A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.


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