As lições de Marcelo Yuka e o adeus

As lições de Marcelo Yuka e o adeus

22 de janeiro de 2019 0 Por Pedro Vivas

Na noite do último dia 19 partiu para outro plano o grande Marcelo Yuka. Muitas foram as homenagens, textos, reflexões acerca de toda a trajetória do artista. Mesmo assim, acredito que ainda há espaço para algumas considerações. A abundância de vídeos, homenagens, menções é um reflexo de sua grandeza enquanto um dos maiores artistas da virada do século no Brasil.

Não é à toa que em quase todos os textos foi recorrente a menção à dois tópicos – O Rappa e os nove tiros que o tornaram deficiente físico. Um texto-memória que não cita esses dois eventos é um texto incompleto. Ao mesmo tempo falar só disso num texto é ser radicalmente raso. Há muita coisa para além disso.

A trajetória do Rappa, se confunde com a trajetória de Yuka. Falar do Rappa é, inevitavelmente, falar de Marcelo Yuka. A alma da banda, a criação, a sonoridade, com certeza não seria a mesma sem ele. É seguro falar que sem ele o conjunto não teria o protagonismo que teve na virada dos anos 2000. Os últimos anos da banda são prova viva disso – as erráticas posições e práticas de Marcelo Falcão tornaram-se recorrentes, assim como as brigas no que está sendo considerada a “pausa” da banda. O Rappa se estabeleceu como uma banda de festivais cover de si mesma – uma definição de uso recorrente nos últimos anos do grupo. A banda teve uma guinada das críticas sociais incisivas e da boa produção para o caminho dos caça níqueis, da fé perdida de Falcão e da errática posição política. Tudo isso é muito triste. Espero que um dia eles retornem e que façam sua música de uma maneira mais produtiva – o Brasil merece isso. Sonoridade eles têm de sobra!

Voltando a Yuka, em quase toda menção à sua trajetória no Rappa, o ponto inicial é o “Rappa Mundi”, quando não o “Lado B Lado A”. Isso é muito triste, porque todo o esboço de projeto está no disco sensacional de 1994, autointitulado. A produção suja, simples, quiçá enriquece o trabalho. A alma da banda está ali, com seu rock-reggae repleto de críticas incisivas. No começo, “Catequeses do Medo“:

Catequese do medo

Num buraco negro

No fim do terceiro mundo

Um sorriso assustado

Uma mãe desesperada

Um pai mal pago, operário e mudo

 

Reuniões oficiais escurecendo outras salas

Onde a tortura faz filho

Na pele de um jovem afro-brasileiro

Na pele de um jovem fudido e sem dinheiro

 

O medo que catequiza e que elege presidentes generais…

Ao mesmo tempo, no mesmo disco, a música de roda de violão “Coincidências e Paixões”, uma canção de amor mais descompromissada, se faz presente – porque o amor também pode ser político (ou não!). Há espaço para o “descompromisso”, para escrever “no país do futebol eu nunca joguei bem”, como na música “Eu Não Sei Mentir Direito” que fala sobre… não mentir direito. Mais uma virtude e uma prova da versatilidade de Yuka. Falar de algo tão simples como não saber mentir direito, assim como falar do complexo “apartheid econômico”. Não há um único disco ruim enquanto ele esteve na banda.

Ano 2000, o novo milênio e o mais novo desafio na trajetória de Yuka. O resto todo mundo já sabe. O caminho duro de procurar movimento em contraste com a condição de paraplégico. A saída do Rappa – as especulações do porquê disso, fofocas, brigas.

A partir daí tudo mudou de maneira muito profunda. Veio o F.U.R.T.O e o interessante disco Sangueaudiência” (2005), tendo como destaque a faixa “Não Se Preocupe Comigo” e as participações especiais de Bnegão e Marisa Monte.

 

Mais tarde veio o documentário “No Caminho das Setas”, que retrata sua trajetória e os desafios da condição que ele adquiriu. É muito bonito e instigante perceber o processo do artista de entendimento dos complexos porquês de sua condição e da luta por uma mudança da realidade vigente. As visitas e palestras nas celas da prisão, com gente de trajetória parecida com aqueles que dispararam o gatilho naquela fatídica noite; a luta por uma vida mais digna, pelo reencontro com a felicidade. É um documentário bonito e esclarecedor. Também traz depoimentos que colocam luz na confusão da saída da banda que ajudou a fundar.

Bem mais tarde e em um dos seus últimos atos musicais, Yuka lançou o disco Canções Para Depois do Ódio” (2017), que conta com diversas participações de peso. É um disco amoroso, é um disco crítico, é um disco necessário, em certa medida. O “Movimento da Massa” é o seu abre-alas, que fala sobre suas idas ao Maracanã, como bom flamenguista. Bom disco e que já criticava e propunha uma oposição ao que mais tarde se representaria nas eleições de 2018, nos assassinatos de minorias, no ódio gratuito e todo o mar de lama mundial.

Uma de suas últimas entrevistas foi concedida no programa de entrevistas de Pedro Bial. Foi uma entrevista interessantíssima e que é imperdível para quem o admira. Ao seu lado estava o grande amigo Marcelo D2. Nela, ele contou um sonho que teve em que via todos os seus amigos, inclusive o próprio D2, como cadeirantes e em que só ele andava. Todos apontavam pra ele e zombavam (Ih, olha só, ele anda!). Yuka traz à tona um debate importante e que chama atenção para um fato – a deficiência só se torna um fator impeditivo porque o mundo foi feito exclusivamente para quem não a tem. A deficiência visual só se torna um fator impeditivo porque o mundo é dependente da visualidade, a física, porque o dia-dia é construído de maneira não acessível. A deficiência, na verdade, promove naquele que a possui outras habilidades, que só não são exploradas porque a sociedade rejeita isso de maneira profunda e política.

https://globoplay.globo.com/v/6805827/

Na mesma entrevista foram mostrados, também, as pinturas que Yuka andava fazendo e que produziu quase que compulsivamente nos seus últimos anos, segundo o próprio. Destaca-se o quadro em que ele pintou uma figura que se assemelha a um fora da lei e, em volta dele, repetidas vezes escrita a frase – “poderia ser vingança, mas é arte” – ela pode ser vista no seu Instagram, assim como muitas outras que ele produziu. Sua última postagem é uma foto dele carregando um cartaz com os dizeres: o povo confunde justiça com vingança. Poderia ser vingança, mas foi e sempre será uma trajetória de luta, afeto e inteligência.

Yuka termina sua trajetória neste plano de maneira incisiva e coerente com o que foi toda a sua trajetória. Vai fazer falta…

@marceloyukaoficial