As minas do rock de “Gente Fina é Outra Coisa” (1973), das Cilibrinas do Éden

Cilibrinas do Éden
Cilibrinas do Éden

Cantarolando, por Elisa Oieno

Após sair – ou ser saída – dos Mutantes, Rita Lee teve que começar tudo de novo. Desta vez, representando definitivamente sua emancipação musical e cortando o cordão umbilical que ainda restava com os irmãos Baptista, voltou de um período sabático em Londres com o icônico cabelo vermelhaço e foi convidada para fazer um show em um mega festival da gravadora Philips, ocasião em que pensou ser uma boa para montar uma banda nova.

O nome escolhido para a banda foi Cilibrinas do Éden, inicialmente uma dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull. As canções eram acústicas e valorizavam as vozes de Rita e Lucia, com beleza e sutileza. As letras tinham uma conotação rebelde e o ponto de vista era sempre feminino, como nessa “Gente Fina é Outra Coisa”:

 

E eu sei que você está com medo de dar
E o que vão pensar
Não vá se misturar com esses meninos cabeludos
Que só pensam em tocar
E você escuta o papai dizendo

Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa

Esse trecho representa praticamente todas as meninas adolescentes se rebelando contra os pais, que acabaram de descobrir o rock, e, consequentemente descobriram os meninos cabeludos que tocam rock. Na canção, uma garota está tentando convencer o amigo a não se render aos valores ‘caretas’ do pai dele. Nas palavras do censor – sim, a música foi censurada: “Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso”.

A apresentação de estréia do Cilibrinas do Éden no festival foi um fracasso. Talvez porque em 1973 o público não estava em clima de sutilezas, as ‘minas do rock’ foram vaiadas impetuosamente. Possivelmente foi um problema parecido com a apresentação do Incredible String Band no Woodstock, sobre a qual eu já falei nessa coluna um tempo atrás..Image result for cilibrinas do éden phono 73

A própria Rita Lee, em sua biografia, diz que a apresentação foi frívola, tolinha, coisa de menininha, estando inclusive usando uma tiara de joaninha e Lucia, asas de anjinho no show – apesar de as músicas não terem nada de tolinho.

Porém, vale dizer que algo ser feminino e sutil é muito diferente de ser bobinho. Mas em 1973 – e, cá entre nós, até hoje é meio assim – o rock ainda não tinha percebido isso direito, então as mulheres tinham que fazer barulho e terem uma postura mais agressiva para serem ouvidas. Se uma mulher se metesse a tocar violão ou guitarra, ela tinha que ser a fodona para ser levada a sério. E Lucia Turnbull era – inclusive, na época em que andava com os Mutantes, sempre era desafiada por Sergio Dias, sabidamente vaidoso com sua habilidade no instrumento. Lucia é considerada a primeira guitarrista mulher do Brasil.

Então, após a apresentação do festival, Rita e Lucia resolveram deixar a banda mais elétrica e mais rock’n’roll. Convidou Luis Sérgio Carlini e do baixista Lee Marcucci e entraram no estúdio para gravar. Terminadas as sessões de gravação regadas a ácido, o resultado foi um disco que nunca foi lançado. Esse disco se tornou uma raridade, e foi relançado em 2000 como pirata, pelo selo Nosmokerecords.

Essa formação é o que viria a se tornar o Tutti Frutti, tendo a Rita Lee como destaque da banda, por imposição da gravadora. Isso acabou gerando desconfortos, e Lucia deixou o grupo após o primeiro disco “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” (1974).

A partir de então, Rita Lee se tornou a Rita Lee popstar que conhecemos hoje. Lucia continuou gravando, e participou de discos importantes de diversos artistas, desde Guilherme Arantes até Gilberto Gil, mas hoje leva uma vida mais lo profile.

Rita Lee tem um papel importante e, durante muito tempo, quase que exclusivo no rock nacional: o de ser uma referência feminina dentro de um estilo tão masculino. Referências femininas ajudam a vida das meninas que querem – e precisam – se rebelar, se emancipar. Assim como a moça roqueira da “Gente Fina É Outra Coisa”, as referências femininas, em qualquer área da vida, são aquela voz amiga que não te deixa se conformar com valores ultrapassados, e te ajuda a se libertar. O que mais quer uma mina do rock, afinal?


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