A construção de “Sure Shot” (1994), dos Beastie Boys

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Beastie Boys

O Beastie Boys nasceu no Brooklyn, em 1981, como uma banda punk hardcore, e entrou pra história como uma das maiores bandas de hip-hop do planeta. Ela se consagrou com Mike D, Ad-Rock e MCA, este último falecido em 2012, vítima de complicações decorrentes de um câncer. Esse também foi o ano em que o fim da banda foi decretado, e que seus membros foram induzidos ao Rock and Roll Hall of Fame, sendo o terceiro grupo de hip-hop a receber tal honra, após Run-DMC e Grandmaster Flash.

“Ill Communication”, lançado em 1994, foi o segundo disco da banda a alcançar o primeiro lugar na parada americana da Billboard, e já começava com uma grande música, “Sure Shot”. Com uma letra quilométrica, que cita desde coisas do cotidiano, apoio às mulheres, a uma declaração de amor ao vinil, a música é composta de 6 samples, e conheceremos alguns deles agora.

O primeiro sample é “Howling for Judi”, do flautista de jazz nova iorquino Jeremy Steig, lançada em 1970. Ele começa nos 20 primeiros segundos do vídeo e é, curiosamente, também a base da música de Steig. Durante seus 4 minutos e 38 segundos, a faixa vai repetindo as mesmas notas, que recebem uma camada extra de flautas virtuosas.

O sample de bateria é um trecho curtíssimo da música “ESG”, do UFO. Tida como uma das mais influentes bandas de rock de todos os tempos, os ingleses permanecem na ativa. A faixa original foi produzida por Martin Hannett, conhecido como o criador do som de Manchester, e também é um dos principais nomes por trás do lendário Joy Division.

Outro sample que compõe a faixa, mas que aparentemente não está disponível para o Brasil em plataforma alguma, é do disco “The Funny Sides”, da comediante Jackie “Moms” Mabley. Na música a citação aparece em um scratch aos 1:48. Moms nasceu na Carolina do Norte em 1894, ou seja, 100 anos antes do lançamento da música dos Beastie Boys.

Vale a pena citar também “Rock the House”, do Run-DMC. Ela aparece na última parte de “Sure Shot”, iniciando aos 2:58. O trio iniciou suas atividades também em 1981, e entrou para o estrelato pop ao ajudar o Aerosmith a voltar para os holofotes em 1985, quando resolveram adicionar uma nova batida a “Walk This Way”, lançada originalmente em 1975. A mistureba deu tão certo que levou o Run-DMC ao quinto lugar do Billboard Hot 100, um feito inédito pra um grupo de hip-hop.

O resultado de “Sure Shot” você confere no vídeo abaixo.

Pink Floyd sampleou a voz de Stephen Hawking em “Keep Talking” (1994)

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Em 1994, o Pink Floyd, grupo inglês de rock progressivo, terminava de gravar o que seria seu último registro de estúdio, o aclamado “The Division Bell”. Assim como todos os discos dos ingleses, esse possui músicas que marcam a criatividade de uma banda, mesmo após quase 30 anos de existência. “High Hopes”, a última música do disco, cuja letra deu nome a “The Endless River”, disco de sobras lançado em 2014, é um dos pontos altos não apenas do disco, mas também da extensa discografia da banda. Outras músicas que fizeram bastante sucesso foram “Take it Back”, “What Do You Want From Me” e “Keep Talking”.

Também em 1994, a British Telecom lançou uma peça publicitária que tinha a participação do físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking, então com 54 anos. No anúncio, feito pela agência Saatchi & Saatchi, Hawking começa falando: “por milhões de anos a humanidade viveu como os animais. E alguma coisa aconteceu, que permitiu usarmos o poder da nossa imaginação: nós aprendemos a falar”. Com aproximadamente 1 minuto e meio, a mensagem foi tão forte que fez David Gilmour, vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo, considerar como uma das melhores peças publicitárias já feitas.

Em uma entrevista de rádio, o músico contou que “ele [Hawking] sofre de uma doença degenerativa, está numa cadeira de rodas, não pode falar, e sua voz é sintetizada por uma coisa computadorizada feita especialmente pra ele. Eu acho que ele só consegue mover um dedo, bem pouquinho, e seu trabalho é feito apenas com isso”. O comercial foca no poder da fala, de como ela possibilitou fazermos o impossível, também de como a falta dela causa destruição, guerras e sofrimento, e da importância de continuarmos conversando. “Sua voz estava no anúncio, e esse anúncio quase me fez chorar. Eu nunca senti isso antes”, prossegue, “[esse] foi o comercial de televisão mais poderoso que eu já vi na minha vida. Eu achei fascinante.”

Após este choque inicial, Gilmour achou interessante usar a voz de Hawking em uma de suas novas músicas. Entrou em contato com a agência de publicidade e perguntou se ela poderia disponibilizar a voz usada no comercial. Com o material em mãos, a voz foi modificada, para encaixar no tempo da música, e a música foi adaptada, para que tudo fizesse sentido. O resultado é simplesmente uma música belíssima que fala muito sobre um problema bastante atual: a falta de comunicação entre as pessoas, entre os povos, entre países. Precisamos conversar mais, pois só o poder da conversa pode construir o impossível.

Os retalhos de samplers de Liam Howlett chamado “The Dirtchamber Sessions” (1999)

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O Prodigy, filho querido de Liam Howlett, já foi assunto aqui no Crush em HiFi em 2016, quando mostramos como foi feita a música “Smack My Bitch Up”. Em 1999, Liam resolveu dar um tempo na banda e trilhou um caminho um pouco diferente em “The Dirtchamber Sessions Volume One”. Ainda trabalhando com muitos samples, dessa vez não houve uma deformação das músicas para produzir novas composições. A ideia era fazer uma colcha de retalhos, naquele estilão DJ, de colar uma música na outra. Cada colcha foi chamada de Session, e o álbum possui 8 Sessions.

A primeira Session termina com um sample do Chic, sobre o qual a gente também já escreveu aqui e aqui, mas vamos começar do começo.

O encarte do disco é bem direto e mostra o que você vai ter pelos próximos 42 minutos: uma mesinha de som de 8 canais, um sintetizador e muitos, muitos LPs, de todas as décadas. Sem se preocupar em limpar os plic-plocs do vinil, Liam passeia pela história do sample, através de uma pesquisa na qual ele acaba “cortando a própria carne para expor os ossos”, mostrando além daquele recorte de 5 segundos, que todo mundo conhece, mas que poucos sabem a origem. Um grande exemplo dessa exposição é, já na primeira faixa, ter “Give the Drummer Some”, do Ultramagnetic MC’s, origem do refrão “change my pitch up / smack my bitch up”, da música “Smack My Bitch Up”, um dos maiores hits do Prodigy. Antes disso, ele também brinca com “Different Strokes”, de gravada por Sly Johnson em 1967; “Apache”,  gravada em 1973 pela Incredible Bongo Band, e “Chemical Beats”, gravada em 1994 pelo Chemical Brothers, entre outras músicas das mais diferentes idades.

A segunda faixa, ou Session 2, já vem na cola mostrando o quanto Howlett sabe que sua criação é influente, até pra ele mesmo. Ao lado de “Bomb The Bass” e “Trouble Funk”, ele puxa do próprio Prodigy com “Poison”, do disco “Music for the Jilted Generation”, de 1994, para, logo em seguida, botar “Been Caught Stealing”, do Jane’s Addiction, uma das bandas que ganhou os holofotes na década de 90. Pra quem não sabe, Perry Farrell, vocalista do Jane’s, é o fundador e curador do festival Lollapalooza.

O restante do disco é tão diverso que daria uma bela dissertação de mestrado, ou até mesmo um livro, devido ao tratamento que tantas músicas históricas receberam. É “Babe Ruth” misturada com o já comentado Chemical Brothers, três faixas do Frankie Bones coladas com Meat Beat Manifesto e Public Enemy. A Session 5 fica entre Sex Pistols, Fatboy Slim e Medicine, banda da filha do Bruce Lee, Shannon, aquela que aparece tocando no “O Corvo”, estrelado por Brandon Lee.

Se você tem interesse na história da música, precisa fazer uma pesquisa de samples pra uma composição própria, ou simplesmente quer um monte de hinos compilados, esse disco é perfeito!

“The Dirtchamber Sessions Volume One” foi lançado em 1999. Não seria hora de um Volume Two, Liam?

“Good Times” virou “Rapper’s Delight” e se transformou em “2345Meia78”, “Aserejé” e “Ragatanga”

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O Chic é uma das bandas mais importantes da era disco. Criada pelo super guitarrista Nile Rogers e pelo baixista Bernard Edwards em 1975, o grupo criou vários hinos como “Le Freak” e “Good Times”. No ano de 1979, o trio Sugarhill Gang resolveu usar “Good Times” como base para “Rapper’s Delight”, com um detalhe interessante: ambas as músicas foram lançadas em 1979. A música também virou um hit, chamando a atenção de Rogers e Edwards, que entraram com um processo judicial e ganharam a co-autoria da música.

Com uma letra gigante, que poderia servir inclusive como capítulo de um livro, e 14 minutos na versão original, “Rapper’s Delight” foi um sucesso tão grande que continuou servindo como base para muitas músicas, sendo sampleada por artistas como Gabriel o Pensador, em 2345Meia78″, e virando base para uma língua inventada em 2002 pelo trio de irmãs Las Ketchup em “Aserejé”, também conhecida como “The Ketchup Song”.

A letra de “Aserejé” é muito bem humorada, e conta a história de Diego, uma pessoa nascida na Espanha, que não sabe nada de inglês, tipo a Sol do BBB, esperando sua música preferida na balada. No refrão das Ketchup, o rapaz cantarola “Aserejé, ja deje dejebe tude jebere / Sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí” ao invés de “I said a hip hop / Hippie to the hippie / The hip, hip a hop, and you don’t stop, a rock it out / Bubba to the bang bang boogie, boobie to the boogie / To the rhythm of the boogie the beat.” Quem nunca?

No Brasil, a música ganhou uma versão “em portunhol” feita em conjunto com as meninas do Rouge, com o nome de “Ragatanga”, e também foi sucesso absoluto. Essa versão ajudou inclusive a impulsionar as vendas das Ketchup!

Tricky transformou o grunge do Alice in Chains em um trip hop com pitadas globais

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Quando Tricky lançou “Adrian Thaws” em 2014, seu 11º registro fonográfico e que também leva seu nome de nascimento, houve uma tour mundial, que passou pelo Brasil. Convidou Mallu Magalhães pra gravar “Something In The Way”, tomando o lugar de Francesca Belmonte na divulgação de seu álbum por aqui. Ele também já teve um relacionamento amoroso com Bjork e é um dos muitos pais do trip hop, ao ter participado dos dois primeiros álbuns do Massive Attack.

Continuando com a herança do hip hop, suas composições se baseiam em samples, muitas vezes de artistas extremamente consagrados, como Michael Jackson e Alice In Chains. E esse texto é exatamente sobre essa interessante mistura pessoal de Seattle com os guetos londrinos. “Heaven Beside You”, a música sampleada, faz parte do terceiro disco do Alice in Chains. A música que fez sucesso tanto como single, no lançamento do álbum, quanto na participação da banda no “MTV Unplugged”, em 1996.

Essa fusão mostra a genialidade de um artista seguro de si, que sabe extrair o melhor para sua obra, independente do estilo e da exposição da música original, fazendo tudo soar novo, como se fosse feito para ele.

Tricky se apropria dos 5 segundos iniciais em “Keep Me In Your Shake”, fazendo um loop que se repete por 47 segundos enquanto o músico acende um baseado e reclama da segunda (Can’t wait for Sunday / It’s heartbreak Monday). Adicione ao itinerário da nossa viagem a Nigéria, país de Nneka, que divide os vocais e tem, em seu currículo, a música “Viva Africa”, tema da Copa do Mundo de 2010. Perceba que a conexão mundial segue fluindo.

Curiosamente, no canal de You Tube do artista, o sample não está presente. Foi substituído por uma guitarra com melodia parecida com a criação de Jerry Cantrell, mantendo boa parte da sua essência.