American Pie: a primeira trilha sonora adolescente é inesquecível

American Pie: a primeira trilha sonora adolescente é inesquecível

19 de julho de 2016 3 Por Rafael Chioccarello

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Em 1999, o mundo conhecia “American Pie – A primeira vez é inesquecível”. Na mesma linha de filmes como Não é Mais um Besteirol Americano” (2001) e “Cara, Cadê Meu Carro?” (2000), o filme foi uma espécie de blockbuster. Para vocês terem uma ideia do sucesso estrondoso, o orçamento do filme era de 11 milhões de dólares e a bilheteria arrecadou US$ 235.483.004,00. Ou seja, sucesso absoluto entre o público jovem!

Com a direção dos irmãos Paul e Chris Heitz, o filme conta as aventuras de um grupo de cinco jovens: Jim Leveinstein (Jason Biggs), Kevin Myiers (Thomas Ian Nicholas), Chris “Oz” Ostreicher (Chris Klein), Paul Finch (Eddie Kaye Thomas) e Steve Stifler (Sean William Scott).

American pie

“Às vésperas do baile de formatura, quatro amigos virgens – Jim (Jason Biggs), Kevin (Thomas Ian Nicholas), Oz (Chris Klein) e Finch (Eddie Kaye Thomas) – fazem um pacto para perder a virgindade, custe o que custar, nas 24 horas seguintes.” Por: Adoro Cinema

Sim, o tema central do filme – como a maioria já sabe e provavelmente já viu – é o sexo. Neste primeiro filme do que mais tarde se tornaria uma saga, ele fica mais em evidência ainda, visto que o tema central é o da virgindade e sua luta incessante para perdê-la.

pai

Mais do que apenas mostrar o lado dos adolescentes o filme também mostra através do pai de Jim, Nohan Levenstein (Eugene Levy) os conflitos de gerações e a dificuldade de estabelecer um diálogo equilibrado sobre “sexo” dentro de casa.

A epopeia da turma acaba falando muito mais de como chegar lá. Os conflitos causados por essa ansiedade experiências traumáticas dão o rumo da jornada. Um fato engraçado é também notar que vemos o poder de um viral já em 1999 no início da popularização da internet, quando Jim é vitima de seu vídeo tendo uma “ejaculação precoce” viralize e vire motivo de chacota perante toda sua turma.

calcinha

Mas nem tudo é trauma na trama, cada um de certa forma de maneira mais convencional ou não, consegue. Claro, com aquela dose milimetricamente calculada de bom humor e entretenimento.

Depois desse filme ainda viriam American Pie 2″ (2001), American Wedding” (2003) e American Reunion” (2012) que fecha o ciclo e conseguiu deixar muito marmanjo chorando com a despedida de uma geração que pode acompanhar de perto.

Entre uma torta de maçã – uma piada do Stifler – e outra, também temos o destaque pela trilha sonora, é claro! E essa vem recheada com muitas curiosidades, hits radiofônicos e marca muito bem a época.

stif

A soundtrack do filme alcançou a posição número 50 na parada Billboard 200, um feito. Aliás, filmes nessa linha surpreendem por geralmente conseguirem estabelecer boas trilhas e como resultado boas vendas. Ou seja, lucro em dobro!

Da maneira mais descontraída e representando bem aquele espírito moleque skatista sossegado bicho grilo anos 90, temos logo de cara o Third Eyed Blind com “New Girl”. Música presente no terceiro disco da banda, Blue” (1999). A curiosidade é que nesse disco quem assume as baquetas é o baterista de outra banda que representa bastante esse fim de anos 90, Smash Mouth.

Misturando o pop de grupos como Backstreet Boys e NSync a uma levada próxima do new metal temos a desconhecida Tonic, com “You Wanted More”. Se vocês já ouviram falar de uma banda chamada Semisonic, provavelmente vão entender a levada “inofensiva” e descartável da canção.

O clipe inclusive é de certa forma bastante tosco e mostra a rotina de um colégio, com a banda tocando na quadra poliesportiva. Mais anos 90 do que isso só o Máskara sambando na nossa cara.

O Blink 182 foi a banda que realmente pôde ter seus 15 minutos de fama através de uma “pontinha” dentro do filme. E isso rolou quase por acaso. O agente de Tom Delonge comentou que o filme “precisava de uma banda”. E foi assim que surgiu o convite para eles estrelarem uma cena dentro do enredo.

https://www.youtube.com/watch?v=DbwUoFbKbNU

Uma curiosidade: Nos créditos, Travis Barker é creditado como o ex-baterista do Blink 182, Scott Raynor. Mas a participação do Blink não ficou apenas por esta dramatização, a canção “Mutt” também entrou na soundtrack. E disso vem outra curiosidade que parece até perseguição com o Travis: seu nome nos créditos da canção está como Travis Barkor. A pergunta que fica é: o que o baterista tatuado aprontou para tanto?

Outra banda colecionadora de hits pop/rock dos anos 90 também se faz presente na trilha sonora. O que espanta é não ter sido uma canção que realmente “fez sucesso” dos tão californianos Sugar Ray.

Apesar disso, as raízes latinas que caracterizam o grupo ainda estão presentes na faixa “Glory” que explora o lado mais pop punk mesclado com pedais wah wah e brincam com o new metal mesmo sem ter “tato” para isso.

Em seguida temos Super TransAtlantic com “Super Down”. A desconhecida banda de Miami conseguiu estrelar na trilha do filme fazendo um som melódico e praieiro, mas totalmente descartável. Se tiver coragem, clique aqui e ouça.

Uma outra banda que marcou época e é citada diversas vezes em How I Met Your Mother” e que conseguiu emplacar canções em diversos filmes e séries como “The Avengers” (1999), Smalville”, The O.C.”, e NCIS” é a Dishwalla!

A melancólica e acústica “Find Your Way Home”, que tem um clima bem californiano, figura na trilha. Alguns rotulam o som da banda como pós-grunge… seja lá o que isso for.

“Good Morning Baby” é a sétima canção que contempla o disco, uma parceria entre Dan Wilson, vocalista do Semisonic, e Bic Runga, uma artista pop da Nova Zelândia que é conhecida por ser multi-instrumentista. Pelo que li, ela é tão conhecida quanto a Sandy por lá.

Com um pézinho no punk/alternativo, temos Shades Apart, que sinceramente para mim me soou como um Creed um pouco mais “pesado”. O trio de New Jersey é mais conhecido pelo seu hit “Valentine” e uma versão de “Tainted Love” do Soft Cell. “Strangers By Day” foi a escolhida para o filme.

Com o visual cafona, sem medo de passar vergonha e com o ritmo e a brisa do mar temos Barchelor N0 One com “Summertime”. Sério, reparem nessas roupas coloridas e tão anos 90, de tênis na areia com óculos de lente colorida. Pode isso Arnaldo?

Com toda essa atmosfera, não dava para deixar o Goldfinger de fora. Califórnia, praia, skate, ska: Goldfinger. A canção dos ska punkers que estrela o filme é “Vintage Queen”.

John Feldman, que também é produtor nas horas vagas – produziu o novo disco do Blink 182, California” (2016) há pouco – tem muitos mais hits do que “Superman” e “Mable”. Vale a pena ir a um show, aproveitem que eles tem vindo direto para o Brasil!

Bic Runga também conseguiu emplacar uma canção solo na trilha. “Sway” é um single e ganhou um clipe. A canção saiu alguns anos antes do filme no disco Drive” (1997) e tem uma atmosfera parecida com o som da Norah Jones e da Alanis Morissette.

Colocando mais ritmo no caldeirão, temos um skacore na mesma linha do Reel Big Fish na trilha com os ska punkers do The Loose Nuts. A energia é contagiante e os metais dão a letra do ritmo da canção. Sinceramente eu não lembro de ter ouvido a canção no filme, mas fato é que ela entrou no disco.

Para deixar tudo em ritmo de dancehall, temos The Atomic Fireballs com toda a atitude de bandas como Voodoo Glow Skulls. O grupo foi formado por Bunkley, frontman de uma outra banda de ska chamada Gangster Fun.

Não é difícil não tirar os pés do chão ao ouvir a canção que sabe bem usar o piano, o vocal rouco e os metais para entreter feito uma parada. Talvez tenham sido influenciados pelo som do The Mighty Mighty Bosstones que vem pela primeira vez ao país agora no começo de agosto. Imperdível!

A banda, apesar de desconhecida para o público em geral, além da trilha de “American Pie” chegou a estrelar as trilhas de Scooby Doo”, Mansão Mal Assombrada” e Dawson’s Creek”.

Porém, a soundtrack também conta com injustiças que valem ser frisadas. Boas canções que tocam efetivamente no filme porém não compõe o disco da trilha sonora oficial. Por isso vou destacar algumas, outras vocês precisaram ir atrás para saber mais, mas é só clicar aqui.

“Walk Don’t Run” de uma das mais lendárias – e essenciais – bandas de surf rock de todos os tempos, The Ventures está presente na chamada. A fundamental banda garageira The Brian Jonestown Massacre incrivelmente tem trecho no filme – e não ganhou destaque. A canção é “Going To Hell”.

Outra das músicas que SIMPLESMENTE não conseguimos entender como um hit me fica de fora da coletânea que eterniza o filme é “Semi-Chamed Life” do Third Eyed Blind. Pois é, eles têm ao menos outra canção na trilha, mas essa é anos luz melhor. Um puxão de orelha no diretor artístico da soundtrack oficial para ontem.

Mas um erro compensa um acerto não é mesmo? Por isso ficou de fora do disco a presente no filme “I Walk Alone” da pouco conhecida Oleander, outra que também é rotulada como pós-grunge. Ah, os anos 90.

Outro dia mesmo falamos sobre trilhas pornôs por aqui, e claro que a cena de sexo de Jim ia ter um funk pornogroovesco de fundo. Para honrar os pornôs dos anos 70, The SEX O-RAMA band com a canção “Love Muscle” chega chegando de mansinho para dar aquele clima.

O maior hit do grupo da polêmica Courtney Love não poderia ficar de fora do filme. O Hole passa pela telona dos adolescentes cheios de hormônios com “Celebrity Skin” que dispensa apresentações, mas também ficou fora do álbum. Também deixados de lado, temos uma dobradinha de grupos noventistas que somente poderiam ser frutos da época como Everclear com “Everything To Everyone” e Harvey Danger com o indiscutível hit “Flagpole Sitta”.

Duke Daniels também tem rápida participação no filme com “Following A Star” com sua atmosfera rock caipira. A trilha é tão boa que conta até com um clássico da música mundial, “Mrs. Robinson” do Simon & Garfunkel em sua versão original e não a do Lemonheads, o que eu não entendo, porque Lemonheads encaixaria ainda melhor na trilha. A classe de Etta James também figura com a sensual e apaixonada “At Last” trazendo à tona todo o clima de romance dos casais do filme.

No campo da e-music temos o trance “Calling Your Name” do Anomally. Agora, injustiça mesmo de não estar nesta trilha oficial mas felizmente estrelar o longa é “Rockafeller Skank” do Fatboy Slim. Um dos maiores hits da década, com uma good vibe ímpar dentro do mundo da música.

Talvez a música que mais me lembre a saga ficou também de fora do disco. “Laid” do James é a canção que toca no desfecho e no fim tanto do primeiro filme, como no Reencontro (2012). E é quase uma música-tema para a primeira MILF a ser chamada por essa sigla, a popular mãe do Stifler.

Anos 90 sem Norah Jones dentro da música pop simplesmente não existem. A cantora cansou de emplacar hit atrás de hit e ser queridinha em diversas trilhas sonoras de Hollywood. No filme ela encaixa a dramática “The Long Day Is Over”.

Não existe filme sem muita dose de amor e xaveco na dose certa sem alguma canção do rei das baladas mais quentes ao pé do ouvido. E olha que Marvin Gaye não precisou nem colocar apelação para “Sexual Healing” alcançar este status. Neste filme, “How Sweet It Is (to be Loved By You)” dá o tom do puxar da valsa.

Outra campeã de trilhas e diretamente dos anos 80 vem “Don’t You Forget About Me” do Simple Minds. Inclusive já falamos sobre o hit por aqui, pois ele também está presente em “Donnie Darko”. E “Clube dos Cinco”, é claro. Talvez por isso tenha ficado de fora do disco…

Menções honrosas: As baladas românticas “I Never Thought That You Would Come” de Loni Rose, “Midnight At Oasis” de Maria Muldaur.