“Jesus Christ Superstar” (1973) – O Jesus hippie na visão de Judas

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Jesus Christ Superstar (Jesus Cristo Superstar)
Lançamento: 1973
Diretor: Norman Jewison
Roteiro: Norman Jewison e Melvyn Bragg
Elenco Principal: Carl Anderson, Yvonne Elliman, Ted Neeley

Magic Bus…

Tá aí um muito bom!

O filme “Jesus Cristo Superstar”, de 1973, começa com um grupo hippie de teatro chegando no deserto em um ônibus saído dum som do The Who, tirando de lá todas as peças que vão compor o cenário e montando tudo. Um homem vestido com uma roupa vermelha, interpretando Judas, começa a cantar uma música para Jesus, suplicando que não acreditasse no que os outros diziam sobre suas origens divinas, que aquilo não ia acabar bem, que era uma “traição a causa”. Sem fazer mais referências ao fato de que tudo é uma peça interpretada pelos caras que desceram do ônibus, o musical continua apresentando uma releitura do texto bíblico, com algumas variações e algumas citações exatas do Novo Testamento, e se propõe a uma visão crítica à figura de Jesus como um superstar (exatamente como entendemos o termo nos dias de hoje), com seguidores que o seguem por razões as mais superficiais e mesquinhas, sem realmente se importarem com a filosofia de vida e política pregada pelo tal messias.

Cristo (cujas falas no disco são interpretadas pelo Ian Gillan, vocalista do Deep Purple) é posto no filme com um caráter mais humano (sem transformar numa coisa imbecil), com dúvidas de cunho existencial a respeito do que é dito sobre ele e de sua relação com os apóstolos. Ao mesmo tempo, o personagem se mantém fiel à construção bíblica, aparentando calma e sabedoria, respondendo sempre sem ser ofensivo, mas com palavras que provocam reflexões aos acusadores. Vale dizer ainda que parte de sua humanização se dá por conta de como se constrói sua relação com Maria Madalena, esta aparecendo com a única que o compreende (não, esse filme não é um drama adolescente), como em “Everything’s Alright”, quando o tranquiliza e parece afastá-lo de seu compromisso divino de “guiar” a humanidade e dizer a todos o que fazer a todo momento.

Contudo, Judas, que se opõe a Maria (inclusive num sentido bem escroto de menosprezá-la por sua profissão), aparece sempre criticando o messias e puxando-o para uma obrigação sociopolítica de luta contra a opressão romana e conversando com ele (putasso!) pedindo, até por medo do que poderia acontecer a Cristo, que deixasse de lado aquela história de Deus. É Judas o real protagonista nessa experiência musical/interpretação do texto bíblico. O filme é o Novo Testamento sob a sua ótica, a história de Jesus contada por um homem!

Judas e Jesus

O traíra é posto nessa versão de modo diferente do comum (assim como parte significante dos personagens), com questões existenciais (novamente, não é remake de “As Melhores Coisas do Mundo”) sobre sua amizade com o messias e sobre o que fazer frente à transformação dum movimento político num grupo de adoração religiosa, com as melhores músicas e com a maior profundidade emocional. Ele não é um cara mau ou avarento, é um cara que pensa por si mesmo e que fica mais que chocado vendo todo mundo seguindo Cristo de modo irracional e assustador, um cara que trata das coisas num nível humano e sem celebrações divinas.

Quem compôs as músicas da trilha do filme foi a dupla Andrew Lloyd Weber e Tim Rice. Andrew é o cara top top dos musicais da Broadway, tendo participado da composição das músicas de peças como “Cats” (1981) e “O Fantasma da Ópera” (1986), e realizou além dessa uma série de parcerias com Tim.

O estranho (na real nem tão estranho…) é que mesmo sendo bastante fiel ao texto do Novo Testamento, mesmo tendo tocado no assunto da religião e tendo apresentado o tal texto pra toda uma geração, o filme sempre gerou um desgosto dos grupos religiosos, protestos e tentativas de proibir quando “Jesus Cristo Superstar” é levado ao teatro. “Tenho certeza de que a senhora jamais daria dinheiro a alguém que estivesse preparando uma violência contra o senhor seu pai ou algum de seus entes queridos. Mas eu me sinto assim quando vejo os cartazes anunciando esse espetáculo de horror, com os dizeres ‘promovido pelo Ministério da Cultura’”, dizem os autores duma petição online aqui no Brasil dirigida à Ministra da Cultura (na época, 2014, Marta Suplicy). Contudo, no ano de estréia do filme (1973), o papa Paulo VI numa pré-exibição encorajou veementemente o lançamento de filme, dizendo que iria espalhar a figura de Jesus.

Segue como sempre, os links pra trilha sonora e pro filme completo!

Trilha sonora:

Filme completo (legendado):

É isso.

Assistam e curtam!

P.S.: O Herodes é genial… Hahaha!

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Cint Murphy, do In Venus

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Cint Murphy, do In Venus
Cint Murphy, do In Venus

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Cint Murphy, vocalista da banda In Venus, que lançou recentemente seu disco “Ruína” e se apresenta na segunda edição da festa Contramão Gig no dia 12 de julho (quarta)!

Peeling“Leisure Life”
“O Peeling é uma banda de Toronto que surgiu a partir de uma outra banda muito foda, o Mexican Slang. É uma das bandas que mais tem tudo que a mamacita gosta: muito fuzz e efeitinho de voz”.

SNEAKS“X.T.Y.”
Quando eu ouvi SNEAKS a primeira vez eu fiquei chocada e a única coisa que ecoava na minha cabeça era ”WTF VÉI! QUE BUCETA É ISSO?”. As músicas criadas pela Eva Moolchan são de uma simplicidade absurda, rápidas, objetivas e que as vezes parecem slogan. A levada me lembrou muito Le Tigre.

Keluar“Surface”
Keluar é a banda “mais recente” da Alison Lewis, ex vocalista da Linea Aspera. O mais recente está entre aspas por que não sei se a banda continua em atividade. O ultimo material que eles lançaram foi em 2015 e o ultimo post no caralivro foi em maio de 2016. Tomara que eles não tenham parada e COME TO BRAZIL, VÉI.

Christian Death“Romeo’s Distress”

MELHOR MÚSICA TRISTE PRA DANÇAR COM A PAREDE NA BALADA PARTE 1. Deathrock é vida né galera? Segundo os Americanos que sempre são competitivos como tal, o Christian Death é a resposta dos USA ao movimento gótico europeu que tinha despontado bandas como Siouxsie and the Banshees e Bauhaus.
Alguns fatos muito curiosos sobre a banda: †† Rozz Williams, o cara que criou o Christian Death era um cara bem loucão, foi responsável pela estética musical, pelo visu de todo mundo e pela temática anti religiosa da banda. Ele praticamente criou estereótipo do que é considerado um gótico ~tradicional~ hoje em dia. †† Outro fato interessante é que o nome de Rozz não era Rozz, era Roger Alan Painter. O nome Rozz Williams foi tirado de uma lápide. †† Em 81, Rikk Agnew (ele mesmo, do Social Distortion) entrou pro Christian Death e ele e Rozz criaram aquele que na minha opinião é o melhor album da carreira da banda, “Only Theatre of Pain”. Logo depois eles acabaram com a banda. †† em 85, Rozz se juntou à Valor Kand e Gitane Demone e decidem voltar com o Christian Death e começa uma série de tretas, dentre elas a separação da banda, o retorno com de duas bandas com o mesmo nome, sendo que uma delas, a que Valor deu continuidade, tava numa pegada death metal. Em 1998 Rozz se suicidou por que cansou dessa palha assada. Pra mim, tirando a morte do Rozz e o fato do Valor ser um cuzão, o resto não importa, o importante é que a banda é foda, e essa música é uma obra prima!

Malaria!“Geld/Money”
MELHOR MÚSICA TRISTE PRA DANÇAR COM A PAREDE NA BALADA PARTE 2. Malária é uma banda de post-punk formada em 81, em Berlim, só com minas na formação ❤. O vocal da Bettina Köster é inconfundível, raivoso e profundo, que entra na vibe dos synths e te arrepia. Não precisa dizer muita coisa depois disso né? São referência e me influenciam totalmente.

Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

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Scott Four - Scott 4

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?

Audiometria – “As Aventuras de DJ L” (2004), o comeback musical explosivo de Latino

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Latino - As Aventuras de DJ L

Latino – “As Aventuras de DJ L – Festa no Apê”
Lançamento: 2004
Duração: 44 min
Gravadora: EMI
Produção: Dalmo Beloti, Latino e Fábio “FB” Mello

Audiometria, por João Pedro Ramos

A novíssima (e para alguns, torturante) coluna Audiometria fez muito sucesso em sua estreia, analisando e procurando o lado bom do disco de estreia da banda Restart. Pois bem: vou continuar me colocando à prova e ouvindo discos que muitos consideram um lixo musical buscando o que há de bom neles. Afinal, tudo tem um lado bom… Ou quase tudo, pelo menos.

Hoje, resolvi ouvir algo que é massacrado pela crítica intelectual, mas já foi um dos grandes sucessos entre o povo. É dia de ouvir “As Aventuras de DJ L”, o disco de “comeback” do Latino, que nos anos 90 fazia sucesso com seu funk charme em hits como “Me Leva” e conseguiu se reinventar com sucessos pop grudentos como “Festa No Apê”. Em 2004, era impossível escapar da versão em português para “Dragostea Din Tei”, que tomou um mundo com o grupo O-Zone e virou até meme (quando isso nem era chamado de meme). O sucesso do hit do Latino foi tão grande que o disco ganhou o subtítulo “Festa No Apê” pra alavancar as vendas. Deu certo: em 2005 “DJ L” foi Disco de Ouro, graças à venda de 50.000 cópias. Fones à postos e preparado para involuntariamente cantarolar alguns refrões chiclete de 2004, vamos à audição do disco.

Bom, começamos com a garrafa de champanhe abrindo, anunciando que hoje é festa no apartamento de Latino. Sinceramente, eu bato palmas para quem quer que tenha composto a versão, pois a letra gruda na cabeça até em momentos hilários como “Garçom, por favor venha aqui e sirva bem a visita”. Ah, a expressão “tá é bom” pra caber na métrica é algo de uma genialidade de gambiarra que eu tiro meu chapéu!  Aliás, a (não) rima de “libido no ar” com “fazendo orgia” é algo incrivelmente malandro, liricalmente falando. Sabe o que eu só reparei agora? Tem um violãozinho bem bacana que acompanha toda aquela massa de teclados, sintetizadores e baterias eletrônicas… mas é preciso se esforçar pra ouvi-lo. Preste atenção.

Bom, passou o grande hit do disco, passou a música que muitos dos que compraram o álbum colocaram no repeat e nem ouviram o resto da obra… É aqui que eu farei o que muitos não fizeram. Vamos à faixa número 2: “Umazinha” fez um certo sucesso, mas se você falar dela para qualquer pessoa hoje em dia, provavelmente receberá uma coçada de cabeça e um “não lembro”. Começa com o violãozinho e um autotune capenga. Aliás, o instrumental ~eletrônico~ é algo que remete aos discos caça-níqueis que foram lançados aos montes nos anos 90 e 2000, como “Discoteca do Quico”, por exemplo. A letra é um pouco mais séria nos versos, parecendo até um pouco com o trabalho da Luka (do hit “Tô Nem Aí”, composta também pelo Latino)… Até que chegamos no refrão. “Tchururá, tchururá, tchururá, away / Umazinha com você / Tchururá, tchururá, tchururá, away / Sem depois me arrepender”. Ponto alto da letra: “Mas meu corpo não tem um antivírus, baby / Pra te afastar”. OURO PURO.

[…]

OK, não consegui ouvir na sequência e este texto está sendo continuado três dias depois. Acho que esse é o grande problema da música pop criada pra estourar: os singles dão uma overdose de chiclete na cabeça. Se você ouve tudo na sequência, são 10 chicletes musicais pra grudar AO MESMO TEMPO no seu cérebro. É difícil, cara. Imagina a confusão mental.

Bem, vamos continuar com Latino e sua incursão pelo humor de duplo sentido com “Amor de Pizza”, um jogo de palavras com a velha máxima do “amor de pica, onde bate fica”. A genialidade é transformar em “amor de pizza, onde bate fixa” e conseguir uma censura livre na canção. O som é aquele velho tecnopop com resquícios dos anos 90 que o Latino usou nessa volta às paradas de sucesso no começo dos anos 2000, mas com toques árabes e o cantor dando aquela cantada gemida dos tempos de “Me Leva”. Pérola da vez: “Sou predador e um mundo chamado prazer”.

Eita, chegou a baladinha. Começa com o clássico “Porque você tá fazendo isso comigo?”. “O Troco” tem nome de música do Charlie Brown Jr, é um funk balada do começo dos anos 90 e, é claro, cita sexo animal, uma fixação do Latino, aparentemente. Perto das três que tocaram até agora, é bem esquecível.

Agora sim, na faixa 5, outro hitzão do Latino. “Renata Ingrata” conta com uma das melhores frases que já saíram da filosofia Latinesca: “Quem planta sacanagem colhe solidão”. Essa gruda na cabeça como chiclete Bubbaloo de banana. A letra é aquela velha história de dor de cotovelo, mas o que você esperava?

Pronto, chega uma guitarrinha e um “au au” pra anunciar que a próxima faixa é a versão Latineira para “Amante Profissional”, hit dos anos 80 do grupo Herva Doce. A canção sobre um michê cai como uma luva no disco do auto-intitulado DJ L. Bobinha, grudenta e sucesso sem dúvida. Só o rap (e chamar aquilo de rap é ofender o rap como um todo, então já peço desculpas) que Latino colocou no meio é completamente dispensável.

Calma, tá acabando. Não foi tão ruim assim. Latino ri e debocha no começo de “Tiro Onda”, que parece música do P.O. Box. Se não me engano, o Latino já escreveu música pro P.O. Box, então faz todo o sentido. Bem, essa música é bem sem graça, o único momento em que esbocei um sorriso foi quando ele usou a frase “esse seu papo cheio de guéri-guéri”. Quando o melhor momento de uma música é a frase com “guéri-guéri”, você sabe que a coisa tá feia.

C’mon, girl: chega aos fones de ouvido “Amiga Tati”, que começa soletrando T-A-T-I com todo carinho, mas na sequência já faz como fez com a pobre Renata e fala que a moça é falsa e cheia de caô. A faixa seguinte, “Obra de Arte” é mais uma baladinha, com uma guitarrinha distorcida e tudo. Esquecível, com letra romântica. Dessa vez, sem caô. É de amorzinho mesmo.

Latino

No Spotify o nome da faixa 10 é “Mulher Bebe”. Eu achei que seria sobre uma mulher que se alcooliza, não sei. Mas é “Mulher Bebê”, e tem aquele duplo sentido nojento com sexo oral e “mamar”. Sério. Ugh! Terminou mal. Nossa, de revirar o estômago essa. Porra, Latino! “Mama tudo, meu bebê” é foda. Mantenha o duplo sentido de “Amor de Pizza” que você se sai bem melhor.

No fim do disco tem dois remixes que eu sinceramente não dei atenção. O primeiro chama “Knife” e não tem nada a ver com o resto do álbum. É em inglês, a voz nem parece do Latino e parece um daqueles poperôs de 1996. Depois tem um remix de “Festa No Apê” que eu parei de ouvir e desisti definitivamente depois de quase um minuto só fazendo “tunts tunts tunts”.

Quero fechar falando um pouco sobre esta capa, horrenda, com uma das caricaturas mais bisonhas do planeta. Parece feita no Paint (quiçá no Paintbrush) por uma criança de 9 anos. O desenho sequer se parece com o Latino, algo que foi corrigido no disco seguinte, de capa igualmente escrota (porém com uma caricatura melhor), “As Novas Aventuras do DJ L”.

Bom, eu já falei que sou fã dos hits ganchudos do Latino, mas como álbum, “As Aventuras de DJ L” não se segura muito, pelo menos pra mim. As únicas que eu gostei foram os sucessos que estouraram por aí, especialmente o hino pop do começo dos anos 2000 “Festa no Apê”. O resto, mesmo as obrigatórias baladinhas, só enche linguiça. Se tivesse ainda alguma balada no nível de “Me Leva”, quem sabe…

RockALT #18 – BBGG, Far From Alaska, gorduratrans e Sheer Mag

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RockALT, por Jaison Sampedro

Caros leitores do Crush em Hi-Fi, me perdoem mas essa semana me atolei de trabalho e tive pouco tempo para me dedicar a está querida coluna semanal. Porém, não é porque eu tive pouco tempo que eu deixei de pesquisar algumas coisas ali e acolá. Sábado passado foi Dia da Música e teve tanta atração legal que não deu nem pra contar nos dedos. Teve Ludovic, BRVNKS, Miêta, Macaco Bong, Sky Down e muitos outros. Nosso querido apresentador do RockALT, o queridíssimo Helder Sampedro quase perdeu a voz e mal consegui gravar o programa dessa semana. Mas vamos ao que interessa! Essa semana eu quero recomendar 4 bandas para vocês começando com:

BBGG
O grupo formado por Ale Labelle (voz e guitarra), Dani Buarque (voz e guitarra), Joan Bedin (baixo) e Mairena (bateria), lançou um clipe novo na semana passada chamado “Caixa de Comentários” que foi dirigido pela própria banda. Por favor, não banque o cuzão e assista, preste atenção na letra você vai me entender.

Far From Alaska
O pessoal do Rio Grande do Norte está com a corda toda! Tocaram na edição francesa do Download Festival, gravaram o seu novo disco nos Estados Unidos e na semana passada mostraram um pouco do que está por vir com a musica “Cobra” do álbum “Unlikely” que será lançado provavelmente nos próximos meses.

gorduratrans
A cena autoral está passando por uma efervescência incrível. A prova disso é que a banda carioca de noise rock/shoegaze formada por Felipe Aguiar (guitarra e voz) e Luiz Felipe Marinho (bateria e voz) também lançou material semana passada. Ao escutar o álbum “paroxismos” eu fico pensando: como é que eu vou conseguir acompanhar tanta banda foda lançando disco quase que toda semana?

Sheer Mag
Acho que não é a primeira vez que eu falo dessa banda, mas não vá pensar que eu estou repetindo banda porque eu estou sem tempo. Não meu amigo, a razão de voltar a falar da querida banda punk da Filadélfia é que eles vão lançar o seu primeiro álbum no dia 14 de julho! E já tem duas musicas disponíveis pra ouvir no bandcamp do grupo, que são “Need to Feel Your Love” e “Just Can’t Get Enough”. Gosto demais dessa banda e mal vejo a hora de escutar esse disco na integra.

Curtiu a coluna? Então não deixe de escutar o programa do RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br, seguir a playlist da coluna no Spotify: https://goo.gl/lXZ69x e confira nossos mais de 100 programas disponíveis no link: www.mixcloud.com/rockalt/

Construindo I Buried Paul: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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I Buried Paul

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o projeto I Buried Paul, de Pedro Oliveira. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Angelo Badalamenti“Twin Peaks Theme”

É talvez a melhor trilha de todos os tempos; o clima e a instrumentação dessa música é a tradução perfeita da série, e constrói um determinado universo que pra mim é uma das coisas mais importantes na música. O universo aqui é estático, quase amorfo, nublado, e, principalmente, levemente fora do “normal.”

Portishead“Humming”

Eu não consigo descrever direito o que foi ouvir essa música pela primeira vez, numa madrugada passada em claro lá pelos idos de 2004, mas é daquelas que eu queria muito poder ouvir pela primeira vez de novo. A mistura de jazz com eletrônico com film noir é a essência do Portishead, e essa música engloba tudo isso. “Humming” moldou meu gosto musical pós-2004 e não poderia fazer uma lista sem ela.

Julee Cruise“Rockin’ Back Inside my Heart”

Mais uma relacionada com o Twin Peaks, mas aqui eu vejo o trabalho de voz dela como mais uma camada da atmosfera que a música cria, mais do que como algo que flutua por sobre os instrumentos. Inclusive a instrumentação e a leve estranheza dentro de uma fórmula “pop” é pra mim uma aula de como construir um momento estático no tempo e no espaço da música.

Earth“Old Black”

Essa música me mostrou que era possível compor em círculos. Fora isso: o arranjo, o timbre, o andamento, tudo nessa música é perfeito. Fundamental aqui, tanto quanto a guitarra, é a maneira que a Adrienne Davis toca bateria. É daquelas músicas que gostaria de ter escrito, e o Earth é talvez a maior influência direta do IBP junto com a trilha do Twin Peaks e o Coltrane.

John Coltrane“Psalm”

Eu costumo a dizer que o “A Love Supreme” é a minha Bíblia. Essa música, por exemplo, é uma oração escrita pelo Coltrane e lida não pela voz mas sim pelo saxofone. Ela faz parte de um disco que, na minha opinião, é mais do que um projeto musical e sim um projeto de vida. Diferente das outras em “A Love Supreme”, aqui em “Psalm” parece que tudo é aberto, espaçado, e principalmente permanentemente incompleto – três das coisas que eu mantenho na cabeça como guias quando/enquanto toco.

Miles Davis“Shh/Peaceful”

Em contraste ao Coltrane, aqui o espaçamento e a abertura é mais uma técnica de estúdio do que qualquer outra coisa. Essa maneira de trabalhar a improvisação no estúdio, o corta-e-cola de longas sessões de improvisação e, principalmente, a utilização do estúdio enquanto força de expressão pra moldar a improvisação é o que mais me influencia aqui. Esse disco todo, na verdade, é meu “holy grail.” É a tradução perfeita do que eu espero um dia chegar pelo menos perto com a minha música (e eu sei o tamanho dessa empreitada).

Hanna Hartman“Att Fälla Grova Träd Är Förknippat Med Risker”

O trabalho da Hanna Hartman é quase que cirúrgico. O jeito que ela manipula gravações de campo nessa peça é por vezes mais nítido do que a realidade. As sobreposições e a distribuição dos sons no espaço, assim como essa ultra-proximidade desconfortável é uma coisa que marcou muito minha trajetória musical/sonora. Foi por conta desta peça que eu decidi comprar um gravador e começar a coletar sons por aí, coisa que faço até hoje e que é uma peça importante no IBP.

Fennesz“Saffron Revolution”

A música do Fennesz apareceu na minha vida num momento em que eu me encontrava completamente frustrado com tocar guitarra. Ouvir as manipulações estranhas dele me levaram a reconsiderar tocar um instrumento “tradicional” e expandi-lo de alguma maneira. Foi a maior influência do meu segundo disco “in schwarzen Tönen, in lauten Farben” (de 2012), principalmente porque eu entrei na loucura de programar todos os sons eletrônicos na unha. Tanto que só fiz isso nesse disco (mas deveria fazer de novo).

Alice Coltrane and Carlos Santana“Angel of Sunlight”

Esse disco da Alice Coltrane com o Santana caiu na minha mão por conta da segunda música do lado A, que o Cinematic Orchestra sampleou em um dos discos e criou “All that You Give”, que é uma música tão linda quanto essa. Mas nada supera a original e esse disco é o ápice da pira orientalista dos anos setenta. Fora todo o talento absurdo da Alice Coltrane, a guitarra do Santana é algo formativo na minha vida, desde timbre a como ele era capaz de traduzir o pensar do jazz pro rock psicodélico sem soar virtuosamente chato. Esse disco todo é uma obra-prima.

The Dillinger Escape Plan“Panasonic Youth”

Depois que eu ouvi o DEP minha vida nunca mais foi a mesma. Eu gosto especialmente das músicas que abrem os discos porque eles sempre escolhem a mais brutal e chocante que é pra já avisar o ouvinte o que está por vir. O “Miss Machine” é meu disco preferido deles (e olha que sou fã de carteirinha da banda), e “Panasonic Youth” é um clássico absoluto do caos controlado, da agressividade, e do rompimento de qualquer barreira musical ou o que o valha. Na edição que eu tenho desse disco tem um sticker com um review que diz “this is the sound of the future” – e eu concordo plenamente: ainda acho que nenhuma banda chegou no nível deles.

Fantômas“Delirivm Cordia”

Mike Patton é talvez o músico que mais me influencia diretamente – por conta do ecletismo e da falta de vergonha na cara (com o primeiro eu me identifico, já o segundo eu admiro de longe). Fantômas é uma das bandas da vida pra mim, mas acho que o “Delirivm Cordia” é uma aula de composição em formato mais longo que funciona como uma narrativa em si própria. Assim como quase tudo que coloquei nessa lista, esse som constrói um universo próprio e deixa o ouvinte livre pra explorá-lo, porque dá espaço e dá material suficiente pra quem ouve poder se situar dentro desse espaço. É genial.

Menace Ruine“Not Only A Break In The Clouds But A Permanent Clearing Of The Sky”

Eu poderia botar muita coisa de metal aqui – muita mesmo, – mas acho que o Menace acaba sendo uma influência mais direta por conta da maneira com que eles trabalham com a distorção, o barulho, camadas, e melodias. É, de novo, aquela coisa entre o sujo e o entendível, o harmônico e o desconfortável que mais me fascina aqui. É metal sem ser necessariamente metal, sem apelar praquela coisa hipermasculina. Tem muita influência da Nico na voz da Geneviève, o que também é um ponto positivo.

Morphine“Empty Box”

A melancolia do Morphine e essa transposição do jazz prum contexto de bar pé-sujo com sinuca numa tarde nublada de quinta-feira é o que me pega no Morphine. Tem algo na maneira que o Mark Sandman compunha que eu ainda tou tentando entender como funciona, e o niilismo sutil da letra dessa música me intriga demais. É uma música que respira, se desenvolve sozinha e não chega a lugar algum. Do jeito que eu mais gosto.

Nico“Frozen Warnings”

O que me pega nessa música é o contraste: é uma peça quase de drone, mas a voz da Nico aqui tem uma urgência profética e apocalíptica. É como se o mundo tivesse ruindo e ela tivesse te avisando pra procurar abrigo, mas no fundo você sabe que vai ser inútil e que já era. Como não amar?

Steve Reich “Electric Counterpoint”

O pulso dessa peça do Reich é hipnotizante. Claro que influenciou metade do que se tem por “rock experimental” até hoje (alô Radiohead), mas eu ainda acho uma das melhores peças do Reich e uma das melhores composições minimalistas pra guitarra já pensadas.

Ulver“Hallways of Always”

O “Perdition City” foi um disco que me fez rever meus conceitos sobre música eletrônica. A complexidade dos arranjos e como ele passeia por gêneros é uma grande influência pra mim até hoje. A parte “central” do meu primeiro EP (“633”, de 2009), que é fundamentalmente diferente do que eu faço hoje com o IBP, é toda baseada nesse disco. Sonoramente eu deixei de tentar copiar (ahem) o Ulver, mas conceitualmente eu sempre volto nesse disco como referência de precisão e arranjo.

Satanique Samba Trio“Gafieira Bad Vibe”

O SS3 é daquelas bandas que está sempre no fundo da minha cabeça quando eu componho. Eu me lembro da fascinação que foi ouvir o “Misantropicália” pela primeira vez, e tentar sacar tudo o que tava acontecendo ali em tão pouco tempo. É uma parada muito profana em muitos níveis, mas principalmente pela pachorra que os caras tiveram de mexer com coisas “tradicionais” e “canônicas” no Brasil como o samba, e fazer isso sem o menor escrúpulo. O SS3 sempre me faz pensar “como eu posso deixar isso mais torto?” quando estou tocando. Nem sempre dá certo.

65daysofstatic“Radio Protector”

Essa banda me influenciou de uma maneira muito curiosa; foi bem numa época em que eu estava tentando entender o que é que me fascinava tanto em música eletrônica. O 65dos faz essa ponte entre o que, na época, ainda eram dois mundos distintos – post-rock e glitch –, e o trabalho deles com melodias “assobiáveis” é assustador. Eles me influenciam tanto que eu tenho uma série de gravações minhas que eu chamo de “clichês de pós-roque,” porque vez ou outra eu me pego tocando uma melodia que parece um plágio deles. Talvez um dia eu ponha isso no mundo, ou não.

Nine Inch Nails“4 Ghosts IV”

Eu poderia colocar o “Ghosts” inteiro, na verdade. O Trent Reznor é talvez um dos músicos mais importantes dos últimos 20+ anos, e apesar dele ter criado quase que um “blueprint” do próprio som, aqui no “Ghosts” é onde o NIN se desconstrói totalmente. A parte mais legal é como o disco é todo um projeto audiovisual, onde as músicas respondem às fotos que respondem às músicas, num processo cíclico.

Almir Sater“Vinheta do Capeta”

Eu cresci no interiorzão de SP, então a música dita “caipira” é um marcador muito nostálgico pra mim. O som do Almir sempre se destacou dos demais na minha cabeça – eu tenho pra mim que ele toca a viola como se fosse guitarrista, mesmo nas músicas com voz. Mas esse disco instrumental dele é inteiro bom, do início ao fim. É ótimo pra quebrar pré-conceitos (os meus inclusos) e perceber que há todo um contínuo entre a viola caipira e o blues, ou o que se veio a chamar de “american primitive”, por exemplo.

My Magical Glowing Lens se destaca com seu “pop místico, neo-Tropicália, prog-lisérgico”

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My Magical Glowing Lens

A capixaba Gabriela Deptulski é a mente e força motriz do My Magical Glowing Lens, projeto que começou compondo e gravando sozinha todos os instrumentos sozinha, mixando, masterizando e produzindo todas as músicas que renderam um EP auto intitulado em 2013. Em 2015, ela, que toca guitarra, baixo, bateria e sintetizador, se uniu a Gil Mello (baixo), Henrique Paoli (bateria) e Pedro Moscardi (sintetizador) para firmar a atual formação da banda, responsável por seu primeiro disco, “Cosmos”, lançado este ano pela Honey Bomb Records.

As 11 faixas do álbum mostram um pouco do que ela define como “pop místico, Neo-tropicália, prog-lisérgico” e “Pink Floyd com beats”: uma viagem psicodélica com muitas influências de música brasileira, bandas de rock progressivo e um pouco de pop eletrônico para dar o toque final. “A ideia veio de um sonho bem maluco no qual eu ouvia o Ohm primordial. É uma pira com igualdade, união, harmonia. Tem a ver com amor, paixão, sexo, estados alterados da mente, fugir de regras sociais impostas, legalização das drogas, vontade de infinito, amor incondicional por tudo”, explica a líder do grupo.

Conversei com ela sobre a recente passagem da banda por São Paulo, sua carreira, influências, o disco “Cosmos” e a cena independente do Espírito Santo:

– Como a banda começou?

O My Magical começou comigo gravando todos os instrumentos sozinha, mixando, masterizando e produzindo sozinha também. Em 2015 que a estrutura de banda começou a se formar. Desde lá passamos por várias formações, até chegar nessa.

– E em que ano você começou esse trampo solo? Como foi essa transição para o formato banda?

Comecei a compor e gravar para o MMGL em meados de 2013. A transição para o formato banda começou quando eu comecei a querer algo mais abrangente e coletivo na estrutura do My Magical. Estou numa fase de desapego com relação às coisas do ego, gostando muito de trabalhar em conjunto, isso me fez ter vontade de montar uma banda, para podermos reinterpretar em conjunto as composições e termos uma variedade maior de ideias na hora dos arranjos.

– E de onde surgiu o nome da banda?

O nome da banda surgiu de uma vontade de mudar o mundo, de tirar toda a monotonia e mesmice que existe nas imposições e comodismos que vão aparecendo pra gente. É uma lente transformadora, que nos tira da zona de conforto e nos leva além!

– Vocês acabaram de fazer uma mini turnê aqui em São Paulo, né? Como foi?

Foi incrível, o público paulista é sempre muito atento. Prestam muita atenção em tudo. e ao mesmo tempo são muito livres, entendem com uma facilidade absurda as coisas que queremos passar. São Paulo é uma cidade incrível.

My Magical Glowing Lens

– Quais as principais influências musicais da banda?

Flaming Lips, M.I.A, Rihanna, Lorde, Mutantes, Secos e Molhados, Melody’s Echo Chamber, Tame Impala, Son House, Sonic Youth…. Muita coisa, viu! (Risos) Alceu Valença, Pink Floyd e Beatles também!

– Me conta um pouco mais sobre o “Cosmos”. Como foi criado este álbum?

A ideia veio de um sonho bem maluco no qual eu ouvia o Ohm primordial. É uma pira com igualdade, união, harmonia. Tem a ver com amor, paixão, sexo, estados alterados da mente, fugir de regras sociais impostas, legalização das drogas, vontade de infinito, amor incondicional por tudo… muita coisa, viu. Difícil citar tudo, mas talvez tenha a ver principalmente com o fato de que acredito que somente o amor e a compreensão pode nos salvar da depressão e do egoísmo que estamos nos enclausurando cada vez mais.

– E como foi a gravação desse trabalho?

O primeiro EP gravei completamente sozinha, em casa, talvez volte a gravar sozinha no futuro, não sei, é tudo muito incerto. O My Magical é projeto muito livre, a atuação dele como banda agora não determina em nada seu futuro, ele é um projeto mutante e fluido, nenhuma imposição social vai tirar a liberdade que ele necessita. Mas Cosmos foi gravado como banda, na Casa Verde, sede da gravadora e produtora Subtrópico, em Vitória-ES. Eu tinha 11 demos, algumas com arranjos prontos, outras apenas voz e violão. Isso foi levado para os meninos e começamos a trabalhar nessas músicas, rearranjando, criando arranjos e fazendo partes novas para as músicas. Foi um processo lindo, estávamos no início do outono quando começamos a gravar, céu azul, vento por toda parte, folhas secas despencando da árvores. Houve muita união e trabalho duro.

– Como você definiria o som da banda pra quem ainda não conhece?

Pop místico, Neo-tropicália, prog-lisérgico, Pink Floyd com beats 🙂

– Como anda a cena independente do Espírito Santo?

Acontecendo, mas acho que tem que rolar mais coisa. A Casa Verde tem ajudado muito no processo de evolução da cena, trazendo referências diversificadas para a cidade e ajudando o fortalecimento da pluralidade de ideias. Mas infelizmente ainda acho a cena de Vitória muito tradicionalista e fechada. Os artistas se mantém muito em posição de conforto, não enfrentam a condição do artista com a toda a coragem que poderiam enfrentar (falo de mim também). Temos que entrar mais em contato com coisas que nos transformem de verdade e nos façam sair da posição de conforto que estamos há anos e anos enclausuradas. Me sinto muito sortuda por ter encontrado a equipe que formamos para o My Magical! Todo mundo que se envolveu nisso é absurdamente corajoso e livre! Os artistas que mais me identifico fora a galera que tá comigo são o Kevin Fraisleben e o Caio Moré, que são muito novos, ainda muito escondidos. Me sinto bastante sozinha na cena capixaba, meio extra-terrestre, sabe? Mas sei também que há ali um grande potencial criativo e faço de tudo para fomentar isso. E tem muita gente fazendo o mesmo. Existem poucas mulheres fazendo música também, estou atuando intensamente para mudar isso.

My Magical Glowing Lens

– Isso você acha que se deve ao machismo que permanece vivo no mundo da música? Ou acha que aos poucos isto está melhorando?

As duas coisas, os homens ainda são muito privilegiados na música e em também em outras instâncias. Mas sinto de verdade que estamos com mais espaço!

– Quais os próximos passos da banda?

Começar a compor novas músicas, fazer dois vídeos para álbum, tirar o “Piper at The Gates of Dawn” inteiro, fazer parcerias com artistas que amamos, amar, amar a tudo e todos incondicionalmente 😉

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram a sua atenção nos últimos tempos!

Pensando… Catavento, Bike, OkLou, Hierofante Púrpura, Antiprisma, Tagore, VentreBoogarins. Boogarins mãe e pai de todos, né? Melhor banda. O TernoKatze. Ah, Supervão e Musa Híbrida, são bandas muito boas!!

O post-rock de Sigur Rós e sua estreia no Brasil

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Fonte: Wikimedia

O “post-rock” é um estilo musical difícil de definir em uma frase simples e objetiva: ele trás em sua essência uma mistura de diversos outros gêneros que, ainda que variados, ainda não são o suficiente para descrever suas características. Da mesma forma, um show da banda islandesa Sigur Rós não pode ser facilmente narrado ou explicado. Ambos devem ser ouvidos e apreciados – apenas isso.

A banda, originária de Reykjavík – capital e maior cidade da Islândia – não é nova. Ela está na ativa há mais de vinte anos, desde 1994. De toda forma, só recentemente ganhou mais destaque por elaborar as trilhas sonoras de séries e filmes bem familiares ao público, como Game of Thrones, Capitão Fantástico, Diários de um Vampiro e Simpsons. Mesmo caindo no gosto da indústria do entretenimento, o trio é considerado cult por seu estilo de som diferente, que mescla música clássica com guitarras, e canções com letras em sua língua nativa, o islandês.

O Sigur Rós é um belo exemplar do post-rock, termo usado pela primeira vez no mesmo ano de lançamento da banda, mas adotado para definir o álbum de outro grupo, Hex” de Bark Psychosis, na resenha do periódico inglês Mojo feita pelo jornalista Simon Reynolds. O conceito desse estilo foi posteriormente explicitado na revista The Wire, onde o também crítico musical o caracteriza por utilizar da instrumentação típica do rock (guitarra, baixo, bateria e teclado) para outros fins que não o rock, fazendo uso de “guitarras como facilitadoras de timbre e texturas em vez de riffs e acordes de energia”, assim como o das batidas eletrônicas – tanto que naquela época a experimentação em estúdios era privilegiada em detrimento de apresentações ao vivo.

Fonte: Wikimedia

Nesse gênero, os instrumentos tradicionais do rock se relacionam com os elementos digitais de forma a construir texturas, ambientes e sensações em um movimento libertário, que rompe com as estruturas tradicionais da composição. O post-rock abusa das composições instrumentais, com poucos vocais, e faz uso da repetição de motivos musicais e mudanças sutis com uma ampla gama de dinâmicas. Além de embutir referências emprestadas de diversos gêneros, como a climatização do jazz, o rock progressivo, indie, new age, dub reggae, krautrock, shoegazer e a incorporação de elementos estéticos clássicos minimalistas, como faz muito bem o Sigur Rós.

A banda é formada pelo guitarrista e vocalista Jónsi, idealizador do grupo na década de 90, pelo baixista Georg Hòlm e pelo baterista Orri Páll Dyrason, que não estava na formação original e só entrou na banda em 2002, no lugar de Ágúst Ævar Gunnarsson. Eles também contavam com o tecladista Kjartan Sveinsson desde 1998, único membro com formação musical e responsável pelos arranjos orquestrais dos trabalhos, mas que deixou a banda em 2013.

Sigur Rós significa “Rosa da Vitória”, mas a inspiração para o nome do grupo veio da irmã de Jónsi, Sigurrós Elín, que nasceu apenas alguns dias antes do surgimento da banda. Seu primeiro álbum foi intitulado “Von” (que significa “esperança”), mas o reconhecimento internacional viria em 1999, com “Ágætis byrjun” (“Um bom começo”), que teve três canções adicionadas à trilha sonora do filme Vanilla Sky, protagonizado por Tom Cruise, além de séries como CSI, Queer as Folk e 24 Horas. Em 2003, eles também fizeram uma parceria colaborativa com o grupo Radiohead para a trilha do espetáculo de Merce Cunningham, Split Sides. Além disso, o single “Hoppípolla” foi utilizado na série Planeta Terra da BBC em 2006, nos créditos de encerramento da FA Cup, nas propagandas da cobertura da emissora dos jogos da Inglaterra na Copa do Mundo, e em diversos filmes.

Seu mais recente CD foi lançado em 2013, e agora a banda, que já conta com 7 álbuns, partirá para sua primeira turnê na América Latina, com apresentações únicas em 4 locais diferentes. O Chile tem muito a oferecer no turismo – como evidenciado por suas famosas vinícolas; Assim, não surpreende que o tour sul-americano começa justamente lá em 24 de novembro, na Arena Movistar (localizada em Santiago). Em seguida. eles irão se dirigir para Buenos Aires para se apresentar, em terras argentinas, no Festival Sonar. Depois disso, finalmente aterrissarão pela primeira vez em nosso país, estreando na grande casa de shows Espaço das Américas, em São Paulo no dia 29. Enfim, no dia 2 de dezembro, se despedirão da América do Sul na edição colombiana do Festival Sonar, em Bogotá.

Os ingressos já estão à venda desde abril, quando a turnê foi anunciada, mas estão se esgotando. É uma boa oportunidade para os fãs que quiserem testemunhar ao vivo toda a exoticidade do espetáculo de projeções abstratas e som etéreo, mas explosivo, ou ainda para aqueles que gostariam de provar um pouco do experimentalismo e inovação do trio islandês.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Letty, do Letty and the Goos

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Letty
Letty

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Letty, vocalista, guitarrista e líder do power trio Letty and the Goos;

Globelamp“Breathing Ritual”

“Descobri esse projeto acidentalmente no Instagram. Já gostei do visual colorido-algodão doce e me surpreendi com a sonoridade. Tô cada vez mais encantada. É um folk moderno com uma pitada de Jefferson Airplane. Um lo-fi no meio da floresta com uma fada cantando. Dá pra entender do que eu falo assistindo a esse clipe”.

J.D. King“Midnight Rendezvous”

“Eu amo esse contraste do J.D.: é como uma junção de Strokes com T.Rex, um indie nostálgico e delicioso. Essa atmosfera analógica do clipe me pegou nos primeiros segundos. E o mais brilhante é que os sons em geral (mais antigos) não seguem essa linha, eles puxam pro Neil Young, bem caipirão com guitarra com slide!”

Healthy Junkies“Witches Of Lust”

“Não sei nem o que dizer sobre essa música. Punk cavernoso, corrido feito Fu Manchu, contrastando com a voz doce de ares dos séculos passados – acho que essa combinação é perfeita pra resultar nesse som macabro. O único problema é que ele só tem 2 minutos e 20″.

Tyler Bryant & The Shakedown“Loaded Dice & Buried Money”

“Eu amo tudo nessa banda. O som anos 90 com uns oitavadores modernosos, ritmos pesadamente marcados somado a esse vocal versátil. Dizem que é indie. Eu acho que tá mais pra um stoner com as escalas do Black Sabbath“.

NUNCA“Dragged By Silence”

“Pra não dizer que faltou uma nacional, aí vai! Uma das poucas bandas desse estilo que ouço, gosto e consigo acompanhar, porque o barulho é estrategicamente pensado. As variações rítmicas e melódicas me obrigam a dizer que o som da banda não se parece com nenhuma outra coisa que eu já tenha ouvido. Cada uma das músicas é uma viagem única e sem volta. E os meninos são do interior de São Paulo e estão ativos! O primeiro clipe deles vai ser gravado na próxima semana”.

O Século XX animado e musicado na animação “American Pop” (1981)

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American Pop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

American Pop (American Pop)
Lançamento: 1981
Diretor: Ralph Bakshi
Roteiro: Roni Kern
Elenco Principal: Mews Small, Ron Thompson, Jerry Holand

O bisneto no fundo; o bisavô na frente.

Fugindo do Pogron russo de 1903, uma mãe e seu filho chegam nos EUA sem nada e começam a trabalhar: a mãe com costura e o filho distribuindo panfletos num bar. Ela morre e a criança passa a viver com o homem que o contratara. A partir disso, o órfão começa a frequentar os palcos do bar, sempre na cochia, até que por convívio com o universo dos shows começa a se apresentar. Vai pra primeira guerra, volta vivo, continua a cantar, se envolve com a máfia (seu “tutor” era parte dessa), se casa e tem filhos.

Seus filhos tem filhos e esses também tem. É por esse fio genealógico que corre o filme, contando a história americana do século XX (até a década de 80, quando o filme foi feito), através de hits da música pop de cada época, sempre se encaixando na vida do protagonista da vez (o filme conta com um protagonista para cada uma das quatro gerações), misturando o som com as situações vivenciadas por cada um, que de modo geral representam as vivenciadas pelos jovens da geração representada.

Desde um jazz que antecede (e muito) o be-bob do Thelonious Monk até uma proto new-wave, o filme passa por músicas famosas (afinal, foram hits), de conhecimento mais que popular, como “Sing, Sing Sing”, de Benny Goodman, “Somebody to Love” de Jefferson Airplane, “This Train” de Peter, Paul and Mary, “Take Five” de David Brubeck Quartet, “Turn Me Loose” de Fabian e “Don’t Think Twice” de Bob Dylan, dentre várias outras, sempre compondo junto a ilustração fantástica dos filmes de Ralph Bakshi (que faz uma ponta no filme, como o pianista que diz à mulher do órfão que seu som será um hit), cenas psicodélicas e absurdamente lindas. Contudo, é interessante dizer que nos créditos, a autoria das músicas é dada a personagens ficcionais!

Os filhos e netos, porém, apesar de sua sempre muito forte relação com as notas (de qualquer instrumento que fosse), nunca conseguem alcançar a fama e passam a vida nos bastidores, por motivos diversos, relacionados à guerras, abuso de drogas, máfia e etc. (Vale dizer, os mesmos que os levam ao universo musical). Cabe ao bisneto tentar virar o jogo…

Segue o link para o filme completo (numa versão meio bosta, mas tá aí…):