Do emo ao shoegaze, segundo EP do Eliminadorzinho, “Aniquiladorzinho”, é um resgate de influências perdidas

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Muitas vezes sinto falta de músicas que falem comigo de maneira genuína, que não falem sobre uma realidade colorida distópica ou sobre positividades inalcançáveis. Sinto falta do que eu sentia quando descobri Violins e Ludovic na adolescência, que em bom português, traduziam tudo o que eu sentia mais do que muitas bandas gringas de post-hardcore, shoegaze e punk da época. O Eliminadorzinho foi uma das bandas mais sinceras que descobri de uns tempos pra cá, junto com outras do tal “rock triste”, um alívio para quem se sente perdido em meio a tanta obrigação de ser feliz o tempo todo. Ontem a banda lançou o segundo EP, Aniquiladorzinho”, corri para escutar e foi incrível ver um material tão intenso.

A faixa de abertura “Você Acha” não deixa dúvidas da forte influência de Ludovic, que vai desde o instrumental até a lírica. Chega a ser quase uma homenagem à banda que, pelo menos para mim, é uma das mais significativas do cenário nacional. Ludovic provavelmente deve sentir orgulho ao ver os frutos que deixou crescer em bandas como Eliminadorzinho. A mesma influência continua em “Borrão”, que também bebe do pós-punk, lembrando as canções dessa fase de Inocentes e Cólera em alguns momentos.

“Desculpa, parte 2” traz memória ao emo cru e verdadeiro, sem vergonha de se assumir como tal. Essa faixa é um marco no EP que mostra influências do Eliminadorzinho que vão além do shoegaze já mostrado no EP anterior, referências que lembram Mineral, Cap´n Jazz, Sunny Real Estate, tudo direto da fonte dos anos 90. Depois do termo “emo” ter se tornado um palavrão, é bom ver bandas que resgatam essa essência com coragem para mostrar que isso faz parte do que chamamos de “rock triste” sim. Sem meios-termos. Esse resgate de referências perdidas por muitos foi o ponto alto de Aniquiladorzinho.

“Fora de Ar” é dessas músicas que dá vontade de escutar dentro de casa, no quarto, com alguns comprimidos e álcool do lado. Também dá vontade de mandar pra alguém, confesso que eu mesma quase mandei. As palavras intensas seguidas de um instrumental contínuo e denso fazem dessa música uma experiência incrível para quem se propõe a ouvir com o coração aberto.

A conexão entre instrumental e lírica em Aniquiladorzinho é muito coerente e complementar, as composições feitas de maneira simples, sem palavras muito rebuscadas mas com muita intensidade trazem sinceridade para cada música, dá pra sentir cada palavra, dá para processar e digerir.
Como já mencionado, o shoegaze ainda é muito presente, impossível não pensar em Pinback e Slowdive em vários momentos e como a própria banda diz, a influência de Dinosaur Jr também é perceptível.

Terminei de escutar o EP com vontade de ouvir mais. Espero que o mar de boas referências que Aniquiladorzinho trouxe de forma corajosa e contra a maré de quase tudo que vemos por aí, inspire muitas bandas e artistas a seguir falando de sentimentos, conflitos, tristeza e tudo que ainda pode soar incômodo.

O EP foi mixado e masterizado por Rubens Adati, no Inhamestúdio.

Voz, violão e guitarra: Gabriel Eliott Garcia
Baixo e vocal de apoio: João Pedro Haddad
Bateria e vocal de apoio: Tiago Schützer

Anoquiladorzinho está totalmente disponível nas plataformas virtuais da banda e no Spotify:

 

 

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Aline Cortez, do BDG – Descubra Sua Música

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Aline Cortez
foto por Geraldo Magela

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Aline Cortez, do BDG – Descubra Sua Música“Eita tarefa difícil! Vou selecionar músicas que penso que representam bem o que eu gostaria de tornar mais conhecido ao grande público. Primeiro o rock independente nacional atual, o rock progressivo nacional dos anos 70 e um pouco do underground e mainstream dos nossos hermanos. Tem muita coisa boa aqui abaixo do Equador!” 

Picanha de Chernobill“Sol do Novo Mundo”
“A Picanha de Chernobill é uma banda gaúcha radicada em São Paulo há 5 anos. Quase todos os domingos estão embelezando o dia de quem passeia pela Paulista aberta e acabaram de ter a oportunidade muito merecida de se apresentarem no último Rock in Rio. O som da banda mistura blues rock, folk e música brasileira de raíz. Deixo aqui a faixa ‘Sol do Novo Mundo’, do disco ‘O Velho e o Bar’, segundo da banda, graciosamente executada com viola caipira.  Dica de programação pro domingo: Paulista aberta para curtir essa sonzera ao vivo. Tem todos os discos completos no BDG“.

Stolen Byrds“In My Head”
Conheci a Stolen Byrds (banda de Maringá, Paraná) quando os vi tocando no Breve no primeiro semestre desse ano. Pirei. Rock’n’roll de inspiração setentista, com elementos de stoner, blues, psicodelia. Sei que a palavra viceral já está batida, mas é ela que para mim descreve bem o som da banda. Original, viceral e intenso. Ao vivo então… Das melhores bandas que ouvi e vi nos últimos tempos. Linda, nacional e independente. “In My Head” é do disco “2019”, segundo da banda, lançado esse ano. Tem os discos completos no BDG também“.

Veludo“Veludeando”
“Os anos 70 no Brasil estão cheios de tesouros que não sei se sempre foram ocultos ou se foram esquecidos. Estou num processo de descoberta dessas jóias, e uma das que me chamou atenção e que penso que vale compartilhar é a banda Veludo. Progressivo setentoso tupiniquim cheio de encantos para os que apreciam teclas frenéticas como eu. ‘Veludeando’ é de uma gravação ao vivo de 1975. Não tem uma qualidade de áudio incrível, mas é um registro histórico valioso pra quem gosta do gênero”.

Elefante Guerrero Psíquico Ancestral“Entre Dos Mundos”
“Sou uma apaixonada pela América Latina, especialmente pela Argentina, e sou uma advogada da integração cultural e musical com nossos hermanos, o que me leva a essa banda do underground portenho.
A cena stoner argentina é bem rica, e Elefante Guerrero Psíquico Ancestral (com toda essa complicação de nome), do meu ponto de vista, é uma ótima representante do gênero. Vi os caras tocando com casa lotada em Buenos Aires e foi incrível. Espero que essa música desperte a curiosidade da galera não só para essa banda, mas para outros artistas de lá. ‘Entre Dos Mundos’ é do disco “El Camino del Guerrero”, de 2015″.

Cuarteto de Nos“Breve Descripción de Mi Persona”
“Sem sair da América Latina, vou dessa vez ao Uruguai, com o Cuarteto de Nos. A banda é a exceção mainstream dessa lista, porém ela só é conhecida de fato entre nossos vizinhos hispanófonos. Recentemente o Vespas Mandarinas fez uma versão de uma música deles (‘Ya No Sé Qué Hacer Conmigo’), mas de modo geral, o Brasil me parece que continua bastante alheio ao que é produzido aqui nos arredores. Os últimos cinco discos dessa banda são pérolas por completo, e considero o Roberto Musso, o vocalista, um dos melhores letristas que já vi.
‘Breve Descripción de Mi Persona’ é do disco ‘Bipolar’ de 2009″.

“Sing Street” (2016) – Romântico, post-punk e adolescente

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Sing Street

Sing Street (Sing Street)
Lançamento: 2016
Direção: Jonh Carney
Roteiro: Simon Carmody
Elenco Principal: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Aidan Gillen, Maria Doyle Kennedy e Kelly Thornton
 

É incrível o que acontece quando um mauricinho encara o rock. Durante uma crise econômica na Irlanda em plenos anos 80 e uma crise conjugal entre os pais de Connor (Ferdia Walsh-Peelo), garoto acostumado com o ambiente caxias e educado duma escola classe média, é transferido pruma outra a fim de fazer cortes nas despesas da família. A nova escola, gerida por uma velha congregação de padres, é o esteriótipo de “puta zona”: alunos fumando em sala de aula, professor bebendo enquanto dá a aula de latim e etc; E tudo isso em contraposição com regras ridículas, rigidamente impostas e obedecidas, como o uso de sapatos pretos.

O nosso jovem Connor, ainda com dificuldades pra se adaptar ao novo meio, se apaixona por uma mina que fica sempre em frente à escola do outro lado da rua e a convida pra participar dum clipe da sua banda. Mas o cara nem tem banda, então se vê obrigado a formar uma. Seguindo os conselhos do irmão mais velho, que lhe apresenta Duran Duran, Joy Division, New Order, The Cure e outros, o moleque consegue reunir uma galera a fim de fazer um som e eles passam a tocar num estilo que eles chamam de “futurista”, mas que na real é meio que uma reprodução da vibe post-punk da época.

Além dos hits, o filme conta com músicas originais, que dentro da história são composições do Connor pra Raphina (Lucy Boynton, a garota do clipe), o que só intensifica o tosco romantismo adolescente que marca o movimento em todas as letras do Morrissey.

A primeira música da banda, que é a do vídeo pro qual a musa foi convidada, marca a referência nas letras à própria, além da influência do Duran Duran.

A segunda que eles gravam, ainda como homenagem à Raphina, marca agora a influência do The Cure, estilo que permanece até o fim do filme, descrito como “happy-sad” (com direito até às palmas que marcam “Close To Me“).

Quanto ao mauricinho, quanto mais ele se envolve com as músicas e descobre as possibilidades estéticas de se estar numa banda, mais ele abandona o estilo bom moço pra fazer cosplay de Robert Smith, bagunçar o cabelo e usar maquiagem.

Trailer:

Trilha sonora:

É isso aí galera. Assistam, ouçam e curtam! Valeu!

Os retalhos de samplers de Liam Howlett chamado “The Dirtchamber Sessions” (1999)

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O Prodigy, filho querido de Liam Howlett, já foi assunto aqui no Crush em HiFi em 2016, quando mostramos como foi feita a música “Smack My Bitch Up”. Em 1999, Liam resolveu dar um tempo na banda e trilhou um caminho um pouco diferente em “The Dirtchamber Sessions Volume One”. Ainda trabalhando com muitos samples, dessa vez não houve uma deformação das músicas para produzir novas composições. A ideia era fazer uma colcha de retalhos, naquele estilão DJ, de colar uma música na outra. Cada colcha foi chamada de Session, e o álbum possui 8 Sessions.

A primeira Session termina com um sample do Chic, sobre o qual a gente também já escreveu aqui e aqui, mas vamos começar do começo.

O encarte do disco é bem direto e mostra o que você vai ter pelos próximos 42 minutos: uma mesinha de som de 8 canais, um sintetizador e muitos, muitos LPs, de todas as décadas. Sem se preocupar em limpar os plic-plocs do vinil, Liam passeia pela história do sample, através de uma pesquisa na qual ele acaba “cortando a própria carne para expor os ossos”, mostrando além daquele recorte de 5 segundos, que todo mundo conhece, mas que poucos sabem a origem. Um grande exemplo dessa exposição é, já na primeira faixa, ter “Give the Drummer Some”, do Ultramagnetic MC’s, origem do refrão “change my pitch up / smack my bitch up”, da música “Smack My Bitch Up”, um dos maiores hits do Prodigy. Antes disso, ele também brinca com “Different Strokes”, de gravada por Sly Johnson em 1967; “Apache”,  gravada em 1973 pela Incredible Bongo Band, e “Chemical Beats”, gravada em 1994 pelo Chemical Brothers, entre outras músicas das mais diferentes idades.

A segunda faixa, ou Session 2, já vem na cola mostrando o quanto Howlett sabe que sua criação é influente, até pra ele mesmo. Ao lado de “Bomb The Bass” e “Trouble Funk”, ele puxa do próprio Prodigy com “Poison”, do disco “Music for the Jilted Generation”, de 1994, para, logo em seguida, botar “Been Caught Stealing”, do Jane’s Addiction, uma das bandas que ganhou os holofotes na década de 90. Pra quem não sabe, Perry Farrell, vocalista do Jane’s, é o fundador e curador do festival Lollapalooza.

O restante do disco é tão diverso que daria uma bela dissertação de mestrado, ou até mesmo um livro, devido ao tratamento que tantas músicas históricas receberam. É “Babe Ruth” misturada com o já comentado Chemical Brothers, três faixas do Frankie Bones coladas com Meat Beat Manifesto e Public Enemy. A Session 5 fica entre Sex Pistols, Fatboy Slim e Medicine, banda da filha do Bruce Lee, Shannon, aquela que aparece tocando no “O Corvo”, estrelado por Brandon Lee.

Se você tem interesse na história da música, precisa fazer uma pesquisa de samples pra uma composição própria, ou simplesmente quer um monte de hinos compilados, esse disco é perfeito!

“The Dirtchamber Sessions Volume One” foi lançado em 1999. Não seria hora de um Volume Two, Liam?

Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

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ELP Brain Salad Surgery

 

Um disco como Brain Salad Surgery” ainda faz sentido hoje? Bem… até onde eu sei, música não tem idade, e o que hoje é considerado datado amanhã será a fonte de inspiração para uma galera totalmente repaginada. E não sou eu quem está dizendo isso. Ouça os maneirismos dos anos 1980 berrando a todo vapor em produções mais recentes, como vem acontecendo de uns anos para cá em trabalhos de nomes como Daft Punk, Lady Gaga ou Rihanna. Para muita gente pode parecer que não, mas por um bom tempo – talvez por quase toda a década de 1990 e um pouco de 2000 – esses timbres que agora fazem a cabeça de muita gente eram tidos como algo ridículo, sem a mínima chance de voltar a ser moda. Pois bem, a música pop lambeu suas feridas e aí está, mais uma vez: baterias eletrônicas exageradamente encharcadas de eco, palminhas falsas, teclados a la Alpha FM e aquela frivolidade tão polêmica. Agora, dizer se isso é bom ou ruim não é inteligente, mas cabe ao artista saber inserir esses elementos, certo?

E o que isso tem a ver com Emerson Lake & Palmer? Tudo! Afinal, estou me referindo ao modo de revisitar coisas que no fundo sempre estiveram disponíveis e vivas. Basta alguém pegar uma ideia qualquer para percebermos que tudo se trata da mesma coisa.

Aliás – é impressionante pensar nisso em 2017 –, em 1973, ano em que o rock progressivo atingiu seu auge, LPs contendo faixas com quase meia hora de duração chegavam a liderar a lista da Billboard. Isso significa que as pessoas tinham saco para ouvir toda aquela complexidade em uma proporção de cultura de massa. O jeito de se curtir um som era completamente diferente: você já deve ter ouvido alguém com mais de 50 anos dizer que chamava os amigos em casa para apagar as luzes e escutar faixa a faixa de Dark Side Of The Moon”, e depois discutir aquilo como se fosse um filme.

E você se lembra do começo desse texto, quando eu disse que atualmente há um interesse no ar pela sonoridade da década de 1980? Pois veja que o ELP (sigla para o nome do grupo) passava por esse mesmo tipo de transformação, haja vista que apontavam seus interesses para a música clássica, sinfônica (o disco Pictures At Na Exibition”, de 1971, é uma releitura de uma suíte de mesmo nome, composta pelo russo Modest Mussorgsky em 1874). Isso significa que essas coisas meio “cerebrais” combinavam com a vibe de parte da galera jovem da época, que curtia um pouco de complexidade e divagações vagarosas.

A ideia por trás do trio formado por Keith Emerson (piano e teclados), Greg Lake (vocais, baixo, violão e guitarra) e Carl Palmer (bateria), embora extravagante e pomposa, nunca foi segredo para ninguém: expandir os limites do rock ‘n’ roll, fazendo música sinfônica com apenas três peças. Hoje isso pode soar meio bobo, mas deu certo e conquistou um enorme público, chegando a ser uma das bandas mais lucrativas do mundo em sua época. Emerson, Lake & Palmer foi um verdadeiro fenômeno, e “Brain Salad Surgery” foi o pico criativo do trio.

Na época de seu lançamento, em 1973, o grupo havia lançado quatro excelentes álbuns de sucesso, e este quinto LP viria a ser seu ápice estético, inserindo naquele som o que havia de mais moderno em termos de eletrônica a partir do uso e abuso de sintetizadores Moog, sendo Emerson o primeiro e único músico a utilizar o protótipo Constellation, apresentando pela primeira vez um sintetizador polifônico.

As cinco faixas do disco (sendo uma delas uma suíte de quase 30 minutos) são impressionantes. Todas apresentam uma sonoridade corajosa, tentando empurrar ao máximo os limites dessa formação de rock sem guitarra elétrica (salvo uma hora ou outra). “Brain Salad Surgery” poderia ser definido em três palavras certeiras: virtuosismo, melodia e dramaticidade.

A abertura fica por conta de “Jerusalem”, releitura completamente transformada de uma das músicas tradicionais mais famosas da Grã-Bretanha, algo que o ELP sabia fazer com excelência. O sempre belo vocal de Greg Lake contrapõe a massa sonora formada pelos sintetizadores e órgãos de Keith, enquanto que a bateria de Carl Palmer – um dos maiores bateristas da história do rock – remonta essa peça de um jeito incrivelmente inventivo. A faixa chegou a ser lançada como single, mas, embora tenha chamado atenção do público, foi muito mal nas rádios britânicas, que se recusaram a tocar esse “sacrilégio”, um verdadeiro hino tido como um patrimônio cultural remexido de modo tão fora dos padrões. Até a BBC baniu.

Em seguida vem “Toccata”, outra releitura, desta vez do argentino Alberto Ginastera (que aprovou a versão, dizendo pessoalmente a Keith Emerson que eles haviam capturado a essência da composição ‘como ninguém jamais havia feito’). Caótica, frenética, urgente e intensa. É uma verdadeira porrada na cabeça. Um peso real sem guitarras. Sim, esse é um som muito nerd, mas é impressionante… lembre-se que são três caras fazendo essa barulheira (e reproduziam a mesma coisa ao vivo). Há espaço para um baixão espetacular, sintetizadores com sons de trompete, solo de tímpanos e uma parte bizarra – que chega a ser cômica – de bateria, onde Carl Palmer utiliza programação eletrônica de sons MIDI para criar um ambiente sci-fi, algo quase impensável na época. É a vanguarda flertando com o rock em um nível controverso. Dá para fazer um nó na cabeça com esse som.

Como era praxe nos álbuns anteriores, Greg nos dá uma trégua e apresenta uma daquelas indescritíveis baladas que ele fez. “Still… You Turn Me On”, guiada por um belo violão, é um daqueles momentos memoráveis dos anos 1970, quando era comum se deparar com melodias de cair o queixo aliadas a uma inocência típica daquela fase. Se alguém soube fazer bem isso, esse alguém foi Greg Lake, dono de uma voz incrível e também de grande esperteza: todo mundo sacava que ter essas baladas entre esse monte de maluquice sonora também garantiria um grupo de pessoas a fim de escutar algo romântico. Deu muito certo.

“Benny The Bouncer” traz ao LP um pouco de descontração, com aquele som de piano de bordel, uma pegada meio jazzy e um vocal escrachado. A letra fala de Benny, um segurança de balada que, ao se encontrar com Sidney, o beberrão, entra em uma briga e é morto por um golpe na cabeça. No céu, arranja um bico como segurança de Jesus.

O lado B inteiro é dedicado àquela que talvez seja o maior feito artístico da banda: “Karn Evil 9”. Dividida em “First Impression”, “Second Impression” e “Third Impression”, esta suíte vai além dos limites de uma composição de rock. Fico imaginando como foi possível eles juntarem tudo aquilo e lembrar como se toca ao vivo (vale destacar que existem imagens disponíveis do trio ensaiando essa música para ser gravada, o que, para os músicos que estão lendo isso, é um documento fascinante). “Karn Evil 9” emociona, empolga, intriga, irrita, acalma, mete medo e euforia. Keith Emerson mostra todo seu brilhantismo e versatilidade no Moog, no piano, órgão Hammond; Greg Lake, sempre muito seguro, toca um baixo incrível e depois vai para a guitarra, fazendo solos dignos daquele período com tantos guitar heroes; Carl Palmer praticamente reinventa o modo de tocar bateria em uma banda de rock, seu estilo é único. Ali tudo funciona do jeito mais ELP de ser: megalomaníaco. É nesta faixa que está o verso “Welcome back my friends to the that never ends”, obrigatória na abertura das apresentações do grupo.

Também vale a pena falar da arte da capa, desenvolvida pelo artista plástico H. R. Giger, famoso por desenhar nada mais nada menos que o visual do filme “Alien – O Oitavo Passageiro”.

“Brain Salad Surgery” fez grande sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, o que resultou em uma turnê mundial. Com o passar dos anos, o desgaste do sucesso e a mudança de comportamento do público em geral, o Emerson, Lake & Palmer foi decaindo até praticamente não fazer mais sentido. Novas vertentes, principalmente o punk, meteram o pé na bunda da maioria dessas bandas hoje consideradas “cabeças-de-chave” daquele período. Da mesma forma, a sonoridade e a proposta artística daquilo que ofereciam foi simplesmente deixada bem lá no fundo do baú dos excessos, mofando ao lado de muitas outras coisas que tiveram o mesmo destino, como as bandas de new romantic dos anos 1980.

Neste momento que estamos vivendo uma ebulição de bons e maus ressurgimentos, creio que seja questão de tempo ver novas bandas com essa proposta repaginada. Por enquanto, o que resta é esse fóssil do rock ‘n’ roll, com o atual status de fascinantemente inadequado e que já chegou a soar como as trombetas do futuro. Queira ou não queira, o ELP é gigante na história.

“Esquina Paulistana” apresenta a pluralidade da música de São Paulo

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O que esperar de um show que reúne em seu repertório canções de nomes como Cólera, Katinguelê, Itamar Assumpção, Rita Lee e Mamonas Assassinas? O projeto Esquina Paulistana, realizado no recém-inaugurado Sesc 24 de Maio, uniu diversos estilos e referências em sua primeira edição.

Com uma big band acompanhando e sendo apresentada logo no inicio, Maurício Pereira comandou o show contando sobre a ideia do projeto e apresentando seus convidados. Vocalistas tão distintos, mas que cantaram a cidade de São Paulo com a mesma empolgação.

Tulipa Ruiz abriu os trabalhos interpretando “Prezadíssimos Ouvintes” de Itamar Assumpção e recebendo Thaíde para um dueto sensacional. Paulo Miklos surgiu e interpretou “A Praça”, sucesso de Ronnie Von, mas antes dividiu suas memórias com a plateia, contou que quando criança achava que a música se referia a Praça Marechal Deodoro, era a referência de praça que tinha, pois passou a infância brincando nos tanques de areia do local.

Suzana Salles, de longe a mais animada do show, entrou cantando “Marvada Pinga”, clássico da saudosa Inezita Barroso e contagiou a plateia, um pouco tímida de inicio. Clemente, vocalista da banda Inocentes, completou o time. Com todos no palco, o clima era de descontração, rendeu até uma piada usando como referência a Escolinha do Professor Raimundo, já que todos aguardavam sentados na lateral do palco para interpretarem suas canções.

Tulipa Ruiz e Maurício Pereira fizeram um dueto inusitado interpretando “Recado À Minha Amada”, sucesso do grupo de pagode Katinguelê. Teve até coreografia embalada por Suzana e Clemente. Nesse ponto a plateia já estava contagiada e entrou no clima. Não faltaram braços balançando, principalmente ao cantarem “Não se vá” de Jane e Herondy. O punk rock se fez presente com a ótima versão de “Polícia” das Mercenárias, interpretada com convicção por Suzana Salles.

O ótimo bis ficou por conta de “Pelados em Santos”, grande sucesso da banda Mamonas Assassinas, talvez o nome que melhor represente a pluralidade musical existente em São Paulo.

A primeira edição do Esquina Paulistana cumpriu o papel e deixou abertura para futuras edições. Porém, por se tratar de um repertório especial, seria interessante que as músicas interpretadas fossem as mesmas relacionadas no programa entregue na entrada do show. “São Paulo” do 365 e “Não Existe Amor em SP” do Criolo, estavam listadas, não foram interpretadas e alimentaram a deixa para a continuidade do projeto.

Vale destacar o novo horário de shows criado pelo Sesc 24 de Maio: meio-dia. Perfeito para quem trabalha no Centro da cidade e deseja curtir a hora do almoço de forma diferente. Que esse horário permaneça e continue trazendo boas opções.

Três Pés Grandes e muito rock setentista são a esquisita receita da banda PPL MVR

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PPL MVR

Ao ver a figura de três caras gigantes vestidos de Yeti (ou Pé Grande) com instrumentos musicais, logo a gente imagina que teremos um som primal bizarro ou um projeto industrial ensurdecedor. Pois bem: apesar do baterista do PPL MVR usar baquetas em forma de ossos e a banda se comportar como verdadeiras criaturas da mata, o som remete ao hard rock dos anos 70, com muita criatividade. Ah, os vocais com pedal de talkbox dão um charme a mais.

Os PPL MVR—ou “The One and Only PPL MVR” são de Los Angeles e como muitas das bandas que usam fantasias, mantém suas reais identidades em segredo, dando seus nomes de criatura como SNWBLL, K-PO e Q e continuando em seus personagens durante suas divertidíssimas e bizarras entrevistas. Sério, é algo como o cruzamento entre uma entrevista com o Animal dos Muppets e o Chewbacca.

O nome PPL MVR significa “People Mover” e a banda já teve clipes promovidos pelo Funny Or Die, além de abrirem para bandas como Cake, The Black Keys, Jane’s Addiction

Não sabemos se o empresário da banda também é uma criatura mitológica (talvez a Nessie?), mas que faz um bom trabalho, com certeza faz: o trio já participou de festivais como o Sundance e o Festival Supreme do Tenacious D, de Jack Black, por exemplo. Ah, e eles são assinados pela Elektra Records, coisa que poucas bandas de não-Yetis podem se orgulhar de ter.

Ouça o som setentista e roqueirão do PPL MVR:

Tracklist — “Scott Pilgrim vs. The World” Soundtrack (2010)

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Scott Pilgrim vs the World

O universo de Scott Pilgrim começou com uma série de história em quadrinhos criada pelo cartunista canadense Bryan Lee O’Malley (autor também de “Seconds”, “Lost At Sea” e “Snotgirl”, seu mais recente trabalho) e publicada em seis volumes (de 2004 a 2010). Em 2010, a narrativa recebeu “Scott Pilgrim vs. The World”, uma adaptação ao cinema dirigida por Edgar Wright e estrelada por Michael Cera e Mary Elizabeth Winstead, e o jogo “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”, desenvolvido pela Ubisoft Montreal e disponível para Playstation 3 e Xbox 360

O protagonista Scott Pilgrim (Michael Cera) é baixista da Sex Bob-Omb, uma banda fictícia de garage punk formada também pelo vocalista e guitarrista Stephen Stills (Mark Webber) e pela baterista Kim Pine (Alison Pill). Scott se apaixona por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), uma americana que acaba de se mudar para o Canadá e trabalha como entregadora da Amazon. Para relacionar-se com Ramona, Scott tem que derrotar seus sete ex-namorados do mal.

Em “Scott Pilgrim”, a música é um fator importantíssimo para a construção da narrativa — para alguns, o elemento central da história pode ser o relacionamento entre Scott e Ramona, mas a Sex Bob-Omb me soa como um componente tão essencial quanto. Nos quadrinhos, as músicas da Sex Bob-Omb têm seus acordes transcritos aos que quiserem aprendê-las. No filme, nenhuma das canções criadas para os quadrinhos foi aproveitada — todas as faixas da Sex Bob-Omb feitas para a adaptação foram compostas por Beck e cantadas pelos atores que integram a banda fictícia.

Scott Pilgrim é recheado de referências à cultura pop e à música alternativa, tanto nos quadrinhos quanto na adaptação ao cinema. Para além das faixas cuidadosamente selecionadas para musicar o filme, todo o trabalho de sonoplastia é impecável — existe uma preocupação evidente com a ambientação sonora e com o som dos objetos durante todo a narrativa. Os efeitos audiovisuais são o grande forte da adaptação — que, na minha opinião, é muito inferior aos quadrinhos em relação ao conteúdo.

Em “Scott Pilgrim vs. The World”, outras bandas fictícias receberam produções de bandas reais, como a Clash At the Demonhead — com composição de Metric — e a Crash and the Boys — com composições de Broken Social Scene. Alguns temas que não entraram na OST também foram feitos por artistas conhecidos, como a trilha do jogo fictício “Ninja Ninja Revolution”, arranjada pelo produtor americano de hip-hop Dan The Automator, e a música da banda fictícia The Katayanagi Twins, composta pelo produtor japonês de música eletrônica Cornelius.

Produzida por Nigel Godrich, produtor e engenheiro musical inglês, a trilha sonora de “Scott Pilgrim vs. The World” tem uma edição deluxe com versões das músicas da Sex Bob-Omb cantadas pelo Beck. Algumas faixas da Sex Bob-Omb que aparecem no filme não integram a trilha — “Indefatigable” e “No Fun” — e algumas demos do Beck não entraram no filme — “Gasoline Eyes” e “Disgusting Rainbow”. Nigel ainda fez uma segunda trilha com todo o film score da adaptação. A Anamaguchi, banda americana de música eletrônica, compôs e executou a terceira trilha sonora da franquia — essa, para “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”. As três trilhas oficiais foram lançadas em CD e vinil pelo selo nova-iorquino ABKCO Records (Rolling Stones, The Animals, The Kinks).

1. “We Are Sex Bob-Omb”, Sex Bob-Omb (Beck)
“We Are Sex Bob-Omb” foi a faixa escolhida para musicar o primeiro ensaio da Sex Bob-Omb visto por Knives Chau (Ellen Wong III), a namorada colegial chinesa de Scott, cena que dá abertura para os créditos iniciais do filme. Nos quadrinhos, “we are Sex Bob-Omb” (“nós somos a Sex Bob-Omb”) é um bordão de Kim Pine, que sempre apresenta a banda em diferentes variações — “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make money and sell out and stuff” (“nós somos a Sex Bob-Omb e estamos aqui para ganhar dinheiro, nos vender, entre outras coisas), “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make you think about death and get sad and stuff” (“nós somos o Sex Bob-Omb e estamos aqui para fazer vocês pensarem em morte, ficarem tristes, entre outras coisas”), etc. No filme, Scott apresenta a banda uma única vez, antes da performance de “Threshold”. Para quem gosta de Death From Above 1979, Thee Oh Sees e Ty Segall.

2. “Scott Pilgrim”, Plumtree
A Plumtree é uma banda de twee e power pop canadense da cidade de Halifax, formada em 1993 pelas irmãs Carla (voz, guitarra) e Lynette Gillis (bateria), Amanda Braden (voz, guitarra) e Nina Martin (voz, baixo). Em 1995, Nina foi substituída por Catriona Sturton. Em julho de 2000, a banda fez suas últimas apresentações — uma delas, testemunhada por Bryan Lee O’ Malley, foi o que inspirou o cartunista a criar o quadrinho. “Scott Pilgrim”, composição de Carla e primeira linha de baixo feita por Catriona, é um single de “Predicts the Future” (1997), terceiro LP do grupo. O título da canção surgiu da fusão dos nomes de dois amigos da banda, Scott Ingram e Philip Pilgrim. No filme, a faixa está presente em uma das cenas iniciais e Scott aparece vestindo uma camisa da banda. Para quem gosta de CUB, Tiger Trap e Go Sailor

3. “I Heard Ramona Sing”, Black Francis
“I Heard Ramona Sing” é uma homenagem de Black Francis, vocalista e guitarrista dos Pixies, aos Ramones, uma de suas principais influências. A faixa faz referência também aos Menudos, nos versos “I hope if someone retires, they pull another Menudo” (“espero que se alguém se aposentar, eles atraiam outro Menudo”) — “Ramona” é um nome latino, tal qual o grupo Menudo, que sempre trocava seus integrantes por membros mais novos. A faixa foi lançada no álbum “Frank Black” (1993) e é trilha para a cena em que Scott procura por Ramona na festa de sua amiga Julie (Aubrey Plaza). Para quem gosta de Pixies, David Bowie e Sonic Youth.

  1. 4. “By Your Side”, Beachwood Sparks
    “By Your Side” é cover da cantora de soul Sade feito pela banda americana de alt-country Beachwood Sparks, e foi lançado no álbum “Once We Were Trees” (2001) e é trilha para o primeiro beijo de Scott e Ramona. Para quem gosta de Wilco, Apples in Stereo e The Flying Burrito Brothers.

5. “O Katrina!”, Black Lips
Black Lips
é uma banda americana de garage rock formada em Atlanta, em 1999, e seus integrantes são muito familiarizados com conceitos relativos à história e geografia. “Arabia Mountain” (2011), por exemplo, é um álbum com produção de Mark Ronson que faz referências (líricas e estéticas) ao Oriente Médio e à Ásia Meridional. “O Katrina!”, lançada no álbum “Good Bad Not Evil” (2007), é uma música sobre o furacão Katrina, que em 2005 devastou a região metropolitana de Nova Orleans e evacuou mais de um milhão de pessoas. No filme, a faixa aparece em uma discotecagem para primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de The Orwells, The Growlers e Allah-Las.

6. “I’m So Sad, So Very, Very, Sad”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“I’m So Sad, So Very, Very Sad” é a primeira música tocada por Crash and the Boys na primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto e tem duração de 13 segundos. Para quem gostou do show de uma nota só dos White Stripes.

7. “We Hate You Please Die”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“We Hate You Please Die” é a segunda música da Crash and the Boys na apresentação da primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. A banda dedica a canção a Wallace Wells (Kieran Culkin), colega de quarto de Scott, e deixa Stephen Stills inseguro em relação à competição — da qual, no entanto, Sex Bob-Omb torna-se vencedora. Para quem gosta de Japandroids e White Stripes.

8. “Garbage Truck”, Sex Bob-Omb (Beck)
A Sex Bob-Omb começa a tocar “Garbage Truck” na Batalha Internacional de Bandas de Toronto diante de uma tentativa desesperada de Scott de evitar um diálogo entre Ramona e Knives. A apresentação é interrompida Matthew Patel (Satya Bhabha), primeiro ex-namorado do mal de Ramona. Para quem gosta de garage rock em geral.

9. “Teenage Dream”, T. Rex
T. Rex, que começou com o nome de Tyranossaur Rex, é uma banda londrina de glam rock formada em 1967. A faixa “Teenage Dream” foi lançada no álbum “Zin Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow” (1974) e é trilha para a cena em que Scott pega um metrô após terminar com Knives. Para quem gosta de Queen, Rolling Stones e Mott The Hopple.

10. “Sleazy Bed Track”, The Bluetones
The Bluetones
é uma banda de indie e britpop formada no distrito de Hounslow, em Londres, em 1993. “Sleazy Bed Track” foi lançada no álbum “Return to the Last Chance Saloon” (1998) e aparece rapidamente na cena em que Scott e Ramona jantam juntos pela primeira vez. Para quem gosta de britpop em geral.

11. “It’s Getting Boring By The Sea”, Blood Red Shoes
Blood Red Shoes
é um duo britânico de indie rock formado em 2004 em Brighton, na Inglaterra, por Laura-Mary Carter (voz, guitarra) e Steven Ansell (voz, bateria). “It’s Getting Boring By The Sea” foi lançada no álbum “Box Of Secrets” (2008) e aparece em uma discotecagem para o evento em que Sex Bob-Omb faz o show de abertura para Clash at the Demonhead. Para quem gosta de Bloc Party, Yeah Yeah Yeahs e The Subways.

12. “Black Sheep”, Clash At the Demonhead (Metric)
Metric
é uma banda canadense de indie e poptron formada em Toronto, em 1998. “Black Sheep”, lançada no álbum “Fantasies” (2009), recebe uma versão interpretada por Envy Adams (Brie Larson) no show da Clash At the Demonhead. Para desenhar Envy, Bryan Lee O’Malley se inspirou em fotos de Emily Haines, vocalista do Metric. Para quem gosta de Yeah Yeah Yeahs, Tokyo Police Club e Cansei de Ser Sexy.

13. “Threshold”, Sex Bob-Omb
A Sex Bob-Omb toca “Threshold” na segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto, em um confronto contra a The Katayanagi Twins. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

14. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl”, Broken Social Scene
Broken Social Scene
é uma banda canadense de indie rock formada em 1999, em Toronto, que arrisca-se a experimentar diversos subgêneros musicais — shoegaze, dream pop, post-rock, art rock, entre outros. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl” é uma faixa acústica que flerta com folk e sadcore e tem vocais de Emily Haines. É trilha da cena em que Scott encontra Knives após a segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de Crywank, Sufjan Stevens e Fleet Foxes.

15. “Under My Thumb”, Rolling Stones
“Under My Thumb”, dos Rolling Stones — banda clássica que dispensa apresentações — foi lançada no álbum “Aftermath” (1966) e aparece no filme quando Ramona termina com Scott. Para quem gosta de rock clássico em geral.

16. “Ramona” (versão acústica) e 17. “Ramona”, Beck
“Ramona” aparece no filme pela primeira vez quando Scott toca um trecho da música para Ramona no primeiro jantar do casal. A versão acústica toca após Ramona terminar com Scott e a versão original aparece nos créditos finais. Para quem gosta de Elliot Smitt, David Bowie e Sparklehorse.

18. “Summertime”, Sex Bob-Omb
“Summertime” é uma faixa da Sex Bob-Omb que aparece nos créditos finais. A música seria tocada durante o filme em um ensaio da Sex Bob-Omb, mas foi interrompida por Ramona. No entanto, “Summertime” recebeu um videoclipe como material extra. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

19. “Threshold” (8-bit), Brian LeBarton
A versão 8-bit de “Threshold”, rearranjada pelo tecladista e compositor de música eletrônica Brian LeBarton, de Los Angeles, aparece nos créditos finais do filme. Para quem gosta de música eletrônica e trilhas de games.

Ouça a trilha sonora completa aqui:

Exposição “Renato Russo” presenteia e emociona com a história do ídolo da música nacional

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“Renato Russo” presta homenagem a um dos maiores ícones da música brasileira e é a quarta exposição idealizada e concebida totalmente pelo MIS – Museu da Imagem e do Som. A mostra conta com curadoria de André Sturm – ex-diretor do MIS – e direção de arte do Ateliê Marko Brajovic. Giuliano Manfredini, único filho do artista, concedeu ao MIS total acesso ao apartamento de Renato Russo confiando à equipe do museu sua catalogação, conservação e adaptação para a exposição.


A exposição totaliza mais de 1000 itens e ocupa dois andares do MIS. Ao entrar, subimos uma escada decorada com imagens de diversos artistas que serviram de inspiração para o Renato. Seguindo uma ordem cronológica, primeiro descobrimos um pouco sobre o menino Renato Manfredini Júnior, seus trabalhos e boletins escolares, esse sempre com ótimas notas registradas pelos professores. Interessante observar que desde pequeno ele teve o hábito de registrar suas tarefas e atividades, com certeza isso auxiliou para a realização dessa

Em seguida acompanhamos os primeiros passos musicais do já adolescente Renato Russo. Estão presentes os originais das primeiras letras escritas para o repertório da banda Aborto Elétrico e cartazes criados manualmente pelos próprios integrantes.


Chegamos nos espaços reservados à carreira musical com a Legião Urbana. É impossível não se emocionar e visitar a exposição cantarolando os sucessos da banda que servem de trilha sonora nos espaços. Estão presentes anotações sobre as concepções dos discos, letras originais, releases, críticas, instrumentos musicais, quadros de discos de ouro, platina e até diamante, recebidos em homenagem as vendas impressionantes alcançadas pela banda.

Televisores com imagens de arquivo mostram apresentações ao vivo da banda, basta o visitante colocar o fone de ouvido e assistir registros históricos. Um desses momentos é a participação da banda no extinto Programa Livre, atração comandando por Serginho Groisman no SBT na década de 90. Em determinado momento, a plateia do programa pede que a banda interprete a canção “Pais e Filhos”, eles atendem o pedido, mas antes Renato faz um discurso falando sobre como a música é pesada e o deixa num estado muito complicado, porque trata de suicídio e o desgasta emocionalmente. Ele diz que é preciso respeitar o artista, porque no caso da Legião Urbana, muitas canções são difíceis de serem executadas, pois o abalam demais. Mesmo dizendo que “não lembra a letra dessa música”, Renato interpreta a canção e vemos uma plateia completamente emocionada e cantando com muita intensidade.

Outro momento marcante é conferir um vídeo onde a banda interpreta “Vento no Litoral”. A imagem é projetada em diversos tecidos brancos, com um movimento que remetem literalmente ao vento no litoral. Impossível não se emocionar ao presenciar as imagens e observar a letra composta por Renato Russo em parceria com Dado Villa-Lobos. A carreira solo do cantor e os discos póstumos também ganharam destaque nessa exposição.


Foram recriados dois espaços do apartamento habitado por Renato Russo no Rio de Janeiro, parte de sua sala e seu quarto. Também podemos conferir parte das roupas usadas pelo cantor e do seu imenso acervo de livros e discos. Temos ali a certeza que Renato Russo era um colecionador nato.

Ao subirmos para o segundo andar da exposição, vemos um espaço repleto de cartas recebidas por fãs. Interessante ver a forma como Renato tratava seus fã-clubes. Ele por muitas vezes os recebia em seu próprio apartamento.

A exposição comprova a genialidade, por vezes incompreendida, do cantor Renato Russo. E mostra como suas letras, mesmo após duas décadas do seu falecimento, continuam atuais. Único ponto a reclamar seriam os fones de ouvido dos televisores, alguns não funcionam e assim não temos acesso aos áudios. Duas dicas importantes: às terças a entrada é gratuita, ao visitar a exposição, reserve um bom tempo, eu levei cerca de 3 horas para conferir tudo com atenção aos detalhes. A exposição fica em cartaz até o dia 28 de janeiro de 2018.

Não é doença! O punk transexual, visceral e transgressor com Cláudia Wonder em “Meu Amigo Cláudia” (2009)

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Meu Amigo Cláudia

Ano de lançamento: 2009
Direção: Dácio Pinheiro
Duração: 1h27min
Gênero: Documentário

Marco Antônio Abrão, três nomes masculinos como nome de batismo. Mas na verdade um homem, uma mulher, um transexual performista. Filha de pais adolescentes e criada por seus tios-avôs, Cláudia Maravilha, rebatizada logo após de Cláudia Wonder, é parte da maravilhosa história oitentista paulistana e ganha aqui um relato honesto não só de sua trajetória, mas de toda uma geração.

Das primeiras aparições em revista surge o contato com cinema pornô, sendo o transexual como objeto de curiosidade. Surgem porém estereótipos de travestis todos em representações eróticas ou com finalidade de alivio cômico. Com o fim da ditadura e vindouro movimento pelas Diretas, vem as primeiras vitórias políticas, a principal sendo a mudança no Ministério da Saúde, quando o homossexual deixa de ser considerado uma pessoa doente (qualquer semelhança com atual momento não é mera coincidência)

Começa então uma guerra no Estado de São Paulo, quando a policia promoveu um massacre disfarçado de “limpeza”, uma verdadeira temporada de caça contra a comunidade LGBT. Milhares de travestis são assassinados. Em outro e talvez o pior momento na classe, o documentário não faz concessões quanto aos relatos de promiscuidade e desinformação sobre a AIDS. A propagação da doença no meio, vulgarmente conhecida como a peste- gay, lança artistas como Cláudia no isolamento: “Fiquei seis anos sozinha” ela relata em certo ponto. Vem então a contestação contra os ditos bons costumes. E a resposta mais uma vez está na música, no rock and roll.

Cláudia Wonder
Cláudia Wonder

A salvação vem no punk, na subversão. A redemocratização encontra o auge do rock brasileiro. Nas apresentações em casas noturnas cultuadas como Madame Satã, Cláudia Wonder reúne toda uma geração de punks, góticos, atores, jornalistas e intelectuais para beber da efervescência cultural promovida por shows memoráveis com o “Vômito do Mito” e o “Jardim das Delícias”, culminando na antológica apresentação do espetáculo teatral “O Homem e o Cavalo” censurado desde a década de 30.

Nostálgico e revelador assim como o artigo de mesmo nome de Caio Fernando Abreu, “Meu Amigo Cláudia” é também ao mesmo tempo triste e reflexivo ao constatarmos que o mesmo momento politico que higienizou essa classe artística, pondo fim a transgressão e lançando esses artistas no ostracismo dos anos 90 parece querer fazer o mesmo retrocesso agora com leis descabidas e fomentando músicas de apelo popular e de pouco questionamento (como o sertanejo parecer crescer desses momentos!). Repleto de entrevistas de figuras carimbadas como Kid Vinil e o dramaturgo José Celso e da própria Cláudia Wonder, esse documentário está cada vez mais atual e necessário.