A raiz da questão: Buddy Holly & The Crickets – The “Chirping” Crickets (1957)

Ele está impregnado em nossas vidas desde que apareceu. A gente pode nem sempre notar sua presença, mas quando escutamos maneirismos no vocal de algum cantor ou cantora ocidental lá está Buddy Holly, fazendo escola com seu modo soluçado de apimentar e uma canção. Quando alguém empenha a função de frontman e guitarrista, lá está ele também, indiretamente evocado. Quando você observa as vitrines das lojas de instrumentos musicais e se depara quase que fatalmente com uma guitarra Stratocaster, lá está ele também, homenageado de modo subliminar. Ou então se você tem esse visual meio desajustado e nerd e acha que tem algo a dizer por meio das suas canções, é muito provável que seu cérebro esbarrou em algum momento nesse sujeito.

Bastou um ano e meio para que o texano Buddy Holly se tornasse um dos maiores compositores da história da música do século XX. Tratando-se de rock, talvez tal feito tenha se repetido apenas uma vez, com o surgimento dos Sex Pistols duas décadas depois.

Buddy Holly também foi um dos pioneiros no uso de técnicas de gravação alternativas, como a dobra de vocal, palhetadas em primeiro plano e uso controlado de reverb (vide como o efeito entra e sai da bateria em “Peggy Sue”). Outra coisa bastante notável é que ele ia um pouco além da fórmula do blues, ou seja, às vezes inseria um acorde inusitado na música que acabava fazendo toda diferença.

Enfim, pensando nisso vamos falar do único e sensacional álbum de Buddy Holly & The Crickets: “The “Chirping” Crickets”. Lançado em novembro de 1957, esse monumento do rock é uma espécie de síntese do que esse gênero significa. “The “Chirping” Crickets” está para a música pop como A Primeira Noite de Um Homem” (1967) está para a Nova Hollywood. Assim como o filme, tudo o que você precisa saber para entender o contexto está lá muito bem inserido. Alguém pode argumentar dizendo que o rock mudou muito, a ponto de bandas muitas vezes não terem nenhum traço dos pioneiros… Olha, sem caras como Holly, Sigur Rós não existiria nem em pensamento, pois não teria My Bloody Valentine, que por sua vez não teria assimilado Brian Eno, que por sua vez não passaria por Velvet Underground, tampouco por Bob Dylan, que por sua vez não seria quem foi sem Buddy Holly.

Algo como “Oh Boy!” vai muito além do simples sentimento de juventude. Isso é uma afirmação artística até então quase inédita, de modo que chega a soar surpreendentemente estarrecedor, se levarmos em consideração o contexto da época. Aí temos um jovem falando de algo do seu convívio para uma infinidade de jovens. Lembrem-se: antes do rock, ser menor de idade era o mesmo que não ter voz. Quanto a música pode estar atrelada a essa conquista?

Considerando a sonoridade apenas, o álbum é um trabalho incrível de ponta a ponta. “That’Il Be The Day” é um verdadeiro standard do século XX. A guitarra magra de Buddy Holly, combinada com seus vocais expressivos dão um ar cool um pouco diferente de Chuck Berry, por exemplo. Enquanto Berry investia numa sonoridade mais erótica e selvagem, Holly tinha mostrava o rock ‘n’ roll básico com uma sofisticação irresistível.

As baladas também ganham lugar de destaque, como é o caso de “An Empty Cup”, que além de mostrar o cativante feeling vocal de Holly, também indica o bom guitarrista imortalizado como o primeiro herói munido de uma Fender Stratocaster.

Todos sabem que ele foi uma das principais influências dos Beatles, e ouvindo “Maybe Baby” é fácil saber o motivo. A faixa poderia estar em qualquer disco da fase engravatada do quarteto de Liverpool. Os Stones também beberam muito dessa fonte, tanto que “Not Fade Away” foi escolhida para ser um dos primeiros singles do grupo, sendo executada ao vivo até hoje. E aqui no álbum dos Crickets a canção não tem a mesma malícia dos ingleses, mas brilha com o vocal soluçado e o clima despretensioso.

O curioso em Buddy Holly é que seu som não é tão vibrante como Little Richard, por exemplo, mas em “Rock Me My Baby” tem muito do espírito daquelas festas de salão dos anos 1950. Aliás, é uma faixa meio Elvis Presley.

“The “Chirping” Crickets” é de certa forma bastante diversificado. Seu resultado é uma salada de country com r&b e blues muito bem estruturada. Se você curte sons antigos é quase certo que vai querer repetir tudo de novo e de novo e de novo… Esse cara tem carisma! Queria voltar no tempo e escutar tudo isso pela primeira vez. Imagina?

Após sua saída dos Crickets, Buddy ainda faria mais um disco solo, igualmente excelente e ainda mais sofisticado e pop, porém um acidente de avião tiraria sua vida aos 22 anos. Mas o “estrago” já estava feito: a música jamais seria a mesma.


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