Atalhos mostra que não tem medo de soar pop em seu mais recente disco, “Animais Feridos”

Atalhos mostra que não tem medo de soar pop em seu mais recente disco, “Animais Feridos”

20 de agosto de 2018 0 Por João Pedro Ramos

Gabriel Soares (bateria, violão e voz), Conrado Passarelli (guitarra) e Marcelo Sanches (guitarra) formam o Atalhos, banda de Birigui que viaja entre o rock psicodélico, o folk, o progressivo, o rock alternativo dos anos 90 e qualquer que seja o estilo que os inspire a escrever novas canções. Afinal, o que a banda menos tem é amarras na hora de escrever.

Na bagagem, o trio traz o álbum “Em Busca do Tempo Perdido” (2012), com partic​ipação de Marcelo Bonfá (Legião Urbana) no desenho da capa e de Nelson Brito (Golpe de Estado), “Onde A Gente Morre” (2014), com uma direção mais folk e experimental com mixagem de Mark Howard (R.E.M., U2, Bob Dylan) e “Animais Feridos” (2017), que leva o som da banda para um lado mais simples e até pop. Deste disco é a faixa “The Bell Jar”, que ganhou um clipe filmado em janeiro e fevereiro de 2018 em Nova Iorque. Agora, a banda prepara mais dois clipes do disco para, em 2019, entrarem em estúdio novamente, com novas ideias musicais e direcionamentos.

“Cada disco explora um momento especial que estamos vivendo, as coisas que estamos escutando naquele momento, o que pensamos das nossas próprias musicas, a maneira que produzimos e gravamos esse material”, explica Gabriel. “Se pudesse resumir seria: primeiro disco, algo completamente sem experiencia, sem controle de produção etc. Segundo disco: um disco de rompimento com a macula do primeiro álbum, um disco de revolta. Terceiro disco: um disco limpo e maduro, que explora nossos gostos sem medo, sem tentativa de esconder nada”.

– Como começou o Atalhos?

Comecou como uma banda cover de rock anos 80/90 em Birigui, em meados dos anos 2000. Em 2008 começamos a criar música próprias. Gravamos um EP, que não chegou a ser lançado, e em 2012 lançamos nosso primeiro disco “Em Busca do Tempo Perdido”, quando já morávamos em São Paulo.

– Então rolou quase uma década trabalhando com covers. Como a banda resolveu ir para o lado autoral?

Não foi quase uma década porque a gente não tocava sempre, ou seja, começamos a tocar quando estávamos no colégio, depois de ter um primeiro contato com a fanfarra da escola, depois cada um foi aprendendo um instrumento diferente, e começamos a nos juntar pra tocar Nirvana, Legião Urbana… Essas coisas. Foram uns cinco anos tocando cover e levando mais como pura diversão. De repente a gente cansou de tocar covers, de tocar só musica dos outros, e resolvemos tentar criar nossas próprias músicas.

– E porque esse primeiro EP não foi lançado?

Começou o período de composições, gravávamos em fita k7 durante os ensaios, foi um período interessante de autoconhecimento e experimentação em 2008 fizemos esse EP chamado “Mocinho e Bandido” e chegamos a subir no last.fm por algumas semanas mas depois tiramos do ar. A gente achava que o EP não era bom o suficiente pra ser lançado, e tampouco tínhamos contato com imprensa nem com ninguém… Por isso foi um EP que praticamente não existiu. Em 2012 o baixista saiu, Serginho Colombo, e a banda seguiu como está hoje: eu, Conrado Passarelli e Marcelo Sanches. Eu acumulo funções no estúdio e gravo baterias, violões, vozes, e alguns baixos também. Quando tocamos ao vivo, precisamos convidar outros músicos pra compor a banda. O primeiro disco foi gravado no estúdio do Korzus em São Paulo, uma banda clássica de thrash metal. Conhecemos o estúdio por acaso, pois morávamos em Moema e ficamos amigos do Pompeu e do Eros, vocalista e guitarrista do Korzus, e contamos que queríamos gravar um disco inteiro, e foi isso, durante uns três meses estivemos quase todos os dias no estúdio pra gravar esse primeiro álbum.

– E como foi a composição do material para este disco?

Para esse primeiro disco a gente fez um apanhado de todos os últimos anos que passamos compondo, músicas antigas e poucas coisas novas, ou seja, poucas coisas que a gente compôs no momento em que gravamos o disco. Foi mais um apanhado de um material antigo e uma seleção.

– Foi mais um “best of” do que vocês tinham feito até então.

Mais ou menos isso, só que de “best of” não tinha nada. Ou seja, porque depois de um tempo a gente achava tudo ou quase tudo desse álbum uma porcaria total (risos) Mas o que foi bom é que nessa época podemos aprender bastante de como é estar num estúdio. Tocamos com gente que a gente gosta, gravamos uma música (em busca do tempo perdido) com o baixista do Golpe de Estado, Nelson Brito, uma banda que a gente tocava cover antigamente. A capa desse primeiro disco foi feita pelo Marcelo Bonfá, baterista da Legião Urbana, depois que mandamos o single “Em Busca do Tempo Perdido” e ele surpreendentemente gostou e topou fazer o desenho da capa. Depois quando lançamos o disco fizemos alguns shows juntos em parceria, tocando músicas do Atalhos e musicas da Legião. Foi um momento de celebração, poder tocar com pessoas assim que a gente fazia cover antes. O disco foi um fracasso de imprensa e de público, tirando esses shows com o Bonfá que foram algo realmente grande. Em 2014 entramos em estúdio novamente, só que dessa vez com a vontade de fazer algo completamente radical, algo novo e algo nosso, que não estivesse atrelado a imagem antiga de rock nacional que tocávamos quando fazíamos cover. Então nos fechamos num pequeno estúdio na Vila Mariana em São Paulo pra fazer algo totalmente experimental, com produção 100% da banda, com controle total de tudo, sem seguir conselhos, ou regras de nenhum produtor. Foi aí que nasceu “Onde A Gente Morre”, o nosso vinil duplo e segundo disco.

– E como o som evoluiu em “Onde A Gente Morre”?

É completamente diferente. Se você pegar e escutar o “Em Busca do Tempo Perdido”, vai ver uma produção completamente refém de arranjos comerciais, pouco abusados, parece que as canções estavam presas a essa estrutura mais careta. Já com o “Onde A Gente Morre” é pura revolta, no sentido de romper com regras de produção. A primeira faixa já abre com uma loucura de sintetizadores, letra estranha, uma bateria completamente torta. Não esperávamos nada do disco, já que o primeiro tinha sido um fracasso e praticamente ninguém conhecia a banda. Só que o disco foi muito bem na crítica especializada. Foi uma surpresa sermos elogiados na Rolling Stone. Fomos capa do Estadão e do Caderno 2 um dia como uma das apostas do rock brasileiro hoje em dia estamos divulgando clipes, fazendo shows do nosso terceiro disco lançado ano passado, “Animais Feridos”, sinto que seguimos com uma influência muito forte de Wilco, mas o nosso som hoje está mais pro lado do Destroyer, The War on Drugs… A ideia era gravar esse disco antes, mas em 2016 fui convidado pra ser baterista do Quarto Negro e tocar com eles no Primavera Sound em Barcelona… Ou seja, um convite irrecusável! Então acabei protelando esse disco do Atalhos pra tocar em 2016 praticamente só com o Quarto Negro e quando tinha tempo livre gravava esse disco, “Animais Feridos”. Aí no final do ano passado consegui finalizar tudo e lançamos no finalzinho do ano o terceiro álbum do Atalhos.

– Me conta mais sobre o “Animais Feridos”. Como ele evoluiu do anterior?

O anterior era um disco bastante torto, muito experimental, um disco que rompia com muitas coisas, que quebrava muito. O “Animais Feridos” eu sinto que é nosso disco mais maduro como músicos, pra mim também, como produtor, um disco que não precisamos nos esconder tanto atras de camadas e mais camadas sonoras, por isso optei por uma mixagem mais aberta, que não escondesse tanto o som. A voz está bem na frente, as melodias podem soar com mais liberdade… Por isso acho que é um disco até pop, sem medo de mostrar algumas baladas. É um disco bem mais enxuto se comparado ao vinil duplo anterior: são apenas 8 faixas, mas seguimos com estruturas de músicas que exploram longos momentos instrumentais.

– Dá pra notar que cada disco possui um direcionamento bem diferente, sem medo de mudanças no som.

Cada disco explora um momento especial que estamos vivendo, as coisas que estamos escutando naquele momento, o que pensamos das nossas próprias musicas, a maneira que produzimos e gravamos esse material. Se pudesse resumir seria: primeiro disco, algo completamente sem experiencia, sem controle de produção etc. Segundo disco: um disco de rompimento com a macula do primeiro álbum, um disco de revolta. Terceiro disco: um disco limpo e maduro, que explora nossos gostos sem medo, sem tentativa de esconder nada.

– E já estão pensando em um quarto disco?

Por enquanto estamos fechando shows. Recentemente lançamos o videoclipe da faixa “The Bell Jar”, e pretendemos lançar mais dois clipes nesse segundo semestre, trabalhando ainda na divulgação desse terceiro disco que ainda não faz nem um ano que foi lançado. Acho que no começo de 2019 devemos entrar em estúdio de novo, pra gravar o quarto disco. Mas ainda é algo que está um pouco longe, e ainda seguimos concentrados na divulgação desse álbum mais recente.

– Voltando: quais as principais influências do som da banda?

As mais presentes hoje são The War on Drugs, Destroyer, Midlake, Wilco, Lô Borges, Milton Nascimento, Charly Garcia. Falando de musica né. Mas tem muita influência de literatura e etc. No indie brasileiro eu gosto muito de YMA, Terno Rei, Pélico, Antiprisma, Letrux.

– Como decidiram pelo nome Atalhos?

Esse foi um nome que decidimos na época do colégio, faz muito tempo, pra ser sincero nem lembro como foi que chegamos nisso, mas depois acabou se tornando algo habitual e deixamos, até hoje.

– Quais os próximos passos da banda?

Os próximos passos sao humildes, como tem que ser com bandas que fazem musica independente no Brasil: tocar em lugares legais, construir um público que possa prestigiar as nossas músicas, continuar tendo liberdade total de produção, fazendo musica que a gente realmente acredita, sem disfarces, sem afetação.

– Como vocês veem a cena independente hoje em dia e o rock em geral?

Vejo uma cena muito rica e plural, com muita gente produzindo, gravando, divulgando, muita gente buscando um lugar ao sol, ou seja, buscando reconhecimento nos blogs especializados, buscando participar de festivais, tocar em lugares decentes… É uma cena muito rica e inspiradora pra quem tem vontade de ter uma banda e criar suas próprias canções.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

YMA, Lupe de Lupe, Terno Rei, Antiprisma, Moons, Apeles, Letrux.