo e sexo/ Olhe para mim, eu tenho tatuagens, eu estou quebrado, quebrado]

Porém, é bem possível que essa música tenha a intenção apenas de retratar esse cenário novo, mas também de criticar o fato de o cenário todo ter se tornado tão “fashion”, como que valorizando a aparência em detrimento de algo mais aprofundado musicalmente – a famigerada “modinha”. Não sei vocês, mas eu vejo claramente um tom sarcástico na frase “Olhe para mim, estou quebrado”, como que alguém desesperado para chamar a atenção para seu visual.

De qualquer forma, musicalmente os Rolling Stones fizeram sua própria afirmação sobre tudo isso, mesmo que meio obrigados por uma questão de sobrevivência. O resultado foi um disco com uma pegada genuinamente renovada, que impõe o reconhecimento de que eles sabem identificar suas referências e que, no fundo, tudo o que gostamos dos punks, eles já fizeram.

A poderosa imagem de Patti Smith segundo KT Tunstall em “Suddenly I See”

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KT Tunstall
KT Tunstall

Eu sempre achei essa música, “Suddenly I See”, legal. Isso mesmo: apenas legal, agradável, uma bela canção pop com pegada meio bluesy ou soul – soul de branco, mas ainda soul. É daquelas que você fica cantarolando o dia inteiro sem perceber, e que sempre que toca no rádio dá um ânimo e uma alegriazinha. A letra sempre me remeteu à descrição de uma garota independente e jovem, mas de uma maneira meio genérica.

Porém, ao descobrir a verdadeira inspiração de KT Tunstall para escrever seu maior hit, a singela canção torna-se muito mais do que genericamente “legal”, mas uma comovente declaração sobre inspiração e referência artística. É um daqueles casos em que saber o real significado da canção para o autor contribui e muito para a beleza da letra. De fato, ela fala sobre uma garota independente e jovem, mas sobre uma específica: Patti Smith.

A letra de “Suddenly I See” descreve o momento em que KT, com seus 27 anos, descobre o porquê de estar fazendo o que ela está fazendo, e buscando o que estava buscando. No caso, ela estava há quase dez anos vivendo uma vida de perrengue, abrindo mão de dinheiro, viagens, conforto, para se dedicar à música, tocando em barzinhos e na rua. Até que ela decidiu que deveria gravar um disco e buscar um contrato em uma gravadora. É aquele ponto em que sentimos uma necessidade estranha de justificar nossas escolhas, tanto perante o mundo, quanto perante nós mesmos, e decidimos dar um passo adiante. Isso a fez refletir algo do tipo “Afinal, que tipo de artista eu quero ser?”. E, segundo a cantora, a resposta veio através da capa do “Horses” (1975).

Patti Smith é uma das artistas favoritas de KT. Naquele momento de reflexão, enquanto contemplava a capa de “Horses”, a icônica foto da Patti Smith mostrou uma jovem cheia de ‘maturidade e sabedoria’ [palavras da própria KT, estilosa e convicta. Suddenly I see this is what I want for me/ De repente eu vejo que é isso que eu quero para mim.

A partir daí, a letra de “Suddenly I See” surgiu como uma declaração de admiração, e com um tom afirmativo do que a artista não só admira, mas também busca para ela mesma. A maneira fascinada com que a jovem KT descreve a jovem Patti chega a ser comovente e contagiante. E, principalmente, é linda a maneira com que sua heroína lhe inspira e dá forças.

And she’s taller than most
And she’s looking at me
I can see her eyes looking from a page in a magazine

[Adoro essa última parte:]

She makes me feel like I could be a tower
A big strong tower, yeah
The power to be
The power to give
The power to see

[E ela é mais alta que a maioria/e ela está olhando para mim/eu consigo ver seus olhos me olhando de uma página em uma revista/ela me faz sentir como se eu pudesse ser uma torre, uma torre grande e forte/o poder de ser/ o poder de dar/ o poder de ver]

Afinal, a melhor admiração é aquela que, além de nos inspirar, nos faz sentir fortes e nos ajuda a encontrarmos a nossa própria essência. E é essa a lição que KT Tunstall nos ensina com sua homenagem à ‘ídola’ Patti Smith.

Odiando a polícia com o Mudhoney em “Hate The Police” (1990)

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Mudhoney
Mudhoney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Todo adolescente que se preze odeia a polícia. Numa análise imediata e superficial, o arquétipo da polícia logo de cara remete a autoridade, vigilância, opressão e o combate à delinquência, ou seja, basicamente tudo aquilo que o adolescente mais detesta. Talvez seja por isso que era tão satisfatório para mim cantar aos berros essa música no colegial.

Abrindo um parênteses aqui, é engraçado que raramente o paradigma de polícia nos faz lembrar de segurança – pelo contrário, né? É como naquela famosa dos Titãs: Dizem que ela existe prá ajudar/Dizem que ela existe prá proteger/Eu sei que ela pode te parar/ Eu sei que ela pode te prender!

Na verdade, se levarmos em consideração o que alguns caras como Michel Foucault pensam sobre isso, dá para concluir MUITO SIMPLIFICADAMENTE que a delinquência é de fato fabricada, criada pela própria estrutura que a condena – e mantida através da difusão do medo da criminalidade – , exatamente com o objetivo de ser combatida e, assim, demonstrar a necessidade social do poder da polícia, consequentemente validando toda a estrutura que legitimou este poder.

Mas nem é preciso exercitar toda essa reflexão para um indivíduo não morrer de amores pela autoridade policial – e o que ela representa. Sabemos que a truculência, a simpatia pela violência e o racismo não raramente afloram através da polícia. E é sobre esse aspecto que a canção cantarolada de hoje diz respeito.

“Hate The Police”, originalmente gravada pela banda punk The Dicks em 1980, conta a historia de um jovem adulto que acaba de entrar para a polícia, e chega em casa para contar a novidade para seus pais orgulhosos.

Ele se sente poderoso carregando uma arma, se exibindo para sua mãe, mostrando o quão intimidador ele pode ser:

Mamãe, mamãe, mamãe
olhe para o seu filho
você pode ter me amado,
mas agora que eu tenho uma arma, é melhor você sair do meu caminho
Eu acho que tive um dia ruim
Eu tive um dia ruim

E conta ao seu pai sobre as aventuras de seu novo trabalho:

Papai, papai, papai
Orgulhoso de seu filho
Conseguiu um bom emprego
Matando pretos e mexicanos
Eu vou te contar uma coisa, é verdade
Você não encontra justiça, ela é que te encontra.

 

A canção ficou mais conhecida por sua versão do Mudhoney, que está no disco – na verdade é um EP e uma compilações de singles – “Superfuzz Bigmuff” (1990), entitulado em homenagem ao icônico pedal de fuzz usado e abusado pelo guitarrista Steve Turner, marca registrada do som da banda.

Se quase 10 anos após o lançamento da música pelos The Dicks, a canção ainda fazia sentido a ponto de ter estourado através do Mudhoney, hoje, 30 anos depois, ela ainda está atual, e pode muito bem servir para as particularidades da nossa polícia por aqui.

De qualquer forma, mesmo se você não sofre de tanta antipatia pela instuição policial, todos havemos de concordar que a presença da polícia nas nossas vidas geralmente não é agradável. A idéia é que alguma coisa está errada. É esse sentimento que torna a “Hate The Police” tão atraente para os jovens ouvidos – e para aqueles ouvidos que se recusam a envelhecer.

Cantarolando: Moça, vai lá fazer seu roque! “I Wanna Be Your Joey Ramone”, de Sleater-Kinney

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Sleater-Kinney
Sleater-Kinney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Estava conversando com uma amiga, que está à procura de uma guitarrista solo para uma banda. Ela logo em seguida me disse que está sendo bastante difícil, não só encontrar uma guitarrista que se encaixe no som e na proposta da banda, mas simplesmente encontrar uma guitarrista solo. A conclusão que se chega é que isso na verdade é um sintoma do quanto que as garotas ainda são desestimuladas a se aperfeiçoarem e a se projetarem como lead guitar, um território ainda tão masculino.

Pensando no aspecto histórico da herança desse desestímulo sobre as garotas, podemos citar do emblemático caso da irmã do Mozart, Marianne. Reconhecido como um dos maiores gênios prodígios da história da música, Wolfgang Mozart tinha uma irmã mais velha, potencialmente tão talentosa quanto ele – pelo menos é o que dizem os registros da época. Ela foi uma grande influência para Mozart, que a tinha como modelo. Desde criança, Marianne, assim como o irmão, realizava concertos de piano e harpa, e suas performances ganharam fama o suficiente para saírem em turnê pela Europa.

Porém, ao atingir a idade para se casar, ela foi pressionada a largar a música. O pensamento da época era que não é apropriado para uma moça crescida se ocupar com a música ao invés de cumprir seus deveres de esposa. O pai também desaprovava a escolha de Wolfgang de seguir a carreira musical, o que resultou numa briga entre eles, mas o jovem Mozart seguiu mesmo assim. Porém, Marianne acabou cedendo aos desejos da família – e da sociedade.

Há registros de trocas de correspondências entre Wolfgang e Marianne, em que ele elogia suas composições, o que demonstra que ela também compunha, porém estas acabaram se perdendo. Talvez teria sido uma compositora tão importante quanto o irmão, se tivesse tido o estímulo, o apoio e o reconhecimento.

Isso que aconteceu com a irmã do Mozart é muito comum, e de certa forma ainda ressoa. O resultado disso é poucas referências femininas nas artes e na música, gerando uma dissociação muito grande entre o que se admira e o que é possível se espelhar para ativamente criar e ser. Dito isso, voltemos para a breve ‘girl talk’ que tive no estúdio sobre mulheres guitarristas. E é aí que entra a música homenageada de hoje, da Sleater-Kinney. Carrie Brownstein é uma das guitarristas mais reconhecidas do indie.

A canção ‘I want to be your Johnny Ramone’ passa a ideia de uma garota olhando para um quarto cheio de pôsteres dos ídolos do rock – todos homens – e querendo ser como eles, nem que seja para ser admirada pela amiga ou namorada – ou amigo/namorado – tanto quanto eles. Esse é basicamente o resumo do sentimento de uma menina adolescente que sente um misto de atração sexual e vontade de ser esses garotos das bandas que tanto amamos.

Já falei sobre – a escassez de – referências femininas no rock outras vezes, e é uma tecla que já está ficando gasta de tanto bater. Nesse sentido, Sleater-Kinney é um daqueles grupos que fez um favor para diversas garotas se encorajarem a montar suas bandas e conseguirem se ver sendo fodonas com uma guitarra.

Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

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Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.