A recém-nascida Cat Arcade mistura estilos sem medo no single combativo “Engasgo”

A recém-nascida Cat Arcade mistura estilos sem medo no single combativo “Engasgo”

12 de fevereiro de 2020 0 Por João Pedro Ramos

O quarteto de Canoas Cat Arcade formou-se basicamente das cinzas da banda Teleporte. A vocalista Nina Barcellos já era doida para fazer um projeto com Fábio Gonçalves (bateria), Pedro Henrique (guitarra) e Paulinha Lencina (baixo) há muito tempo, e quando o Teleporte chegou ao fim, a Cat Arcade nasceu. Com influências como Sonic Youth, Radiohead, The Kills, Siouxsie and the Banshees, Placebo e Pixies, a banda lançou o single e clipe para “Engasgo”, uma das primeiras músicas que criaram juntos. “Em dois ensaios ela ficou pronta”, conta Fábio. “É como um desabafo…”, explica Nina. “Escrevi num momento da minha vida de libertação, um grito necessário nestes tempos obscuros, que querem nos calar, principalmente nós mulheres. Falo sempre nos shows que não devemos nos calar”. Agora, o quarteto está compondo músicas sem parar e a cada novo ensaio, trazem novas obras, como “Quente”, “Relatos” e “Amarras”, que podem ser conferidas na apresentação da banda no programa Radar, da TVE. Conversei com o quarteto sobre o single, as músicas que estão em produção e seus próximos passos:

– Como foi o começo da banda?

Nina: Nós somos amigos e nos conhecemos faz tempo. Eu já tinha vontade de fazer um projeto com eles, até incomodava a Paulinha (risos). Mas eles tinham uma banda, a Teleporte, e estavam mergulhados neste projeto. Aí a banda encerrou seu ciclo e a Paulinha me convidou pra montarmos essa banda. Isso foi por volta de setembro do ano passado.

Fábio: Eu, Paula e Pedro tocávamos na Teleporte, a banda acabou e Nina já tinha falado com a Paula e queria montar um projeto com o restante da banda.

Nina: Marcamos um ensaio e rolou bem natural.

Fábio: Caiu como uma luva.

Nina: Já no primeiro ensaio já surgiu o esqueleto de sons como a música “Engasgo”, foi tudo rápido. Já marcamos um dia pra gravar no Trilha Hub Cultural e gravamos dois sons num único dia. Lançamos a “Engasgo” como single.

– Me contem um pouco sobre os sons que já estão prontos, especialmente “Engasgo”, que virou clipe.

Nina: Temos 4 sons prontos no momento. “Engasgo” saiu de forma bem natural, Pedro trouxe uma idéia, se não me engano…

Fábio: Em dois ensaios ela ficou pronta.

Nina: Tocamos no ensaio, coloquei uma linha de voz primeiro e depois veio a letra. Um som que saiu como um grito Engasgado mesmo!

Fábio: Pedro venho com o riff…

Nina: …Nos deu uma idéia que tava fluindo. A batera deixei ela definitiva no dia da gravação

Nina: Isso… acertamos detalhes no dia da gravação, que foi feita pelo selo Estrondo Records com produção do Jefferson Marchetto e o Rodrigo Rysdyk. Foi tão revigorante que no final do dia estávamos ouvindo e dançando dentro do Trilha!

Fábio: Foi muito gratificante o final da gravação, fiquei bem feliz com o resultado.

Nina: Foi uma experiência gratificante pra mim, visto que eu não tinha banda e não gravava fazia anos!

– Do que fala “Engasgo”?

Nina: “Engasgo” é como um desabafo… Algo que não quer calar… Escrevi num momento da minha vida de libertação, um grito necessário nestes tempos obscuros, que querem nos calar, principalmente nós mulheres. Falo sempre nos shows que não devemos nos calar. Como diz a letra, “esse engasgo nunca mais”. A letra saiu de primeira… Espontâneo… Quase visceral.

Fábio: É forte, uma mensagem bem explícita. Creio que nunca sairá do repertório!

Nina: Nós mulheres muitas vezes temos que nos explicar… Somos testadas e julgadas o temo inteiro. A música fala bem isso.

– Quem vocês citariam como influências de cada membro para o som da banda?

Nina: Eu tenho muitas influências. Na música sempre escutei muitas bandas diferentes, muitas bandas com vocal feminino. Posso citar algumas que me inspiram, como Siouxsie and the Banshees, Blondie, L7, Savages, The Cranberries, Hole

Fábio: Eu também sempre escutei muita coisa, e vocal feminino eu sempre curti. Curto ficar catando banda. Mas uma que curti muito e foi apresentada pelo Pedro foi Royal Thunder.

Nina: São tantas que eu esqueci certamente… Com letras que acho que me inspiram em nosso cotidiano… conflitos internos… desabafos…

Fábio: Bad Honeys daqui de Porto Alegre, The Reputation, The Cramberries, Oldsoul e etc

Nina: Tenho escutado e conhecido muitas bandas locais e brasileiras também que tem me inspirado…

Paulinha: Eu ouço muita coisa, mas referente ao som da Cat Arcade, Placebo, Yeah Yeah Yeahs, Joy Division

Nina: Sim! Como a Paulinha disse, também Yeah Yeah Yeahs, The Kills

Pedro: Eu escuto muito Radiohead, Joy Division. Me inspiro também nas guitarras do Strokes e The Hives. Nacional eu tenho ouvido bastante Violet Soda.

Fábio: Brvnks!

Nina: Nacional eu tenho escutado The Murder Ballads Club, de Porto Alegre. Lo Que Te Voy a Dicir da região da grande Porto Alegre também. Tem várias bandas… Difícil até citar.

Fábio: The CompletersLupe de Lupe, Jair Naves

Nina: Difícil…vamos esquecer várias…Parei por aqui (risos)!

– E de onde saiu o nome “Cat Arcade”?

Paulinha: Um nome que surgiu como opção e a gente curtiu, literalmente isso. Banda que ama gatos, Nina tinha um programa de rádio chamado Cat Lady, então meio que influenciou!

Fábio: Todos gateiros (risos)!

Nina: Acho que é isso mesmo. Sonoramente soa bem. Mesmo sendo em inglês, algo que não queríamos à princípio, pois as letras são em português… Mas foi unânime e assim ficou. Todos temos gatos… Teve até um lance que a Paula me relatou, que teve um sonho no qual aparecia escrito Cat Lady. Ela pode relatar melhor.

Paulinha: Sim, na época que estávamos formando a banda, sonhei com uma reunião nossa é um símbolo do programa Cat Lady, onde tinha um gato, apareceu em nossa frente, então o “cat” sempre fez parte das nossas opções.

– Mas voltando a uma pergunta ali do começo da conversa: contem mais sobre os outros três sons que vocês já têm na manga!

Nina: Os outros sons tem cada um sua vibe. “Relatos” é um som com a letra da Paula. Gravamos ele também, mas estamos ainda em processo de acrescentar uns “temperos” e é mais “introspectivo” do que a “Engasgo”. “Quente”, com letra minha, já entra uma pitada de sintetizador. “Amarras”, que também coloquei a letra, não lembro como surgiu, mas acho que foi idéias que o Pedro levou. A gente tocou num ensaio, acrescentando algo de cada um compondo. Veio linha de voz, depois letra também. Todos saíram bem naturais. Cada uma com sua “pegada”.

– E esses sons vão fazer parte de um EP ou álbum?

Nina: Essa é a ideia. Pretendemos gravar e lançar ainda esse ano. Talvez entre outros sons também, que estamos em fase de compor…Ainda não definimos quantos sons irão entrar.

Fábio: Mas agora queremos voltar ao foco de compor mais sons.

– Como vocês definiriam o som da Cat Arcade para alguém que nunca ouviu?

Nina: Pra mim é bem difícil definir. Não gosto muito de rótulos ou limitar. Cada um faz uma “leitura” dos sons.

Fábio: Mas acho que quem escuta e olha e gosta do que sentiu, seja pela energia, eu gosto muito disso em uma banda.

Paulinha: Eu acho nosso som criativo. Não temos um padrão, mesmo com as influências. Esse é o tipo de som que gostamos de ouvir e finalmente tenho o prazer em fazer. Gostava da minha banda anterior, mas sempre senti falta da essência do que realmente gostava de ouvir.

– Falando nisso, o que vocês acham desta nova era em que os estilos estão se fundindo e uma categoria musical já não diz muita coisa?

Paulinha: Podem haver comparações com banda x ou y, mas nunca compusemos pensando nisso.

Fábio: Eu acho que devem se fundir, tem muitos estilos de música quer naturalmente trazem uma mensagem muito forte.

Nina: Quanto à pergunta, eu gosto da idéia da mistura, dessa fusão musical… Não dá pra se prender à estilos…o processo criativo é lindo.

Paulinha: Eu acho ótimo, principalmente relativo ao rock, que na maioria das vezes viveu dentro de uma bolha e não aproveitou elementos de outras sonoridades, geralmente por puro preconceito.

Pedro: Acho que essa evolução faz bem, rótulos são limitações. Se um som te agrada, porque não ouvir? Ou porque não colocar esses elementos na tua música?

Nina: Quanto mais sonoridades vierem, acho que só enriquece.

Fábio: Até trilha de jogo eu pego influência.

Nina: Jogo de videogame, Fábio?

Fábio: Sim, eu adoro!

Nina: Olha o Arcade aí (risos). Música é música… O importante é o que nos toca.

– Tá explicado o Arcade! Quais os próximos planos da banda em 2020?

Nina: Acho que principalmente focar em compor. Foi acontecendo tudo tão rápido e precisamos de mais sons.

Paulinha: Compor músicas novas, alinhar as que estão em andamento e gravar. Queremos shows, mas estamos indo com calma ainda.

Fábio: Fazer som, tocar e gravar. A ordem é mais ou menos essa.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Paulinha: Nossa, muita gente. Hermano Chiapas, Cactus Flor, Cor do Invisível, Lo Que Te Voy a Decir, The Completers. Me ajudem!

Nina: Crime Caqui, Família Estranha, Ziggy Ama Tom, The Murder Ballads Club, Hermano Chipas, I.C.H….

Fábio: Bom, há um tempo atras eu descobri um cantor e compositor baiano Giovani Cidreira, descobri através do álbum “Japanese Food”.

Nina: Gente são tantas… sinto que serei injusta (risos). E que bom que são tantas… que venham muitas mais!

Fábio: Saudades eternas da Mondo Calado.

Nina: Chega nessas horas eu esqueço tudo! (risos) Mas somos felizes em estar rodeados de bandas parceiras… uma cena fervilhante essa do underground. Não estão na grande “mídia”, mas sabemos e vivemos isso. Eventos com muitas bandas, cada vez mais… Acho isso lindo. É o fortalecimento do underground. Se faz necessário e é lindo!