Audiometria: rebolando na cadeira involuntariamente com “Volume 10”, da Banda Calypso (ou com metade dele)

Calypso

Audiometria, por João Pedro Ramos

Calypso – “Volume 10”
Lançamento: 2007
Duração: 58 min
Gravadora: Calypso Produções
Produção: Chimbinha

No Audiometria de hoje resolvi ir logo em uma banda que muita gente considera uma das piores coisas que o Brasil já produziu, normalmente por preconceito. Tá, você pode não gostar da banda Calypso, mas eu sinceramente não acho que o som dos paraenses é assim tão ruim como vocês dizem, apesar de conhecer apenas duas ou três músicas deles. Como nunca me aventurei a ouvir um álbum completo da ex-dupla Joelma e Chimbinha e companhia limitada, dei por mim que essa coluna me dava a oportunidade de realizar esse feito, finalmente.

Primeiramente, entrei no Spotify e percebi que lá temos apenas alguns álbuns da banda (que normalmente os diferenciava por “volumes”, até o momento foram 17, além das coletâneas, discos ao vivo e álbuns com outros nomes, como “Eternos Namorados”, que hoje não faz tanto sentido). Dando uma vasculhada, decidi que ouviria o Volume 10, por alguns motivos:

– Ele têm uma música que eu já conheço, “Acelerou”, abrindo;
– Pô, é o volume 10, e 10 é um número meio cabalístico, certo?

Fones no ouvido, vamos dar o play e começar com “Acelerou”.

Já começa com os metais que se fossem do Los Hermanos metade dos haters acharia lindo. A guitarra suingada de Chimbinha comendo solta, a linha de baixo fazendo a cama, Joelma mandando seus vigorosos gritos… Cara, não dá pra eu falar que achei essa música ruim. Será que agora que o arrocha não é mais vista com olhos tortos o Calypso pode ser curtido sem preconceito? Aliás, essa música foi cantada por Herbert Vianna e os Paralamas no Estúdio Mtv Coca Cola que juntou as duas bandas! Contagem de gritos de “Calypso”: 1.

Quase um ska, essa intro de “Apareça Meu Amor”, hein? Aliás, se você pensar bem, essa música caberia perfeitamente em um disco dos já citados Paralamas. Até a métrica dos versos tem a ver. Só no refrão que o negócio perde a cadência Paralâmica. Dançante, essa aqui. Dá pra rebolar na cadeira ouvindo. E tem uns mini solinhos metálicos de Chimbinha, mostrando porque os ‘zoeiros’ já clamaram que ele tocasse no Angra. Contagem de gritos de “Calypso”: 2.

“Mais Uma Chance” começa com uma batidinha eletrônica meio Linkin Park, aí entra a guitarra sertaneja dos anos 90, talvez pra já introduzir o convidado Leonardo na canção. Mas a partir dos 30 segundos o som acelera e vira a velha guitarrada Calypso de sempre. O diálogo entre Joelma e Leonardo antes dele cantar, aliás, é tão natural quanto um refrigerante Schin. Aliás, a voz de Leonardo é muito adocicada pra esse tipo de música, eu achei. Quando a Joelma canta junto, até dá um caldo bacana…

Agora vem “Gamei”, com um belo jogo de metais e um refrão grudento com muitos “ah ah ah aaaah”. As músicas são, sim, parecidas entre si, mas… Alguns discos dos Ramones têm o mesmo problema e a gente não fica xingando, certo? Contagem de gritos de “Calypso”: 3

O começo de “Estou A Fim” (sic) tem um “papararapa” que me lembrou Ray Conniff. A guitarra de Chimbinha chega pegando fogo no suíngue paraense. O refrão é bem bacana, mas leva a duplos sentidos com o começo com “Mas por dentro / Tá doendo”. Aliás, vendo essa música friamente, ela poderia ganhar uma versão power metal bem fácil! É só mudar o ritmo que tá prontinha.

O título dessa é um show à parte: “Se Não Quer, Tem Quem Quer”. PLAU! Um tapa na cara. Pode-se fazer um paralelo pra quem xingava a banda. Enquanto os “roquistas” ficavam xingando, o Calypso lotava todos seus shows. Tá, a letra não fala de nada disso: é outra canção de amor desfeito e treta de casal. Aquela velha dor de cotovelo que até o CPM 22 usou muitas vezes.

Olha a guitarrinha Dire Straits de “Não, Não Vá”! Mark Knopfer ficaria feliz com essa, hein. Aliás, novamente temos que falar dos metais. Todo mundo só liga Calypso à guitarra de Chimbinha e à voz de Joelma, mas os metais são quase uma assinatura da banda, permeando todas as músicas e pontuando os versos. Muito legal. E a quebradinha pré-refrão de “Não, não, não, não vá” é sensacional. Tô gostando do disco do Calypso ou é impressão minha? Eita. Não esperava isso.

“Nessa Balada” tem um ritmo mais latino que as outras. Duvido que você consiga ouvir essa sem dar uma dançadinha na cadeira. Du-vi-do. O refrão não é dos mais criativos, mas lembra um pouco o samba-reggae dos anos 80 e 90. Ah, contagem de gritos de “Calypso”: 4.

Por falar em axé, “Chiclete Com Calypso” tem a participação do ex-líder do Chiclete com Banana Bell Marques. E ao contrário de Leonardo, a participação dele casa perfeitamente com o ritmo do Calypso, nessa que é uma das melhores músicas do disco. Como essa não foi hit nas rádios? Poxa, o refrão chegou e me deu uma decepcionou. Aliás, o pré-refrão, “dig dig iê, dig dig iô”, porque o refrão mesmo, que fala “Chiclete e Calypsoooo” é bem melhor. Bell Marques até dá uma encarnada no Jorge Ben Jor em alguns versos. Bem legal!

“Louca Sedução” tem os populares tecladinhos tão famosos no brega, mas tem palminhas, e eu adoro palminhas, então acabou me pegando pelo pescoço. E o guturalzinho da Joelma em “Vem me AMAAAAAAR / Me dar prazer” é divertido. E tem uma ponte com o tecladinho fazendo algo meio A-ha que é bem divertida, aliás. Contagem dos gritos de “Calypso”: 5

O nome da próxima música me chamou a atenção: “Amor Bandoleiro”. Acho que a última vez que ouvi a palavra “bandoleiro” foi em algum filme dublado da Sessão da Tarde. Começa meio Beto Barbosa, com os metais comendo solto, numa vibe meio lambada. Pelo que Joelma diz, amor bandoleiro acaba machucando, então evitem. Contagem dos gritos de “Calypso”: 6

O baixão lá no alto anuncia “Deixa Acontecer”, que não deve ser confundida com aquela do “na-tu-ralmente”. Por falar nisso, vamos reafirmar aqui que a cozinha do Calypso é muito boa, trazendo toda a cama pra Chimbinha cair matando. Esse refrão é bem legal, aliás. Com as backings participando e tudo. Contagem dos gritos de “Calypso”: 7

Opa, mudamos de ritmo: “Objeto de Desejo” é mais lenta e pronta pra arrochar de rostinho colado. Começa com a frase clichê “Eu não quero mais você” e conta a triste história de Joelma e um relacionamento com um cara casado que não tinha avisado desse porém. Reginaldo Rossi ficaria orgulhoso. A guitarrinha meio “Wasting Love” do Chimbinha é digna de nota.

Eita, colaram outra balada na sequência. Essa combinaria bem mais com o Leonardo, deviam ter chamado pra participar dessa, “Parecemos Tão Iguais”. Não sei se conto essa como grito de “Calypso”, pois como é uma balada, a Joelma fala como locutora de rádio Alpha FM: “banda… Calypso!” Bom, vamos contar, vai. Contagem dos gritos (esse baixinho) de “Calypso”: 8

Ué, outra balada? OK, aparentemente o Calypso prefere começar com as músicas aceleradas e fazer algo meio Lado A – dançantes Lado B – baladas. “Prá Não Morrer de Amor” é a mais melosa até agora, com uma letra em que a moça se declama e fica pedindo para que o rapaz permita que o amor seja possível. Lembra os piores momentos do Roupa Nova. Até o tecladinho, a métrica, bem Sullivan e Massadas, sabe?

Estamos quase no fim, com “Eclipse Total”, que tem nome de canção da Bonnie Tyler mas é só mais uma baladinha com a intro de uma guitarra meio espanhola, mostrando a versatilidade do pequeno Chimba. Tem uma batidinha eletrônica meio noventista, mas o teclado joga tudo lá pros anos 80. Infelizmente, a música não fala sobre um eclipse total que traz terror à população ou algo assim, e sim de saudades e solidão.

Pra compensar a solidão da penúltima faixa, fechamos com “Auto Estima”! A música começa com o baixão pegando pesado, e novamente é uma balada, reafirmando minha teoria do Lado A/Lado B do Calypso. Gravaram pensando no álbum em vinil? Algumas bandas independentes podiam pensar nisso, é uma ótima ideia… Enfim. chegamos ao fim com Joelma recuperando sua auto-estima (urgentemente). Infelizmente o refrão deixa o negócio meio com cara de gospel, no pior sentido que a palavra pode ter.

No fim, o disco começou muito bem com “Acelerou”, que gruda na cabeça e tem o aval de já ter sido cantada por Herbert Vianna, e vai bem até a metade. Quando chegam as baladinhas, dá uma caída… Acho que se elas estivessem mais espaçadas, quem sabe o álbum não descesse melhor. No mais, parem de ser tão preconceituosos: Calypso tem sim algumas músicas bem legais e bem construídas, especialmente quando são aquelas cheias de suíngue. Não reprima seus quadris, preste mais atenção à guitarra do Chimbinha e deixa acontecer. Naturalmente.


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