A ROSABEGE como experiência

A ROSABEGE como experiência

10 de dezembro de 2019 1 Por Vítor Henrique Guimarães

Eu assisti o primeiro show da ROSABEGE no Circo Voador, que rolou no dia 7 de dezembro, quando eles abriram a noite pra um showzaço da Céu, perto de um casal que embalava todas as músicas. Lá pelas tantas um deles virou pra mim, que estava muito animado de finalmente estar vendo o show da banda, e falou “eles são fodas, né?”. Depois de uma rápida troca de frases de admiração pela banda (“eles são fodas demais”, “eles todos são gênios”, “tá emocionante ver isso acontecendo porque eles merecem demais”), ele completou “aquele ali é meu irmão”. Eu tava conversando com o Luca, irmão do João Lucchese, vocalista da banda.

Uma das coisas que me move a escrever sobre música é pensá-la como uma experiência que se sente, seja no processo de audição, seja estando ali na plateia ou vendo alguma produção audiovisual, e ROSABEGE provoca isso de diversas formas. Nessa conversa com o Luca, ele comentou que sempre que perguntavam a ele qual era o estilo da banda, ele não sabia especificar e falava que era um pouco de tudo. No fim das contas concluímos um pouco que é o que é: uma parada bem experimental. ROSABEGE é um fenômeno que se expressa de forma peculiar em diferentes manifestações, através basicamente de experimentações.

Enfileirados um do lado do outro, bem na frente do palco (João no vocal e na programação; o baixista Pedro Chabudé, que substituía o original Pedro Caiado, que está sendo brabo fazendo intercâmbio na braba Berkeley University; Thiago Fernandes na bateria e programação e Vitor Milagres na guitarra e no MPC), a ROSABEGE começou o show um pouco mais tímida, mas a torcida que os acompanhava fazia um barulho bonito de ver. A cada música que se passava, a plateia se enchia mais e mais de curiosos que formaram um baile de tanta gente que não parava de dançar; a cada fim de música, o barulho das palmas e dos gritos empolgados era maior, e nisso a banda foi se soltando e despejando talento na atmosfera convidativa que criaram.

O minimalismo da iluminação fazendo a diferença na ambiência. (Foto: Matheus Tavares – @mav.doc)

“Imagem”, álbum de estreia da banda (e também título do curta-metragem que eles lançaram pra acompanhar o disco, feito em parceria com o Rodrigo de Freitas – @rdgdefreitas), saiu há pouco mais de três meses, ali no fim de agosto. As recepções em relação ao disco foram bem calorosas, sempre destacando a originalidade do som da banda e da identidade estética visual deles. E aí de repente os caras tão abrindo show da Céu em pleno Circo Voador. Tipo, que ascensão, não? Mas o pé no chão é fundamental e os caras estão bem atentos ao que anda acontecendo nesse novo momento da vida deles. Eu conversei com João, Thiago e Vitor antes do show. Eles tinham acabado de passar o som e transpareciam a mesma tranquilidade que demonstram no Instagram (@rosabege____).

O álbum é o segundo passo da carreira dos meninos. Em setembro de 2018 eles lançaram o EP Astral Mediterrâneo”, pela Valente Records. São apenas três faixas – duas delas, “Às Vezes Lembrar é Bom” e “Tudo Bem”, estão na minha lista pessoal de melhores músicas brasileiras do ano. Pra eles o EP foi mais uma brincadeira: “A gente pensou ‘ah, vamos lançar isso aqui pra uns amigos, tirar uma onda’ e tal. Não tinha uma pretensão de virar um projeto”. O legal é que por mais que a coisa tenha ficado mais séria, esse toque descontraído seguiu fazendo parte do dia-a-dia da banda. “Tem muito uma parada de ver que ao mesmo tempo é um trabalho, uma coisa que a gente faz pra viver disso, é também muito uma brincadeira, sabe? Que nem tudo. O Instagram é uma grande brincadeira. E isso é uma escolha. Imagina passar um ano e meio sem brincar? Tá maluco!”.

O guitarrista e mago do MPC Vitor Milagres (Foto: Matheus Tavares – @mav.doc)

Pra um álbum em que às vezes uma noite inteira se passava em torno de 10 segundos de música e de aventuras pessoais (Thiago passou uma noite compondo “Quem Será?”, inclusive emprestando sua voz à música), a execução disso no show acaba por ser exigente e ainda assim eles não deixaram de lado o fator diversão, muito menos o preciosismo.

O processo de criação do disco foi bastante imersivo para todos, o que gerou ressignificações tanto na relação deles com eles mesmos quanto deles com a música. Um dos elementos que mais representam essas mudanças é o corpo. Para além da música bem orgânica (algo que soa como uma pegada mais minimalista dos últimos dois álbuns do Qinho) e da identidade visual (fruto de uma fritação do grupo em torno do mundo da moda e das artes visuais e que encontrou forças com a estilista Natasha Ribas – em certo momento da entrevista o Vitor cravou que “é mais um esforço dela do que nosso”), a performance dos meninos nos vídeos é algo que gera curiosidade. Portanto, a vontade de ver isso no show era grande.

O João comentou um pouco sobre isso, ressaltando que uma parada importante pra sintonia da banda é que todos estão abertos a essas experimentações: “Algumas coisas que a gente fez no vídeo, algumas coisas que a gente pode fazer no palco, podem gerar um desconforto entre nós mesmos, mas estar aberto a isso é bem importante. O corpo ao vivo é diferente do corpo filmado. O corpo filmado a gente filmou como algo a ser contemplado; no palco tem o movimento, tem uma conversa o tempo inteiro”. E pra eles acaba sendo uma conversa não só entre eles, mas com o público também porque se estabelece uma relação de troca. O Vitor falou um pouco de como isso se dá pra ele: “cê tá lá e do nada cê pensa ‘pô, vou fazer uma parada’. Daí você faz a parada e a galera dá uma curtida e você pensa ‘pô, irado, é isso aí!’. O jeito que a galera tá recebendo mexe muito com a gente porque a gente tá recebendo da galera o tempo inteiro”.

A atenção a cada detalhe de João Lucchese (Foto: Matheus Tavares – @mav.doc)

Quando cavei um pouco mais sobre como essa relação com o corpo se manifesta nos shows, o João disse que “está sendo a busca de agora. A partir do momento em que a gente dominou o instrumental, dominou a música, a gente começou a conseguir olhar um pouco mais atenção pra presença do corpo. Mas ainda tá sendo uma descoberta. Cada show é único por isso.” O Vitor disse, em meio a risos: “a gente tá aprendendo ainda. E acho que ainda vai ser por muito tempo. E é divertidíssimo, porque o mais legal é que, além de ser um trampo, é muito maneiro você se ver fazendo umas paradas que até pouco tempo atrás você ficaria sem graça de fazer mas hoje é mó gastação boa, um conhecimento maneiro do espaço que você tá ocupando”.

Esse comprometimento divertido fica claro no palco. Thiago é um monstro na bateria em todos os momentos e vê-lo alternando entre bateria acústica e eletrônica (ou até mesmo nas duas simultaneamente) é de pirar; a esticada instrumental de “Às Vezes Lembrar é Bom” mostra um Pedro soltinho que só; em “Pra Mim”, João Lucchese quase que se emociona com o violão na mão; o Vitor era basicamente a mão invisível do talento enquanto dava a base na guitarra e tocava cada detalhe do terror no MPC. Tudo isso meio a troca de olhares e sorrisos de admiração mútua.

Pedro Bachudé, substituto estrelado no baixo (Foto: Matheus Tavares – @mav.doc)

Isso tudo é decorrente de um processo longo e intenso. Um ano e meio vivendo esse momento de gestação e preparação pro lançamento do disco (que na verdade estava previsto para fevereiro) muda a vida de uma pessoa. Em certo momento o Thiago disse que nesse período ele tava um pouco aficionado na criação e “ia conversar com alguém e queria falar só disso. A gente se enfornou no estúdio, passamos várias madrugadas, abrimos mão de várias paradas. Agora que a gente lançou, essa nova fase ainda não se estabeleceu”. Após o lançamento e recepção do “Imagem”, o João comentou que as gerir expectativas é uma coisa que varia de semana pra semana, dia pra dia: “tem dias que a gente quer que as coisas corram mais rápido, outros mais calmo e aí vem isso de ‘caramba, a gente vai tocar no Circo, as coisas estão acontecendo mesmo’ e aí vamos tendo essas comprovações. Mas saindo um pouco do álbum, voltando a fazer show, eu tô voltando a me sentir como eu era há dois ou três anos atrás. Sinto que tô conseguindo me reconectar com várias coisas que, pra fazer o álbum, eu tive que deixar em suspenso”.

O perfeccionismo de Thiago Fernandes (Foto: Matheus Tavares – @mav.doc)

O Vitor foi ainda mais subjetivo na fala: “Acho que hoje eu tenho pensado muito que a gente compõe e fala de muitas coisas importantes nas nossas vidas. O importante é abrir o jogo pra galera. E isso me deixa meio doido, tipo, ‘pah!, a galera tá me ouvindo, tá botando fé nas coisas e no jeito que a gente tá falando’ e isso abre dois caminhos: de entender a responsabilidade de tudo o que eu tô escrevendo e do que a gente tá passando no som também, e outro caminho que é preservar coisas que estão particulares na minha vida há muitos anos. E de repente começar a ver essas coisas se abrindo desse jeito muito louco. E começar a caçar essas coisas que sempre estiveram ali, de um jeito muito importante pra quem eu sou agora… acho que isso tem sido a minha pira do momento. A minha busca. É consolidar esse alicerce. Ver como há dois anos atrás eu tava vendo essas coisas, mas com outra perspectiva, com outro entendimento, outra visão”.

A música que abre o disco e o show, “Passo Muito Tempo”, fala um pouco desse processo de ser e de (não) mudar. “Trabalho” fala sobre começar a entender o conflito entre vontades e amadurecimento emocional (“o tempo que eu tirava pra saber de você já não tenho / mas até tá bom assim”). “Pra Mim” trata da condição linda e passiva da esperança. “Deus” fala da ambição e da vulnerabilidade juvenil, que volta e meia cai numa frustração. “De Vez em Quando”, uma das melhores do álbum, fala de responsabilidade emocional e o conflito de estar ao lado e de deixar ir embora (“de vez em quando a gente tem que conversar / porque depois não quero te encontrar / na parte de trás da minha vida” – aquelas frases que batem, não é mesmo?”) e também fecha o show permeado de luzes sutis e quase misteriosas do Hugo Aboud (@hugoaboud). Acaba que “Imagem”, disco, show e experiência, falam muito sobre esse exercício de estar atento ao que está acontecendo no macro e ainda assim estar imerso na vida. A banda tá procurando estar atenta a isso. Você está?