Zebu ajuda a reconstruir artistas populares como Belo, Kelly Key e Sandy e Junior em seus remixes

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Guilherme Pereira, de São José dos Campos, é o cara por trás do projeto Zebu. Com a ideia de criar “música feita para embalar seu coração”, o DJ faz covers remixados de sucessos que podem ser chamados de bregas ou popularescos, como “Olha O Que O Amor Me Faz”, de Sandy e Júnior, “Essa Tal Liberdade”, do Só Pra Contrariar, e “Direito de Te Amar”, do Belo. Até o popular “Rock do Ronald”, jingle do McDonald’s, ganhou uma versão trap que faria qualquer pista de dança balançar sem ao menos pensar em Big Macs.

“A não ser que as pessoas sejam muito eruditas, quem xinga esse tipo de música falando que é absurdamente pobre está provavelmente errado. Escrever uma melodia pop é uma coisa difícil, uma letra catchy também”, explica. “E nem precisa ir tão longe: um monte de produtor “fã de música eletrônica de grave forte” xingando funk pra caramba e não conseguem fazer um sub pesado que bate forte igual o DJ R7“.

Conversei com ele sobre estes covers remixados, suas inspirações e seus futuros projetos autorais:

– Como você começou sua carreira musical?

Eu tive uma banda em 2008 de pop/rock internacional, tinha uns 15 anos, e depois fui pra outra banda que tocava mais as paradas no naipe Raimundos, assim. Foi gravando as coisas com as bandas que eu vi que eu gostava muito do estúdio em si, gostava muito de editar, mixar, arranjar as coisas. Aí fui pra Inglaterra estudar som em 2015, mais focado pra banda, infelizmente meu curso lá faliu e eu tive que voltar no meio do ano, então de brincadeira comecei a fazer alguns mashups, foi meu primeiro contato com a música eletrônica em si.

– E como foram esses primeiros mashups?

Era bem mais voltado pro humor, misturando artistas pop gringas com MC Carol e uns videos brisa, Stranger Things com “Passinho do Romano”, músicas bestas sobre temas tipo temaki…

– E como você se desenvolveu disso para o projeto atual?

Eu comecei a ouvir muito Flume Gill Chang e tava um pouco com medo de fazer uma parada mais séria e não ser aceito, aí meio que um dia assistindo um DVD do Belo eu pensei em fazer uma coisa que fosse visualmente/conceitualmente zoeira mas musicalmente sério…foi como eu fiz “Direito de te Amar” que foi meu primeiro remix pra valer mesmo.

– Sim! Aí você começou a pegar artistas ditos “bregas” ou populares e remixá-los. Quais você já fez?

(Risos) Não sei se usaria a palavra brega… Talvez inusitado, eu gosto bastante desse tipo de música. Já fiz remix de Belo, Maiara e Maraísa, Só Pra Contrariar, Kelly Key, Sandy e Junior, Matheus e Kauan, e mais recentemente (hoje!) Kasino.

– E você teve alguma resposta dos artistas que remixou? Alguém se pronunciou?

Cara eu meio que sei que o Belo já escutou e gostou do dele, mas não por fontes muito oficiais…O da Maiara e Maraísa a Universal Music gostou e licenciou, não sei se passou por elas…

– Porque você escolheu fazer remixes de artistas mais populares?

Eu nunca fui muito fã de coisas underground, acho síndrome de underground uma chatice sem fim. Sempre fui muito fascinado por música popular mesmo… Quando era novo com 13, 14 anos, mesmo na minha fase mais roquista, fãzaço de Led Zeppelin, Beatles, eu ainda escutava muito Tchakabum, N*Sync, Backstreet Boys… Já tive uma banda que fazia covers dessas coisas tipo Kelly Key em versões meio Raimundos e tal, sempre foi minha pegada escutar muita música pop. Então acho que é por aí, é meio que “eu” fazer isso (risos).

– Então a ideia é também tirar um pouco desse preconceito que essa galera “cool” têm dos artistas populares.

Sim, cara, a não ser que as pessoas sejam muito eruditas, quem xinga esse tipo de música falando que é absurdamente pobre está provavelmente errado. Escrever uma melodia pop é uma coisa difícil, uma letra catchy também. Uma pessoa que quer mexer com música eletrônica e renega a qualidade de um álbum tipo “ArtPop” da Lady Gaga está provavelmente fechando os olhos pra algo que poderia ser uma referência foda, de artistas fodas. E nem precisa ir tão longe: um monte de produtor “fã de música eletrônica de grave forte” xingando funk pra caramba e não conseguem fazer um sub pesado que bate forte igual o DJ R7.

– Quais são suas maiores influências musicais?

Dos brasileiros sou muito fã de Toquinho, Tom Jobim… Na parte eletrônica gosto muito de OMULU, do TIN , João Brasil (risos). Da gringa sempre escutei muito Daft Punk, mais recentemente tenho ouvido artistas tipo San Holo, Gill Chang e Flume.

– Você pretende lançar trampo mais “autoral”?

Cara, eu enrolei, pois tive que resolver a história do Kasino. Pretendo sim! lançar 2 ou 3 faixas autorais ate o fim do ano!

– Pode adiantar algo sobre elas?

Basicamente tenho a ideia de manter o meu estilo, com letras em português e ser brega/pop no estilo “Future Sertanejo” mesmo. Talvez algo instrumental, mas basicamente quero fazer algo pop!

– Você acha que mesmo os cantores de funk e sertanejo estão pendendo para o pop, como aconteceu com a Anitta e o Luan Santana?

Se eu acho que eles estão migrando? Acredito que sim, muitos artistas de funk e de sertanejo tem colocado elementos mais mainstream pra deixar as coisas mais “digeríveis” pra um público menos de nicho, na minha opinião. Acho que não é nem questão de abandonar seus estilos, sinceramente…ainda tem uma essência do original ali. É só tentar ser menos de nicho eu acho…

– Quais seus próximos passos musicalmente?

Tentar consolidar minhas músicas originais, fazer cada vez mais remixes oficiais e lançar mais remixes 🙂

– Recomende bandas, artistas e DJs independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Nos últimos tempos quem me chamou atenção foi um duo gringo de Future Bass chamado DROELOE, além do brasileiro e meu amigo Vhoor, que tem feito umas beats muito inovadoras!

Construindo Felappi: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Felappi

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o duo Felappi, do Rio de Janeiro.

Nirvana“In Bloom”
Victor Cumplido: Lembro de ouvir essa música repetidamente no máximo em um discman no Natal da família, devia ter uns 11 anos.

Paulinho da Viola“Os 5 Companheiros”
Victor Cumplido: Foi a música que me fez começar a estudar bandolim e passar uma época escutando basicamente choro.

Charley Patton – “The Prayer of Death”
Victor Cumplido: Me vejo no barco seguindo para a margem oposta, um remo de duas mãos, remando na água tranquila da morte.

Miles Davis“On the Corner/New York Girl/Thinkin One Thing and Doin Another/Vote for Miles”
Victor Cumplido: Vote for Miles! Me sugou pro jazz.

Binário“Contrapartida”
Victor Cumplido: Ia todo domingo assistir esses caras tocarem, gosto de quase todos os outros projetos dos integrantes.

Portishead“Humming”
Victor Cumplido: Bruxaria forte!

Adoniran Barbosa“Vide Verso Meu Endereço”
Victor Cumplido: Essa música me lacrimeja, choro por dentro.

Cat Power“Colors and the Kids”
Victor Cumplido: Esse disco todo parece que você está dentro dele, um convite de alguém para se sentar na sala, olhar a janela…

Luiz Gonzaga“Súplica Cearense”
Victor Cumplido: Luiz Gonzaga é gigante, tal qual o Nordeste e seus ramos.

Mozart“Rex Tremendae Majestatis”
Victor Cumplido: É uma das músicas em que sempre fico arrepiado na mesma parte, de uma gravação específica.

Tom Waits“God Away From Business”
Fela Montparnasse: Amo a forma rústica que o Tom Waits trabalho o vocal dele nessa música. A impressão que eu tenho é que ele perdeu a voz com o passar dos anos, e tentou adaptar o timbre dele à sua nova realidade artistica. Talvez essa seja a canção mais percussiva que o Waits produziu, por causa desse timbre errático.

Pin Ups“Loneliness”
Fela Montparnasse: Talvez seja a canção mais cosmopolita que eu ja tenha ouvido. Quando eu era adolescente, e morava em Niterói, o mais próximo da cidade grande que eu cheguei até então, foi ouvindo esse álbum. Eu realizei o meu sonho platônico, de me tornar um cidadão do mundo, ouvindo esse álbum.

Jair Naves“Araguari”
Fela Montparnasse: O Jair Naves vem de um background bem pesado e errático. O cara começou a carreira como músico do Okotô, que foi uma das bandas mais pesadas de SP. Achei justo ele se submeter a
gravar uma música “rancheira”, meio caipira, pra expressar a saudade. Acho que essa canção é sobre envelhecer.

Can“Vitamin C”
Fela Montparnasse: uma das canções mais modernas que eu já ouvi. Pra mim, essa canção tem o refrão dos mais sinceros: “Ei você, você está perdendo a sua vitamina”;

De Leve“Pra Bombar no seu Estéreo”
Fela Montparnasse: Essa canção é um verdadeiro suicidio comercial. Em apenas 3 minutos, o De Leve consegue detonar o Djavan, DJ Patife, Max de Castro, Sandy, KLB, e proclama: Carlinhos Brown manda mal e o Zeca Baleiro é presepeito; Não sei se concordo com ele, porém, começar o primeiro disco da carreira, já tacando merda no ventilador dessa forma…

Suicide“Ghost Rider”
Fela Montparnasse: Eu poderia morar nessa música. Não tem guitarra, nem bateria, e mesmo assim, consegue expressar uma violência inclassificável. Conhecia essa canção quando me separei de minha primeira esposa. Belo trauma, né não?!

Cibelle “Lightworks”
Fela Montparnasse: Outra artista cosmopolita. Acho incrível a forma em que a Cibelle trabalha a voz dela nessa versão, tem muito de Gal Costa aí, mas tem muito de artista que mete o pé na estrada, caçando vivência.

Serge Gainsbourg“New York U.S.A.”
Fela Montparnasse: Gainsbourg é meu herói musical e esse som remete a Babatunde Olatunji (sim, ele chupou o disco inteiro do Babatunde), porém é esse cinismo que me interessa do Gainsbourg.

Walter Franco“Feito Gente”
Fela Montparnasse: Mais hip-hop do que hip-hop. É sério, eu acho essa canção, uma grande música de rap psicodélico, composto em 1970 e blau.

Arrigo Barnabé“Clara Crocodilo”
Fela Montparnasse: A única vez que eu chorei assistindo a um show na minha vida. Nunca vou entender como o Arrigo teve essa iluminação (e visivelmente, nem ele)…

A canção espacial filhote de Syd Barrett: “Far Out”, do Blur (1994)

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Blur

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje está no disco “Parklife” (1994), um clássico do britpop dos anos 90. A singela faixa, descaradamente barretteana, é a única do disco escrita e cantada pelo baixista Alex James.

A semelhança desta faixa às canções do Syd Barrett é talvez a primeira coisa que logo de cara chama a atenção: o estilo da melodia, a voz com aquele sotaque britânico carregadão, a temática espacial. Tãão Syd. Difícil não gostar. Isso tudo condensado em pouco mais de um minuto e meio. “Far Out” é daquelas pequenas joias musicais que vira e mexe aparecem em grandes álbuns. Apesar de curtas, são muito redondinhas e suficientes.

De fato, essa faixa é um belo trabalho de edição, já que decidiram retirar o refrão da versão original. O refrão é bem bom, na verdade, e originalmente a canção é mais rápida e energética (veja aqui). Mas a versão curtinha que entrou para o disco, na minha opinião, ficou mais interessante justamente por ter fugido um pouco do formato pop mais previsível, o que realçou a letra e principalmente a vibe.

A letra, uma lista bem-bolada de nomes de luas e estrelas, foi feita por um Alex James visivelmente entusiasta da astronomia:

I spy in the night sky, don’t I?
Phoebe, Io, Elara, Leda, Callisto, Sinope, 1980, S, 2, 7, Janus, Dione, Portia – so many moons!
Quiet in the sky at night, hot in the milky way
Outside in
Vega, Capella, Hadar, Rigel, Barnard’s Star, Antares, Aldebaran, Altair, Wolf 359, Betelgeuse, Sun

Aliás, o Blur é tão entusiasta de astronomia, que eles ajudaram a financiar e a popularizar o projeto da Agência Espacial Britânica chamado “Beagle 2”, o qual em 2003 levou um pequeno veículo espacial – vou chamar carinhosamente aqui de ‘carrinho’ – para Marte a fim de pesquisar sobre novas formas de vida. Nesse projeto, a banda compôs uma canção que seria levada pelo Beagle 2 até Marte, para tocar assim que o carrinho atingisse o solo marciano, avisando à base na Terra que chegou intacto para completar a missão. Infelizmente, o carrinho perdeu contato com a Terra, porém 12 depois, em 2015, a NASA o encontrou. Então provavelmente os marcianos puderam apreciar a canção do Blur, afinal.

Veja abaixo a versão ‘cheia’ de “Far Out”, mesclada à música de Marte. Curtinha ou ‘normal’, essa música é um belo britpop espacial, que às vezes é esquecida no meio dos 52 minutos intensos de Parklife.

A força motriz dos Capotes Pretos na Terra Marfim está na mistura de ritmos sem pudores

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Capotes Pretos na Terra Marfim

Com uma base de fãs construída com talento e muitos shows em calçadas e espaços públicos, os cearenses do Capotes Pretos na Terra Marfim lançaram em 2015 seu primeiro disco, auto-intitulado, explorando todas as misturas de sonoridades que lhes vem à cabeça em 10 faixas. O sucessor do primeiro EP, “A Casa”, foi produzido pela Mocker Studio e é totalmente orgânico, com sons inusitados como o do charango, instrumento de cordas andino.

A banda, formada pelos multi-instrumentistas Moisés “Zéis” Filipe, Freddy Costa, Eudenia Barros, Marcelo Freitas e Artur Mendonça, possui uma personalidade musical que se alterna entre o rock e a MPB, com pitadas de alt-country. “Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos”, explica Zéis.

Conversei com a banda sobre seu primeiro disco, o som eclético e denso que produzem, a cena independente nordestina e muito mais:

– Como a banda começou?

Zéis: A banda começou em 2012. Eu tinha umas composições e tinha ideias de arranjos pra elas, mas num tinha banda. Na época eu tava envolvido em dois projetos no teatro, fazendo trilha sonora. Nesses projetos conheci o Marcelo Freitas e o Freddy Costa. Então falei com eles sobre as composições e eles decidiram se juntar. Dentre as ideias de arranjo tinhas composições que a gente vislumbrava a presença de um violoncelo. Daí eu lembrei da Eudenia Magalhães, que eu tinha conhecido num curso de Francês e a gente convidou ela pro fazer participação nessas musicas. Acabou que ela ficou de vez. E o Artur entrou quando fomos fazer o primeiro show em palco aberto e precisávamos de de bateria, era numa mostra de bandas universitárias. E ai pensei nele que tinha conhecido dentro do curso de música da UFC (Universidade Federal do Ceará).

– E como surgiu o nome da banda? O que ele significa?

Eudenia: Cara, esse nome é uma grande figuração de como funciona o clima da banda: uma mistura de nomes e significados que deixa livre pra qualquer interpretação (risos). Na realidade, nessa mesma época que nós estávamos nos reunindo pra formar o grupo, viajamos pra um interior do Ceará pra casa do tio do Marcelo Freitas, em São Luis do Curú. Era um sítio isolado das outras casas, e nos dias que ficamos por lá, arranjamos praticamente todo o primeiro trabalho da gente (o EP “A Casa”). Lá tinha muitos animais, incluindo capotes (galinha da angola). Tentamos uma brincadeira com o nome do bichinho e o próprio lugar, que era meio cor de terra seca, como marfim… misturamos as coisas, como acontece com as músicas também (risos).

– Quais as principais influências musicais da banda?

Artur: Bem, esse assunto é fácil e difícil ao mesmo tempo. Cada um do grupo possui diferentes influências e tipos de formação musical. Temos desde ex-integrantes de orquestras e bandas de fanfarra, passando por outras bandas independentes que já participávamos, dentre outras coisas. Assim, cada um trouxe um pouquinho pra dentro do grupo, suas bandas preferidas, sonoridades, dando uma cara muito diversa ao grupo, e que ao mesmo tempo consegue ter uma sintonia – não sei como, mas conseguimos. Dai, em cada produção usamos como referências vários grupos, dependendo do conceito, da cara que queremos dar a composição. Já passamos por Los Hermanos, Beirut, Legião, Raul Seixas, Coldplay… A lista não tem fim, até porque o som do grupo também se atualiza.

– Como vocês definiriam o som da banda atualmente?

Zéis: Pois é, já ia falar sobre isso quando o Artur falou essa coisa de usar referências que servem pros momento da banda e pra estamos buscando naquele momento. Acho que atualmente a gente é uma banda que soa mais elétrica, a primeiras composições tinham uma pegada bem acústica. Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos.

Marcelo: Era isso que ia complementar.Acho que incluímos a pegada elétrica, mas ainda mantemos referências que nos remetem a instrumentos essencialmente acústicos, como a sanfona.

Zéis: Na própria música que gravamos pro tributo ao Pato Fu, essas características ja aparecem. Inclusive tivemos a liberdade de usar um trechinho duma musica do Ednardo, que é um compositor muito importante aqui do Ceará.

Capotes Pretos na Terra Marfim

– Já que vocês falaram do Nordeste, me falem um pouco mais de como vocês veem a cena independente do Nordeste hoje em dia.

Marcelo: Creio que ele apresenta-se bem diversificada, porém essa diversificação, infelizmente não a torna tão fortalecida.Tomando como exemplo o Ceará, temos excelentes bandas autorais que estão fora do eixo de apresentações até mesmo dentro do estado. O circuito de apresentações que pode ser percorrido por bandas independentes dentro do estado do CE é pequeno e esgota-se rápido e a busca por um novo nicho muitas vezes é um obstáculo e faz com que muitas bandas desistam. Por isso achoo que a cena independente no NE é bem eclética mas ainda há obstáculos quase intransponíveis de acesso a locais para tocar, incentivo e principalmente um circuito musical específico para bandas independentes que a tornam não tão fortalecida.

– E vocês acham que isso é algo que ocorre pelo país inteiro?

Marcelo: Acredito que a dificuldade para as bandas independentes é geral, seja uma banda do NE ou de qualquer outra parte do país, no entanto as oportunidades são maiores para o famoso eixo Rio – SP ,mas também precisamos ver que a concorrência se torna maior nesse ambiente. É , como dizemos por aqui”cobrir a cabeça e descobrir os pés”. Projetos como esse do tributo ao Pato Fu tornam-se excelentes pontes entre as bandas independentes de toda parte do país. E o fortalecimento das bandas independentes perpassa por isso, a comunhão e a ajuda mútua de quem faz parte do movimento.

Capotes Pretos na Terra Marfim

– Me falem um pouco mais sobre o disco que vocês lançaram!

Eudenia: Lançamos um álbum homônimo em fevereiro de 2015, com a Mocker Discos, no qual revisitamos a versão de uma música do EP (“Traços Simples”), e apostamos em arranjos que envolvia sopros, cello, charango… Foi um projeto bacana, e com ele lançamos, inclusive, dois clipes (“Terra Marfim” e “O Que Você Espera”)
A música “Adro” foi uma invenção de laboratório que extrapolou as nossas expectativas: nunca tínhamos tocado ela ao vivo (nem em ensaio).. fomos configurando o seu arranjo em estúdio, e pra mim (particularmente) é uma das músicas mais massa que gravamos. Lançamos o disco em um show no SESC, e a receptividade foi positiva… algumas das músicas desse album tocam nas rádios locais, e vez ou outra a galera manda mensagem “ouvi o capotes hoje no rádio!”… Acho bem bacana isso.

Marcelo: O álbum em si é bastante dotado da essência dos capotes, preocupação com os arranjos e sonoridades diversas.Não é à toa que ele leva o nome da banda (risos).

Zéis: O clipe da gente da música “Terra Marfim” foi o que teve mais alcance e tal. as pessoas que conhecem a gente aqui em fortaleza, é sobretudo por conta dessa musica. Uma vez numa conversa de bar me foi questionado o forma como a palavra revolução é colocada na música, como se essa palavra estivesse sido colocada com desdém. Como se nós não precisássemos de revoluções.

Eudenia: E ai, o que tu respondeu? Até eu tou curiosa! (risos)

Zéis: Pois bem, na verdade, como na maioria das musicas do álbum, as questões aparecem como indagações e não como resposta. na música terra marfim a frase aparece com uma interrogação: “Quem precisa de revolução”, “Quem precisa que digam amém?”. Outra indagação é o próprio título do faixa “O que você espera?”. Em outra faixa diz: “Qual é a cor do amor, do cuidado, de um filho que ainda nem nasceu?” Enfim só pra salientar que as pessoas as vezes esperam dos artistas uma postura de quem tem uma resposta pra dar mas que nesse disco a preocupação maior era com as perguntas.

Marcelo: A própria musica “Adro”, que a Denia tanto gosta, é cheia de indagações indiretas. Aquelas que não possuem um ponto de interrogação ao final.

– Aliás, me contem um pouco mais sobre os clipes! Mesmo com o fim da Mtv Brasil como a conhecíamos, eles ainda são importantes para a música?

Marcelo: Artur é o nosso garoto MTV (risos).

Eudenia: Verdade (risos)!

Marcelo: Sempre comenta sobre os clipes que ele via por lá…

Artur: (Risos). Hoje em dia a produção de clipes e a alimentação de mídias sociais estão intimamente ligados
Um disco físico partilha de vários aspectos musicais-sonoros e também estéticos. Contudo, o meio virtual para esta divulgação da arte do álbum, do conceito da banda e do enredo abordado pelo grupo se dá através dos clipes que tem um grande poder de divulgação nas mídias sociais. Apesar da MTV – minha amada – não ser o foco
Os clipes continuam tendo produções grandiosas e influenciando não somente bandas, mas dialogando com outras linguagens. Acho que é isso. Compartilhar, compartilhar e compartilhar!

– Quais os próximos passos da banda?

Eudenia: Estamos com planos de gravar um EP de músicas que já tocamos em shows. Estamos decidindo se lançamos em formato de single, ou duas por EP.

Artur: Durante a divulgação do disco novas composições foram surgindo e temos planos para a gravação e divulgação, muito em breve.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eudenia: Ahhh! 😀 O Berg Menezes, certamente!

Artur: Berg Menezes (CE), Djambê (BH), Forria (CE), Zéis (CE)…

Eudenia: Descendentes da Índia Piaba

Artur: Mad Monkees (CE), Projeto Rivera (CE)!

Marcelo: Casa de Velho (CE)!

Artur: Andrezão GDS (CE)!

Eudenia: Erivan Produtos do Morro (CE)

Artur: Subcelebs (CE) ❤

A animação musical sci-fi roqueira de “Rock’n’Rule” ou “A Viagem Musical” (1983)

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Rock'n'Rule

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Rock'n'Rule

Rock’n’Rule (A Viagem Musical)
Lançamento: 1983
Diretor: Clive A. Smith
Roteiro: Patrick Loubert, Peter Sauder
Elenco Principal: Don Francks, Gregory Salata, Susan Roman 

O filme “Rock’n’Rule”, de Clive A. Smith, é ambientado num futuro pós-apocalíptico simulando o universo da contra-cultura pop americana: aquela coisa meio Nova York decadente das décadas de 70 e 80, com metrôs pichados e tudo o mais que fazia o Warhol gozar por aí. Lá, depois duma terceira guerra mundial, só sobraram animais de rua, que devido aos efeitos da guerra sofreram mutações e ganharam feições humanoides. O longa é, como o nome explica, um filme de rock, e como todo bom filme de rock, não podia faltar… Bem, rock!

O filme, que no Brasil ganhou o título de “A Viagem Musical”, tem uma trilha composta por Lou Reed, Iggy Pop, Debbie Harry, Cheap Trick, Chris Stein e Earth, Wind & Fire, 100% original e que se constrói com base nas imagens, criando uma relação orgânica entre o áudio e o visual. No curta-doc “The Making of Rock & Rule”, o nosso queridinho do Velvet Underground diz que para a música “My Name Is Mok”, que apresenta o antagonista, buscou um tipo de identificação com o personagem, para poder criar algo que realmente representasse o vilão da história. Sobre “Pain and Suffering”, Iggy Pop comenta sua busca por versos ‘naturais’, que assustasse quem ouve, assim como pede a cena que acompanha, com o surgimento de um demônio, a respeito da qual os animadores comentam o mesmo objetivo. No documentário é dita a mesma relação para as outras cenas, evidenciando que além de ser um filme musical, a obra é também um disco visual.

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Sobre o enredo, a história é bem simples: Mok, um homem (meio rato, meio cachorro, sei lá) que domina o mercado fonográfico, porém cujo estrelato está em decadência, busca uma voz que seria a chave pra abrir a porta pruma outra dimensão e de lá invocar um demônio capaz de imortalizar sua fama (e de destruir todo o universo no qual o filme se passa). Pois bem, não é que é num bar bosta, cantando numa banda que ninguém assiste e que recebe as vaias do dono do bar/único espectador, o cara acha a tal voz? Aí começa seu plano pra sequestrar a cantora. A partir daí o filme de desenrola em um romance tosco entre ela (também tecladista, além de segurar o microfone) e o guitarrista (também vocalista, além de só segurar a guitarra), embalado numa trilha obviamente fantástica, tendo em vista quem a compôs e numa arte que seguindo a linha das animações adultas (puta termo bosta, né não?) da época, vai pela ideia do pop, quase que referenciando o mundo das páginas dos quadrinhos.

Uma curiosidade sobre a animação é que David Bowie, Tim Curry, Michael Jackson, Mick JaggerSting foram considerados para a voz de Mok, mas o estúdio não tinha grana pra bancar. Ah, e a música “Angel’s Song” é uma versão primária de “Maybe For Sure”, que saiu no disco de 1989 da Debbie Harry “Def, Dumb & Blonde”!

Segue para vocês o filme completo (sem legendas) e a trilha sonora.

Trilha sonora –

Assistam, ouçam e curtam pacas!

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Wagner Creoruska, d’O Bardo e o Banjo

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Wagner Creoruska, d'O Bardo e o Banjo
Wagner Creoruska, d'O Bardo e o Banjo

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é Wagner Creoruska, também conhecido como Bardo, d’O Bardo e o Banjo!

Hayseed Dixie“Tolerance”
“Como grande apreciador de bluegrass eu não poderia começar de outra forma. Essa é uma própria de uma banda que ficou muito conhecida fazendo covers, o Hayseed Dixie, além de ser minha primeira referência de bluegrass quando comecei a conhecer esse estilo. Foi essa banda que me fez querer comprar um banjo e hoje o Bardo e o Banjo existir. Sobre ‘Tolerance’, é minha música preferida deles, meu clipe preferido também, e um som que nunca pode faltar nas minhas playlists”.

Seasick Steve“Summertime Boy”
“Esse é um som novo de um cara que tem muita história pra contar antes da sua carreira despontar. Seasick Steve têm um pouco de tudo que eu gosto, blues, folk, instrumentos estranhos, rock, espirito do pantano norte-americano. Essa é uma das músicas dele que mais fez sucesso. Enfim, vale o play, vale por na playlist pra pegar a estrada, vale curtir”.

New Riders of the Purple Sage“Panama Red”
“Essa é uma indicação que vale por duas. A música é de uma das bandas mais legais dos anos 70, que misturava rock e country muito bem, o New Riders of the Purple Sage. A banda tinha uma formação incrível com guitar steel, ótimos guitarristas e músicas legais pra caramba. “Panama Red” depois foi regravada pelo Old & in The Way, uma das melhores bandas de bluegrass de todos os tempos (na minha opinião, claro), banda que tinha Jerry Garcia, guitarrista do Grateful Dead, tocando banjo”.

The Flying Burrito Brothers“Six Days On The Road”
“Essa música, gravada nesse programa ao vivo, é FODA! Existe versão de estúdio dela mas essa é a melhor. Ouço ela sempre que vou pegar a estrada. Outra banda que mistura rock e country, de uma forma bem legal, também dos anos 70”.

Wild Cherry“Play That Funky Music”
“Fugindo um pouco do folk/bluegrass esse é um som da década de 70 que foi sucesso nas pistas de dança, na época e até nos dias de hoje. Na verdade é um dos sons mais divertidos pra botar a galera pra dançar, na minha opinião claro. Foi um dos poucos hits do Wild Cherry que lançou apenas 4 discos entre 1976 e 1979 quando a banda acabou”.

Caio Bars lança a 100ª canção de seu projeto “100 Dias De Canções” hoje

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Caio Bars
Caio Bars

O vocalista da banda 5PRAStANtAS e apresentador do programa Outra Frequência da USP FM, Caio Bars, começou este ano seu projeto #100DiasdeCanções, onde munido apenas de um violão e um ocasional teclado, apresenta 100 canções de sua autoria. Hoje será lançada a última, criada especialmente para fechar o projeto. O nome da música, claro, é “100 Dias de Canções”, e foi gravada no Estúdio Espaço Som, em São Paulo. O vídeo da canção irá ao ar hoje (25 de maio) às 22h em sua fanpage no endereço: https://www.facebook.com/CaioBarsOficial

Conversei com ele sobre o projeto:

– Como surgiu a ideia desse projeto?

Bom, começou quando eu estava quebrando a cabeça pensando em como dar uma agitada na minha fanpage do Facebook sem ter que gastar muito (ou quase nada) com impulsionamentos pagos. A ideia de postar um vídeo por dia veio daí. Minha intenção também era que as pessoas me conhecessem como compositor, além de cantor. Na verdade, sou bem mais compositor do que cantor… Canto mais para mostrar minhas músicas.

– E como conseguiu material para 100 dias de música? De onde saíram as músicas?

Acho que 98 delas já existiam. Se não me engano, compus uma durante esse tempo! Além da 100, que tive a ideia de fazer enquanto o projeto já rolava, eu tenho umas 200 canções escritas, mas acho que metade delas são mais estudos do que canções boas e prontas mesmo. As outras 100 coloquei no projeto!

– Como será a comemoração da música de número 100?

Farei duas lives: às 20h30 no meu Instagram @barscaio e das 21h às 22h o esquenta oficial na fanpage para aguardar junto com o pessoal o encerramento do projeto com o lançamento da canção “100 Dias De Canções” às 22h. Depois quero montar um show com as mais bem recebidas pelo público. Então, irei investir em vídeos mais bem produzidos das mais bem recebidas para colocar no meu canal no Youtube. Por fim, a reação do pessoal também deve nortear o repertório do meu próximo disco!

Quando o pop ficou difícil: Jethro Tull – “Thick As A Brick” (1972)

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Jethro Tull - Thick As A Brick

Bolachas Finas, por Victor José

Toda banda de relevância tem um momento especial na carreira no qual tudo parece dar certo. Ian Anderson, o cabeça por trás do Jethro Tull, experimentou esse gosto no início da década de 1970. Após ter lançado o excelente e praticamente perfeito Aqualung” (1971), como o compositor poderia manter o nível? Pois a resposta veio no ano seguinte com um trabalho bastante ousado, seja na sonoridade como nas letras ou na arte gráfica.

Por um lado, como manda a cartilha do rock progressivo, Thick As A Brick” é sim um disco excessivo e cheio de cacoetes particulares daquele período, por outro lado, o que isso importa? O disco é ótimo e descreve muito bem uma época. Afinal, cabe complexidade no rock da mesma forma que cabe uma porção de artistas geniais que praticamente não sabem tocar. E isso é o que faz desse gênero tão incrível.

Enfim, esse é um álbum conceitual até a medula. Em “Aqualung” – ainda que Anderson negue até hoje – o grupo já estava experimentando ingressar nesse caminho ao abandonar a pegada de blues rock dos três primeiros LPs para canções com relativa relação entre elas. O grupo faria outros trabalhos com essa veia conceitual, embora nesse sentido “Thick As a Brick” seja o ápice, de longe.

Uma infinidade de músicos passou pelo Jethro Tull, mais ou menos uns 30. Para esse disco a formação foi com Martin Barre (guitarra e alaúde), John Evan (piano, órgão e cravo), Jeffrey Hammond-Hammond (baixo e vocais), Barriemore Barlow (bateria, percussão e tímpanos) e Ian Anderson (vocais, violão, flauta, violino, saxofone e trompete).

“Thick As A Brick” é composto por duas faixas (se fosse lançado na era do CD certamente seria somente um), sendo que cada face do vinil passa dos 20 minutos de uma piração muito bem delineada de hard rock, folk britânico e uma pitada de avant garde encharcado num prog meio sinfônico. Uma das coisas mais intrigantes do disco está ligada aos créditos da longa canção. Anderson divide a autoria da faixa-título (algo que seria traduzido como “Burro Feito Uma Porta”) com Gerald Bostock ou “Little Milton”, um suposto garoto prodígio de oito anos de idade que escrevera esse longo poema sobre o estranho processo de viver e a influência negativa da sociedade sobre as pessoas, de maneira a não permitir que elas pensem por elas mesmas.

Esse trabalho demanda paciência. É um tanto desafiador e difícil de escutar. Cheio de texturas, mudanças de ritmo, tonalidade e dinâmica, é capaz que a música que ali está seja capaz de afastar o ouvinte menos acostumado com esse tipo de coisa. Esse LP realmente exige de você, e dá até para ficar meio cansado no meio do processo, mas vale muito a pena. É daqueles que a gente leva tempo para assimilar por inteiro, e só depois disso que ele vai te fisgar. Vejo essa “aceitação gradual” como uma qualidade das mais difíceis de um artista conseguir.

Aliás, pode parecer estranho, mas apesar da sonoridade tão carregada de expressão, considero esse álbum mais voltado para as letras. Procure acompanhar os versos ou a tradução do que Anderson canta, é incrível. De fato o “garoto Bostock” fez um belo trabalho.

O projeto gráfico foi bastante ambicioso. A capa e o encarte formam uma espécie de jornal de 12 páginas chamado The St. Cleve Chronicle, claramente satirizando os tablóides britânicos. A manchete é sobre o garoto Gerald Bostock, que recebe uma premiação pelo controverso poema “Thick as a Brick”, no entanto o prêmio é anulado logo após Gerald tê-lo lido durante uma transmissão pela televisão.

Com uma boa ajuda da tendência da época, “Thick As a Brick” deu muito certo e o LP chegou ao primeiro lugar das paradas da Billboard. Não consigo imaginar isso acontecendo hoje de maneira nenhuma: um álbum em forma de tablóide com duas faixas de mais de 20 minutos ganhando disco de ouro. Vale só por essa curiosidade.

Como outros momentos da carreira do Jetrho Tull, “Thick As A Brick”, talvez o mais conceitual da era dos discos conceituais, precisa ser apreciado ao menos uma vez com atenção. Afinal, há muita gente que considera esse como um dos melhores de todos os tempos.

O paulistano Limonge mistura doses de grunge em seu folk rock de um homem só

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Limonge

O paulista Limonge começou sua carreira musical como quase todos: fazendo parte de diversas bandas de garagem. Como em todos projetos havia as tradicionais discussões entre membros, sua paciência se esgotou e ele resolveu, então, que a carreira solo seria seu melhor caminho. O cantor, compositor e multi-instrumentista de 29 anos leva o conceito de “one man band” ao extremo, assinando a produção total de todos os seus trabalhos lançados até hoje (da gravação de todos os instrumentos até a concepção artística dos álbuns). Para facilitar o processo de criação musical, montou um pequeno estúdio em casa para produzir e lançar seu primeiro álbum completo intitulado “É A Nossa Voz (Éramos Nós, Sempre Seremos)”, sucessor dos EPs “Tão Normal” (2015) e “O Tempo” (2016).

Ao vivo, ele é acompanhado por PC na guitarra e Mau na bateria e percussão, tendo se apresentado em festivais independentes como NIG Time 4 Music, Ponto Pro Rock e chegando à final do concurso “Energia Me Ouve” da rádio Energia 97. Com influências de Pearl Jam, Neil Young, Oasis, Beatles, The Who, Gin Blossoms, Foo Fighters, Nirvana, Soundgarden, Dave Matthews Band, Alanis Morissette, Bruce Springsteen, KT Tunstall, Lenine, Lulu Santos, Legião Urbana e Cazuza, ele define seu som como um folk rock com um pouco de grunge, um de seus estilos preferidos. Conversei um pouco com ele sobre sua carreira, os trabalhos já lançados e a sempre polêmica cena independente atual:

– Como começou sua carreira?

Foi algo bem natural. Música é algo que me mantem de pé desde que me conheço por gente, então o objetivo de ter uma carreira é sonho de criança. Tive algumas bandas no meio do caminho mas acabei me encontrando mesmo na carreira solo, que pouco a pouco vem crescendo muito bem!

– E como decidiu sair da vida de bandas e seguir solo?

Engraçado que não foi algo muito “pensado”; as bandas sempre acabaram naquele chavão de ” horários não batem” ou “idéias não batem”… Como minha rotina apertou também, resolvi montar um home studio pra produzir minhas coisas sozinho, no meu tempo, acabei gostando do resultado e publiquei algumas músicas. A aceitação foi muito boa, tanto que me fez assumir essa faceta e querer cada vez mais…

– Me conta mais sobre o trabalho que você já lançou.

Esse primeiro álbum nasceu da junção de 2 EPs que lancei anteriormente mais algumas músicas que deixei na gaveta por algum tempo. Como gravei todos os instrumentos, voz, editei, produzi, mixei e masterizei, não foi tão difícil fazer soar uniforme (risos). E tentei ser coeso também ao explorar um tema central que passa de forma direta e indireta por todas as faixas, que é a percepção da passagem do tempo. Sou fã de LPs, então esse lance de ter um álbum com uma historia por trás é uma necessidade latente.

– Algo que não anda tão em alta hoje em dia, né. A cultura do álbum. Com o streaming o povo tem a tendência a ouvir mais músicas soltas.

Exato, hoje existe a supervalorização do single. Pouca gente da valor a uma obra completa, degustar uma ideia de cabo a rabo, e algumas bandas já seguem essa tendencia. Eu insisto em remar contra essa maré, acho que a música pode ser muito mais do que algo supérfluo, e um single também é muito mais do que uma música solta, mas uma degustação do que você pode consumir do artista como um todo

Limonge

– Quais as suas principais influências musicais para sua carreira solo?

Diria que eu bebo muito de muitos lugares. Pra citar alguns exemplos, os solos de Eddie Vedder, Noel Gallagher, Chris Cornell (um dos meus maiores ídolos, que nos deixou há pouco, infelizmente), Dave Matthews, Bob Dylan e muito de pop/rock nacional, de Lulu Santos a Skank.

– E como você definiria seu som pra quem nunca ouviu?

Diria que um MPB pop/rock grunge com pitadas de folk talvez (risos).

– Como você vê a cena independente hoje em dia? Como você se desdobra nesse cenário atual?

Tem muita vertente, muita gente boa, muita opção pro público, mas ao meu ver, falta um pouco de união entre as bandas. Isso inclusive é uma das minhas conversas recorrentes com a Pri da Geração Y, como fazer para criar um movimento em que as bandas se abracem e não comecem a competir umas com as outras.

– Você acha que ainda existe essa mentalidade de que uma banda tira espaço da outra?

Confesso até pouco tempo achava isso babaquice, mas senti na pele alguns casos bem bizarros, então me soa como um preconceito velado. não é algo que ocorre a todo instante, mas temos 2 pontos pra explorar nisso:
1. Bandas que querem surfar na carona das outras mas não necessariamente agregam em algo.
2. Bandas que realmente acham que público é dividido e entendem gosto como competição.
Nos dois casos, precisamos buscar soluções pois, no fim, os prejudicados somos nós mesmos.

– Então uma das maneiras de fazer essa cena crescer seria uma maior união entre as bandas, na sua opinião. Como isso pode ser alcançado?

A criação de uma cena acho que passa por inúmeros pontos. Desde a aproximação para eventos como um auxílio para a expansão mútua do som. Você fazer o público rodar entre as bandas através de eventos em diversas partes do país já é algo que pode estimular um alcance maior pra todos, e de quebra, aumentar as chances de expansão. Mas tudo isso começa em uma cena, uma união, que até existe, mas de forma bem segmentada… dá pra ser muito mais.

Limonge

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Sim, iniciei o processo pra um novo álbum há cerca de um mês… tenho já demos das músicas fechadas, em breve vou entrar em estúdio (dessa vez terá produção e será um pouco mais rebuscado) pra começar as gravações, acredito que até agosto deva pintar algo por aí.

– Pode adiantar alguma coisa sobre esse novo trabalho? 

Diria que é uma evolução/continuação do primeiro trabalho, mais maduro, um tema ainda mais firme, to bem feliz com o que rolou até aqui. Posso adiantar que serão 9 músicas, mas ainda tem um bom caminho até mostrar algo mais concreto… assim que tiver prometo que solto pra você com exclusividade (risos)!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Gosto muito de Zimbra, Capela, BTRX, Caike Falcão, Supercolisor, Gabi e os Supersônicos, Guilherme Eddino, LTDA… ufa… tem muita gente boa, acho que essa nova leva tá incrível, temos muito o que conhecer ainda!

Construindo Leila: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Leila

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o a banda de Campinas Leila, formada por Bruno Trchmnn no electro-saz e Waldomiro Mugrelise na bateria.

Mattar Muhhamed“Mabruk Alek” (do disco “Belly Dance”)
Dificil escolher uma musica do Mattar, meu grande heroi do buzuq. Tem vários videos dele tocando no youtube, alguns em festas que eu gosto muito. Conheci ele logo que caiu um buzuq em minhas mãos e logo foi a primeira referência que encontrei. Essa é uma musica comum de dança do ventre.. As vezes eu escuto um improviso dele só pra conseguir pegar uns 5 segundos pra tocar depois e esses segundos rendem uma musica de 20 minutos. Eu amo esse cara.

Samira Tawfic“Anin El Naoura” (do disco “Anin El Naoura”)
Samira Tawfic é uma cantora libanesa que canta em um dialeto beduíno da Jordânia. Eu conheci ela em um cassete muito tosco, todo saturado, e ainda hoje acho estranho ouvir ela com um som limpo, porque pra mim era muito pesado (risos). Esse som eu adoro que começa com um buzuq, e a voz dela é linda.

Omar Korshid“Enta Omri” (do disco “Tribute to Om Koulsoum”)
Omar Korshid é um guitarrista, a musica é de Umm Kulthum e Mohamed Abdel Wahab. É apenas a introdução da canção original, e é um tema muito famoso. Omar é o rei da guitarra árabe, e como quase todo músico da época era também ator de cinema. Essa é talvez a única música árabe que eu realmente aprendi a tocar (mal).

Sivam Perwer“Yarê” (do disco “Lê Dilberê”)
Sivan Perwer é curdo, canta e toca o saz Por anos suas fitas foram proibidas na Turquia, Iraque e Síria por serem cantadas em curdo. É musica de luta, é muito direta e muito forte, é lirismo de combate. O saz tem esse som enorme na mão dele é só esse acompanhamento, esse disco tem um som grandioso que eu gosto muito.

Sun City Girls“Sev Archer” (do disco “You Are Never Alone With an Cigarette – Singles Vol 1.”)
Sun City Girls é algo sem volta, eu conheci por acaso um disco de singles “You Are Never Alone with a Cigarette” e peguei pelo nome, e quando ouvi foi um choque. Liberdade pra fazer o som que quiser, como quiser, onde quiser. Esse som tem muito das guitarras da musica árabe, mas o SSG é muito mais, free jazz, Vietnã, Marrocos, Kali, Iraque, espaço sideral, passado, futuro, vodooo, tabaco, ranho de camelo e drinks de vinagre. Sir Richard Bishop, Alan Bishop e Chales Gocher, amém. SSG é minha religião.

The Cure“A Forest” (do disco “Seventeen Seconds”)
Eu nunca passei pelo punk na adolescência, isso veio depois. Eu cai direto no post-punk e essa é basicamente a música que eu mais ouvi na vida. Esse som é perfeito, não é nem um som pra mim, é um lugar. As guitarras, e esse pulso que rola. Foda.

Sonic Youth“Bull in the Heather” (do disco “Experimental Jet Set, Trash and No-Star”)
Sonic Youth pra mim é uma obsessão, cada mês um disco diferente é o meu favorito, então tentei escolher um som sem pensar muito. Gosto do espaço nesse som, é esse lance dele ser tão simples e bastante emotivo para o Sonic Youth. Eu só “aprendi” a tocar guitarra porque li sobre as afinações que eles usam e isso me incentivou a afinar como eu bem entendia e tocar como eu quisesse.

Le Trio Joubran & Mahmoud Darwish“Sur Cette Terre – Faraadees” (do disco “A l’ombre des Mots”)
Mahmoud Darwish é o grande poeta da causa palestina, um dos maiores poetas da poesia árabe moderna. Le Trio Joubran é um trio de oud também palestino. Eu conheço a poesia por traduções, não sei nada de árabe. Esse som eu ouvi primeiro solto, sem o resto do disco, tipo uma pedrada.

Victor Jara “El Derecho de Vivir en Paz” (do disco “El Derecho de Vivir en Paz”)
No começo do Leila (quando chamava Para Leila Khaled) a ideia era alternar entre barulho, drone e canções como essa. Essa fase não tem quase gravações, mas quem foi nos shows deve ter visto um instrumental desse som outras canções como “Bella Ciao”. Inacreditável de bonita.

Stereolab“Crest” (do disco “Transient Random-Noise Bursts With Announcements”)
Stereolab pra mim é catarse e emoção, não sei da onde tiram que é uma banda blasé. O primeiro disco, “Peng!” foi o disco que eu mais ouvi na vida. Guitarra, farfisa, socialismo ou barbárie. A letra dessa musica é a minha favorita do mundo “If there’s been a way to build it, there’ll be a way to destroy it. Things are not all that out of control”.

Markos Varvamkaris – “Taxim Zeimpekiko” (do disco “Ta Matoklada Soum Lampoun”)
Markos Varvamkaris é um dos grandes inovadores do bouzouki grego como instrumento solo, não dá pra falar de bouzouki sem falar do Markos. Esse som é um improviso, com uma canção no final. Dá pra sentir o cheiro de cigarro.

Dariush Dolat-Sahi“Sama” (do disco “Eletronic Music, Tar and Sehtar”)
Ele foi um músico iraniano que estudou música eletrônica em Columbia-Princeton, onde esse disco foi gravado. Eu não sei sobre como essas músicas foram feitas, mas tem uma sensação de improviso que eu gosto muito, e essa colagem de sons. Essa é uma referência bem óbvia pro Leila.

Velvet Underground “European Son” (do disco “Velvet Underground & Nico”)
O Velvet pra mim são os bootlegs, eu coleciono (o que com a internet é bem fácil na real). É alto, é livre, as músicas se estendem por 30 minutos. La Monte Young, Ornette Coleman, Bo Didley, tá tudo ai. Um pouco disso está condensado nessa faixa de estúdio. As guitarras do Lou Reed são incríveis, no disco não dá muito pra sacar quão doidas elas são.

Sun Ra“The Night of the Purple Moon” (do disco “The Night of the Purple Moon”)
Difícil escolher um som do Sun Ra, mas esse é do disco que eu mais ouvi. Sun Ra é algo que posso ouvir a qualquer hora, qualquer dia e sempre vai ser exatamente o que eu precisava ouvir. O que eu mais gosto é como parece um som feito com prazer, não é um improviso cerebral e frio nem mesmo agressivo, é livre e solar (sem trocadilho).

Kamylia Jubran & Werner Hasler“Miraat Al-Hijarah” (do disco “Wameedd”)
Kamylia Jubran é uma artista palestina, e uma das fundadora do Sabreen, um grupo palestino renovador da canção árabe e profundamente envolvido com a causa palestina e a luta política. Nesse disco ela canta e toca oud com Werner Hasler, um suíço que entra com os eletrônicos. Eu não sei muito sobre ele, mas esse disco é maravilhoso. Tudo da Kamilya Jubran é incrível, especialmente o oud, mas essa música tem apenas alguns fragmentos do oud e a voz e é muito forte.

Vibracathedral Orchestra“Magnetic Burn” (do disco “The Queen of Guess”)
Vibracathedral é um grupo de improviso (eles dizem que são mais jams que improvisos na verdade) de Leeds. Eles gravam tudo que tocam e lançam boa parte disso. Um tempo atrás eu tinha até medo de mostrar essa banda pra amigos e ser acusado de plágio, mas tanto faz, sou obcecado por eles.

The Sisters Of Mercy“Temple of Love” (do disco “Some Girls Wander by Mistake”)
Eu disse que caí direto no gótico. Falam que é brega, mas é inveja. Olha esse som, é tipo uma cascata de veludo, como fizeram isso? Se eu fizer algo com um terço dessa textura eu fico feliz. A forma é legal também, esse riff em loop e esses eventos que vão acontecendo em volta. “Temple of Love” é meu “Blitzreig Bop”.

The Raincoats“Only Loved at Night” (do disco “Odyshape”)
Elas trocam de instrumento no meio da música, e tem uma nota que a baixista deixa soando para ter tempo de pegar a kalimba, a guitarrista fica só fazendo um chk-chk e depois tem um micro silêncio e o baixo volta com a linha de guitarra, dá arrepio até.

Colin Newman“But No” (do disco “A-Z”)
Catarse, sempre. Amo esse disco, é pura energia, a forma como esse som vai se construindo. O disco seguinte dele, o “Provisionally Entitled The Singing Fish” é instrumental e poderia ter mais a ver falar dele pelo lance de não ter vocal, mas o que me pega mesmo é a catarse desse som, essas melodias bonitas que ele vai empilhando e depois grita em cima essa letra meio mantra até não poder mais e fim.

Umm Kulthum“Zalamna El Hob Desk” (do disco “Zalamna El Hob”)
A diva do cairo, a voz do egito, o planeta do leste. Eu poderia escolher qualquer musica dela, conhecer sua voz mudou minha vida. Ouvir Umm Kulthum é ouvir uma voz que é amada por muitos, por todo mundo árabe e a diáspora. Essa música talvez eu tenha escutado mais que outras (sim, ela tem 39 minutos e isso é até curto para ela, suas apresentações duravam em torno de 4 ou 6 horas) porque caiu primeiro em minhas mãos, e alguns trechos ficaram gravados na minha mente, em especial alguns que eu sampleei e fiquei trabalhando por horas colando e cortando ouvindo em loop e tocando em cima.