Além do Clube da Esquina: Som Imaginário – “Matança do Porco” (1973)

Bolachas Finas, por Victor José

Há um sabor especial bastante curioso na música feita pelos brasileiros. Podemos tomar emprestado algum estilo ou até mesmo copiar descaradamente um artista que ainda assim fica algo lá no fundo, bem no âmago, que nos revela autênticos. E não falo daquele papo cafona de “brasileirice”, mas sim de uma verdadeira identificação com musicalidade. O Som Imaginário tem disso.

De fato essa é uma banda interessante. Afinal, o que falar de um grupo que serviu de apoio para a maioria dos primeiros (e fantásticos) álbuns e turnês do Milton Nascimento? Para resumir bem: basicamente, eles foram a espinha dorsal do que viria a ser o Clube da Esquina.

O Som Imaginário era composto por  Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão e guitarra), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Fredera (guitarra) e Zé Rodrix (percussão, órgão e flautas). Poucas vezes na história da Música Popular Brasileira houve um grupo que deu tão certo.

A carreira foi breve, com três discos lançados, mas o último, “Matança do Porco”, de 1973, se destaca como o ápice criativo do Som Imaginário. Claramente influenciado pelos colegas do Clube da Esquina e pela abordagem prog do Pink Floyd e do Yes, o grupo (já sem Fredera e Rodrix) conseguiu uma sonoridade muito classuda, digna de carreira internacional – o que infelizmente não aconteceu –, mesclando a pegada do jazz, às vezes com ritmos brasileiros.

Mesmo com tudo isso, não é algo cansativo de ouvir, dá para assimilar sem muita dificuldade. E lembrando que esse é um trabalho basicamente instrumental, salvo uns vocalizes que Milton e os Golden Boys emprestaram para a faixa-título. E por falar nessa música, dá para dizer que ela é o que mais chama atenção em todo o disco. Como uma espécie de suíte, em “A Matança do Porco” a banda passeia pelo erudito, por improvisações de rock e por algo muito parecido com a vibe de “Careful With Tha Axe, Eugene”, do Floyd. Com certeza “Matança do Porco” não perde em nada para qualquer trabalho desse período, é uma faixa muito bonita, bem trabalhada e impactante.

“A3” e “Mar Azul” exploram mais o terreno do jazz e da música latina, e, como não podia deixar de ser, sem esconder o forte traço de Clube da Esquina predominante na banda. “Bolero”, com sua tranquila guitarra de 12 cordas, também escancara essa qualidade e dá vontade de repeti-la logo em seguida. O climão da “A Nº2” é outra coisa pegajosa, no bom sentido. Na outra metade da faixa tem um baita groove bem estilo dos anos 1970 que hipnotiza a gente enquanto faz a cama para um piano elétrico extremamente competente. Ali também conseguimos escutar novamente a voz de Milton no fundo.

Em “Armina” a banda apresenta um total domínio do que fazer com a música e como oferecer diferentes níveis de melancolia. A atmosfera funciona em torno de um riff bem próximo de “I Want You (She’s So Heavy)” dos Beatles e de um piano delicado carregado de erudição. O tema ainda é repetido ao longo do disco em outras três ocasiões, sempre apresentando uma textura a mais.

Mesmo com a presença marcante de todos os integrantes, é bem evidente que Wagner Tiso naquela altura do campeonato meio que dominava a parada toda, e um sinal disso é o crédito que ele leva da maioria das composições. Tanto que Fredera já chegou a dizer que “Matança do Porco” é meio que um disco solo de Tiso. Mas sinceramente, isso não importa muito pra mim, pois vejo esse como um trabalho de banda do início ao fim.

É interessante notar como esse álbum se comporta perto das grandes obras da nossa música brasileira. Ele é como se fosse um presente daqueles que você não espera que vai ganhar, mas ao recebê-lo a satisfação é imediata.

Dificilmente você não vai se surpreender com alguma faixa desse disco.


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