A música no nosso admirável mundo novo pós-moderno

A música no nosso admirável mundo novo pós-moderno

16 de outubro de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Livro lançado originalmente em 1932, é uma ficção científica que trata de uma sociedade tecnologicamente bem avançada, mas em ruínas, sem o sentimento de humanidade.

Imaginem, usem a imaginação, essa potencialidade tão bem utilizada pelos grandes artistas que fazem dela instrumento para criar essas coisas tão preciosas que  a gente chama de música; imaginem que eu estou lançando meu primeiro disco e que no encarte dele tem esse pequeno texto sobre o nosso tempo:

O escritor e pensador italiano Umberto Eco tem alguma razão quando diz que a internet deu voz aos imbecis – ele declarou isso em 2015, durante o recebimento do título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália. Isso diz bem do nosso tempo contemporâneo – um pleonasmo proposital -, tempo esse que conhecemos como pós-mod(erno) – e quem não é pós-mod(erno) tá fora de moda!, é o que pensam as novas cabeças pensantes por aí. Hoje em dia todo mundo tem uma opinião sobre tudo. O fenômeno da globalização nos permitiu tem acesso a uma enxurrada de informações a todo momento. Ficamos mal acostumados, achando que só porque lemos por alguns segundos sobre um assunto, já somos PhD, habilitados, especialistas naquele assunto. E eu não tiro meu corpo disso. Esse que vos escreve sente-se incluído naquilo que critica. Mas voltemos. O que eu dizia é que hoje em dia as universidades presenciais não servem mais pra nada. Não formam ninguém. Hoje temos a internet, nossa faculdade do mundo pós-moderno. Hoje qualquer um pode se tornar um filósofo. Encontramos pelas redes pessoas especialistas em sociologia, especialistas em pedagogia, especialistas em economia, em análise política. Leram os clássicos? Certamente utilizam os clássicos para apoiar a mesa defeituosa onde eles colocam o computador. Hoje todo mundo pode ter um canal no YouTube, um blog, uma fanpage – que é o nosso fanzine contemporâneo. Isso é ruim? Não, isso é democrático, enfi conseguimos atingir em pequena escala aquilo que os pensadores iluministas pretendiam no século XVIII com a Enciclopédia. A Enciclopédia deles foi a precursora disso que a gente usa pra se informar – o google. Hoje somos iluminados quase que 24 horas por dia pela luz do conhecimento. ERRO 404. ERRO 404Pera aí, deixa eu corrigir, vou escrever a forma certa: Hoje somos iluminados quase que 24 horas por dia pela luz do conhecimento? Não. Hoje somos iluminados quase que 24 horas por dia pela luz de um celular nas nossas mãos ou pela luz de um computador. Temos a informação na palma da mão, num click! Isso nos faz achar que somos especialistas em arte, pra dizer e desdizer o que é e o que não é arte. Hoje temos os imbecis, dos quais Umberto Eco nos falou, online quase que 24 horas por dia. O imbecil, antes, falava as suas besterias fascistas numa roda de bar, era ignorado, morria no canto do bar solitariamente, na sua punheta mental. Nos nossos dias pós-modernos, o imbecil cria um perfil em qualquer rede social e joga a merda no ventilador. São os haters – os raivosos, disseminadores de ódio, traduzindo vagabundamente do inglês. Hoje qualquer um se acha melhor que um Chico Buarque, qualquer um problematiza as suas canções e o condena de machista; hoje qualquer um pode atacar o Ney Matogrosso e dizer que ele está defasado e não representa ninguém; hoje qualquer um, que não passa de unzinho qualquer, se acha melhor que uma Elis Regina, que uma Bethânia, que um Tom Jobim. E quem é que ouve Tom Jobim? Ser patriota é ouvir o “Urubu” do Jobim, “Falso Brilhante” da Elis, é ouvir o “Fa-Tal” da Gal, ouvir “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, ouvir “Cinema Transcendental” do Caê, entre outros sons muito novos que muita gente boa tá fazendo atualmente. Esse texto nasceu de uma necessidade de dizer que os nossos clássicos merecem respeito. É como diz o físico inglês Isaac Newton: “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”.

Fim do texto de encarte do meu primeiro disco.

Fiquem agora com um trecho da versão de “Cambalache” do nosso baiano filosófico Raul Seixas, versão de 1987, mas que parece ter sido escrita amanhã:

“Hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor
Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador
Tudo é igual, nada é melhor
É o mesmo um burro que um bom professor”.