“Ainda existe essa coisa do cover dominando muitos lugares”, diz Radiolaria, banda mineira que se apresenta amanhã em SP

07092014-IMG_4717-2A banda mineira Radiolaria vem à São Paulo apresentar as canções de seu disco “Vermelho”, que ganhou elogios de jornais como Zero Hora de Porto Alegre e A Crítica, de Manaus. O álbum, disponível para download no site www.radiolaria.com.br, conta com músicas autorais que deixam claras as influências do grupo, especialmente dos conterrâneos do Clube da Esquina. O show acontecerá na quinta-feira, dia 12, na Sensorial Discos.

Formada por Felipe Barros, Felipe Xavier, Luiz Eduardo Lobo, Pedro Rios e Wagner Costa, a banda contou com a produção de Henrique Matheus e Thiago Corrêa, da banda Transmissor, na produção de “Vermelho”, disco cheio de indie rock brasileiro, folk moderno, rock setentista, pop, música caipira e até tango.

Conversei com o vocalista e guitarrista Felipe Barros sobre a carreira do grupo, a cena independente brasileira e o rock autoral em português:

– Como a banda começou?

Na real a banda começou quando eu (Felipe Barros) e o Xuxa (Felipe Xavier), tínhamos uns 9 anos. Nos conhecemos no coral do colégio e a partir dali fomos parceiros musicais pelos anos que se seguiram, e que seguem ainda hoje. Na adolescência, ali pelos 14 anos,  com a mudança de voz e a coisa da rebeldia, veio o gosto pelo rock, primeiro com coisas mais recentes pra época, tipo Oasis, Nirvana, Green Day, e  e depois o rock britânico e americano das décadas de 60 e 70. De lá pra cá foram várias formações e projetos até chegarmos até a idéia de compor e gravar um disco de músicas nossas, o que rolou lá em 2008, quando a banda foi rebatizada de Radiolaria.

– Como surgiu o nome Radiolaria?

O nome surgiu quando resolvemos mudar de rumos e gravar uma demo de músicas autorais. Isso rolou lá em 2007/2008, quando fizemos um braistorm de buteco e pintou esse nome,que na época foi ideia de um ex-integrante da banda, o Tito Campos, amigo nosso aqui de BH.

– Quais são as principais influências musicais da banda?

São muitas porque ouvimos de tudo. A banda não tem uma influencia especifica, um direcionamento estético predeterminado. Na verdade tudo que ouvimos de certa forma vira baliza na hora de se expressar através de uma canção. Mas podemos citar aqueles que deram início às aventuras musicais mais conscientes, coisas como Beatles e Cream. Mas depois veio muita coisa da MPB pro nosso cotidiano também, como o Clube da Esquina, grande influencia nossa aqui de Minas, e coisas como samba e bossa nova. Curtimos muito Mutantes e Secos e Molhados também… Mesmo que algumas influências não sejam tão notavelmente presentes no som, são referências também. Mas costumamos dizer que o pano de fundo é rock, folk-rock-cancioneiro e pop também.

– Quais os principais desafios de ser uma banda autoral?

Hoje em dia o espaço não é dos melhores, especialmente na grande mídia, como já virou clichê de se constatar. É meio estranho, porque pintam noticias em grandes jornais, bons blogs, rádios e TVs, mas parece que a coisa do entretenimento dominou tudo. Só vende quando é “carnaval” mesmo. Não que sejamos contra as músicas puramente românticas, ou baladeiras, ou qualquer outro gênero mais popular que domina o mainstream hoje. Mas os grandes veículos só tem espaço pra isso. E enche um pouco o saco isso. A repetição desmiolada das mesmas fórmulas. Acho que tem um efeito bola de neve, já que gravadoras e rádios alimentam esse cenário, assim como o grande público que se acostumou a ficar só nessa alimenta a coisa toda. Acho, porém,  que as pessoas mais antenadas (fora do mainstream, mais nos redutos da net, frequentadores de espaços e casas de show especializadas e afins), têm se interessado e consumido muita coisa autoral. Isso tem dado uma força legal pra se rodar um pouco e fazer shows, participar de festivais, etc. Mas é sempre uma ralação de muita aventura e entrega.

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– Ouvindo o disco “Vermelho”, percebi um quê de Clube da Esquina e seus membros no som. Vocês foram influenciados por eles?

O Clube é sem dúvida uma grande influência. Costumo brincar que quem está por essas bandas e se mete a compor, não tem como não ter um quê deles (talvez isso não se aplique ao Sepultura e outros do metal daqui (risos)). Parece uma coisa da poesia que está no ar, nas montanhas, no jeito do belo-horizontino ocupar a cidade, nas pessoas. Rola uma fluidez que gostamos. Nós ouvimos muito o trabalho deles. Somos grandes fãs!

– Como é o processo de composição de vocês?

O “Vermelho” foi feito de forma bem despretensiosa. Pegamos  o que tínhamos de canções, e fomos gravar (claro que com o cuidado da produção e tal, mas sem um norte definido). Normalmente alguém chegava com uma ideia, especialmente violão e voz, bem canção mesmo, e aí desenvolvíamos a coisa toda. No próximo trabalho já queremos ter um pouco mais de opções desde a gênese das músicas, fazendo a pré-produção já com a gravação em canais separados, ou algo assim. Mas ainda é só uma ideia…

– Existe dificuldade em encontrar lugares que aceitam bandas autorais hoje em dia? Existem muitas casas que preferem as bandas cover de grupos consagrados, deixando as autorais meio de lado…

Aqui em BH estamos observando, aos poucos, um crescimento do interesse das casas pelo que é novo. Talvez pelo crescimento do interesse do público também, né. Mas ainda existe essa coisa do cover dominando muitos lugares. Mas não vejo como “culpa” dos lugares. Tem até os que remam contra as tendências em nome de mostrar algo novo. Mas acho que o dono de um estabelecimento vai atrás daquilo que lhe dá um retorno legal, e se o cover dá mais retorno, é natural que optem por isso. É uma questão bem delicada que passa pelo gosto do momento, pela onda “baladeiro-entretenimentista” da “função” da música hoje e da relação do grande público com ela. Como diria o gênio Tim Maia, ou é mela sovaco ou esquenta calcinha (risos). Além da retroalimentação que rola, como falei antes, feita pelos grandes veículos comunicadores.Muitas vezes as pessoas sequer chegam a conhecer algo de que gostariam se tivessem contato e de fato parassem pra ouvir.Mas ainda bem que sempre temos a “turma” do contra, e que se propõe a fazer, ouvir, frequentar o novo.

– Existe uma cena de rock autoral rolando debaixo dos radares das rádios e TV que parece que está passando meio despercebida. Vocês acham que uma nova safra de bandas pode surgir em breve na grande mídia?

É difícil e impreciso fazer qualquer tipo de previsão de futuro. Realmente vemos muita gente fazendo coisas legais, de personalidade e com cuidado, mas a informação se pulveriza diante do volume com que circula toda a informação hoje, especialmente na net, que é o lugar onde todo mundo tem em tese o mesmo espaço, mas nem todo mundo é visto. Nas rádios e TVs, vemos que existem sim esforços de pessoas que querem mostrar o novo, arejar a coisa toda, mas acho que a net ainda será a grande ferramenta pra quem está surgindo agora. E saber fazer uso dela é essencial.

– Se vocês pudessem fazer QUALQUER cover, qual seria?

Na verdade fazemos covers nos nossos shows, mas procuramos dar a eles nossa cara. Às vezes são versões, às vezes covers mesmo, mas sempre colocando nossa intensidade e reverência àquele trabalho. Não tocamos por tocar algo conhecido, simplesmente. Fazemos covers de músicas que amamos, como “Dune Buggy” (Mutantes), “I Feel Free” (Cream), “Chan Chan” (Buena Vista), “Nada Será Como Antes” (Milton e Bastos)… Bom, acho que respondi (risos).

"Vermelho", o disco de estreia do Radiolaria
“Vermelho”, o disco de estreia do Radiolaria

– Parece que hoje em dia poucas bandas de rock novas estão cantando em português. Porque isso ocorre?

Assim como o samba foi criado no português, e soa mais natural ao se cantar e compor em português, o mesmo ocorre com o rock, gênero criado na língua inglesa, respeitando sua métrica, prosódia, fonética… Acho que fica mais fácil cantar rock em inglês, soa mais natural, e por isso muitas bandas preferem se dispor a compor no gênero na língua que mais diretamente lhe contempla. Particularmente, penso que não domino a língua a ponto de fazer uso dela poeticamente, além de querer falar coisas do dia-a-dia, do nosso espaço, etc. Por isso fazemos nossas músicas em português. E também depois de ouvirmos referencias que ou faziam rock, ou com ele flertavam, em português, como Mutantes, Raul, Secos e Molhados, Tim Maia, o próprio Clube da Esquina. Vimos que era possível dialogar com o estilo, sem perder nossa capacidade de comunicação e de identidade regional. Mas nada impede que um dia lancemos uma faixa em inglês, por exemplo.

– O rock pode voltar ao topo das paradas no Brasil?

Espero que sim. Na verdade o que falta mesmo nas paradas é diversidade. Vivemos um tempo de muita homogeneidade, e isso é bem reducionista e degradante do ponto de vista cultural, especialmente pra um país com nosso histórico musical. Outras décadas trouxeram fenômenos semelhantes, e sempre com os ritmos mais populares a dominarem a cena toda. Acho que não vivemos um momento nem melhor nem pior em nossa história recente (algo como os últimos 25/30 anos). Se o rock vai ser protagonista de uma virada recente? Não sei.

– Quais são as maiores dificuldades de ser uma banda independente?

A coisa da grana e da estrutura. hoje existem ferramentas como as leis de incentivo e o crowdfunding, que podem dar algum fôlego nesse sentido. Mas tocar música autoral, nesse cenário que mencionei, é uma tarefa que exige uma carga visceral de verdade e de entrega. Parece piegas, mas é bem por aí.

– Vocês estão em turnê atualmente?

Fazemos apresentações isoladas em lugares que nos podem recepcionar com alguma estrutura, e especialmente em cidades que identificamos a possibilidade de ter identificação com o público,como no caso de nossa ida a Sampa agora. Normalmente o que procuramos fazer é fechar datas em cidades vizinhas e fazer uma pequena turnê.

– Quais são os próximos passos da Radiolaria?

Estamos em estúdio finalizando um novo single, que deve ser lançado nos próximos meses. Além disso temos  procurado rodar e participar da cena local e nacional naquilo que nos comporta. Em 2016 pretendemos ter nosso segundo disco pronto pra lançamento. Já estamos trabalhando em algumas canções além do single também.

QUANDO? Dia 12 de março, quinta-feira, às 21h
ONDE? Sensorial Discos – Rua Augusta, 2389 – Jardins
QUANTO? 10 reais


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