As portuguesas Anarchicks metem o pé na porta com “We Claim The Right To Rebel and Resist”

Anarchicks

Se a música é a arma, elas são o gatilho. Este é o mote do quarteto de Lisboa Anarchicks, riot grrrl à portuguesa com muito para dizer. Formada por Marta Lefay (vocal, synth, guitarra), Katari (bateria), Synthetique (baixo) e Aim (guitarra e baixo), a banda está na estrada desde 2011 atirando sua música em todas as direções com o dedo do meio levantado e sem dar satisfações a ninguém.

O quarteto lançou neste ano o álbum “We Claim The Right to Rebel and Resist”, primeiro com a vocalista Marta Lefay e uma obra que visa empoderar as pessoas e chamar atenção à necessidade de reclamar por seus direitos e lutar pelo que é justo. O som é punk rock com influências de electro e rock and roll e o disco contou com a participação de Peaches na faixa “Sloppy Seconds”.

Conversei com elas sobre o disco, a cena portuguesa, o machismo no meio musical e o disco anterior, “Really?”:

– Como começou a banda?

A banda começou em 2011, após Helena Andrade (baixo), Priscila Devesa (vocalista prévia) e Catarina Henriques (bateria) se terem juntado numa sala de ensaio, com o desejo de fazer música rock. Ana Moreira (guitarra) juntou-se de seguida, e pouco depois foi lançado o primeiro EP digital: “Look What You Made Me Do”. Seguiram-se diversos concertos e a banda lançou o primeiro album “Really?!”, que as levou a diversos palcos nacionais, entre eles o Vodafone Mexefest, onde tocaram num autocarro, e o palco principal do festival Super Bock Super Rock, onde tocaram ao lado de nomes como Azealia Banks e Arctic Monkeys. Pouco depois Priscila deixou a banda e com a nova vocalista, Marta Lefay, a banda conquistou palcos internacionais (Festival Europa Sur em Cáceres, Espanha; Festival Theater der Welt em Mannheim, Alemanha; Le Tetris em Le Havre, França; La Machine du Moulin Rouge em Paris, França) entre outros nacionais. Fizeram inúmeras colaborações (Da Chick, Peaches, António Calvário, entre outros) e em maio deste ano lançaram o seu segundo álbum, “We Claim the Right to Rebel and Resist”.

– Como o punk rock se mantém vivo depois de tantos anos?

Pela capacidade de reinvenção! O punk é mais do que um estilo musical, sendo na nossa opinião transversal a todos os estilos de arte. É toda uma atitude de vida, de reivindicação e de apelo à luta pelos direitos dos seres vivos. Desde que haja injustiça no mundo, vozes dissidentes surgem. E que arma fantástica é esta que escolhemos e nos escolheu, a música, para atingir as pessoas mesmo no cérebro!

– Quais são as principais influências da banda?

Tudo o que nos rodeia. A música que ouvimos e com a qual estamos em contacto assim como todas as nossas experiências de vida.

– Me falem um pouco mais sobre o disco “Really?”. Como ele foi criado?

“Really?!” Não querem antes falar do nosso novo álbum? (risos) Este album já saiu há três anos, foi muito bom, vivemos muito com esse disco e tivemos contacto com muitos palcos, pessoas, experiências. Foi um álbum de criação muito espontânea, numa altura em que a banda se sentia a borbulhar com ideias e havia uma necessidade muito urgente de ter um trabalho editado.

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– E este ano veio o segundo álbum, já com a Marta nos vocais.

Sim! Que já está nas lojas! Chama-se “We Claim the Right to Rebel and Resist”, do qual estamos muito orgulhosas. Este álbum já surgiu num processo mais gradual, que nasceu nos ensaios. Todas essas ideias foram trabalhadas, até toda a banda se sentir satisfeita com o resultado. Todo ele gira em torno do conceito “We Claim the Right”, que visa dar um bocadinho de empoderamento às pessoas, chamando a atenção para a necessidade de reclamarmos os nossos direitos e de lutar por aquilo que achamos justo. Tivemos a ajuda do nosso produtor Fernando Matias em conceber um trabalho que tem tanto de homogéneo pela mensagem como de heterogéneo pelas músicas, com diversas dinâmicas e momentos. Temos também a participação da incrível Peaches na faixa “Sloppy Seconds”. Ouçam!

– O machismo continua acontecendo com frequência no meio musical? Vocês já sofreram com isso?

Sim, infelizmente. Começado pela necessidade constante, por parte dos media, em “rotular” a nossa música como “rock feminino” em vez de apenas rock. Quantas bandas existem de composição mista, ou com composição maioritária de mulheres? Desde sempre tivemos de lidar com comentários e críticas inapropriadas, relacionadas com as nossas características físicas, a nossa música e até a nossa capacidade de saber usar os nossos instrumentos. E infelizmente isto é global, senão vejamos por exemplo a questão que veio parar às redes sociais passado Janeiro sobre o publicista musical Heathcliff Berru, do Life or Death PR e todos os casos relatados de abuso sexual de mulheres, ou as declarações da cantora de Chvrches, Lauren Mayberry, relativamente à misoginia na música. E os exemplos e relatos repetem-se… Temos que ter esperança e lutar por um mundo melhor, com mais justiça e igualdade. Só o facto de existirmos enquanto músicas já é uma luta e uma reivindicação. E a luta tem de ser feita diariamente.

– Como está a cena musical independente de Portugal hoje em dia?

Há muita coisa a acontecer, que por vezes pode ter uma visibilidade mais pequena uma vez que o nosso meio underground é pequeno. Mas julgamos que toda a crise que temos atravessado está a fazer brotar muitos músicos e artistas, e muitas pessoas estão a usar a internet como meio de divulgarem o seu trabalho. Por isso basta procurar, há muita música boa em Portugal!

– Qual a opinião de vocês sobre os serviços de streaming? Eles são benéficos para bandas independentes?

Sim, obviamente. A música deve ser livre para para o mundo, não deve estar atrás de barreiras inacessíveis. Porque se a música e a cultura estiverem atrás de barreiras intransponíveis acabam por não cumprir o seu propósito, que é chegar ao maior número possível de pessoas. A internet permite que haja uma democratização das bandas, da música, e das ferramentas necessárias para se fazer arte.

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– Quais os próximos passos das Anarchicks em 2016?

Queremos dar concertos e mais concertos! Queremos que a nossa música ultrapasse fronteiras! Estamos já a trabalhar novas músicas para o terceiro álbum!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Há muitas pessoas a fazer música muito boa! Por exemplo D’Alva, Mad Moizel, Sequin, Godmother, Quartet of Woah, Batuk, Rui Maia, Alexander Geist, Pega Monstro, Peaches, entre outros.


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