O desenvolvimento da nova Refavela baiana

O rapper baiano Hiran

Em 1996, Gilberto Gil, no documentário “Tempo Rei”, entra numa grande viagem. O documentário é fantástico e aborda toda a carreira de Gil falando de muitos aspectos importantes de sua carreira e do Brasil. Mas um tópico em especial chama atenção – o da Refavela. Num movimento muito doido, ao lado de Carlinhos Brown são tecidos comentários sobre o que é exatamente a Refavela, que em 1977 foi nome de faixa, que deu nome a disco, no meio da “trilogia Re”. Brown afirma que a Refavela é “refazer o barco, refazer a vela”, regressar no caminho da diáspora, saindo ou não do Brasil. Gil afirma que Brown é a “prova viva” do que ele viu tantos anos antes na Nigéria com Fela Kuti e no Brasil com o “Black Jovem, o Black Rio”. A nova geração de pretos e pretas em “blocos do CNH”, periféricos, que traçavam seus caminhos na música popular.

A Refavela é a diáspora e se faz presente e se renova a todo tempo. Hoje, pretas e pretos do Brasil todo “refazem o barco, refazem a vela”. Quero falar nesse texto sobre a minha Bahia, especificamente. Dentro dela, posso falar de quatro movimentos no presente momento (dentre tantos outros) – o movimento de Luedji Luna, o movimento de Russo Passapusso (Baiana System), o movimento de Hiran e o movimento Attøxxá. Há interseções entre esses quatro movimentos, mas cada um traça caminhos muito próprios e peculiares.

Luedji, há três anos em São Paulo, traça caminhos que dialogam com o que Gil fazia em 77 na Refavela. É a Refavela em sua renovação! O batuque e o ritmo tipicamente africano se faz presente na sua música, mas aliado a um tom moderno e típico da geração em que vivemos – conectado e da era das redes sociais. Luedji, em entrevista ao site Cult.E.T.C, disse que começou a escrever num movimento de busca por expressão, por existência – uma resposta aos racistas de sua escola. A escrita se transformou muito tempo depois em cantoria e os racistas de merda devem se arrepender de terem acordado em Luedji o potencial revolucionário que todo fruto da diáspora carrega consigo. Revolução (também) musical que se faz presente no excepcional disco “Um Corpo no Mundo”, de 2017. A faixa de mesmo nome vai no mais profundo da alma dialogando com a travessia do Atlântico e com São Paulo (“E a palavra amor, cadê?”). Mulher, preta, nordestina e foda demais!

Russo Passapusso, por sua vez, traça dois caminhos distintos. No caminho solo e no Baiana System há interseções, mas os resultados finais são diferentes. Se na carreira solo há a sutileza de “Areia” e “Flor de Plástico” (“Paraíso da Miragem”, 2014), no Baiana System o movimento é outro, contrastando a cidade alta e a cidade baixa, no batidão eletrônico (“Duas Cidades”, 2016). “Autodidata” que fecha o “Paraíso da Miragem” é o que se assemelha mais com Baiana System, mas ao mesmo tempo é muito diferente. São escolhas que seguem caminhos diferentes, mas que guardam uma semelhança: o fato de que a Baiana System e o “Paraíso da Miragem” são sons “brasileirinhos pelo sotaque, mas de língua internacional”. São sons mundiais, globais, mas ao mesmo tempo que não perdem as raízes. É mais uma vez a Refavela em ação!

Não é à toa que está estourando tanto Brasil afora. O som é da mais alta qualidade nos dois projetos. Quem sabe Russo seja o Chico Science de nossa era. O tempo dirá.

Attoxxa segue o caminho do pagodão baiano. O “samba paradoxal” da Refavela e o ritmo moderno da “popa da bunda”. Durante o show, usam como sample de uma das músicas “Feeling Good” de Nina Simone e fazem questão de afirmar isso. Se Márcio Vitor mudou a cena da música baiana no início dos anos 2000, Attoxxa dá outro tom a cena em 2018. Convoca inclusive o próprio Márcio Vitor para fazer essa mudança de tom em conjunto. “Rebolar a Raba” também faz parte da diáspora, afinal, foi o branco europeu que inventou que a ginga africana era pecado. “Rebolar a Raba” também faz parte da revolução antiracista.

Hiran. LGBT e vindo do interior da Bahia traça caminhos belos e ambiciosos. Há duas semanas lançou o clipe de “Tem Mana no Rap” – simplesmente sensacional. Dá pra chamar de um “Abre Alas” dos nossos tempos. No beat dá pra escutar em loop os gritos de “Ilê, Ilê, Ilê, Ilê”. As referências são claras e estão na Bahia e na África (Ilê Aiyê, procure que você vai entender). Lançou na ultima semana o seu primeiro disco e no dia anterior a postagem deste texto foi ao ar o “Cultura Livre” com a sua presença. Hiran grita: “eu não sou pauta pras suas ofensas!” e afirma “baiano pode mudar o Brasil”. Assino embaixo. Não só pode como já está mudando. Desde a invenção do samba, passando pela Refavela até chegar na nossa geração.

A diáspora, a luta, o potencial revolucionário e a excelente qualidade musical são pontos em comum para todos os citados acima.
A renovação sem perder as raízes é regra. Ainda bem.

Confira uma playlist sobre a Refavela baiana:

referências e links extras:

Entrevista com Luedji Luna, cantora baiana que

Assista!

“Tem Mana no Rap” Sim!! Conheça o primeiro álbum do rapper baiano Hiran


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *