Maneiras de xingar: Titãs – “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991)

Read More

Bolachas Finas, por Victor José

Após uma trinca de álbuns lendários e obrigatórios (Cabeça Dinossauro”, Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” e Õ Blesq Blom”), os Titãs estavam naquela posição que toda banda almeja: não precisavam mais mostrar o seu valor. Afinal, quem é que contestaria naquela altura do campeonato a importância daqueles oito rapazes para a música popular brasileira?

“Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” veio em uma época em que a política do país – pra variar – estava em frangalhos. A “Era Collor”, mais precisamente. Falta de perspectiva, desemprego e aquela sensação de que todo mundo foi roubado e feito de idiota. Tudo isso deve ter feito a cabeça da banda, que não economizou na grosseria e lançou um disco bem no espírito do “foda-se”.

Bem, nem todo mundo curte esse álbum. A própria banda diz ser um dos trabalhos mais confusos, mas eu vejo de outra maneira. A época pedia isso, precisava disso. Obviamente, todos esperavam mais um trabalho coeso como “Õ Blesq Blom”, mas Titãs (naqueles tempos) não era uma banda muito adepta ao lugar comum, então nada de repetir fórmulas por conta do sucesso comercial.

Há uma coisa muito importante no disco logo de cara: Liminha não foi o produtor. Essa parceria brilhante, que rendeu a fase de ouro da banda se desfez nesse período, voltando somente no lendário Acústico MTV”. Sendo assim o grupo arriscou na produção e gravou numa casa alugada.

Na obra há uma unidade forte. Pela primeira vez o grupo inteiro assina todas as 15 faixas. Além disso arranjaram em conjunto, frisando a força das guitarras de Toni Bellotto e Marcelo Fromer.

Eles ousaram em lançar “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, ainda mais porque ali há letras escrachadas como ”Clitóris”, “Saia de Mim” e “Isso Para Mim É Perfume”, essa última com um irreconhecível Nando Reis cantando versos como “amor, eu quero ver você cagar”… Também há aquela brincadeira com palavras, como no caso de “Obrigado”, “Uma Coisa de Cada Vez” e “Não É Por Não Falar”. Também destaco as performances de Branco Mello, que achou neste disco um tom certeiro, como pode ser conferido em “Filantrópico” e “Flat-Cemitério-Apartamento”.

A respeito do som, dá para dizer que você pode esperar uma música pesada, carregada de guitarras sujas, um rock sem muita lapidação e que combina muito bem com um dia de revolta. Sim, esse disco é pra ser escutado alto, bem alto. É uma espécie de Titanomaquia” (seu sucessor) tosco. O teor das letras chega a ser meio juvenil e jocoso.

É óbvio que a mídia caiu em cima e criticou bastante o disco, que por fim apresentou vendas modestas. Mas acho que até eles mesmos sabiam que seria assim. O que faz desse trabalho ainda mais especial.

Ainda vale a experiência de ouví-lo, justamente porque este é o último álbum com a formação clássica. Isso porque Arnaldo Antunes pularia fora em 1992, para a tristeza de muita gente que, como eu, ama os Titãs desse período.

Talvez você deteste, talvez ame, não sei. O que eu sei é que esse disco é uma obscuridade que merece uma chance. Quem teria coragem de lançar isso hoje?

O som do Fita reinventa as trilhas sonoras dos anos 80 com um pé no futuro

Read More
Fita

Quando o filme “Drive”, com Ryan Gosling, foi lançado, todo mundo ficou impressionado com a trilha sonora oitentista de Cliff Martinez, ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers. Uma das pessoas que ficou de boca aberta com o som do filme foi André Luiz Souza Silva, que a usou como influência para o projeto Fita. No EP “Stick The Crazy” mostra um pouco das músicas eletronicamente roqueiras e trilhas sonoras instrumentais do projeto, que tem influências de Justice, Daft Punk, New Order e m83. Isso não significa que o Fita vá ficar apenas nos anos 80: “O Fita nasceu da vontade e necessidade de compor, criar e tocar da maneira mais independente possível. O único método de composição e estilo é a liberdade de não ter rótulo e nem opiniões divergentes”, conta. “Posso fazer musicas instrumentais, canções, trilhas, barulho… eu decido”.

– Como surgiu o projeto Fita?

Ano passado a banda que eu tocava acabou, aí peguei bode de banda. Não tava afim de cantar, mais criar letras e tal. Mas queria compor, fazer umas músicas diferentes… Aí pensei em fazer umas músicas sozinho mesmo e comecei a pensar em como tocar ao vivo sozinho. Peguei umas músicas que eu já tinha e não dava pra usar na banda e comecei a fazer a parada. Tava de saco cheio da dinâmica de banda: ensaio, tretas, dificuldade pra marcar show e casar as agendas…

– Então esse projeto foi meio que uma válvula de escape de tudo o que a banda trazia e você não queria mais.

Sim. Foi uma terapia. Agora eu sei q eu tenho q fazer tudo do meu jeito e assim eu fico mais satisfeito. Faço tudo no meu tempo e dentro das minhas prioridades.

– E porque o nome “Fita”?

Putz! Dar um nome é um lance muito difícil. Achei que Fita seria legal, pode ser uma gíria que muita gente usa e pode ser fita cassete, fita VHS, fita de videogame, cartucho. Coisas velhas. Eu gosto de coisas velhas. E ainda dava pra fazer as fitas K7 do meu trampo, Aí fica esse trocadilho infame de fita do Fita (risos).

Fita

– Sim, a capa do EP ficou sensacional, me levou direto de volta pra frente do aparelho de VHS do meu vô lá em 1992!

(Risos) Da hora! Eu que fiz. Fiquei horas procurando uma imagem legal de alguma capa de VHS. Aí procurei uma fonte q lembrasse um pouco o logo da SEGA… (Risos) E Fita tá sendo legal por isso. Eu controlo tudo o que dá.
Tento fazer o máximo de coisas por conta própria. Tem coisas que ficam toscas, mas faz parte (risos). As fitas eu gravo em casa. Comprei um duplo deck quebrado por 70 reais, arrumei ele e gravo em casa as fitinhas. Tipo gravar Mtv das antigas em VHS, ou disco em cassete. Sempre rolou esse lance de fita K7 em casa. Meu pai tinha uma coleção da hora. Várias coleções com as capas feitas à mão… Hoje é só fazer uma playlist no Spotify e já era.

– E você gosta desse novo formato de hoje em dia, em que a mídia física ficou obsoleta?

Eu gosto, é muito prático, a qualidade é boa. Eu não tenho paciência, por exemplo, com iTunes. Nem sei onde tá meu iPod! Nunca mais vou ficar sincronizando milhares de músicas. Por outro lado, nem tudo tá no Spotify, nem tudo tá na Netflix, nem tudo tá online… Mídia física é pra quem gosta mesmo, quer garimpar, quer ter uma experiência diferente.

– Voltando ao disco: me fala um pouco mais das músicas que estão nele. Elas têm uma pegada mais oitentista…

Sim. Culpa da trilha sonora do “Drive”. Quando eu vi o filme senti que aquelas músicas eram muito mais a minha vibe do que o que eu tava fazendo. As músicas da trilha não são 80, mas são influenciadas pelos anos 80. New romamtic, synth pop… Você pega os caras da trilha, Kavinsky com a Lovefoxxx… New retro wave e electro
(Risos). College… É muito trilha de filme anos 80. E aí junta a vontade de criar uns sons, tipo Justice e Daft Punk, New Order antes de Ibiza.

– Eu ia perguntas quem influenciou você pra esse disco, mas acho que você já respondeu… Ou será que não?

Isso tudo mais m83 e acho que só. Eu tenho ouvido muito electro, acho que de 10 em 10 vem umas nostalgia (risos).

– Você acha que hoje em dia muito do som que é apresentado na cena independente remete à nostalgia, seja voluntaria ou involuntariamente?

Sim! Acho que sim, de certa forma. Mas acho que faz parte do processo criativo normal. Pegar uma coisa que você gosta, criar em cima disso tentando deixar a sua assinatura. Nem digo que tudo é nostalgia, mas é repertório, gosto pessoal. Daqui 20 anos vai ter gente que vai querer fazer um funk roots estilo Furacão 2000, e vai falar que naquela época é que era da hora (risos). Doideira. Galera era autêntica e tal. (Risos) Acho normal, dificil é criar uma coisa totalmente nova, ou que pareça diferente de tudo.

Fita

– E você tá fazendo shows com o projeto Fita? Sozinho?

Sim, fiz uns 4. Aí eu toco e chamo a Cintia do In Venus e a Adriana do HungryGilli pra cantar. Aliás, preciso pensar num formato melhor e maior de show,  porque os que eu fiz até agora foram curtos, tipo pocket show. Minha ideia é começar a testar as musicas do disco full e colocar uns covers pra aumentar o set.

– Que tipo de cover cê pretende colocar?

Alguma do Chromatics, New Order, fazer alguma versão inusitada, sei não.

– E quais são os planos para esse álbum completo?

Vão entrar as 4 do EP, com mais 6 numa ordem diferente. Vão ter umas músicas instrumentais mais tranquilas, mas pauladas e uma esquisitice ou outra.

– Aliás, você falou do “Drive”… O EP lembra uma trilha sonora, mesmo. Você pensa em algum enredo quando compõe as músicas?

Em algumas delas sim, cara. Outras são só piração. Tem música que eu já faço pensando num filme, num curta, num clipe. A ideia do disco vai ser criar uma história entrelaçando todas as músicas. Não se se vai dar certo
Ate lá eu invento algo convincente (risos).

– Ou seja: se alguém se interessar em criar um curta pra acompanhar os sons, é só falar com você?

Claro! (Risos) Outra coisa que impulsionou o Fita foi o lance da minha mulher sempre dizer que as minhas músicas instrumentais eram bem melhores do que as canções. Aí falei “porra, vou fazer um disco instrumental!”. As duas canções do EP são puro.acidente. Uma letra eu tinha e queria usar, e achei q casava direitinho com o estilo da Cintia. A outra tava pronta e ai o produtor falou “Coloca uma letra nessa música”, aí chamei a mulher dele pra escrever e cantar e rolou. Música pra tocar na novela (risos). Tocar em filme. “Drive 2”.

– E finalmente: recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Cara, sem dúvida nenhuma o In Venus, Sky Down… Gosto muito de uma banda instrumental que chama Shröeder, os caras são de São Paulo, uma música pirada. Gosto de Bode Preto, de Teresina. É death metal! Gosto da Muff Burn Grace do ABC. Tem uma porrada de banda do role que são legais, mas tão meio paradonas: Blear, Moita… Essa banda de mina é foda, porrada mesmo. Punkzão foda!

Construindo Pássaro Vadio: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

Read More
Pássaro Vadio

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o Pássaro Vadio, que lançou seu disco de estréia, Caosmos, no inicio de junho pelo selo Take One Records.

Ryuichi Sakamoto“1919”
O minimalismo dela nos leva pra um labirinto em que não conseguimos achar a saída – escutamos vozes que somos incapazes de entender e depois surge o cello dissonante do Jaques Morelembaum que chega até o fundo do nosso estômago.

Brian Wilson“Surf´s Up”
Uma das forças criativas do universo pop. Harmonias emotivas e ao mesmo tempo particulares, que ainda nos momentos mais abertos carregam uma melancolia e um sorriso amarelo.

Zé Miguel Wisnik“Anoitecer”
Poema incrível na mesma medida que denso do Drummond musicado genialmente pelo Zé Miguel Wisnik – as imagens que evidenciam transformações do Brasil urbano e rural – a massificação, exaustão e medo pairando sobre o asfalto da metrópole vistos com uma intimidade incômoda e familiar.

Flying Lotus“Zodiac Shit”
A ancestralidade virtual dessa track me bateu forte quando ouvi pela primeira vez. Flying Lotus é ótimo em ultrapassar eventuais engessamentos da produção pop contemporânea.

Thee oh Sees“Web”
Começa com a tensão de guitarras que parecem te colocar na mesma sala dos amplificadores. Os vocais dobrados e sussurrados deixam ela nesse limiar entre lisergia sessentista e psicodelia virtual.

Captain Beefheart“Autumns Child”
O vocal rasgado, de garganta, e a entrega de Don Van Vliet – com uma ponta de deboche – nesse soul de “Safe As Milk”, tem uma letra que poderiam chamar de non sense, mas que me pega em algum lugar que eu mesmo desconheço – como se eu já tivesse visto essas cenas antes.

King Gizzard“The River”
As inúmeras voltas que levam ao mesmo núcleo central da música, a estranheza da harmonia vocal, a levada jazzista junto do respiro da música australiana contemporânea foram alguns dos motivos pra ouvir “The River” várias vezes.

Elizete Cardoso“Vida Bela”
Canção abaionada dessa incrível cantora, com arranjos de sopros, cordas que dão profundidade ao vocal e sua melancolia.

Antonio Carlos Jobim“God and the Devil in the Land of Sun”
Tom Jobim e sua capacidade de fundir elementos com total naturalidade – e ultrapassar qualquer chancela do ‘conceitual’.

Fela Kuti“Teacher Don’t Teach Me Nonsense”
Ouço Fela Kuti e lembro do Alê Siqueira, produtor do nosso disco, usando o próprio peito de tambor na técnica do estúdio captando possibilidades percussivas para canções como “Mar de Aral” e “Living Fast”. Além do super título “Teacher Don’t Teach Me Nonsense”, ela tem esse clima ao vivo, de primeiro take e improviso que também está na essência das gravações de “Caosmos”.

Nicolas Jaar“No”
“Ya dijimos No, pero el Si está en todo, todo lo que hay”. A cumbia milenial com esse refrão instigante é uma das grandes músicas do “Sirens”, último disco do Nicolar Jaar – trabalho imersivo e pessoal sem perder o pop de vista.

Can“I’m so Green”
Há uns anos um amigo me mandou “Vitamin C” pra escutar. Acabei ouvindo inúmeras outras vezes o “Ege Bamyasi” – a singularidade ao mesmo tempo simples, confessional e – não sei por que me dá um bode de falar – mas vanguardista da Can fizeram com que eu ouvisse esse disco durante muitas insônias.

Damon Albarn“Everyday Robots”
Música (e disco) que sabem usar muito bem a simplicidade como forma de subvertê-la – pra falar da mecanização da rotina e da solidão contemporânea.

José González“Killing for Love”
O folk que evoca a natureza e a natureza humana com a intimidade que só o violão de nylon provoca – simples e certeiro – me fizeram um grande ouvinte desse argentino radicado na Suécia, lá por 2009 ou 2010, período em que as primeiras músicas de “Caosmos” foram compostas. Jose Gonzalez traz eventualmente no acento do seu violão menções a um lugar de onde também se origina parte do folclore brasileiro.

Pond“Fantastic Explosion Of Time”
Conheci a Pond e essa música como trilha de um mini-doc que assisti sobre um vilarejo em Java Central – lugar que parecia desacoplado do nosso tempo/espaço – a força do refrão anunciando uma explosão fantástica do tempo ficou gravada junto das imagens daquele pedaço de Java –misterioso, quase que em outra dimensão.

Clap! Clap!“Ode to The Pleiades”
A ancestralidade das percussões mescladas com fluidez ao universo eletrônico do projeto faz dele dançante, denso e xamânico – uma imagem refletida do passado e futuro.

Gilberto Gil“Expresso 2222”
Canção e letra geniais desse disco genial do grande Gilberto Gil – que, como Caetano, está involuntariamente gravado na minha memória afetiva por ser parte da trilha da minha família.

José Prates“Oniká”
Grande canção (e disco) que além das entidades, evoca a origem da canção popular no Brasil junto das religiões de matriz africana, como o candomblé.

Erasmo Carlos“É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo”
Somos fãs de canções e refrãos. Taí um ótimo exemplo de pungência e honestidade que te pegam na primeira ouvida. Certamente músicas do nosso disco como “Amargurado” tem uma dívida com Erasmo e Tim Maia.

Beck“Morning”
E só tinha faltado uma balada – como essa baita canção do Beck que o Davi, nosso atual baterista que gravou percussões e synths no disco, citou como referência de arranjo para a canção que dá nome ao disco, “Caosmos”.

O que é “bossa nova shoegaze mp3”? A banda morena morena pode te explicar (ou não)

Read More
morena morena
morena morena

Apesar do clipe de “Abre Alas” ter sido gravado nos bloquinhos de Carnaval do Rio de Janeiro, não espere nada com uma pegada “Los Hermanos” vindo do morena morena. Formado por Matheus Morena, João Lucchese e Thiago Fernandes, o grupo até tem algo em comum com o quarteto de barbudos: o gosto pela bossa nova. Mas além disso, também apresentam em seu som influências bem diversas, como Frank Ocean, Joy Division e American Football. “Mas, a galera em si, está ouvindo bastante trap e rap, e isso tem entrado em grande peso nas estruturas das músicas”, conta Matheus.

Ao serem questionados sobre como definiriam o som do trio, eles me surpreenderam com uma nomenclatura até então nunca ouvida: “Bossa Nova Shoegaze MP3”. “Mas que diabos é isso?”, você deve estar se perguntando. Pois é, eu também, até ouvir o som do morena morena. Confira a entrevista com eles:

– Como a banda começou?

Então, a banda começou com um projeto solo meu, produzido inteiramente em casa, de forma bem humilde. Eu lancei um EP, e depois disso comecei a marcar apresentações, em razão do bom reconhecimento do material. Foi nesse momento, que senti a necessidade de uma banda para apresentar as músicas. Chamei então João e Thiago. Já tinham uma determinada estrutura para se fazer música, além de uma opinião sobre arte em si bem semelhante. Com isso, a coisa foi se construindo quase que organicamente.

– E como surgiu o nome da banda?

Cara, foi de maneira bem paradoxal. Como eu era um projeto solo eu tinha que colocar algum nome que se interligasse ao meu nome, mas não queria o meu nome em si. Aí, teve um dia que eu estava mexendo no Facebook, e de repente meu amigo me chama de forma urgente, “morena morena”! Aí eu me toquei que seria um bom nome para um projeto mais underground. A letra minúscula é essencial para dar esse caráter mais “sei lá” ao nome, que tem a ver com o conceito do trabalho em si. Então, foi de maneira metódica e ao mesmo tempo, meio que natural.

– Quais as principais influências do som da banda?

Então, o som que estamos produzindo atualmente tem muito influência de artistas como Frank Ocean, João Gilberto, Joy Division e American Football. Mas, a galera em si, está ouvindo bastante trap e rap, e isso tem entrado em grande peso nas estruturas das músicas. Nas canções em si, existe uma influência grande da bossa nova e seus remanescentes.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Isso é algo que gera bastante conversa na banda. Mas, já temos um.norte que bolamos : Bossa Nova Shoegaze MP3 .

morena morena
morena morena

– Me fala um pouco mais sobre o material que vocês já lançaram.

Lançamos o EP “Como Uma Bússola Orbitando Um Espaço Vazio”, que tem um caráter bem.melancólico e intimista, mas que expressava bem cirurgicamente o momento que social que se passava, a tristeza e desesperança se refletindo nas relações de afeto. Eu escrevi e gravei tudo em julho de 2016, então tem todo um âmbito relacionado a perda e compreensão. Os acordes se repetem por todas as músicas em razão justamente disto, quase um mantra, na linha tênue para a loucura. Lançamos também um single chamado “Abre Alas”, que fala sobre superar um obstáculo e permanecer vivo. Sabe? Fazendo que a multidão do Carnaval se assemelhe a um momento de desespero e angústia. O bloco que não acaba. A fantasia que te esconde. Uma coisa meio paranoica e lúdica.

– Então o próximo trabalho pode não ter nada a ver com o que foi lançado.

Em essência as canções possuem a mesma onda. Mas a estrutura das músicas será um tanto diferente sim.

morena morena
morena morena

– Já estão trabalhando nesse novo som?

Já sim! Em muito pouco tempo já estará disponível pra ser ouvido pela galera. Já estamos trabalhando nisso.

– Como vocês veem a cena independente hoje em dia?

Muito rica nesse sentido. A melhor acessibilidade às pessoas em relação a equipamentos de gravação facilitou o processo criativo. Isso fez com que houvessem mais oportunidades a determinados indivíduos de demonstrarem sua percepção musical. É revigorante e muito motivante ver isso rolando.

– O alcance acaba sendo maior, apesar de ter menos entrada no circuito mainstream?

Não sei, o nível de reconhecimento depende menos de uma meritocracia aplicada por gravadoras e mídias televisivas. Mas, de fato essas bandas alcançam bem mais gente justamente pelo fato dessa abertura que a internet proporcionou a música independente, sem dúvida.

– Quais os próximos passos da banda?

Produzir o nosso primeiro disco, procurar novos meios para divulgar nosso trabalho, buscando sempre novos lugares para tocar e conhecer, que é a melhor coisa, né.

– Recomendem bandas e artistas independentes que conheceram nos últimos tempos e todos deveriam ouvir!

Cara, temos ouvido bastante bandas independentes como Mahmed, que fizeram um álbum genial, Ventre, gorduratrans, que acabou de lançar um álbum, El Toro Fuerte, que faz um trabalho belíssimo… Def também é bem interessante, tem muito som bom sendo feito por aqui, e que precisa muito ser notado, são belíssimos!

Filosophone: Tom Zé, o homem que nasceu póstumo – Quando o público não entende seu gênio

Read More
Tom Zé

Filosophone, por Matheus Queirozo

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si

para dar à luz uma estrela cintilante.”

(“Assim Falou Zaratustra” – Friedrich Nietzsche)

 

Ser um grande artista às vezes custa caro. Calma. Deixe-me pensar: teimo em acreditar que seja uma tarefa fácil ser um grande artista, mas como pode existir alguma exceção dentro disso, deixo então em aberto quando digo às vezes. Como acho realmente que ser um grande artista não é nada fácil, reformularei o começo deste texto, vamos lá: ser um grande artista, na maioria das vezes, custa muito caro! Pronto, talvez agora eu tenha conseguido repassar a intensidade da ideia de dificuldade que é ser um grande artista nesse mundo interminável da arte. Não é todo dia que nasce um gênio. E com certeza não há fórmula que mostre o caminho mais fácil. A genialidade é capaz de tornar um artista um ser atemporal, um imortal, assim como Machado de Assis na nossa literatura brasileira, um escritor que foi além do seu tempo, que através das letras conseguiu dar a sua contribuição intelectual para construir a nossa cultura. O gênio se destaca. O gênio sobressai em meio aos iguais, em meio àqueles que não apresentam o novo para o povo que anseia com a sede dos desertos mais caudalosos por uma arte que os preencha, que os satisfaça nesse rastejar misto de alegria e dor que é a vida. Como diria nosso filósofo otimista – otimista foi uma ironia só pra descontrair antes do grande pessimismo – Arthur Schopenhauer, a vida é dor e sofrimento. E em meio a dor e sofrimento, de tempos em tempos, surge um grande artista. E ser um grande artista, um gênio, nem sempre é sinônimo de felicidade, Tom Zé que o diga isso. Baiano nascido no município de Irará, localizado na nossa Grécia brasileira, fonte de arte e de sabedoria, a Bahia de Jorge Amado e Glauber Rocha, Tom Zé é hoje aplaudido, pode-se dizer, no mundo todo, um artista de uma originalidade tremenda que o elevou a gênio. Mas nem sempre foi assim.

Sabemos que em julho do ano de 1968, Tom Zé e os demais baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, juntamente com Nara Leão, Os Mutantes, além dos poetas Capinam e Torquato Neto, sob a regência sobre-humana do maestro Rogério Duprat, compunham um dos maiores discos já feito na história da música, o grandioso “Tropicália ou Panis et Circencis”.

Tom Zé no canto superior direito.

Foi o momento de glória estética! Nesse mesmo ano de 68, momento do ápice tropicalista, Tom Zé lança seu álbum de estreia, o “Grande Liquidação”, que abre com a canção “São São Paulo”. Nesse disco, o baiano de Irará escreve um texto na contracapa, e no final deixa registrado para a posteridade: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. Gravem bem esta frase, pequena, mas contundente.

Continuando a consolidação do artista: é nesse mesmo ano, mais precisamente em novembro/dezembro de 1968, que Zé tem a graça de ter sua música “São São Paulo” em quinto lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira. Os louros ao baiano de Irará! “Palmas ao Dom Quixote que ele merece!”. Segundo o maestro e arranjador Júlio Medaglia, em entrevista para o programa musical O Som do Vinil do Canal Brasil, “São São Paulo” é o “verdadeiro hino paulista, porque tem a ironia que vê a cidade com um olhar crítico, mostra os extremos daquela loucura maravilhosa que é São Paulo”.

Tom Zé no IV Festival de Música Popular Brasileira, recebendo das mãos de Júlio Medaglia o prêmio pela canção “São São Paulo”, que ganhou o 5º Lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

“São oito milhões de habitantes

De todo canto em ação

Que se agridem cortesmente

Morrendo a todo vapor

E amando com todo ódio

Se odeiam com todo amor”

(São São Paulo, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

 

A genialidade de Tom Zé consiste na sua complexidade diante da sociedade composta pela massa. A massa é feita de cada pessoa que passa a vida em busca de sua identidade, é uma busca tão dedicada que alguns chegam a vender suas almas em troca de uma tribo, tudo para fazer parte de um grupo, tudo para fazer parte daquilo da galera que ouve os mesmos sons, que lê os mesmos livros, que fala as mesmas palavras, e tudo isso forma a massa, a massa que exige que você deixe de lado a sua identidade, aquilo que identifica você enquanto único em troca de uma vida massificada. É nesse momento que as pessoas perdem a sua identidade e são engolidas pela massa até se perderem dentro dela, até formarem algo unilateral, com os mesmos pensamentos, com a mesma visão de mundo, com os mesmos desejos programados. Diante de uma sociedade massificada, a genialidade de Tom Zé foi sendo aos poucos ignorada pelo público consumidor. Isso é comum com pessoas de personalidade autêntica, a peculiaridade as exclui da massa. Num planeta de enlatados, em que só é preciso requentar a comida feita anos trás, botar no prato e comer, porque é mais cômodo viver assim, o produto que cheira como diferente de tudo isso já soa como uma ameaça aos preguiçosos mentais, uma ameaça àqueles que sonham em morrer em suas zonas de conforto. O novo sempre vem para abalar as estruturas, “mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

Quem diria, o gênio de Irará, em meados de 1972, lança sua pérola “Se O Caso É Chorar”, seu terceiro álbum, recheado das suas complexidades populares, que só o gênio autêntico possui. No programa O Som do Vinil, Tom Zé fala sobre a música título do disco: “em 1973, ela ficou na parada (de sucessos) durante uns seis meses e um dia ela foi primeiro lugar na parada da Rádio Nacional. E naquele tempo, você concorria com os Beatles, com Rolling Stones, com todo mundo, era uma parada só”.

“É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil
Porque é made, made, made, made in Brazil”

(“Parque Industrial”, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

Com o álbum “Todos Os Olhos”, de 1973, é confirmado o aforismo do filósofo alemão Nietzsche, que diz: “há homens que já nascem póstumos”. Tom Zé nasceu póstumo. O gênio nasce incompreendido pelo seu tempo. Tom Zé, mesmo depois de todo o movimento tropicalista, teimou em continuar sendo Tom Zé, teimou em ser artista experimental do som e das palavras. A sua obra poética e sonora, cheia de jogos de palavras, repletas de experimentações inusitadas, lhe rendeu o exílio artístico. A massa não conseguiu engolir Tom Zé. A massa não tinha sistema digestivo competente para entender um homem póstumo. Ele era intragável para a sociedade.

Quando nasceu enquanto artista, nos idos de 1968, ele já havia previsto seu hiato: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. E a sociedade teve essa dor de barriga. Com isso, a massa expulsa o seu poeta da ágora tropical, condenando-o a tomar a mesma cicuta que levou Sócrates à morte. Mas a cicuta do gênio de Irará o leva a uma morte dos meios de comunicação, que é a reclusão das grandes mídias.

O diferente assusta, causa temor, tira qualquer um da sua zona de conforto. O novo amedronta, causa nervosismo, faz um rebuliço, causa até dor de barriga, porque o homem, depois que passou do estágio de nomadismo em que era um destemido andarilho pela natureza em busca da sua subsistência, perdeu a coragem de ver o mundo por novas perspectivas. Seu prazer agora se concentra naquilo que lhe parece mais seguro, por isso se prende a rotinas, a mesmices, a comportamentos cíclicos. A novidade é difícil de ser decodificada porque exige um esforço intelectual. Fazer parte de grupos é importante, pois, segundo o psicólogo russo Lev Vygotsky, o desenvolvimento intelectual do ser humano se dá através de suas interações sociais. O problema é quando o indivíduo perde a sua individualidade, enquanto identidade que lhe define, no meio de uma massa de pessoas que pensam do mesmo jeito, que se comportam da mesma maneira. É muito importante ser autêntico, ser original. A liberdade de pensamento só existe quando nós somos autônomos, quando somos donos de nós mesmos.

Tom Zé foi longe. Sua obra sempre foi permeada de experimentalismos tanto vocabulares quanto instrumentais. Ouvir sua música é uma viagem única. E quem embarcou nessa viagem e gostou foi o norte-americano David Byrne, ex-integrante da banda The Talking Heads, que redescobriu Tom Zé no final dos anos 80, numa viagem que fez ao Rio de Janeiro.

A história nos conta que Byrne, andando pelo Rio, queria conhecer um pouco mais do samba da nossa terra, bateu então os olhos num disco de capa branca que tinha apenas o nome e um desenho de arames, coisa simples. Ouviu e adorou. Era o quarto álbum de Tom Zé, “Estudando O Samba”, de 1976.

Daí por diante, o anarquista de Irará ficou conhecido nos Estados Unidos, depois na Europa e voltou a ser notícia.

Considero Tom Zé o artista mais tropicalista da Tropicália. Sem dúvida é o único do movimento que tem a alma tropicalista e que continua produzindo regularmente com toda sua carne e sangue tropicais, ele é aquele que nunca, jamais, perdeu o espírito tropical de poeta zombeteiro e ácido. Ave Tom Zé!

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Elio Sant’Anna, d’Os Garotos de Liverpool

Read More
Elio Sant'Anna
Elio Sant'Anna, do Garotos de Liverpool

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é Elio Sant’Anna, do site Os Garotos de Liverpool.

“Fui convidado pelo João Pedro Ramos a participar do 5 Pérolas Musicais, onde cito algumas músicas que (quase) ninguém conhece, mas que deveria ser mais divulgada pela mídia, afim de atingir um público maior. Tentando fugir um pouco de clássicos que se passaram despercebidos, bandas novas (nacionais ou internacionais) passaram por aqui”.

The Strypes“Get Into It”
The Strypes é uma banda totalmente influenciada pelo blues, além de terem o apelido de “netos dos Beatles”, não só pela época que são, mas pela idade dos membros, que variam entre 18 e 20 anos de idade. Na época que eu entrevistei a banda, em 2015, eles trouxeram riffs não presentes na versão de estúdio, num clipe que apresentava somente a banda, num estúdio e com uma música que resume bem o estilo da banda. Falando sério, vocês dariam uma idade tão baixa para alguém que faz uma sonzeira dessas?”

FingerFingerrr“Eu Só Ganho”

“Com um disco de estúdio lançado, ‘MAR’, o duo FingerFingerrr mostra que não é necessário ter uma banda completa para fazer um som de qualidade. ‘Eu Só Ganho’ é uma música com praticamente duas frases, mas encaixam perfeitamente no mundo atual, onde nós só ganhamos e no final não temos nada”.

Doris Encrenqueira“Fazer O Quê? (Eu Gosto)”

“Estreando no final do semestre passado, os gaúchos da Doris Encrenqueira trazem um rock’and’roll sem pudor, sem dó, sem frescura (de acordo com eles mesmos) e em português para os nossos ouvidos. Riffs e solos naturais, unidos a uma cozinha (baixo e bateria), tão pesada quanto uma voadora no peito (palavras de Lúcio Brancato). O disco, que não tem nem um mês de vida, traz encarte com as letras das dez músicas e um pôster da banda e o videoclipe do single vocês conferem abaixo!”

Truckfighters“Calm Before the Storm”

“Se vocês gostam de stoner rock, músicas longas e regadas a muito instrumental, o som que precisam ouvir é desses suecos. Tive acesso ao último disco deles, do ano passado, dois meses antes de ser lançado. O “V” começa com uma música que pode ser levada no pé da letra, sendo cantada de forma devagar, num ritmo relaxante, que não chega nem perto do stoner rock da banda, com riffs que poderiam se encaixar perfeitamente no projeto The Fireman (McCartney/Youth). Mas como eu estava falando, toda a calmaria (Calm) é executada antes (before) da revolução musical que acontece dentro da própria faixa que a transforma numa tempestade (Storm), regada com riffs marcantes, batidas desconcertantes, num clipe que mescla as cenas entre sequências normais, reversas e que vocês podem assistir abaixo”:

Bratislava“Enterro”

‘Fogo’ foi mais um dos discos que tive acesso antes do lançamento, fazendo uma resenha faixa-a-faixa. “Enterro” é uma música escolhida para abrir o disco lançado mês passado.Sintetizadores e solos de guitarra, mostram a música mais rockeira do disco, que foi inspirada na tragédia de Mariana, maior desastre ambiental da história do Brasil. É uma reflexão sobre perdas e despedidas que aconteceram, fisicamente ou da natureza, de um modo não agendado. No meu modo de ver, ela também fala de enterro, no sentido de fingir que morreu algo do passado e deixar pra trás, sem uma despedida. A música tem participação Gustavo Bertoni (Scalene)”.

“Harold and Maude” (1971) – Um filminho feliz com musikitchas felizes

Read More

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Harold And Maude (Ensina-me A Viver)
Lançamento: 1971
Diretor: Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Elenco Principal: Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles

Pra curte a brisa hippie diboísta do Cat Stevens, esse é o melhor filme, já que além das músicas do próprio, o enredo em si também é absurdamente lindjo e diboistão.

Tem um cara que vive só com a mãe (o pai morreu) numa mansão gigante, sempre em meio a jantares e ocasiões sociais supérfluas. Cansado dessa futilidade burguesa e com um estranho fetiche pela morte, ele forja suicídios pra mama (ela já nem dá bola, acostumada com a estranha mania do filho) e curte dá uns rolê indo por aí em funerais aleatórios. A mãe “preocupada”, esperando que o filho tenha mais “responsabilidade e ambição”, manda o garoto pro psicólogo, tenta meter ele no exército e fica tentando achar uma mina pra ele em estranhos sites de namoro. O cara contudo tá tacando o foda-se na melhor expressão niilista e num dos funerais que vai, encontra uma simpática senhora que assalta carros pra voltar pra casa e devolve no dia seguinte, quando depois da cerimônia o carro roubado é o seu, ele vai reclamar com a velha e ela acaba pedindo uma carona. O cara topa, leva ela em casa (um antigo vagão de trem, encostado num canto da estrada) e recusa a oferta pra entrar e tomar um chá, prometendo voltar outro dia.

<3

por dentro!

Ele volta, conhece a casa, toma um gostoso chá de vó com a maluca, dança (por insistência da senhora que mata o jeito quebradão do cara) e acaba obviamente se apaixonando, com seus vinte e poucos anos, pela hippie quase octogenária. A doida bem loka e feliz que faz por sinal, qualquer um se apaixonar, ao longo da semana quando se passa o longa e que é a última dos seus 79, tira cada vez mais o cara do seu jeito tímido e apático pra apresentá-lo ao fantástico mundo da louca e linda felicidade rebelde, simples e magnífica (tipo Mogli e Baloo: eu uso o neeeecessário!), que manda pra casa do caralho todas suas “angústias” existencialistas.

A música, nesse filme, que inclusive é parte importante da introdução do Harold (o garotinho) ao mundo dos felizes, é lado a lado com as cambalhotas que o casal inter geracional dá no mato, a responsável pelo clima good vibes. A trilha com músicas do Cat Stevens (e alguns clássicos do séc. XIX), deixa qualquer um chapadão num clima bem gostosinho e alegrinho (como sempre fazem as músicas dele).

Com letras que resumem bastante a filosofia da velha, a parte sonora do musical desafia qualquer tipo de “grande filosofia” e sorri boba um sorriso apaixonado, gostoso e aconchegante, cantando músicas como “If You Want To Sing Out” e “Don’t Be Shy” que dizem dos modos mais profundos e poéticos possíveis, exatamente o que se propõe nos títulos e inspiram o espectador a pular por aí cantando alto (como se faz no filme).

 

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha (em playlist):

https://www.youtube.com/playlist?list=PL02CB3E1F7937EF4F

Ouçam, assistam e curtam!

Valeu!

RockALT #22 – Thrills & The Chase, Kasparhauser, Bullet Bane e Bully

Read More
RockALT

RockALT, por Helder Sampedro

Após 21 semanas consecutivas alternando entre meu irmão Jaison e eu, assumo em definitivo o comando da coluna do RockALT, porém agora escreverei semana sim, semana não. Enquanto isso, meu irmão vai concentrar seus esforços no nosso canal do youtube (que tal aproveitar para dar uma conferida por lá?

Chega de desculpas e de merchans, vamos para as indicações de hoje!

Thrills & The Chase
Conheci esse quinteto paulistano uns 5 anos atrás sem querer, quando um amigo me convidou para ver a banda do amigo dele. Chegando ao show conferi uma apresentação empolgante de uma banda jovem porém que passava muita confiança em sua música e sua identidade. Anos mais tarde os vi novamente em um show no finado Inferno Club na Rua Augusta, mas confesso que não tenho quase nenhuma memória daquela noite. Eis que reencontro a banda uma vez mais, desta vez em 2017, já com seu LP lançado e muitos elogios atrelados a ele. É muito reconfortante ver a evolução da banda, de seu som e sinto um certo prazer em ver como eles cresceram e encontraram, merecidamente, seu lugar e uma sonoridade original no cenário independente paulistano. E nada mais paulistano do que o classudo LP que homenageia uma segunda-feira pós vida noturna em um fim de semana na Augusta, confira o álbum ‘Original Monday Night Soundtrack’:

Kasparhauser
O vocalista da Kasparhauser fundou seu selo, o ‘Valente Records’ em 2016. E completou 18 anos de vida em 2017. Nada como ver alguém com uma fração da sua idade conquistando algo que você nunca imaginou fazer pra se sentir obsoleto, não é mesmo? Ao contrário de muitos por aí eu fiquei muito satisfeito ao conhecer esse selo de Duque de Caxias pois é a prova de que a manutenção e atualização do cenário musical independente já está em curso. Um verdadeiro tapa na cara de tiozões que insistem em dizer que o rock morreu. Há algumas semanas eu estava no show do gorduratrans e El Toro Fuerte, duas apresentações impecáveis que lotaram a casa de shows com jovens de 18 a 20 anos cantando junto com seus ídolos que tem apenas cerca de 5 anos a mais que eles próprios. Com apenas uma música disponível para audição fica difícil dizer como será o futuro da Kasparhouser mas uma coisa é certa, enquanto nós tiozões sabidos ficamos discutindo qual é o “problema com a cena” e como “o álbum daquela tal banda é ruim”, o pessoal mais novo tá simplesmente indo lá e fazendo acontecer e isso não é apenas bem vindo e necessário, é lindo. Escute Kasparhauser e faça uma viagem no tempo ao longínquo ano de 2003:

Bullet Bane
Nossa coluna aqui no Crush em Hi-Fi sempre acaba dando a letra pra coisas boas que estão por vir, não que o excelente Bullet Bane seja novidade, mas se você já escutou a igualmente excelente coletânea “Flecha Discos Vol. 1” deve ter percebido algumas mudanças no som desses monstros. Além das letras em português há uma leve mudança na sonoridade da banda que a afasta de um hardcore mais tradicional ou “purista”. Essa tendência deve ser seguida no próximo álbum com lançamento prometido para daqui um ou dois meses. Enquanto aguardamos ansiosos para esse novo passo na já longa caminhada da banda, só nos resta ouvir mais uma vez “Mutação”, “Catálise” e “Talismã”. Não vou negar que passei bastante tempo desse ano com essas três músicas no repeat e espero que vocês façam o mesmo:

Bully
Fazia tempo que eu não falava de uma banda gringa aqui. Quem acompanha o programa do RockALT há mais tempo certamente já escutou Bully, banda liderada pela talentosa Alicia Bognanno. Engana-se quem pensa que ela é apenas uma atraente vocalista/guitarrista de uma banda com influencias dos anos 90, Alicia não só canta e compõe as músicas da Bully como também trabalha na produção do álbum e na mixagem de som, algo raro para o primeiro LP de uma banda de músicos iniciantes. O primeiro LP, lançado em 2015, foi grande recomendação do nosso programa naquele ano e essa semana ‘Bully’ nos presenteia com sua primeira música desde então, escute ‘Feel The Same’ enquanto esperamos pelo álbum a ser lançado em Outubro pela Sub Pop:

Curtiu a coluna? Então não deixe de escutar o programa do RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br, seguir a playlist da coluna no Spotify: https://goo.gl/lXZ69x e confira nossos mais de 100 programas disponíveis no link: www.mixcloud.com/rockalt/

Cantarolando: O teste de fidelidade de “Babooshka”, de Kate Bush (1980)

Read More
Kate Bush

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção “Babooshka”, um dos hits da Kate Bush, é a faixa que abre o terceiro disco da cantora “Never For Ever”, de 1980. Foi lançada como single – aliás, com uma capa bem legal, que lembra aquelas fotos que o Mick Rock tirou do Syd Barrett no apartamento.
Kate Bush é uma compositora carregada de referências literárias e cinematográficas. É possível perceber isso especialmente em suas letras e performances teatrais.

Porém, “Babooshka” veio de uma inspiração bem mais pop, para não dizer popularesca: um famigerado ‘teste de fidelidade’ que ela assistiu na TV. A canção conta a historinha de uma mulher que decide fazer o teste com seu marido, lhe enviando cartas perfumadas assinadas “Toda sua, Babooshka” – o grudento refrão da música “all yours, Babooshka”. Ela resolve marcar um encontro, e o marido até estranha o quanto que Babooshka, essa guerreira amazona russa sensual, lembra sua esposa quando ela era jovem e bonita, antes de ser uma senhora deprimida e de ter ‘esfriado’ com ele. O marido ficou derretidão e, claro, não passou no teste.

She wanted to test her husband
She knew exactly what to do
A pseudonym to fool him
She couldn’t have made a worse move

She sent him scented letters
And he received them with a strange delight
Just like his wife
But how she was before the tears
And how she was before the years flew by
And how she was when she was beautiful
She signed the letter
All yours
Babooshka, Babooshka, Babooshka-ya-ya!

O clipe dessa música também é interessante. É daqueles bem simples, bastando a presença corporal da cantora para termos idéia da música: ela vestida de preto, com um véu recatado interagindo com o contra-baixo, que seria o marido. Aliás, diversas vezes o baixo nas músicas tem a intenção de ser o contraponto masculino para sua voz. No refrão, ela se transforma em Babooshka, uma figura quase oposta à da esposa.

Apadrinhada pelo David Gilmour, com 16 anos Kate Bush já havia composto dezenas de músicas, gravou algumas faixas demo e conseguiu um contrato pela EMI para gravar um álbum no estúdio Abbey Road. Porém, só depois de dois anos de contrato é que o disco começou a ser gravado. O produtor disse que ela era muito jovem, eles estavam ‘maturando’ a artista para então lançá-la como a grande aposta da gravadora. Sobre isso, a própria Kate diz que eles assinaram com ela para segurá-la na gravadora, para que nenhuma outra a contratasse. De qualquer forma, funcionou – ela se desenvolveu ainda mais como artista e fez aulas de dança interpretativa com a professora do David Bowie.

Todas as canções deste disco foram compostas por Kate no piano, e o disco foi co-produzido por ela. A partir daí, o sucesso e prestígio de Kate Bush só aumentou, sendo ela uma das mais autênticas artistas do mundo pop. Dá para dizer que Kate Bush fez a escola das grandes artistas da atualidade, pelo menos as que têm a intenção de incorporar aspectos artísticos, experimentais ou performáticos, como Lady Gaga e Lorde.

Construindo Van Der Vous: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

Read More

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o Van Der Vous, banda de rock psicodélico de Salvador, Bahia, mostrando quais sons influenciaram suas composições.

The Doors“Break on Through (To The Otherside)” (1967)
A banda The Doors é uma grande influência para o disco “La Fuga”, principalmente pela vocalização. Influenciado especialmente pela poesia de Jim Morrison, as improvisações e em algumas baterias que foram criadas para o disco, como a questão da bateria latina com influências da bossa-nova, claramente exposta na música “Break On Through (To The Other Side)”.

The Doors“People Are Strange” (1964)
Entre as grandes músicas do Doors que influenciou nossas composições estão “The End”, “When the Music’s Over” e “People Are Strange”. No nosso disco enxerga-se essa influência marcante nas músicas: “What You Need”, “You Know”, “Cirque de Júlia”, “Back to Reality”.

Cream “Sunshine of Your Love” (1968)
O Cream, com as longas improvisações blueseiras e os louváveis solos de Eric Clapton, é maior influência com relação às improvisações de guitarra.

Cream“Strange Brew” (1968)
O Cream misturava a psicodelia com o blues e ao vivo transcendia os ouvintes com longas e magníficas improvisações.

The Beatles“I Want you (She’s So Heavy)” (1968)
Em algumas músicas percebe-se a nuance psicodélica do Beatles, principalmente na música “Cirque de Júlia” do nosso disco, na caída que lembra a música “I Want you (She’s So Heavy)”.

The Beatles“Being For The Benefit of Mr. Kite!” (1968)
Incríveis efeitos sonoros.

Pink Floyd“Bike” (1967)
O primeiro disco do Pink Floyd, “The Piper At The Gates of Dawn”, teve profunda influência na decisão de entrar na psicodelia de cabeça.

Pink Floyd“Astronomy Domine” (1997)
O disco mostra a criatividade de Syd Barrett em suas composições cósmicas e ácidas, como em “Astronomy Domine”. Ouvir a música “I Get High” do nosso disco.

Os Mutantes“Mágica” (1969)
A música mais viajante dos Mutantes.

Os Mutantes“A Hora e a Vez do Cabelo Nascer” (1972)
Incrível riff e solos.

Black Sabbath“Wicked World” (1973)
O peso do Black Sabbath é uma das nossas inspirações, não apenas nos improvisos (uma das influências do Black Sabbath é o Cream!), mas nas músicas também.

Black Sabbath“N.I.B” (1973)
O disco “Live At Last” teve profunda influência na minha forma de solar e de compor algumas músicas, como em “Behind The Wall Of Your Pain”, que apesar de ter o nome parecido com uma música do Sabbath, é totalmente original. Algo como se o The Doors e o Sabbath tivessem tido um filho.

Nirvana“Territorial Pissings” (1991)
Eu mesmo fiz a mixagem do disco “La Fuga” e fui influenciado pela compressão utilizada no “Nevermind”.

Nirvana “Breed” (1991)
Podemos perceber algumas influências como em “Come Alone and Play”, que traz uma pegada mais grunge ao nosso disco.

Tame Impala“Its Not Meant To Be” (2011)
Quando ouvi essa banda pela primeira vez eu pirei. Um rock psicodélico atual e ao mesmo tempo sessentista, com improvisações fodas, principalmente no disco “Innerspeaker” (o primeiro deles).

Tame Impala“Sundown Syndrome” (2010)
Ouvir a música “Mind Changes’ do nosso disco “La Fuga”.

Mac Demarco“Chamber Of Reflection” (2012)
Influencia para o novo disco da banda, dá para escutar no novo single “Poesia Lunática” lançado em 2016.

Caribou“Melody Day” (2007)
Buena sonoridade psicodélica com influenciou a música “Somehow” do disco “La Fuga”.

Dungen“Fredag” (2008)
Influencia direta do Tame Impala que acabei usando como influencia para música “Somehow” do disco “La Fuga”.

Lô Borges“Homem da Rua” (1972)
“Sonho no chão
E a festa não apaga
O estranho silêncio na rua.”

Ouça a playlist com as escolhas da banda: