Além da aparência macabra: Bauhaus – “In The Flat Field” (1980)

Além da aparência macabra: Bauhaus – “In The Flat Field” (1980)

26 de janeiro de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Nunca vou me esquecer da primeira vez que escutei a música “In The Flat Field”. Medo, frio, melancolia, agressividade, confusão, drama, peso e uma boa dose de liberdade. Eu tinha uns 16 anos, aquilo mexeu de verdade comigo. Até hoje, foi umas das poucas vezes que um som fez eu repensar tão a fundo nas possibilidades do rock.

Bauhaus faz uma música que evoca um bocado de sensações, e é uma besteira absurda pensar só no termo “gótico” quando se fala sobre essa grande banda. É inegável a qualidade e importância do longo single “Bela Lugosi’s Dead”, mas a banda não para por aí, a discografia é muito interessante. O grupo, formado por Peter Murphy (vocais), Daniel Ash (guitarra), David J (baixo) e Kevin Haskins (bateria) em 1978 em Northampton, na Inglaterra, durou até 1983. Lançaram nesse período quatro álbuns, mais um ao vivo.

O LP de estreia, “In The Flat Field”, lançado pelo selo 4AD em 1980, mostra uma banda altamente artística, vigorosa e aberta a possibilidades diversas. Ali você percebe com clareza as influências de Roxy Music, Sex Pistols, Kraftwerk, Velvet Undergound e David Bowie. Some tudo isso com o expressionismo alemão e uma boa dose daquela vibe cinzenta dos britânicos e você tem o Bauhaus, no som e no visual. A música do grupo evoca uma personalidade forte, convicta de sua estética.


Começando por “Double Dare”, logo de cara percebemos que não nos deparamos com uma banda convencional. O baixo distorcido, a levada inusitada da bateria e aquela guitarra fragmentada que sem dúvida alguma influenciou a galera que faz noise ou pós-rock embalam a superexpressiva voz de Murphy, densa como todo o resto, sombria e confusa como todo o resto – mas ainda assim completamente coerente.

Essa corajosa fórmula segue sem perder o gás na faixa-título, um clássico alternativo. Já “God In a Alcove” sugere um som menos denso, meio noir, enquanto que “Spy In The Cab” evoca uma profunda melancolia, em contraste com as dançantes “Dive” (com direito a um sax todo torto e bem legal de Daniel Ash), “St. Vitus Dance” e “Small Talk Stinks”. Ao longo de todo o disco o Bauhaus oferece uma pequena novidade, seja um ruído esquisito, um timbre diferente de baixo, ou algum instrumento não convencional.

Mas a banda faz a gente dar o braço a torcer para o clima gótico na sinistra “Sigmata Martyr”, que com sua sonoridade beirando o heavy metal simula uma crucificação, com direito a latim, gemidos, berros e tudo mais. O disco acaba com outra meio macabra, “Nerves”, onde um piano assume o papel principal da banda com um riff pegajoso e aponta para as várias experimentações que abordariam nos próximos álbuns.

É interessante o fato de a própria banda ter produzido “In The Flat Field”. Aparentemente a liberdade era total, e isso reflete no som. Não há nada naquele LP que você possa dizer que é uma repetição. Impressiona a coragem dessa banda, que mesmo com essa proposta conseguiu atingir um grande público, influenciou muita gente e até emplacou alguns singles nas rádios da época.


O grupo chegou a se reunir duas vezes. Uma em 1998, quando lançaram o maravilhoso ao vivo “Gotham” e outra em 2008, quando trabalharam juntos novamente em estúdio com “Go Away White”, que não é lá essas coisas, meio desnecessário.

Também vale ressaltar que do Bauhaus nasceu a Love and Rockets, que na verdade é a mesma formação, porém sem Peter Murphy. O som é um pouco mais acessível e bastante diferente da antiga banda. Vale muito a pena escutar.

Poderia escolher qualquer um dos grupos rotulados como gótico, mas vejo no Bauhaus a maior prova de que essa fase do rock é uma das mais mal interpretadas e assimiladas pelo público e pela crítica. Observando de perto, não seria exagero dizer que a partir dessa vertente – inclua aí bandas como Siouxsie and The Banshees ou The Cure – você percebe um dos momentos mais criativos da indústria pop.

Bauhaus ofereceu a possibilidade de percebermos como a arte soturna pode também ser colorida por outros adjetivos sem parecer bobagem de moleque.

Ouça abaixo o álbum. Nesta versão consta uma porção de ótimos singles e b sides. “In The Flat Field” na íntegra está entre as faixas 2 e 10.