Applegate prepara disco conceitual onde o grande vilão é “o sistemão em que somos obrigados a viver”

Applegate prepara disco conceitual onde o grande vilão é “o sistemão em que somos obrigados a viver”

7 de maio de 2019 0 Por João Pedro Ramos

“Acidez” é o mais recente single da banda Applegate, curiosamente a última música a ser incluída no primeiro disco da banda, que sai em breve. O quarteto já havia lançado recentemente “Abstrai”, música que abrirá o novo álbum. “As músicas que escolhemos para soltar como single são todas lado B do álbum, são musicas que possuem começo meio e fim porem e trazem um pouco sem denunciar tanto o que será o álbum. Escutando os 3 singles que serão lançados antes do álbum em sequência, da para já entender como o álbum vai funcionar como um todo”, conta Gil Mosolino, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda, também formada por Rafael Penna (baixo e trompete), Pedro Lacerda (bateria) e Vinicius Gouveia (guitarra).

Sobre o disco, “será um disco conceitual, brincamos entre a gente que esse disco é um episódio de Goosebumps onde no final do episódio você descobre que o monstro é o cotidiano, o “sistemão” que somos obrigados a viver”, explica Gil. “Criticamos a maneira como o dinheiro esta guiando todo o nosso mundo, e isso faz muitas pessoas venderem seu tempo de vida em troca dele e se esquecem ou são impedidas de viver para si mesmas”, completa.

– Vocês lançaram recentemente o single “Acidez”. Como foi a composição desta música? Ouvindo ela dá pra ter uma boa ideia do que a Applegate faz.

Então João, “Acidez” foi a última musica do disco a ser escrita. Desde 2016 eu compus todos os sons da banda, até agora a única música que não é minha é “Traços” que estará no álbum (composição de Pedro Lacerda). Nós já tínhamos terminado toda a pré do álbum, as musicas já estavam escritas e todos já tinham feito os seus devidos instrumentos e arranjos, então o Pedrinho virou pra mim e falou: “Gil, tenta fazer mais uma musica ai para fechar o álbum, bicho” e ai surgiu “Acidez”, acho que foi a musica que eu compus mais rápida para o álbum, lembro de ter demorado coisa de 2 semanas para escrever a música e precisei apenas de um dia bosta para escrever a letra, sabe como é… “influências” (risos).

– Então “Acidez” veio basicamente de um dia ruim.

A letra sim, porém a música não! Eu costumo escrever primeiro a musica e depois ficar cantarolando uns “nanana” para fazer as linhas vocais das músicas, depois, com tudo isso feito, aí foi mais fácil, foi realmente só ter passado por um dia ruim e ter tido o estralo de falar sobre essa situação na música.

– Porque lançar primeiro a última música a ser composta para o álbum?

A primeira musica do álbum a ser lançada foi “Abstrai”, essa foi a primeira música a ser composta para o álbum e agora soltamos “Acidez” que foi a última. É porque entendemos que este método de soltar singles antes do álbum esta funcionando muito bem para a Applegate, como uma banda nova e sem um primeiro disco é como a gente faz para aquecer a galera antes do álbum, pois a ideia é quando lançarmos o álbum já tenha todo um pessoal interessado em escutar o nosso trabalho. As músicas que escolhemos para soltar como single são todas lado B do álbum, são musicas que possuem começo meio e fim porem e trazem um pouco sem denunciar tanto o que será o álbum. Escutando os 3 singles que serão lançados antes do álbum em sequência, da para já entender como o álbum vai funcionar como um todo, meio que as musicas se conectam. Então fique a dica, quando lançarmos o próximo single escutem Enfim (próximo single), “Acidez” e “Abstrai” na sequência, o álbum vai funcionar nessa pegada, de se escutar em ordem e tudo se encaixando.

– Dá pra adiantar mais alguma coisa desse primeiro disco?

Claro! Será um disco conceitual, brincamos entre a gente que esse disco é um episódio de Goosebumps onde no final do episódio você descobre que o monstro é o cotidiano, o “sistemão” que somos obrigados a viver. Criticamos a maneira como o dinheiro esta guiando todo o nosso mundo, e isso faz muitas pessoas venderem seu tempo de vida em troca dele e se esquecem ou são impedidas de viver para si mesmas, a meritocracia que é apenas uma vitrine que faz com que a gente se cobre cada vez mais para coisas com que não deveríamos nos importar, o como a sociedade esta moldada e funcionando de uma maneira onde não esta bom para quase ninguém, a volta do neo conservadorismo que nos barra a evolução e tenta nos oprimir cada vez mais, a nossa relação social, os nossos dramas pessoais. É isso, o primeiro álbum da Applegate vai abordar o todo que uma pessoa que mora em uma grande metrópole no Brasil (e em boa parte do mundo) vive. O álbum terá 3 Interlúdios que vão “colar” as faixas uma nas outras e 6 músicas, o album terá a duração de aproximadamente 45 minutos, e se tudo der certinho a gente lança ele em julho.

– E será um álbum assumidamente político ou o discurso estará mais nas entrelinhas?

No álbum haverá uma faixa chamada “=Iguais=” e logo em seguida o “Interlúdio 2”, em “=Iguais=” a crítica é pessoas geniais presas à um cotidiano imposto, é a ideia de que o nosso futuro Leonardo da Vinci hoje em dia trabalha “apontando lápis”, porem essa faixa se soma inteiramente com o Interlúdio 2 que é uma critica cheia de glitchs e samples falando sobre o golpe de 64 e o que nós estamos vivendo e revendo hoje em dia, essa é a faixa que mais abordamos a politica moderna, mas não atacando quem é de direita ou esquerda, isso não é um problema para nós, o problema é oprimir alguém, o como a pessoa acha melhor gerir uma nação isso é questão individual de cada um, o que não toleramos é o autoritarismo, é a opressão de “minorias” é a ideia distorcida de que nós trabalhamos para os nossos “líderes políticos” e não eles trabalham para nós.

– De onde surgiu o nome “Applegate”?

Então em 2016 quando eu formei a banda, a minha ideia era apenas fazer um trabalho 100% meu, onde eu tocasse bass, bateria, guitarra, cantasse e escrevesse as musicas, mais para criar algo diferente pois ante disso eu tocava em bandas de Death Metal e Stoner, sempre compus muito mas estava afins de fazer algo diferente. Nessa época eu estava trabalhando com TI e esse era o nome de um dos servidores da empresa que eu trabalhava, eu sempre gostei da grafia do nome, acho bonito de se ler, meio que fácil de bater o olho e falar “nossa já li isso em algum lugar” e também assim como a DEMO de 2016 da Applegate, representa todo o momento que eu estava vivendo nessa época.

– Quem você citaria como inspiração musical da Applegate? Já vi gente rotulando a banda como “psicodélica”, mas vocês já citaram que se inspiram também em coisas como Djavan e Mastodon, por exemplo.

Então, isso é muito bom porque somos muito cabeça aberta para musica, no final a gente só curte musica boa na real, cada membro tem sua influencia e nós como banda, na hora do “play” conversamos muito bem! No final da conta a gente realmente só pegar influência de artistas que nós admiramos mas não seguimos nenhum fielmente ou copiando. Falando por mim as minhas influências na hora de compor e tocar guitarra vai de Unknown Mortal Orchestra, Tame Impala, gosto muito da guitarra do Khruangbin, Puma Blue, Homeshake, Warpaint, Boogarins… Eu acho que eu e o Nivis somos a parte mais Indie da banda e o Rafael e o Pedro a parte mais jazzística/instrumental da banda, porem todos gostam muito de Indie à música instrumental.

– Como você definiria o som da banda?

Como indie experimental. Acho que é pop, acho que tem um pé no progressivo, acho que tem um pé no psicodelismo, acho que tem um pé no alternativo 90’s, acho que é som de ambiência também…. então prefiro compactar tudo e chamar de Indie experimental (risos).

– Como vocês veem e se encaixam na cena independente autoral hoje em dia?

A gente se enxerga como uma banda ainda pequena aqui de SP, mas o cenário esta muito bom, o publico esta saindo de casa para ir aos shows até mesmo das bandas pequenas. Hoje em dia a cena alternativa possui excelente blogs sobre musica, excelentes casas de shows, que já fomentam e facilitam muito as coisas, acho apenas que existe uma barreira entre as bandas intermediarias e as pequenas, seria legal uma tocar mais com as outras, mas acho isso depende mais dos produtores do que dos próprios artistas, acredito que isso que fomentaria mais ainda o cenário paulistano. A gente hoje em dia esta encaixado em uma categoria alternativa mesmo, com bandas como Betina, Suco de Lúcuma, Raça, goldenloki, eliminadoriznho, Leza e tantas outras. Tem Papisa, Bike, A 25° Experiência também! Nossa, são tantas bandas! (Risos)

– Então os produtores focam muito nas bandas que já tem público e deixam as que precisam construir um público com os shows meio de lado.

Não, ao meu ver os produtores estão fazendo um bom trabalho é que existe vários níveis de produção de show o pequeno, médio e o grande. Acho que os produtores das bandas intermediarias e grandes poderiam integrar mais as bandas de pequeno porte para assim gerar uma cena mais unida e o público conhecer o que esta imergindo em sua cidade. Isso já rola em pequena escala, estou falando em fazer isso muito mais vezes.

– Quando poderemos ouvir o primeiro álbum da Applegate? Tem previsão?

Se sair conforme o planejado em julho desse ano o álbum será lançado!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

O EP da Gran Tormenta, o “Steampunk Macumbólico” é muito bom, “Birthday Duite” do Kody Nielson, CD instrumental de um artista da Nova Zelândia, muito bom também! Ainda não lançaram o álbum mas já ouvi bastante coisa e garanto que o álbum da Suco de Lúcuma estará maravilhoso. Betina, “Hotel Vulcania” já é um álbum de cabeceira aqui, qualquer álbum do Negro Leo, sou fã desse cara! O “Multiverso em Colapso” do Guizado, acho que só esses álbuns já da uma excelente playlist! (risos)