Alpargatos fecha trilogia de EPs com as camadas, psicodelia e conexões musicais inusitadas de “O Chão É Lava”

Alpargatos fecha trilogia de EPs com as camadas, psicodelia e conexões musicais inusitadas de “O Chão É Lava”

7 de agosto de 2018 0 Por João Pedro Ramos

O EP “O Chão É Lava” é o fechamento de uma trilogia de trabalhos do Alpargatos, iniciada com “Rodovia do Parque” (2015), mais otimista e solar, e “Essa Cidade Cheia de Heróis” (2017), um manifesto pró-cultura. No novo trabalho, a sonoridade puxa para o lado psicodélico do quarteto, sem deixar de lado conexões musicais com a MPB e trazendo músicas bem diferentes entre si. Formada por Afonso Antunes (guitarra e voz), Bruno dos Anjos (guitarra), Leonardo Braga (baixo) e Pedro Nectoux (bateria), a banda começa agora a formatar seu primeiro disco completo, que segundo eles ainda é uma incógnita. “As músicas são essencialmente as mesmas desde o início, mas a cada tentativa de gravação vão ganhando outra cara, mudando aqui e ali, até termos um resultado completamente diferente. Nesse longo processo a gente foi amadurecendo e as referências mudaram bastante, isso influencia muito”, explica Bruno.

– Me conta um pouco mais desse EP que tá chegando, primeiramente!

Então, “O Chão É Lava” vem pra fechar um ciclo, uma trilogia. Como já aconteceu com os outros dois anteriores, mais uma vez é um disco que surge no meio das gravações do nosso primeiro álbum (que ainda não saiu) e nos faz botar tudo fora por achar que ainda não estávamos fazendo o som que gostaríamos. No meio desse processo de busca, surgiram outras músicas, completamente novas, mas que achávamos que dialogavam muito mais com nosso momento atual. Assim, de certa forma essa trilogia moldou nossa identidade como banda, com seus acertos e, principalmente, erros. O mais curioso de tudo é que mesmo surgindo em momentos diferentes os três EPs tem a mesma temática, essa relação indivíduo-cidade que nos intriga tanto. Mas em cada um deles direcionamos e sonoridade e a visão dessa relação pra um lado diferente, explorando as possibilidades mesmo que inconscientemente. Então eu diria que esse é o mais introspectivo de todos, uma mistura de melancolia e apatia depois de ver tanta coisa dar errado pra todos os lados nesses últimos tempos.

– Me dá um panorama de como você definiria cada um dos três EPs e como eles diferem e como se conectam.

O primeiro, “Rodovia do Parque” (2015), é bem mais otimista, solar. Tanto nas letras quanto na sonoridade. Os timbres são bem abertos, tem muita coisa percussiva, metais, uma influência forte da MPB. O segundo, “Essa Cidade Cheia de Heróis” (2017), vem quase como um manifesto diante do caos que se instaurou na cultura aqui do estado, com muitos espaços fechando e repressão às manifestações artísticas no geral. Aí fomos buscar essa força de síntese e resistência nas dinâmicas do rap. Fizemos até alguns shows como banda de apoio do Mun-Rá, dupla que participa em uma das músicas do disco. “O Chão É Lava” (2018) já vai pra um outro lado. Valoriza mais a essência da canção e enche ela de camadas, com muitas viradas instrumentais e colagens aparentemente desconexas. E isso vem muito desse funcionamento intimista mesmo, de se ouvir e perceber que tá tudo ali prestes a entrar em erupção, sabe? Tanto que as músicas são bem diferentes entre si, porque o que a gente sente e expressa nunca é uniforme.

– Agora me conta mais do álbum que vocês estão preparando! O que podemos esperar?

Esse álbum é um incógnita até pra gente. As músicas são essencialmente as mesmas desde o início, mas a cada tentativa de gravação – sempre em uma cidade diferente – vão ganhando outra cara, mudando aqui e ali, até termos um resultado completamente diferente. Nesse longo processo a gente foi amadurecendo e as referências mudaram bastante, isso influencia muito. Não sei como vai ser quando entrarmos no estúdio pra começar tudo do zero outra vez. Mas ao menos a gente se permitiu errar três vezes juntos (com os três EPs) antes de botar ele no mundo.

– Então, voltando nisso: como a banda começou?

A Alpargatos de um encontro totalmente despretensioso, lá por 2012. Um amigo que temos em comum decidiu reunir todo mundo em um estúdio pra tocar semanalmente, só pra desenferrujar os instrumentos mesmo. A gente mal se conhecia, mas criou intimidade rápido. Com menos de um ano desses encontros, o Afonso (vocalista) começou a trazer umas letras e fomos trabalhando em cima. Quando a coisa ganhou mais cara de banda mesmo, esse quinto integrante acabou saindo. Desde lá se vão alguns anos nesse rolê independente. Cada ano com projetos maiores e mais gente envolvida. O Léo, nosso atual baixista, começou como nosso produtor, gravando os primeiros singles e o “Rodovia do Parque”. Quando o Guilherme decidiu sair – pouco antes de gravarmos o segundo EP – ele acabou entrando oficialmente pra banda.

– E como surgiu o nome da banda?

Então, lembra que eu comentei que esse processo inicial de busca por uma identidade foi cheio de acertos e, principalmente, erros? O nome foi um deles (risos). Surgiu na necessidade mesmo, horas antes do primeiro show, lá em 2013. E na época achamos que um trocadilho casava bastante com as referências daquele indie mais irônico (de Black Keys e cia) que gostávamos tanto. Acontece.

– Quais eram as principais influências na época e quais são hoje?

As nossas referências foram sempre complementares. Gostamos de muita coisa parecida mas não exatamente a mesma coisa. Aí um vai apresentando uma coisa pro outro e vamos construindo um repertório mais amplo no geral. Isso sempre foi assim. Mas num consenso começamos com algo entre Caetano/Amarante/Black Keys e agora algo tipo Toe/Clube da Esquina/Deep Sea Diver.

– E como vocês veem a cena independente e autoral hoje em dia?

Acho que já virou um consenso que vivemos um dos melhores momentos da cena independente nacional. Tanto em termos de produção – e da qualidade do material artístico – quanto na organização e no entendimento do potencial disso como indústria mesmo. É lindo ver surgir cada vez mais espaços de alinhamento desses profissionais (artistas, programadores, produtores, imprensa, etc), como feiras, festivais, selos e coletivos. Tá todo mundo se juntando, se ouvindo e aprendendo com a experiência do outro pra quem sabe virar o jogo daqui pra frente. É uma transição, claro, mas quem sabe em alguns poucos anos não podemos ter um cenário onde a maioria consiga viver só disso?

– Para a grande mídia, “o rock morreu”. Mas longe dela, ele vive muito bem, obrigado, só o dinheiro que não chega…

Exato. E não só o rock, né. Acho que é tudo uma questão de entender e viabilizar o funcionamento da indústria musical independente como um todo. Agora que temos a possibilidade de agir diretamente nela, produzindo e comunicando nossas próprias coisas, temos que nos dar contar que é muito mais do que isso. O rolê só acontecem com todas as engrenagens girando muito bem, e aí se encontra a mídia alternativa, os profissionais de audiovisual, design gráfico, assessoria, produção, etc. Estando isso em sincronia (como acho que já começou a acontecer) esse nicho se torna interessante pra investimentos externos, sejam privados ou não.

– Como você definiria o som da banda?

Ba, talvez essa seja a pergunta mais difícil. É complicado achar essa definição, por mais que a gente saiba que ela é importante pra algumas coisas. Acho que certamente algo dentro do conceito de “indie rock” (que se for pensar nem faz tanto sentido como gênero musical em si, mas enfim) e depois disso deve ter algum adjetivo pra completar. Na essência, as canções surgem sempre mais com aquela pegada MPB da viola de nylon, mesmo que isso se transforme completamente depois.

– Quais os próximos passos da banda?

Agora com o último EP lançado, pretendemos fazer uma tour em setembro com o show da trilogia. Temos algumas datas confirmadas e outras ainda em aberto, mais pra frente anunciamos. Em paralelo também vão rolar alguns conteúdos audiovisuais do “O Chão É Lava”, como clipes e session ao vivo.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Como falei acho que estamos num dos melhores momentos da música independente nacional. Tem muita coisa boa sendo produzida em todo o canto do país e de vários estilos diferentes. Mas pra citar alguns: acho que além dos artistas que participaram dos nossos EPs e dos que integram nosso selo (Escápula Records), com os quais temos uma conexão e admiração bem grande, fica como indicação os trabalhos incríveis de Bolhazul, Tijú, Lau e Eu, PAPISA, Valentin e Trabalhos Espaciais Manuais.