A trilha sonora perfeita para um Halloween sangrento

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Chegou o natal dos trevosos e queremos comemorar! Não importa se você mora em terras tupiniquins e queira chamar de “Dia do Saci”, o importante é colocar sua fantasia, pegar um copo de vinho barato e aproveitar as festinhas com a melhor (e mais mórbida) playlist.
Conversamos com alguns amigos do underground nacional para saber o que escutariam em uma noite de Halloween. O resultado foi assustadoramente bom.

Mesmo com algumas mudanças e intervenções comerciais no decorrer do tempo, a história do Halloween desafia as festas cristãs tradicionais por ter uma origem pagã que não perde suas raízes. Manter viva uma comemoração que fala sobre a morte e exalta figuras demonizadas pela sociedade tem lá sua importância. É no ode ao bizarro e no confronto social sobre o que é considerado “aceitável” que o rock encontra o Halloween. Muitas bandas e artistas homenageiam a data, seja nas composições ou na estética “creepy”. Impossível não mencionar alguns ícones: Alice Cooper com suas apresentações chocantes que influenciaram toda uma geração, Black Sabbath que construiu o conceito da banda inspirado em contos de terror, Misfits que deu origem ao Horror Punk, Rob Zombie que até dirigiu o remake do filme Halloween e King Diamond com seu microfone feito de ossos humanos. Claro que a lista de artistas que bebem dessa fonte é muito maior e, inclusive, merecem uma matéria futuramente.

No Brasil, terra de Zé do Caixão, Mula Sem Cabeça, Toninho do Diabo, Michel Temer e Saci Pererê, temos nossas bandas terrivelmente boas. A coletânea Isto é Horror Punk Brasil reúne bandas brasileiras que falam sem misericórdia sobre cadáveres, sangue e satanás. As bandas de punk rock brazuca tem um sarcasmo único nas composições, coisa que só sabe fazer quem cresceu com medo do homem do saco, no meio da tensão da favela, com presidente vampiro sugando o povo e correndo de bandido portador de peixeira. Rir da desgraça é coisa que brasileiro faz melhor do que ninguém.


E falando em rir da morte e se divertir com a decadência, vamos às indicações de músicas para embalar o Halloween com muito sangue de groselha:

Zumbis do Espaço – “O Mal Imortal” // Amanda Magnino
Começando pela minha indicação, claro! Zumbis do Espaço é punk rock do Brasil e o clipe dessa música tem participação do grande mestre José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Zumbis do Espaço não tem medo de chocar ninguém, fala do capeta, violência e cemitério. Por algum motivo muito bizarro, sempre que eu escuto a banda eu fico de bom humor, então, pra mim, é a trilha sonora ideal pra uma noite de celebração degenerada.

Misfits – “London Dungeon” // Alexandre Cacciatore – O Inimigo

Nekrotério – “Jason” // Joe Porto – Lava Divers
O Joe considera Nekrotério o Misfits do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. E cá pra nós, se alguém sobrevive às loucuras do cerrado, sobrevive a qualquer noite de terror.

Bauhaus “Bela Lugosi’s Dead” // Victor José – Antiprisma
“Classicão. Não vejo nenhuma outra música com apelo tão soturno a ponto de me fazer lembrar sangue, vampiro, lápide, cadáver, caixão, cemitério e noite apenas com poucos compassos de bateria. E o mais estranho é que, se você reparar bem, aquilo é uma bossa nova! Ela é tétrica por inteiro. Aquele riff repetitivo do baixo, a guitarra levemente noise e o vocal afetado dão um ar de hipnose nos quase dez minutos de duração. E mesmo esquecendo dessa coisa dark, dá pra perceber que ali tem uma noção estética absurda. Parabéns aos envolvidos. Além disso “Bela Lugosi’s Dead” é meio que pioneira nessa pegada, tanto que muita gente a considera como “a inauguração do rock gótico”, o que fez com que o Bauhaus se incomodasse um pouco (e com razão). Poxa, Bauhaus é uma banda incrível, vai muito além disso. Enfim, não dá pra pensar em fazer uma festa de Halloween sem essa.”

Carbona – “Eu Acredito em Monstros” // Andrei Martinez – Francisco, El Hombre

Alice In Chains – “Grind” // André Luis Santos “Murça” – Desventura
De acordo com meu querido amigo Murça, o clipe dessa música é o mais mórbido possível.

Itamar Assumpção – “Noite de Terror, Oh Maldição” // Moita Mattos – Porcas Borboletas
Nessa versão o Itamar mistura “Noite de Terror” do Roberto Carlos“Oh Maldição” de Arrigo e Paulo Barnabé. Obviamente a mistura ficou bem bizarra, ou seja, perfeita para uma noite sinistra.

Ministry – “Everyday Is Halloween” / Rafael Lamin – Enema Noise
Não precisa nem falar nada, né?

O Lendário Chucrobillyman – “Macumba For You” // Mauro Fontoura – Muñoz

Sopor Aeternus – “A Strange Thing To Say” // Vitor Marsula – Molodoys
“A escolha já começa com a própria artista, que é, basicamente, uma pessoa que ninguém tem certeza de onde vem, o que é e como é e, pela banda de apoio, que é alegadamente uma hoste de espíritos que ajudam Anna Varney Catandea, a única integrante viva da banda a compor, e do fato da banda só performar para a alma dos mortos. Juntando à temática da música, que é a relação do personagem com o seu único amigo, um assassino da mais alta qualidade e a ponderação e até felicidade em pensar que o mesmo poderia ser quem tiraria sua vida num futuro, tornam ela, para mim, uma ótima música para essa época. Isso sem contar a música em si, que tem uma pegada que vai desde a música barroca até uma sonoridade bem agressiva de forma linda e que te cativa muito. E o clipe da música merece uma atenção também por ser bem creepy e reconfortante, como é essa época do ano.”

The Cramps – “Bikini Girls With Machine Guns” // Marco Paulo Henriques – Uganga
Não podia faltar The Cramps nessa lista, obrigada Marco Paulo!

John Carpenter

– “Escape From New York” // Gabriel Muchon – Poltergat
“Não tem como não falar de John Carpenter quando o assunto é Halloween e música. O cara não só escreveu e dirigiu o primeiro filme da lendária franquia de Michael Myers, mas também criou e produziu a icônica trilha sonora. Recentemente ele lançou um disco “Anthology: Movie Themes 1974-1998″ e conta com vários clássicos, como o “Escape from New York’.”

Drákula – “Cidade Assassina” // Gordon Rise – Light Strucks
Mais uma do horror punk nacional pra nossa lista.

Soundgarden – “Beyond The Wheel” // Lúcia Vulcano – Pata
‘Beyond the Wheel’ é a quarta música do ‘Ultramega Ok’
do Soundgarden e fica entre as músicas 665 e 667. Ou seja… A sonoridade remete a um clima tenso, com um andamento lento e riff bem pesado. A letra fala de uma dinâmica familiar patriarcal, baseada em guerra e lucro. Bem, não há coisa entre o céu e a terra mais assustadora do que isso, certo?”

Marilyn Manson – “The KKK Took My Baby Away” / Amanda Ramalho – Chá das 4 e 20 Músicas / Jovem Pan FM
“Eu ganhei um tributo aos Ramones de uma amiga gótica na minha adolescência, cheia de bandas famosas fazendo versões dos caras, mas essa sempre me impressionou mais. O clima é totalmente macabro. Quando eu penso nessa musica eu canto na versão do Manson, não na dos Ramones. Pra mim ela faz muito mais sentido com ele.”

The Gothic Archies – “Smile! No One Cares How You Feel” // Pedro Serapicos – Serapicos
Stephen Merritt é um dos meus cantores preferidos e um compositor absurdamente prolífico, lúdico e diverso. Mais conhecido por seu trabalho com o The Magnetic Fields (especialmente pelo épico album triplo de 1999 ’69 Love Songs’), Merritt também dá as caras em diversos outros projetos, como o Gothic Archies, definido pelo compositor como um projeto de ‘goth-bubblegum’. As músicas desse projeto tem todas um ‘quê’ fantasmagórico e abordam, com humor ácido, mórbido e inteligente, um lado mais melancólico, dark, visceral e pessimista da existência. Destaque pra canção ‘Smile! No one cares how you feel’; com poesia arrebatadora que aborda a vaidade, egoísmo e dissimulação.”

Black Sabbath – “Black Sabbath” // Mariana Ceriani – Dead Parrot
“Você não precisa entender a letra e nem o próprio título da música pra saber que está falando de algo macabro. Dá pra imaginar toda uma história de terror pelo arranjo inteiro, mas principalmente pelo riff de guitarra principal por si só (habemus Tony Yommi). Não é à toa que é a faixa que tem o mesmo nome do álbum e com a capa mais assustadora das capas.”

Eminem – “3 A.M.” // João Pedro Ramos – Crush em Hi-Fi
“Nessa música do discoRelapse” o rapper fala da perspectiva de um serial killer que questiona sua sanidade. O som tem até referências à “Silêncio dos Inocentes’

White Zombie – “I’m Your Boogieman” // Chris Lopo
“A música é original do KC & The Sunshine Band, mas foi em 1996 que o White Zombie levou o título ao pé da letra e fez um dos clipes mais legais da curta vida da banda. Gravado para a trilha sonora do filmeO Corvo: Cidade dos Anjos”, a música ganhou um vídeo que parece ter saído diretamente de um capítulo da série Os Monstros”. Nele, temos uma banda de monstros tocando pra uma plateia de monstrinhos hiper-empolgados. Os takes com Rob Zombie cantando já se passam na atualidade, com zumbis estilo The Walking Dead” vagando, ao seu redor, dentro de uma jaula, decorada igualzinho àquela melhor festa de Halloween que vai aparecer só pra quem sonhar com o clipe.”

Spidrax – Lenda Urbana // Helder Sampedro – RockALT e Crush em Hi-Fi
A letra macabra da música junto aos riffs


Depois de tantas sugestões discrepantes e sensacionais, montamos uma playlist no Spotify da Crush em Hi-Fi com todas essas indicações e mais algumas outras que colocamos para vocês saírem na rua pedindo doces, com maquiagem duvidosa e fantasia improvisada.

Dê o play e lembre-se sempre de não morder o coleguinha sem autorização, ok?

 

Já escolheu o look do dia?

 

Construindo Stringbreaker and the Stuff Breakers: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o Stringbreaker and the Stuff Breakers, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Led Zeppelin“Communication Breakdown”
Guilherme: Foi a música que me fez querer tocar guitarra, lembro de ouvi-la e travar na frente do rádio. Depois disso, nada mais foi como antes. Se não fosse por “Communication Breakdow”, não estaríamos tendo essa conversa agora.

Jeff Beck“You Know What I Mean”
Guilherme: É a faixa que abre o “Blow by Blow”, uma demonstração de que é possível fazer Rock com balanço, peso, pegada e instrumental! Foi uma paixão a primeira audição e também a influencia definitiva na composição do nosso primeiro álbum.

Rival Sons“Pressure and Time”
Guilherme: Rock’n’Roll à moda dos 70’s com uma mix forte, clara e atual. Sem dúvida uma referencia de como queria que os nossos discos soassem. Linguagem oldschool e gravação contemporânea.

Joe Bonamassa“Slow Train”
Guilherme: O que esse cara faz com a guitarra é coisa de outro mundo! Sem dúvida é uma grande influencia e uma grande inspiração! Além disso, acredito que ele também tem grande importância ao trazer o blues e o blues rock de volta aos holofotes!

Blackberry Smoke“Up In Smoke”
Guilherme: Descobri o Blackberry através da banda onde conheci o Sérgio, Hellbilly Rebels, eles tocavam “Up in Smoke” nos shows e pirava no som. Além da descoberta de uma das bandas que certamente, hoje é uma das minhas favoritas, ainda tem essa coisa de marcar o começo do nosso trabalho juntos.

Hellbilly Rebels“Motor Heart”
Guilherme: Eu produzi o primeiro disco da Hellbilly, banda em que o Sérgio é baterista também. Foi trabalhando nessa música que encontramos uma enorme semelhança de referencias e gostos musicais. Acho que foi por aí que começou a parceira que virou o StringBreaker & the StuffBreakers.

Jimi Hendrix“Little Wing”
Guilherme: Outra aula de guitarra! Tem muito dela no jeito de conduzir as bases do StringBreaker. Aliás, não só no String… Nem precisa procurar bem pra ouvir o estilo do Hendrix conduzir as bases em vários guitarristas, de SRV a John Mayer.

Philip Sayce“Save Me From Myself”
Guilherme: Mais uma referencia de linguagem, fraseado, composição e som de guitarra! Blues Rock da pesada com vibrações dos anos 70! Destaque para o riff principal e para solo!

Camel“Nimrodel – The Procession – The White Rider”
Guilherme: Essa música é uma viagem musical incrível! Trocas de clima, andamentos, timbres e tudo mais. Progressivo de primeira! Estava ouvindo muito Camel na época em que trabalhavamos no “Re-Breaker” e acho que tem um pouco dessa vibe em algumas músicas. “Área 78” representa bem essa influencia.

Led Zeppelin“Bron-Yr-Aur”
Guilherme: Belíssima faixa acústica do “Physical Graffiti”, que é um dos meus discos preferidos do Led Zeppelin. Gosto muito das composições acústicas do Page e de fato elas me influenciaram muito nas faixas “Rainy Afternoon In Gonçalves” do nosso primeiro álbum e tanto em “Freedom Walk” como no “Requiem in F#m” que estão no “Re-Breaker”.

Deep Purple“Burn”
Sérgio: Uma faixa literalmente QUENTE! Ela traz com maestria a sensação da correria e do caos da invasão de uma bruxa numa vila pacífica como se fosse um filme. Vale a pena conferir a versão do California Jam de 1974. Menção mais do que honrosa para a faixa “You Fool no One”, do mesmo álbum “Burn” e presente no mesmo show! Deep Purple foi uma das bandas que quando eu ouvi pela primeira vez sabia que estaria comigo pelo resto da vida. A sensação de “é isso que eu quero” foi imediata e permanece.

Led Zeppelin“Achilles Last Stand”
Sérgio: Essa é música avassaladora, instigante e empolgante da primeira à última nota, e que te deixa órfão quando acaba querendo mais rock. Uma música de 10 minutos que quando você se dá conta acabou e você está boquiaberto se perguntando o que houve. Led é um ponto comum pra nós, definitivamente uma das pedras de fundação do String.

Rush“Tom Sawyer”
Sérgio: Grande faixa da banda canadense! Fazemos inclusive uma homenagem na versão ao vivo da “Travel at the Southern Lands” incluindo o solo de bateria original do Rush. Tem diversas aparições das levadas de condução Peartianas em sons do string, e a clássica virada de caixa na “Rock’n’Roll CAPO”!

The Who“We Won´t Get Fooled Again”
Sérgio: Definir “Pedrada rock”? Está aí, só ouvir! O Who é INTENSO! Tentamos trazer elementos dessa energia em diversas músicas nossas. Destaque para as linhas de baixo que são espetaculares.

Beatles“Strawberry Fields Forever”
Sérgio: Beatles tem bastante coisa muito interessante na carreira inteira, mas esta música é da fase da carreira deles que me soa mais densa e mais interessante. Ela mostra como um acorde triste na progressão muda o clima tão bruscamente que parece que o céu escurece e vai chover na hora.

Pink Floyd“Shine on You Crazy Diamond”
Sérgio: Pink Floyd é uma banda mestre em climas e texturas, e em algumas músicas traz um crescendo do mood mais tranquilo para um rock mais forte, sempre se apoiando em riffs marcantes quando sobe o peso. Este é um elemento genial, que procuramos aproveitar no nosso som também, a exemplo da nossa música “Eventide”.

Styx“One With Everything”
Sérgio: Uma música que está presente em um dos shows que abriu meus horizontes. “Styx Live with the CYO Orchestra” é uma verdadeira aula de rock. O baterista do Styx é o genial Todd Suchermann, autor de um dos melhores métodos de bateria e uma grande influência pra mim.

Kansas“Carry on my Wayward Son”
Sérgio: Uma das primeiras músicas que eu ouvi no universo do rock. Basicamente minha cabeça explodiu com os coros, os hammonds, o solo de guitarra, mudança de ritmo no final, solos, etc. Essa é uma música completa, uma das melhores já gravadas na história do Rock, na minha humilde opinião (junto com “Easy Lover” do Phil Collins, mas estou ficando apertado de músicas (risos)).

Dave Matthews Band“#41”
Sérgio: Apesar dessa banda ser do universo mais country/pop, ela conta com um baterista genial, o grande Carter Beauford, e um ponto chave: o bom gosto. A grande contribuição dele pro meu play é justamente a preocupação com o bom gosto, sem deixar de colocar detalhes muito interessantes nas músicas, mas que não se sobressaiam demasiadamente. Minha filosofia de boa composição é o “fácil de ouvir, bonito de ver e difícil de tocar”, e esse cara é MESTRE nisso! Tem umas coisas bem na linha dele na “Pigeon Turn On” e na música nova “Take 25”.

Queen“Bohemian Rhapsody”
Sérgio: Impossível começar e não terminar. E não cantar junto também! As trocas de partes, mudanças de climas e o modo como a história é contada é surreal. Tentamos fazer isso nas histórias do String como “Railroad Aboosin´” e “Area 78” por exemplo, mas com o agravante de não termos letras.. e nem o Freddie (boa sorte pra gente (risos)).

Caio Moura prepara seu primeiro EP calcado na música negra brasileira, “Coração Balança”

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Caio Moura

O cantor, compositor e dançarino Caio Moura prepara um trabalho que transpira música negra. Com seu timbre característico e voz potente, ele lançará em breve seu primeiro disco, “Coração Balança”, com influências de funk, soul, MPB, samba e rock, tudo com muito balanço e suíngue.

Sua carreira começou como parte do coral da escola onde fazia o ensino fundamental. Após isso, fez o teste para ingressar no Coro Juvenil da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, onde trabalhou o canto erudito e se aprofundou mais na técnica vocal. Entrando na faculdade, montou a banda ZumBlack, misturando música brasileira com diversos outros ritmos.

O disco “Coração Balança” é produzido por João Guilherme, músico, compositor e filho da grande sambista Yara Rocha. O álbum conta com músicas que trazem em seu DNA muitas características do samba rock, samba e black music. Além disso, Caio já está começando a trabalhar em novas músicas, em um novo projeto rebuscando músicas regionais e locais, principalmente da periferia.

– Me fala um pouco mais do seu trabalho que está prestes a sair!

Meu trabalho chama “Coração Balança”, onde nas músicas falo de amor em várias formas, com muito swing que a música negra traz.

– Seu foco é principalmente a música negra? Como você definiria seu som?

Sim, pois a música negra permeia todos outros estilos musicais. Defino meu som como “Música Negra Brasileira” (risos).

– Quais as suas maiores influências musicais?

Minhas maiores influências são o samba, samba rock, soul music, black music internacional e a MPB.
Tenho como referência o Tim Maia, Seu Jorge, Djavan, Pedro Mariano, Michael Jackson, Stevie Wonder, Wilson Simonal, Simoninha, Gregory Porter, Walmir Borges, entre outros.

– E como foi a gravação desse disco?

O processo de gravação de meu disco foi bem moroso. Decidi gravar meu disco em 2014, quando fui passar o Reveillon no Rio. Foi tipo pular as 7 ondas e desejar que acontecesse no ano que estava entrando (risos). Logo quando voltei pra São Paulo, liguei para o João Guilherme, músico cantor, produtor musical e filho da grande sambista paulista Yara Rocha, acertamos todos os detalhes e começamos a produzir. Tive a sorte de ganhar a gravação através de um projeto que a Converse Rubber Tracks tinha aqui em São Paulo no Estúdio Family Mob, do baterista Jean Dolabella, ex baterista do Sepultura. Na Family Mob, pude fazer a captação das bases do meu disco. A captação das vozes foi feita no estúdio AMG do Marcelo Rodrigues, a mixagem e masterização também.

– E como foi o processo de composição dele?

O processo de composição dele foi através de parcerias com amigos que tive no passado, com o próprio produtor do meu disco e algumas canções que tinha com bandas que pertenci ao longo da minha carreira.

Caio Moura

– E como você começou sua carreira?

Comecei com 11 anos de idade, no Coral da Escola Marcílio Dias com a professora Léa Gomes Moratelli, escola onde fiz meu ensino fundamental. Devo minha vida artística a esta professora. Logo quando saí do ensino fundamental, pensei em parar de cantar pois via apenas como um hobby, mas meses depois minha tia me avisou sobre um teste que haveria no Coro Juvenil da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Me inscrevi, fiz o teste, passei e aí sim tive a certeza que queria ser cantor. Passei dois anos no coro e sair por conta que tinha que trabalhar , já tinha alcançado a maior idade. Nesse meio tempo entrei para um coral gospel chamado Projeto Afirma, foi quando me apresentaram a black music norte americana, a partir dali que pude firmar a minha característica de canto que utilizo. Fiquei dois anos no gospel e saí por questões ideológicas e de crenças. Anos depois, ingressei na Universidade Zumbi dos Palmares e já no primeiro ano, formei a Banda ZumBlack, com Fábricio Máximo e Moacyr Garrido, tocamos muita música preta naquela época e me ajudou bastante a definir meu estilo. Nesse tempo também fiz parte do coral da universidade. Junto com esse período universitário, comecei a trabalhar na Escola Técnica de Artes e aí foi um divisor de águas na minha vida pois conheci muita gente que contribuiu e contribui no meu trabalho até hoje. Me formei em Técnico em Canto na escola e partir daí comecei a dar andamento ao meu trabalho solo.

– Como você vê a cena independente?

Eu vejo a cena independente muito rica e com uma grande diversidade, tem muita coisa boa na rua mas acho que a galera devia ter um cuidado maior com os trabalhos apresentado.

– Quais os seus próximos passos musicalmente?

Em breve lançarei um single do disco e um clipe, o lançamento oficial do disco seria em dezembro mas vou lançar em março de 2018.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Camila Brasil, Jota Pê, Indy Naíse, Luedji Luna, Nina Oliveira, James Bantu, Ursso e Bruna Black.

The Weeknd pegou emprestado o please please dos Smiths em “Enemy” (2012)

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Amanhã Johnny Marr, ex-guitarrista do The Smiths, está de aniversário. A banda inglesa é uma das mais influentes dos anos 80, apresentou Morrissey para o mundo, e já foi sampleada por alguns artistas. Vamos falar de um deles?

Quando o assunto é samples, normalmente acabamos focando no que aparece mais, no que é jogado na cara, aquele que você não sabe se é da música original ou da nova. Só que, muitas vezes, um sample que fica em segundo plano, quase imperceptível, e mesmo assim pode ser a base para a parte mais portante da música: o refrão.

E assim fez The Weeknd, quando lançou “Enemy”. O artista canadense, único a ter 3 músicas nas 3 primeiras colocações na tabela Billboard Hot R&B, publicou a música em sua conta do Youtube no ano de 2012. Nela, Abel Makkonen Tesfaye, nome de batismo do artista, se apropriou de um pedaço de “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want”, dos ingleses.

A baladinha começa com um sonzinho meio sinistro até entrar um sintetizador bem seco, talvez misturado com um cravo ou piano. O pré-refrão é recheado de “girl I’m just trying to get you high without a word”, até chegar no ápice da música, “Please, please, please / Let me, let me, let me / Let me, get what I want this time”, cantado em cima do sample dos Smiths. Preste atenção na adição do “this time”. “Me deixe ter o que eu quero… desta vez”. Abel parece meio cansado de pedir e quer, ao menos desta vez, ter sucesso.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Lucas Scaliza, do Escuta Essa Review

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Lucas Scaliza
Lucas Scaliza

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Lucas Scaliza, do Escuta Essa Review.

Emma Ruth Rundle“The Distance”
Não faz muito tempo que conheci os discos da Emma Ruth Rundle e “The Distance”, climática e melancólica, com uma harmonia que funciona com pares de acordes, caiu muito bem ao meu ouvido e ao meu humor. Mostrei a faixa a um amigo e ele disse que “The Distance” não disse nada a ele, mas dizia muito sobre mim. Acho que pode dizer mais sobre você também.

Mulatu Astatke“Yekermo Sew”
Conheci o Mulatu Astatke em um dos meus filmes preferidos do Jim Jarmusch: “Flores Partidas”. É jazz da Etiópia. Quem diria que um dos países mais pobres da África produziria um músico tão talentoso e reconhecido? Mulatu é praticamente o Pelé de lá e eu simplesmente passei a adorar a forma como ele combina o ritmo e o formato do jazz com os ritmos e fraseados melódicos africanos. “Yekermo Sew” é tão sensual quanto misteriosa. “Faz o sangue circular”, como diz um dos personagens do filme.

Olafur Arnalds“Particles”
Olafur Arnalds é um cara que vai da música eletrônica (Kiasmos) à música clássica contemporânea. Em um disco audiovisual chamado “Island Songs” (2016), tentando captar as diversas particularidades de sua ilha natal – a Islândia – ele fez uma balada pop: “Particles”, com participação da vocalista da banda indie islandesa Of Monters And Men. Nem só de vanguarda vive a ilha viking, mas de doçura também.

Astor Piazzola & Gerry Mulligan“Hace Veinte Años”
Uma parceria para guardar no coração: o argentino Astor Piazzola, que revolucionou o tango ao lhe dar ares mais jazzísticos, e o cool jazzista americano Gerry Mulligan. É uma faixa que coloca o bandoneon de um para dialogar com o sax barítono do outro, como se fosse um casal se reencontrando e lembrando com doçura, melancolia e paixão de tempos passados. É muito sentimento em uma composição só.

Beyond Twilight“Shadowland”
Metal progressivo escandinavo lento, arrastado, carregado pelos teclados do dinamarquês Finn Zierler e não pelas seis cordas do sueco Anders “Exo” Erickson Kragh (que é superdotado em música e toca em uma orquestra também). O vocalista norueguês Jørn Lande mostra uma versatilidade incrível, interpretando os versos de formas distintas, tanto como metaleiro quanto melódico e doce. São três variações para a mesma garganta. A atmosfera da música é como estar sendo abduzido. O Beyond Twilight fez apenas três álbuns. Uma pena.

“Guardiões da Galáxia” – filme toscão da Marvel tocando num walkman

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Guardians Of The Galaxy
Lançamento: 2014
Diretor: James Gunn
Elenco Principal: Chris Pratt, Zoe Saldana, Vin Diesel, Bradley Cooper

Bem toscão mesmo! Com umas piadas bem bostonas, o filme é o maior barato pra ver desligadão e aproveitar pra curtir os sons good vibes bem 70’s que tocam em cima de cenas onde talvez fizesse bem mais sentido que o barulho fosse dos lasers disparados das estranhas armas futurísticas.

Peter Quill (Chris Pratt) é um terráqueo que quando criança em 1988, no dia da morte da mãe foi raptado por um grupo de saqueadores alienígenas, e por eles criado. Em 2038, fugindo deles após tê-los abandonado em prol de manter para si só o pagamento duma orb que ele roubou num planeta estranho, Peter acaba numa prisão com dois caçadores de recompensa e uma mina que tava atrás da mesma orb. O quarteto monta um plano de fuga e ainda convoca mais um integrante (um cara bizarro que já tava lá na prisão) e saem de lá pra tentar vender o tão querido objeto. Acontece que o grupo de “malfeitores” descobre o poder da coisa e entende que não pode ser vendido a ninguém e que deve ser destruído para que o universo continue (fala aê, é bem zuado, né não?).

 

A música entra na história do protagonista. O que Quill guarda da mãe, é um walkman e fitas com as músicas que os dois ouviam juntos. O aparelho, de alto valor para Peter, o acompanha durante o filme todo, sempre tocando as músicas da fita (às vezes junto dele dançando, às vezes junto de cenas de efeito). Com o créme de la créme da música disco (incluindo as baladinhas slow dancing) e uns rockão tipo “Moonage Daydream” (David Bowie) e “Cherry Bomb” (The Runaways), a trilha é o auge do longa e é o que cria a áurea do personagem que acredita de verdade, inclusive citando o Kevin Bacon, no que “Footloose” nos ensina: todo mundo dança e essa é a energia mais massa que tem! Além dos já citados, vale dizer que a soundtrack conta também com Marvin Gaye, Blue Suede, Rupert Holmes, Red Bone, Five Stairsteps, Raspberries, Norman Greenbaum, Elvin Bishop, 10CC e Jackson Five.

Trailer:

 

6 músicas que falam, mesmo que disfarçadamente, sobre brochadas e impotência

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Todo mundo sabe que MUITAS letras de música falam sobre todos os tipos de sexo possíveis e imagináveis, seja de forma explícita ou nas entrelinhas. Como esse assunto é tão comum no mundo da música, permeando letras de praticamente todos os estilos musicais, é claro que as tentativas mal sucedidas de transar também seriam relatadas mais cedo ou mais tarde. Pois bem: o Crush em Hi-Fi reuniu 6 das melhores canções relatando brochadas, impotência e afins. Lá vai:

The Strokes“Last Nite”

Quando me falaram que o primeiro hit arrebatador dos Strokes falava de uma noite mal-sucedida… Mas pensando bem e analisando a letra, faz todo o sentido. Se essa análise estiver correta, o eu lírico da música ainda fica bem indignado que ninguém entende sua tristeza e consequente dificuldade em transar. “People they don’t understand/ Girlfriends, they can’t understand/ Your grandsons, they won’t understand /On top of this, I’ll never gonna understand”.

Momentos brochantes:
“Last night, she said
“Oh, Baby, I feel so down
See it turns me off
When I feel left out”

Arctic Monkeys“My Propeller”

Só de chamar o próprio pinto de “hélice” já fica parecendo que Alex Turner estava mesmo era afim de fazer um pintocóptero, não de transar. Mas enfim: na música que fala escancaradamente sobre a maria mole que o membro do moço virou. Não dá pra deixar de notar que ele coloca a culpa na moça, aparentemente. Tsc tsc… “If you can summon the strength tow me/ I can’t hold down the urgency/ You’ve got to make your descent slowly/ And oil up those sticky keys”.

Momentos brochantes:
“My propeller won’t spin and I can’t get it started on my own
When are you arriving?”

Art Brut“Rusted Guns of Milan”


  • As armas enferrujadas de Milão se referem, sim, a uma piroca que não está lá funcionando muito bem. Nesse caso, a letra mostra todo o desespero do rapaz em questão em tentar fazer o pimpolho ficar ereto, com a repetição “I know I can” e várias tentativas de retomar a paudurice, mas depois termina em mil desculpas e o medo do ocorrido se espalhar. “I’m sorry, I’m so sorry, can I get you a cup of coffee? Don’t tell your friends, don’t tell your friends, I promise it won’t ever happen again”. Calma, cara.

Momentos brochantes:
“It doesn’t mean that I don’t love you, one more try with me above you. 
It’s got nothing to do with anything I’ve had to drink.
It’s more to do with the way I think”.

Dead Kennedys“Too Drunk To Fuck” 

Aqui o Jello Biafra já especifica exatamente qual o motivo de seus problemas penianos: encheu a cara como se não houvesse amanhã. E até uma diarreia no final ele fala que rolou. Eca.

Momentos brochantes:

  • “Too drunk to fuck
    Too drunk to fuck
    Too drunk to fuck”

Kings Of Leon“Soft”

Bem, o nome da música é “mole” e ele fala que adoraria participar da festinha, mas tá molenga. Precisa dizer mais?

Momentos brochantes:

“I’d pop myself in your body
I’d come into your party
But I’m soft”

Elastica“Stutter”

Finalmente uma na visão de uma mulher. Infelizmente, ela fica o tempo todo achando que a culpa é dela. Pelo menos ela fica de boa, fala que tá tudo bem e que não vai espalhar a empreitada que falhou por aí. “Well it isn’t a problem / Nothing we can’t keep between the sheets / Tell me you’re mine love / And I will not wait for other bedtime treats”.

Momentos brochantes:

“Is it something you lack when I’m flat on my back?
Is it something that I can do for you?
It’s always something you hate or it’s something you ate
Tell me is it the way that I touch you?”

Tupi Nambha: renovando o Tribal Metal

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Muitas vezes observamos bandas de metal da nossa cena partindo para canções em inglês, visando um mercado estrangeiro maior em busca do estrangeiro. E o que podemos pensar ao escutar uma banda cantando em tupi antigo?

Marcos Loiola (vocal) e Rogério Delevedove (guitarra) trazem a banda de Tribal Metal Tupi Nambha ao cenário com uma riqueza enorme de cultura em apenas um EP. Buscando resgatar a “língua mãe de nossa terra” e contando histórias em ritmo de Metal Tribal que, aos meus ouvidos, me leva mentalmente a um ritual tupi. O duo trouxe um disco fundamental, divisor de águas ao meu ver, pois até então não percebo outra banda que traga músicas bem ritmizadas, sem gutural e enquadrando super bem a língua com o instrumental. Bandas como Arandu Arakuaa, Tamuya Thrash Tribe e Voodoopriest, dentre outros, com certeza estão a mais tempo em atividade e tenho total conhecimento e respeito por estes mestres do gênero, e com certeza a Tupi Nambha chega junto com um EP muito bem elaborado e respeitoso a cultura.

Apresento um bom destaque para a faixa que abre o disco, a “Invasão Alienígena” que traz bem elaborado em resumo tudo aquilo que eu tenha digitado até aqui, e demonstra uma influência muito boa de Metallica, dentre outras.

Convidamos aos amigos para conhecerem mais sobre a banda em uma grande entrevista no programa Metal Etílico, domingo, a partir das 21h pelo www.mutantemecanica.com ou acompanhe pela page do Facebook, afinal, o programa vai ao ar em 9 emissoras: https://www.facebook.com/metaletilico/

 

Renascimento doloroso: John Lennon – “Plastic Ono Band” (1970)

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Poucas vezes uma obra foi tão determinante para me fazer entender que a música é, primeiramente, algo de extrema intimidade, pessoal por essência. Fazer dessa qualidade uma reafirmação é muito difícil, ainda mais sendo uma das pessoas mais famosas do mundo e recém ex-beatle. Coragem define este disco.

Seco, extremamente enxugado, quase esvaziado, melancólico, desesperado, reflexivo e redentor. Assim é Plastic Ono Band”, essa obra-prima sem igual.

O que mais me impressiona neste disco é que, ao contrário dos trabalhos mais emblemáticos do início da carreira solo de seus ex-companheiros de banda (como é o caso dos também incríveis Ram” e All Things Must Pass”, de Paul McCartney e George Harrison, respectivamente), John parece não ter feito um enorme esforço para tirar da cabeça essas canções. Tudo parece ser bem natural, espontâneo, de coração e em um nível genial. Claro que houve ajuda para fazer este disco sair do papel. Phil Spector, que assina a produção, foi esperto e manteve seu temperamento musical discreto. Ou seja, em “Plastic Ono Band” você não terá nada de “wall of sound” e aquela porrada de músicos tocando em mono. O LP é extremamente básico, porém de um modo original. Pegue como exemplo “Hold On”: guitarra, baixo, bateria e voz embalados por uma letra claramente voltada para o próprio autor. A temática do trabalho é John Lennon, do início ao fim.

Na comovente “Mother”, Lennon exorciza seus traumas de infância e chega a partir nosso coração com versos como “Mama don’t go, daddy come home”. Não restam dúvidas de que John vivia um período muito complicado. Mesmo que ele não quisesse dar o braço a torcer (algo que ficou muito claro na lendária entrevista publicada na revista Rolling Stone em 1970), o fim dos Beatles foi uma verdadeira porrada na alma daquele que fundou o maior fenômeno da história da cultura pop.

Beirando os 30 anos, Lennon atravessou essa difícil fase como pôde. Até que acabou embarcando numa espécie de terapia alternativa chamada “grito primal”, onde o paciente é encorajado a reviver e a expressar seus sentimentos básicos e que o terapeuta considera que podem ter sido reprimidos. O psicanalista americano Arthur Janov, criador dessa terapia, teve Lennon como paciente, e sobre isso disse certa vez: “Nunca vi tanta dor em toda a minha vida! Toda a dor de não ter sido amado fica gravada no cérebro, nos músculos, nos ossos das pessoas”. Agora, voltando para “Mother”, podemos perceber como tudo isso se encaixa: observe como é descarnado de qualquer tipo de filtro de ego aqueles berros no final da canção… se ainda estivesse nos Beatles muito provavelmente essa música não seria gravada.

Em “Isolation”, outra canção de apertar o coração, mostra Lennon guiado por poucas notas do seu piano enquanto observa o comportamento das pessoas em geral. E a letra é tão honesta que não há como fugir da mensagem. Pouca gente nesse mundo é capaz disso, esse incrível dom de saber abrir a cabeça das pessoas com poucas palavras.

Em tempo, vale ressaltar o trabalho impecável de Ringo Starr e Klaus Voormann na bateria e no baixo, respectivamente. Sem a simplicidade dos dois amigos de longa data de John (Ringo não precisa apresentar, já o alemão Klaus é o sujeito que fez a capa do LP Revolver” (1966), camarada de Lennon e dos Beatles desde os tempos de Hamburgo), talvez “Plastic Ono Band” teria resultado em “apenas” um excelente disco.

Em dois momentos cruciais do LP não é Lennon quem pilota o piano. Em “Love”, uma canção absurdamente linda sobre o que é o amor, é Spector quem guia John. Um dos clássicos do catálogo de sua carreira solo, “Love” é limítrofe: alguns podem achar piegas, outros podem passar despercebido por esse adjetivo fácil e notar que afinal, o que ele canta ali é fundamental. Algo tão certeiro quanto a letra de “Imagine”. Como ele conseguia fazer isso?

Em “God”, com Billy Preston no piano, John joga o famoso balde de água fria nos fãs dos fab four: “I don’t believe in Beatles/ I just believe in me/ Yoko and me/ And that’s reality/ The dream is over… Na verdade, é uma letra duríssima que não deixa passar despercebido nem Dylan, nem a Yoga, nem Elvis, nem Jesus e tampouco Deus. Nem precisa mencionar o tipo de discussão que essa música gerou, ainda mais vindo de um cara que quatro anos antes havia dito que “os Beatles são mais populares que Jesus Cristo”.

A pegada iconoclasta também dá as caras em “I Found Out”, com um jeito mais rock ‘n’ roll, o que ele sentia mais a vontade de fazer. A faixa pode ser considerada o resultado de uma década na qual o compositor passou por diversos gurus em busca da iluminação, com meditação, drogas e a Terapia Primal. Na música ele deixa de lado esta série de falsos ídolos que ele tinha acumulado ao longo dos anos e os rejeita. A guitarra de John soa excelente, assim como em “Well Well Well”, outro rock mais direto e com direito a berros que chegam a parecer Kurt Cobain em seus melhores momentos.

“Look At Me” tem aquele dedilhado tão característico que pinta as faixas “Julia” e “Dear Prudence”, do White Album” (1968), e a melodia é de uma melancolia verdadeiramente dolorida. Esta poderia estar em um hipotético trabalho dos Beatles, assim como “Remember”, que de certa forma traz a pulsação de “I Found Out” e a reflexão de todo o resto do trabalho. Um belo registro.

“Working Class Hero” é um dos melhores momentos da carreira de John. Um simples folk onde ele destila todo seu lado amargo de ver o mundo em uma letra espetacular e atemporal. Apenas por essa já valeria a pena dar uma chance para esse disco, mas “Plastic Ono Band” é um desfile de clássicos geniais.

O disco acaba com a triste “My Mummy’s Dead”, uma quase vinheta lo-fi, sem pretensão alguma de soar maior que aquilo. É apenas um adorno.

O LP foi recebido com elogios. No começo de 1971 o álbum chegou ao número oito no Reino Unido e foi para o número seis nos Estados Unidos, passando 18 semanas no Top 100.

“Plastic Ono Band” é figura presente em praticamente todas as listas de melhores discos.

Em 2000 a revista Q colocou o trabalho no 62º lugar na sua lista dos 100 Maiores Álbuns Britânicos de todos os tempos. Em 1987, foi classificado como o 4º na lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns do período entre 1967 e 1987. Em 2003, ele foi colocado no 22º posto na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, também da Rolling Stone. Em 2006 “Plastic Ono Band” foi escolhido pela Time como um dos 100 melhores de todos os tempos.

Este é um trabalho irretocável de um dos maiores artistas da História. Sempre que alguém questionar a importância dos Beatles ou a qualidade de Lennon como compositor, diga apenas: “Plastic Ono Band”.

“Janis – Little Girl Blue”: Por trás das roupas extravagantes havia uma menina sozinha

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Janis Little Girl Blue

Janis – Little Girl Blue
Ano: 2016
Direção: Amy Berg
Duração: 1h 45min

Janis Joplin como você a conhece é um mito. A palavra vale para dois sentidos. Sim, o vozeirão, o estilo irreverente e a sua morte precoce fizeram dela uma lenda. E sim, toda aquela fachada de roupas extravagantes é uma fantasia, um personagem criado pela própria cantora. Não que isso de fato seja ruim. No documentário “Janis – Little Girl Blue”, dirigido por Amy J. Berg, além de tentar entender o porquê, acompanhamos a trajetória meteórica de umas das maiores vozes do rock.

Criada em ambiente conservador do sul dos Estados Unidos, na juventude era ser considerada por seus colegas “o homem mais feio do campus”. Janis então encontrou na musica sua salvação, o refúgio onde podia se abrigar e com suas letras contra-atacar suas incertezas, seus medos. Começando em bares até ser descoberta, ela camuflou-se em figurinos exóticos para que não pudessem feri-la ainda mais. Assim, se tornou a figura como a conhecemos hoje. Muitas dessas revelações nos são reveladas através de cartas escritas pela própria.

Além dessa tentativa, não de solucionar, mas entender Janis e o porquê dela ser assim e o que levou a sua partida repentina, o longa ainda nos presenteia com grandes momentos de sua carreira. O destaque vai para apresentação no festival Monterrey Pop, o que talvez cause estranheza, sendo que os fãs geralmente a ligam ao Woodstock (uma passagem breve no documentário), onde ela se apresentou totalmente embriagada. Esses momentos, além de passagens memoráveis de sua carreira, como o tour ao Canadá com o Grateful Dead, estão aqui em forma de fotos, entrevistas e fotos da época.

Feliz ao retratar Janis Joplin ao final como uma mulher forte, mas com as mesmas inseguranças e medos como qualquer pessoa sem no processo desmistificar a lenda, “Janis – Little Girl Blue” faz justiça ao titulo e nos aproxima mais do ser humano Janis, fazendo com que sua importância seja ainda mais relevante nos dias de hoje.