A vida tem sentidos: o novo disco e show do Abacaxepa

A vida tem sentidos: o novo disco e show do Abacaxepa

2 de setembro de 2019 0 Por Vítor Henrique Guimarães

Quatro instrumentistas no fundo do palco, três vocais à frente e de costas pra plateia. Logo antes da primeira nota você já saca que não vai ser um show comum, que além das pessoas e dos instrumentos, vão rolar toques performáticos teatrais e ludismo.

Quando a Bruna Alimonada entoa “eu vou comeeeeeer um abacaxi azedo pra lamber tua boca” com seu sotaque recifense, o espectador presente no Galpão Ladeira das Artes, no bairro carioca do Cosme Velho (em pleno pé do Cristo Redentor), que antes tinha curiosidade, agora tinha atenção. A faixa “Abacaxi Azedo” acaba por criar uma atmosfera impactante com todas as brincadeiras que ela traz em seus arranjos e performance.

Ela também abre o disco “Caroço”, lançado pela banda no dia 16 de agosto pelo Abacaxepa. Para os fãs que acompanham a carreira há um tempo (uma amiga me mostrou o som deles lá no meio do ano passado), é um disco muito esperado, cuja gestação foi acompanhada com curiosidade. A cada nova postagem no Instagram, mais questionamentos sobre novas músicas, novas datas, novos shows… e tudo foi produzido com o máximo de carinho possível, das músicas ao show, o que dá pra sentir com facilidade quando se mergulha na obra.

Aliás, sentir é um comando chave pro “Caroço”. É um disco que explora os sentidos de maneira híbrida e poética. As músicas mastigam, cheiram e sentem na pele as doçuras e amarguras que a vida proporciona. Por exemplo: se em “Abacaxi Azedo” rola até uma “afta na boca” de tanto se esbanjar na acidez cortante de um flerte mal correspondido, em Olhos da Cidade tudo o que se vê vira lembranças, e tudo o que se lembra vira sentimento – e isso vai das coisas que a gente gostaria de esquecer até coisas que certamente não nos esquecemos, como a sintonia performática de Rodrigo Mancusi e Carol Cavesso, que completam o brilhante trio vocalista da banda.

Os caras são tão inventivos que até uma ida à feira vira música. “Xepa”, terceira música do disco, liderada pelo Rodrigo, traz arranjos tão agoniantes quanto o causos contados na letra. E é agonia que você sente e se identifica: é o desenrolo com o feirante, é a vontade de comer; é o tombo que vira mico, o joelho ralado e o sol que tá de rachar. É todo um processo tão assustador quanto se tornar adulto.

Até que se chega na hora de se forrozear no chamego. Se antes o guitarrista Ivan Santarém (no álbum, mas ele não pôde ir no show e foi bem substituído pelo igualmente ótimo Rodrigo Fabri) já havia demonstrando um baita talento pra solar, a introdução que ele faz na faixa “Piracema” basta invocar o espírito forrozeiro dentro de cada um na plateia. A música, uma das melhores e mais bonitas do disco, mergulha no mar, deságua no rio mexe no cabelo, recebe beijo e ressignifica sua própria sobrevivência. É basicamente uma música pra se apaixonar.

Daí a gente chega num dos pontos altos do disco e do show: “Pimenta”. E tem vários motivos pra eu cravar isso. Primeiro que é super dançante, empolgante, é uma das músicas que faz a galera pular. Segundo que traz um solo absolutamente enlouquecedor do tecladista Vinícius Furquim, daquelas coisas que tu fica realmente piradaço. E por último, mas não menos importante, e aqui é um grande chute: é uma das letras mais políticas do “Caroço”. Indo de “mão que treme porque teme e anseia a nova escrita / sem saber direito por onde começar / a luta cresce proibida, fatigada e inibida / é um passo pra lá e um passo pra cá” até “pimenta nos meus olhos me faz questionar / se todo mundo tem ouvido / porque só eu tenho que escutar?”, me pergunto o quanto isso não tem a ver com a luta LGBT. Caso realmente haja uma relação intencional, fica aí uma brilhante e, novamente, sensorial analogia à experiência de vida dos LGBT, lidando com a ardência dos preconceitos cotidianos, e uma baita música de força e resistência – “Tem que ser muito marujo pra navegar aqui”.

Com “Semente Cadáver”, as palavras que não saem da boca ganham gosto amargo que faz doer até matar e morrer. O baixista Fernando Sheila acompanha o mistério velado e ataca mesmo sem mostrar os dentes. Ora segue seu próprio caminho, ora se esgueira no mesmo ritmo que seus companheiros, mas sempre muito atento para não calar e nem calar ninguém.

“Crudo” serve como interlúdio bucólico para o que se segue. É uma pausa, um descanso que te prepara pra porrada que é “Por Enquanto é Chuva”. Mais introspectiva e menos sensorial, de começo mais calmo a um final mais apoteótico, o que você sente é o inspirado solo de guitarra do Ivan, a potência preenchedora de plateia da voz da Carol e o pulsar frenético da bateria do Juliano Veríssimo. Certamente um dos pontos altos do show, onde ficar impressionado é questão de estar.

Me corte com tua faca amolada / Me cheire pra ver se eu estou validada / de cada fatia que restei / Jogada no sofá / Cerveja pra acalmar”. Você ouve isso e sente na pele, em cada um dos pedaços que te compõem, tal qual você fosse uma daquelas obras de Picasso onde as formas geram um incômodo que por algum motivo te ensinam a apreciar.

Antes da última música, o Rodrigo brada um discurso político em defesa da liberdade de se expressar e de amar da maneira que for e engata na politicamente carregada “Remédio pra Gente Grande”. O consentimento frente aos absurdos do cenário político, a alienação política e as urgências da vida: tudo entra nessa música. O que é curioso, porque é também um dos momentos mais animados do espetáculo do coletivo. Talvez devido aos “laraiês” em coro no palco e na plateia, acompanhados das instrumentações que não deixam um esporo vazio e até de um solo de flauta do próprio Rodrigo. E antes até que eles pudessem se despedir e sair do palco, a plateia puxou aquele clássico “mais um”, que a banda prometeu tocar se todos dançassem e pulassem; num ato inesperado, a banda voltou em uníssono para mais “laraiês” e delírios do público, que já estava, em sua maioria, numa pequena histeria coletiva.

Ainda bem, graças aos deuses, tivemos espaço para apreciar as canções mais antigas do grupo, presentes no EP “Abacaxepa”, anteriormente mencionado e lançado em março de 2018. A beleza da baião-balada “Baião Escocês” e “Menina Praga” tomaram o Galpão de vontade de dançar; “Café” e “O Dia em que Maria Acordou” preencheu o Galpão com vontade de aplaudir. No fim, os que já eram fãs ficaram ainda mais; os que não eram, veneravam e pediam mais. Uma sensação inescapável.