Filosophone: A Antropofagia Robótica de Belchior

Filosophone: A Antropofagia Robótica de Belchior

10 de julho de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para que levar a vida assim tão a sério?

Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

(Belchior. Romance de Um Robô Goliardo, 1984)

De geração em geração, sabemos, tudo vai mudando. Aquela velha roupa dá sempre lugar a outra moda. Aqui ou acolá, surge sempre um novo corte de cabelo, um novo jeito de falar (os chamados dialetos e códigos de grupo), surge um novo modo de estar no espaço e no tempo. “O que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”, cantava o jovem Belchior em sua canção “Velha Roupa Colorida”, no seu disco “Alucinação” de 1976. Nos anos setenta, muita coisa apareceu. Em termo de arte, então, ficaríamos o dia todo elencando quanta coisa foi produzida. Uma das décadas mais ricas. Belchior pintou no cenário musical com um disco meio caipira futurista, meio ficção científica nordestina, o disco “Mote e Glosa” de 1974.

Quanto lirismo tem nessa obra! Um disco que fala de máquinas, de hora do almoço, de senhor dono da casa, de juventude toda suja de batom, fala de sofrimento a palo seco. Palo seco, aquele cântico entoado com a garganta seca, com a voz sozinha, sem instrumento musical, é a vida como ela é, a vida como ela é em meio às mudanças industriais. Eu tentaria definir (que pretensão mais vaidosa a minha!) esse disco como um cante à palo seco na cidade grande. E como não pensar na poesia cálida, desnuda de qualquer doçura melodiosa, de João Cabral de Melo Neto:

“Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

Se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

É o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.”

(Trecho de “A palo seco” do livro “Quaderna”, 1960).

Já em 1976, Belchior lança o álbum “Alucinação”. A partir desse trabalho, ele é consagrado na cena musical dos anos setenta. Saudosista? Não, Belchior não era do tipo saudosista, daqueles que se enchem de vaidade e de desgosto pela atualidade para dizerem que “na minha época”, “no meu tempo”. Percebe-se que a apologia ao novo, à mudança, à renovação, é uma constante na sua obra, esse canto sobre a mudança dos tempos. Belchior sempre se reinventa de disco em disco, ele sabia que as coisas tinham um motivo para mudar: “Tudo muda! E com toda razão” (“Rapaz Latino-Americano”, 1976). Isso fez dele um eterno jovem docemente rebelde, amargamente apaixonado pela vida: “Sim, já é outra viagem. E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver” (Coração Selvagem, 1977).

Então, depois de tanta bossa nova, depois de Woodstock, de paz e amor, depois de tanta Tropicália, Clube da Esquina, psicodelia, rock progressivo e pessoal do ceará, chegam os anos oitenta. Eu diria que é a década de prova de fogo para os setentistas. Quem conseguiria sobreviver à enxurrada de BRock que invadia as rádios e gravadoras? Um cenário dominado agora por muitos RPM’s, Legiões Urbanas, Titãs, Engenheiros dos Hawaiis, a televisão sendo invadida pelo rock daqueles moleques. O teste: sobreviver ao modismo oitentista. Muita coisa se perdeu, muita coisa ficou nos anos setenta, muito artista não suportou e não conseguiu atravessar a ponte dos tempos. Mas o rapaz latino-americano vindo se Sobral, no interior do Ceará, com aquele bigodão quase nietzschiano, que tem como filosofia de vida “amar e mudar as coisas me interessa mais”, como um periscópio artístico, observador das novas mídias, consegue entender muito bem o seu novo tempo e em 1984 lança um disco, quase que uma ópera rock, em que mistura ficção científica e nordeste, chamado “Cenas do Próximo Capítulo”.

Eu imagino Belchior discursando para toda a nova geração BRock:

Alô rapaziada! Alô gente fina! Alô moçada!
Eu sei que vocês estão com a vida que pediram a Deus
E ele deu
Muito que bem! Por isso espero tudo de vocês
Mas não confiem em mim: Eu não existo!

Sou apenas um personagem que diz isto
E não me chame irresponsável
Para que levar a vida assim tão a serio?
Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

Ah! Tudo já é outra viagem!
Abra com meu velho canivete seu jovem coração de lata
Entre no barco eletrônico da emoção barata
Vamos, na crista da onda

Dar um balanço cibernético nas horas!
Pulsars, quasars, buracos negros, astros, guerra e paz
Amor nas super-estrelas
Robô goliardo deste tempo
Narro a minha vida começando pelo fim
É bem melhor assim
Vou contar pra vocês a vida que eu inventei pra mim

(Trecho inicial de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco).

Belchior mostra que não deve nada pra ninguém, mostra que sua poesia de coração selvagem continua acesa. A sonoridade do disco guarda a essência nordestina do artista, mas é um nordeste renovado, tecnológico, um apanhado de canções nordestinamente robóticas (ouçam, por exemplo, “Forró no Escuro” do grande Gonzagão, regravada neste disco de 1984 em forma rock star). O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tem um conceito chamado Eterno Retorno, onde – numa explicação bem básica – tudo, na história, se repete, mas de uma maneira renovada, o mesmo evento se apresenta, tempos depois, com uma nova roupagem. Assim é esse disco. Ele não é velho, não é passageiro, não é um disco temporal, ele pode ser ouvido em qualquer época, ele fala de juventude, fala “das deusas que eu amei com as mãos” (“Beijo Molhado”), fala de paixão sem ser antiquado, fala de amor sem ser piegas. É um disco de antropofagia robótica, é como se Belchior fosse um androide, tivesse absorvido toda a cultura dos anos setenta, tivesse transformado-a dentro de si e cuspido, renovada, na década de oitenta.

“É isso aí, rapaziada! É isso aí, gente fina!
Talvez a gente pudesse dizer adeus de outro jeito
Mas eu sou um antropófago urbano
Um canibal delicado na selva da cidade
Mais dia menos dia… Eu como você. E você como eu!
Ora, ora! Sempre houve um lugarzinho a mais para alguém
Debaixo dos meus lençóis”

(Trecho final de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco)

“Cenas do Próximo Capítulo” é como uma novela de ficção científica que assistimos ansiosos querendo descobrir o que vai acontecer nas cenas que se sucedem: será que o mocinho bigodudo continua com aquele gás setentista todo? A resposta vem, dez anos depois, renovada, à maneira de um eterno retorno: “Deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida e nos carrega moço, sem ter visto a vida” (“Hora do Almoço”, 1974). Ou seja, ao invés de se repetir, ao invés de ser uma múmia de si mesmo, Belchior simplesmente foi lá e fez, chegou aos anos oitenta sem perder o lirismo, o talento, a beleza da juventude, sobrevivendo à prova de fogo, se eternizando na memória afetiva de todos nós, pobres mortais, se tornando o nosso bigodudo, o nosso poeta filosófico.