A música de antes é melhor que a música de hoje?

A música de antes é melhor que a música de hoje?

14 de janeiro de 2019 2 Por Matheus Caio Queiroz

Não é difícil ouvir alguém reclamar em alto e bom som, de boca cheia, que “na minha época é que existia música de verdade, música boa, hoje em dia é só porcaria”. Como vivemos num contínuo processo de passagens de uma geração à outra geração, é bastante comum a anterior reclamar da próxima, acusando-a de geração perdida, sem futuro… e de outros xingamentos mais pra baixo. Mas, pensemos um pouco: será mesmo que a música de antes é melhor que a música feita nos dias de hoje?

Muitos caem na ilusão do ego de medir a qualidade de uma música a partir do seu próprio gosto, ou seja, usam a sua forma de apreciar uma obra de arte para decidir o que é música boa e o que é música ruim. Isso é um grande equívoco, porque tal julgamento acaba por se limitar à subjetividade, se resumindo a fatores individuais, ao modo como eu vejo o mundo, o que torna a crítica superficial e sem nenhuma objetividade. Em outras palavras, quando o discurso tem como critério o gosto pessoal, o meu gosto, o julgamento perde o valor e a crítica deixa de ser honesta. Não devemos impor aos demais o modo como nós enxergamos e sentimos o mundo, não devemos ter o nosso gosto individual como o padrão universal para todo tipo de apreciação estética. Isso não significa em nenhum momento que estamos proibidos de emitir a nossa opinião do que gostamos e do que desgostamos de ouvir, mas que não devemos fazer da nossa opinião individual a verdade absoluta. Portanto, seria um erro responder se a música de antes é melhor que a música feita nos dias de hoje tendo como base o gosto pessoal.

A princípio, levando em consideração a importância que carrega a pergunta inicial do texto, precisamos atentar para o seguinte ponto: uma sociedade está bem alicerçada numa estrutura cultural sonora rica quando existe um equilíbrio musical. O que isso quer dizer? Quer dizer que, se temos uma sociedade que consome em massa apenas alguns tipos restritos de estilos musicais, com pessoas que ouvem repetidamente os mesmos tipos de música todo tempo e em vários lugares, então estamos lidando com uma população culturalmente desequilibrada, o que provoca seres humanos atrofiados e, consequentemente, alienados.

Sou alienado quando enxergo o mundo apenas com um único binóculo e acho que a realidade é somente aquilo, me privo de ter outros olhares, outras perspectivas, outras idéias. Torno-me, por assim dizer, um ser humano pela metade, minúsculo, fácil de ser controlado, agressivamente preconceituoso. E o papel da cultura não é esse. O papel da cultura é desenvolver de forma plena o lado humano do ser. Para isso é preciso que, no que se refere à música, exista um equilíbrio entre os vários e variados tipos de estilos musicais.

O baiano atemporal, mago, filósofo, e – como ele mesmo dizia – ator, tão bom ator que todos acreditam que era cantor, Raul Seixas, numa entrevista feita por seu parceiro musical Marcelo Nova, concedida à rádio Globo FM em outubro de 1988, afirma que “a música é o espelho social de uma época”.

Isso quer dizer que a música produzida num determinado tempo reflete a cultura, o nível estético, e o modo de ser de um povo. Quando Raul lança esse aforismo à la Nietzsche, ele está preocupado com a música produzida na época.

Dos anos 70, década em que Raul Seixas inicia sua carreira profissional como artista, para cá, anos 2000, percebemos uma enorme mudança no cenário musical. Não podemos deixar de considerar que a tecnologia, de nível eletrônico e digital, em todos esses anos, avançou de maneira monstruosa, invadindo o cotidiano, as relações e os detalhes da vida de cada pessoa. Criamos o computador, a internet, as redes sociais, os aplicativos. Passamos a viver numa sociedade muito mais industrial, mais tecnológica, mais eletrônica e digital, mais dinâmica, mais rápida, ferozmente veloz, com indivíduos que se entediam com muito mais facilidade, que fazem mil atividades ao mesmo tempo: ouvem música ao mesmo tempo em que pesquisam futilidades na internet, ao mesmo tempo em que estão conversando com mil pessoas virtuais. Isso provocou uma mudança no nosso modo de ser no mundo e, principalmente, no nosso modo de ouvir música. Uma música para pensar dá muito mais trabalho que uma música feita para os pés, dançante, porque mexer o corpo é mais fácil que queimar alguns neurônios.

Sabendo disso, a Indústria Fonográfica, responsável por produzir música, responsável por contratar bandas, grupos, duplas, cantores, gravar disco e vender isso, passou a dar mais oportunidade para específicos estilos musicais popularmente mais rentáveis em termos de lucro econômico, músicas que não fazem pensar demais, sons chicletes, com refrões fáceis de aprender. Afinal, convenhamos, a Indústria Fonográfica é uma indústria, e o papel de toda indústria, assim como toda empresa, é comercializar, produzir em larga escala, para poder vender, alcançando o lucro. Quanto mais uma empresa torna o seu produto comercializável, logicamente consegue vender mais, atraindo maior clientela, obtendo assim muito mais lucro.

Se a finalidade da Indústria Cultural, por meio dessas empresas do mercado da música, é o lucro, então pode ter certeza que ela não está nada preocupada com a qualidade estética da música que produz. É uma equação muito fácil de ser entendida. A Indústria monopoliza alguns poucos estilos musicais, produz em larga escala esse tipo de música plástica, descartável, com prazo de validade, fazendo com que o valor estético se dilua, deixando a qualidade de lado e passando a ser apenas um produto quantitativo, massificando esse tipo de fórmula musical que, tragicamente, acaba caindo no gosto popular, sendo consumido interminavelmente até se desgastar e sair de moda, para depois dar lugar a outras e outras modas lucrativas. A Indústria monopoliza um tipo de música instantânea e causa com isso o desequilíbrio cultural sonoro da sociedade. No fim das contas, a Indústria embolsa seu tão almejado lucro com a sua fórmula de sucesso.

Retornando ao questionamento feito no início do texto – a música de antes é melhor que a música feita nos dias de hoje? –, respondo basicamente de duas maneiras:

Analisando o que a Indústria Fonográfica tem produzido dos anos 70 para cá, aí sim, podemos dizer em alto e bom som que com certeza esse mercado da música não produziu nada mais de interessante. Muitos afirmam ainda que a década de oitenta foi o último suspiro da música, dos anos noventa para cá tudo vem se degenerando. A Indústria se vendeu para o desejo de lucrar e lucrar cada vez mais, comprometendo a qualidade do seu produto. Quando você se limita a analisar as músicas que são produzidas pela Indústria, é óbvio que a única conclusão que se pode chegar é que a música de hoje não tem tanta qualidade como décadas passadas.

Não podemos ter como base somente aquilo que a Indústria Fonográfica nos fornece. Isso seria admitir que somos escravos da mídia, da televisão, do rádio, das propagandas, reféns do marketing desse tipo de mercado. Dizer que antigamente a música era melhor que a produzida nos dias de hoje é dar seu próprio diagnóstico de limitado somente àquilo que a Indústria produz, porque isso demonstra que você não conhece nada além do que a mídia oferece.

Agora, se você tenta se libertar das correntes da mídia, você consegue ter uma visão mais ampla da produção musical atual e percebe que existe sim muito material bom sendo produzido, muito conteúdo de qualidade, com bandas que primam pela qualidade estética do seu som, muito artista que prioriza o qualitativo e não o quantitativo. Mas tudo isso está sendo feito fora da mídia, produzido muitas vezes de maneira independente. Existe muita coisa nova por aí, é preciso que corramos atrás. É nesse sentido que a internet pode ser utilizada como um meio muito útil de busca desse cenário novo que surge nos guetos do mainstream.