A one man band Eu Quero Ser David Peel quer distância de panelinhas: “Que se foda a cena”

A one man band Eu Quero Ser David Peel quer distância de panelinhas: “Que se foda a cena”

4 de junho de 2019 0 Por João Pedro Ramos

David Peel era dono de uma música crua, um “street rock” acústico com letras sobre maconha e críticas à polícia, totalmente calcado nos valores DIY (“Do-It-Yourself”, tendo tocado com artistas como B. B. King e Plastic Ono Band. John Lennon e sua esposa Yoko Ono inclusive produziram “The Pope Smokes Dope”, o terceiro álbum dele, que também foi fundador da Orange Records, lançando milhares de artistas independentes como G.G. Allin & The Jabbers e Mozarts People. Mas não é de David Peel que falaremos hoje, e sim do projeto Eu Quero Ser David Peel, uma one man band misteriosa com um multi-instrumentista paulistano que calca seus sons no DIY de Peel e já lançou quatro sons de maneira totalmente independente, registrando-os em sua própria sala de estar. A inspiração é o rock alternativo dos anos 90, mas segundo o próprio, as próximas músicas podem ir na direção que sua cabeça bem entender, já que a base deste projeto é a liberdade criativa e a fuga de panelinhas e convenções da cena musical independente. Conversei com ele sobre o projeto e o futuro EP com quatro músicas que vem por aí:

– Como o projeto começou?

O ideia começou há uns 4 anos, quando comecei a estudar e pesquisar como gravar música em casa com uma qualidade legal. Após um tempo comecei a gravar algumas coisas, em algo que eu chamava de “uma música por mês”. Eram músicas que ia compondo durante a própria gravação. A ideia original do EQSDP era nem lançar nada na internet, ia ser algo apenas para os amigos. Então eles me convenceram a colocar na rede (risos) e eu resolvi lançar duas demos (“Meu Amor” e “Q_mexp”), músicas que compus e gravei em um dia. Depois lancei uma faixa em parceria com o Felipe Ricotta chamada “Dylan’s Birthday” – Tudo isso no Bandcamp. Então esse mês resolvi lançar o primeiro single oficial, chamado “Paper & Scissor”, que está no Spotify, Deezer e outras redes. O projeto é algo totalmente despretensioso. Vou gravar umas músicas em português, em inglês, e no que mais der na telha. Não tenho ideia para onde isso vai.

– E continua usando esse método “freestyle” de composição ou agora está dando mais tempo para criar as músicas?

Eu realmente não sei. Talvez. Eu tenho algumas ideias na cabeça e pretendo lançar um EP com 4 músicas até o fim do ano. Tenho algumas ideias concretas, mas provavelmente vou compor conforme for gravando e ver o que funciona.

– Você faz as gravações sempre sozinho ou já contou com colaborações?

Eu sempre gravei tudo sozinho, tocando os instrumentos e montando as músicas. A única parceria que tive foi com o Ricotta. Ele teve a ideia do som, passou uma base, eu acrescentei umas coisas e fiz os arranjos. Gravei tudo e depois, com ele aqui em casa, colocamos as vozes.

– Quais as principais influências musicais que você apontaria nesse projeto?

Rock alternativo dos anos 90. Mas terão coisas, mais pra frente, tipo Neil Young e afins…Não vou me prender a subgênero algum. Gosto muito de voz, violão e piano. Gosto de melodias simples. Depende do dia, do humor.

– Ou seja: pode ir do hardcore ao shoegaze passando pelo classic rock e o pós punk sem nenhum medo de ser feliz.

Pode. Eu quero fazer algo que me ajude a ter um bom dia, uma boa semana, espante os demónios e que me distraia de toda a porcaria que as vezes no cerca. Então se me fizer feliz gravar 5 minutos de noise, assim será.
Mas, acho que sempre ficará mais próximo do rock independente da década de 90…

– Aliás, me conta um pouco mais sobre as músicas que você já lançou.

Lancei apenas 4 músicas, mas tenho bastante material aqui. São músicas pessoais, duas delas são dedicadas e pessoas próximas que gosto muito (“Meu Amor” e “Q_mexp”), a “Dylan’s Birthday” foi escrita pelo Ricotta e é para o filho de um amigo nosso e “Paper & Scissor” nasceu de uma brincadeira que eu fiz quando lembrei de um refrão que eu tinha composto por volta de 1995. Gravei a melodia dela com a boca no celular, pra não esquecer…depois passei para a guitarra. Gravei ela muito rápido e escrevi a letra confirme fui gravar as vozes.

– E já tem coisa nova sendo trabalhada?

Sim. As 4 músicas que vou lançar no EP serão novas. As coisas que tenho aqui gravadas vou lançar mais pra frente. Algumas em versão demo mesmo, outras sairão um dia em algum disco. Serão duas músicas em português e duas em inglês, sendo uma delas para minha filha mais nova. A música levará o nome dela, “Estela”. Ela já está toda gravada, só faltam os vocais. É a típica musica que eu gosto. Começa com piano e arranjos, colagens da voz dela. Na metade fica barulhenta e acaba calma. Tipo a personalidade dela. Terá uma musica que será apenas piano violão e voz… Vou regravar uma música antiga, mas inédita e compor algo pra fechar. A coisa tá adiantada.

– Você pretende fazer shows ou é um trabalho realmente criado da sala de casa direto para os ouvidos de quem dá o play?

A principio não pretendo fazer shows. Não tenho saco pra montar banda, conviver com a galera do meio. Só não digo que jamais farei porque eu posso ficar com vontade um dia.

– Como você disse que não tem saco para essa interação com gente desse meio, pergunto: como você vê a cena independente hoje em dia?

Hoje e sempre, é uma bosta. É panela, é ter que ficar amigo de gente estúpida, é viver de ego e bajulação, fingir que é algo e acreditar na mentira que é a sua própria imagem. Por isso quero uma banda sem banda. Ser um músico para as minhas músicas, sem me importar com qualquer feedback. Que se foda a cena.

– Você acha que esse é um dos motivos do rock ter diminuído tanto na preferência dos jovens? Quais fatores levaram o rap, o pop e o funk a serem os novos preferidos da juventude?

Não. Eu vejo hoje o funk e o rap muito mais reais do que a atitude blasé do rock. A molecada se identifica, seja qual for a realidade em que ela está inserida, seja qual for a mensagem. A contracultura está ai. É foda generalizar e não quero que soe assim, pq tem gente bacana no rock, mas o que eu vejo é isso.

– Quem você diria que são nomes bacanas no rock atual?

Eu gosto do Jair Naves. De cabeça é meu preferido por aqui Na gringa tudo que não lembre a falsidade do Foo Fighters e Imagine Dragons já fica bonito. Graças a Deus sempre sai algo novo do Interpol.

– Ah, esqueci de perguntar: de onde surgiu o nome do projeto?

Eu amo o David Peel, a história dele, as músicas. Eu gosto do ar despretensioso dele, das gravações…Essa coisa punk dele. O nome é retirado de um refrão de uma música que escrevi. É uma homenagem, mas também uma piada.