O lado bom da tristeza: Nick Drake – “Five Leaves Left” (1970)

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Nick Drake - Five Leaves Left

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se fala de Nick Drake, a pergunta é sempre a mesma: como esse sujeito não conseguiu fazer um pingo de sucesso em sua época? Afinal, ele era um incrível compositor, talentosíssimo letrista, criativo no uso de afinações alternativas, dono de uma voz agradável e boa pinta. Tinha tudo que a maioria dos artistas se mata para conseguir ter.

Na breve carreira do britânico – três LPs ao todo – só tem pérolas. Não existe música ruim no universo de Nicholas Rodney Drake. Por outro lado, a felicidade quase inexiste e a melancolia reina absoluta, fato que por si só assombra uma boa parcela do público mais sedento por agitação. Além disso, demasiadamente recluso, quase não se apresentava ao vivo, o que deixava tudo mais difícil.

Estudante de literatura e esporádico atleta (classificado pelos colegas de rugby como um “calmo autoritário”), o jovem Nick sempre foi extremamente reservado, tímido e impenetrável. Dizem por aí que nunca chegou a ter um relacionamento amoroso, muito embora atraísse atenção por parte do público feminino. O cara era fechado mesmo. Quem o conhecia dizia que na poesia e na música é que se percebia sua alma mais evidente, seja tocando violão, piano ou até mesmo saxofone e clarinete.

Foi por volta de 1967 que ele viria a se arriscar em apresentações em pequenos clubes e cafés de Londres, e foi num desses shows que Ashley Hutchings, integrante do Fairport Convention, o descobriu. Passado algum tempo descolou um contrato com o selo Island Records e em 1969 saiu sua primeira gravação.

“Five Leaves Left”, álbum de estreia de Drake, é uma obra de arte irretocável. Fundamental para quem se liga em sons mais delicados, de caráter intimista. Você escuta qualquer música do disco e tudo o que você pensa é em bucolismo, outono, inverno, esse tipo de coisa. Traz um conforto inevitável. Seu refinado violão é um espetáculo por si só, e, como se não bastasse, Nick Drake juntou um time de primeira para fazer o acompanhamento da maioria das canções. Ali você pode conferir gente como Richard Thompson (Fairport Convention) nas guitarras e Danny Thompson (Pentangle) no baixo, além dos emocionantes arranjos orquestrais de Robert Kirby e Harry Robinson.

O produtor do LP, Joe Boyd, responsável por alguns trabalhos do Pink Floyd, Jimi Hendrix e R.E.M., já chegou a dizer que havia conflitos entre ele e Drake por conta da direção que o álbum deveria tomar. Enquanto Boyd defendia a ideia de explorar mais as possibilidades de estúdio, o músico queria um disco mais seco e orgânico. No fim resultou em um belo trabalho equilibrado, onde a voz do cantor e seu violão ganham o destaque absoluto, embora vez ou outra os arranjos de cordas conseguem nos deixar de boca aberta.

Essa fusão atinge a perfeição em “River Man”. Essa canção é simplesmente uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Meu Deus… o que é aquilo? Uma faixa soturna, triste, como de praxe no catálogo do cantor, mas nesse caso acredito que até quem não se liga em sons melancólicos vai dizer que é uma baita música. Não tem como repreender uma coisa dessas. Apenas ouça.

“Three Hours” e seu ritmo de congas é outro ponto alto. A sonoridade, sempre de altíssimo requinte, nos hipnotiza enquanto Drake canta suas reflexões profundas. A faixa faz um par muito coerente com outra pérola, “’Cello Song”, que, como o próprio título diz, gira em torno de uma maravilhosa linha de violoncelo.

Como dito anteriormente, a tristeza é uma máxima no som do rapaz, de fato. É como se a vulnerabilidade que ali está fosse um sutil chamado de socorro. Ele sofria de depressão, o que mais tarde viria a ser determinante para o seu (suposto) suicídio. E “Way To Blue” é uma dessas canções que só quem está nessa vibe poderia fazer-la tão sincera. A orquestra que o acompanha é de chorar. Essa não é para os fracos, mesmo.

“Man In a Shed” traz alguma alegria em seu ritmo suave, o que faz um ótimo contraponto na tracklist, do mesmo modo que “The Thoughs Of Mary Jane” apresenta um som mais doce e diversifica a maneira de Nick Drake interpretar suas belas letras. “Fruit Tree”, assim como “Time Has Told Me” servem em alto nível um letrista inspiradíssimo, que somente por essas músicas já teria uma cadeira cativa entre os maiores cantores/compositores de seu tempo.

Igualmente interessante é a agridoce “Saturday Sun”, que encerra o álbum com um clima leve. Nick abandona o violão e vai para o piano, e a sensação que fica é a de que Nick Drake, com seu jeito nada incisivo e ao mesmo tempo absurdamente expressivo, nos prendeu sem nenhuma dificuldade por pouco mais de 40 minutos. E você vai querer escutar tudo de novo, pouco importa a quantidade de melancolia. É bonito demais.

“Five Leaves Left” não fez o menor sucesso. Uma série de fatores o levou a isso. Um deles foi a demora da gravadora ao lançá-lo e promove-lo. Além disso, Nick Drake fez poucas apresentações, e quando o fez foi para um público desinteressado, que não sacou muito bem qual era a daquele cara grandalhão que nem dizia “oi” para a plateia. Antes de cada bendita canção interpretada tinha que afinar diferente seu violão, o que quebrava o ritmo do show e irritava os presentes, já impacientes com sua suposta indiferença.

Vieram mais dois trabalhos: “Bryter Layter” (1971) e “Pink Moon” (1972). Não dá para dizer qual é o melhor dos três, todos são incríveis. Mas do mesmo modo que são um grande feito artístico, também são fracassos descomunais de vendas, o que feriu Drake bem no âmago.

Ele viria a falecer em 1974, com 26 anos. Infelizmente não pode ver a lenta aceitação de seu trabalho, que agora é lembrado por gente como Elton John, Norah Jones e The Mars Volta como um dos melhores catálogos da música folk/rock. Hoje em dia todos os seus três LPs são aclamados pela crítica e constantemente presentes em listas de melhores álbuns de todos os tempos.

Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir reflexões, haverá espaço para a música sinceramente melancólica. Espero que seja para sempre.

RockALT #11 – Tamarindo, Spidrax, Dead Parrot, Walfredo em Busca da Simbiose e White Lung

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RockALT, por Helder Sampedro

Na coluna dessa semana eu destaco power trios, um quarteto e um projeto solo de diferentes estilos enquanto fazemos uma viagem que vai do interior de São Paulo ao Canadá passando por sons progressivos, agressivos, psicodélicos e muito mais!

Tamarindo
Eu nem tinha escutado a segunda música do trabalho ‘Lado B’ e já havia me apaixonado pelo seu título, ‘Eu Sempre Gostei Mais do Lado B’. A banda de Santa Cruz do Sul/RS inadvertidamente ou não fez uma homenagem a todos aqueles amantes inquietos da música que não se contentam em ouvir apenas o que todos estão ouvindo, apenas o que é fácil de se escutar. É realmente um prazer descobrir uma banda que poucos conhecem, ir curtindo faixa após faixa e entendendo a proposta dos músicos, suas qualidades e suas escolhas. Espero que você curta a sonoridade desse power trio o tanto quanto eu e se apaixone pela reverberação de seus instrumentos e pela voz cativante da vocalista.

Spidrax
De um power trio de grunge vamos para um power trio de horror punk! Com uma pegada que remete àquele Misfits de começo de carreira, os paulistanos do Spidrax são mais um exemplo da variada gama de estilos e vertentes do rock atuantes em São Paulo. Vocais meticulosos e precisos, guitarra furiosa, bateria pesada e letras (em português!) fieis à sua temática são as marcas principais dessa banda. Não poderia ser diferente com influências como “Motorhead, Misfits, Samhain, Danzig, Black Sabbath, entre outras desgraceiras” como diz o facebook do grupo! Se você curte um som mais veloz e pesado, não deixe de escutar o EP recém lançado do Spidrax!

Dead Parrot
Se enganou quem acha que é só na capital de São Paulo que tem banda boa: natural de Barão Geraldo/SP, o quarteto Dead Parrot não se limita a gêneros específicos e traz influências de diversas bandas como Rush, Cream, Pink Floyd, Doors, QOTSA, Jeff Buckley entre outros nomes de peso! Isso se reflete em uma sonoridade progressiva e experimentadora sem se deixar levar por devaneios musicais muito longos. A mistura equilibrada de classic, stoner, hard e prog do Dead Parrot pode ser conferida no EP homônimo:

Walfredo em Busca da Simbiose
O projeto solo do compositor e produtor musical Lou Alves lançado há pouco mais de um mês é uma daquelas pérolas escondidas nas ondas internéticas. Longe da pretensão e aspirações que muitas vezes acometem alguns artistas, é no campo privativo e introspectivo desse tipo de projeto pessoal que nascem obras fáceis de escutar e se identificar. As letras das músicas que formam o EP tratam de sonhos, viagens, desejos e pedidos tão particulares e ao mesmo tempo comuns a qualquer pessoa que acaba se tornando muito fácil se deixar levar do rock ao folk psicodélico e sair em busca do quer que seja a “simbiose” de quem escuta.

White Lung
Eu espero que vocês já conheçam o White Lung. Só estou falando deles aqui pois é uma daquelas bandas que eu quero que literalmente todo o mundo conheça. Dito isto, o quarto álbum desse trio canadense de punk rock é o meu álbum gringo favorito do ano passado, ele está no pen drive do meu carro há meses e mesmo ouvindo direto eu ainda não enjoei. Não sei ao certo se é a voz poderosa e competente da vocalista, o trabalho primoroso e devastador do guitarrista ou talvez o mérito esteja no conjunto completo pois eu sou incapaz de pular uma só das dez faixas que formam o LP ‘Paradise’. Se você ainda não conhece, não precisa me agradecer, apenas escute o álbum e veja se eu tenho razão:

Se você curtiu essa coluna, não deixe de escutar o RockALT! O nosso programa vai ao ar toda quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br e nossos mais de 100 programas estão disponíveis no Mixcloud: www.mixcloud.com/rockalt/

Sheila Cretina destila seu veneno rocker enquanto prepara seu segundo disco

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Sheila Cretina

A banda Sheila Cretina está desde 2008 na ativa misturando todo tipo de rock que possa vir a influenciar Gustavo McNair (voz e guitarra), Rodrigo Ramos (guitarra e voz), Jairo Fajersztajn (baixo e voz) e Caio Casemiro da Rocha (bateria). “Todo mundo cresceu ouvindo rock. Gustavo tá numa onda mais setentista. Caio é frito em jazz além do rock. Rodrigo é produtor de trilhas. Eu venho do punk rock, mas gosto de tudo”, explica Jairo. “Tudo que a gente ouve e gosta vira influência, então muita coisa”.

A banda lançou em 2011 seu primeiro álbum, “Vol I”, gravado no Red Mob Studio por Gianni Dias e Piettro Torchio entre 2009 e 2010 com masterização por Michael Fossenkemper, no Turtle Tone Studios, em Nova Iorque. As 7 faixas do disco mostram um pouco da mistureba rocker que a banda representa, com letras em português e a quantidade ideal de barulho para ser ouvida no último volume. Para este ano eles estão preparando o segundo trabalho, gravado no Estúdio Aurora, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre.

Conversei com Jairo sobre a carreira da banda, o primeiro disco, a cena independente e a dicotomia da música nos tempos de internet e streaming:

– Como começou a banda?

A banda começou, se não em engano, em 2008… Estávamos na faculdade. Eu tocava com Caio (batera) desde criança e estávamos sem banda, conheci o Gustavo na facu e resolvemos montar uma, chamamos o Caio que já estava afim de tocar e começamos assim. Rodrigo entrou dois ensaios depois na segunda guitarra e assim estamos até hoje.

– De onde surgiu o nome Sheila Cretina?

O nome surgiu a partir na necessidade de uma banda ter um nome (risos). A gente precisava de um nome e Sheila Cretina veio naturalmente como se soasse como a sonoridade que fazemos.

– E o que significa?

Não tem significado. Sheila Cretina é uma banda desesperada de São Paulo, que grita em português o rock que quer ouvir.

– Quais as principais influências da banda?

Cada um tem sua linha de som, influência e inspiração A gente não se prende a rótulos ou estilos. Todo mundo gosta de rock, todo mundo cresceu ouvindo rock. Gustavo tá numa onda mais setentista. Caio é frito em jazz além do rock. Rodrigo é produtor de trilhas. Eu venho do punk rock, mas gosto de tudo. No nosso som você vai encontrar influências de Ramones, Mudhoney, Sonic Youth, Black Flag, Dead Kennedys, Nick Cave, Stooges, MC5, Led, Nirvana, Sabbath, Jards Macalé, Cólera, Humble Pie… Tudo que a gente ouve e gosta vira influência, então muita coisa.

Sheila Cretina

– Me fala um pouco mais sobre o que vocês já lançaram.

Lançar é uma novela nessa banda (risos). Temos um álbum lançado chamado “Vol. I”. Foi lançado em 2011, se não me engano. Lançamos um clipe oficial desse álbum, e um clipe ao vivo. Fizemos bastante shows por aí, divulgamos bastante esse álbum, que está quase esgotado, e agora finalmente depois de muito trabalho estamos perto de lançar o segundo álbum.

– E como é o “Vol I”? Como foi a gravação dele e o que temos no disco?

O “Vol. I” a gente gravou no extinto Estudio RedMob. Foi uma experiência bem bacana. Gianni Dias ficou a cargo da gravação, e como é nosso amigo, foi tudo muito engraçado e tranquilo de fazer. No disco tem apenas músicas autorais, todas as letras do Gustavo, cada uma de um estilo de rock sem muito rótulo. Cada música a sua maneira. Ele é bem urgente, enérgico, juvenil, excitante, explosivo, sujo… Eu acho que é rock do bom (risos). Ah! super chique, foi masterizado em NYC nos Esteites.

– E como está sendo essa preparação pro segundo disco? O que podemos esperar?

Está sendo uma grande novela, mas finalmente conseguimos entrar no eixos. Fechamos com o Estúdio Aurora e estamos sendo produzidos pelo Billy Comodoro, um cara que conseguiu nos dar um norte dentro do estúdio, clarear nossas ideias e facilitar os arranjos das músicas. Podemos esperar coisa boa, pra quem gosta, claro. Rock autêntico, sujo, com atitude e aquela pitada de barulho de sempre.

– Já tem previsão para lançamento?

Olha, previsão exata assim não tem. Mas tenho muita fé que vai sair ainda esse semestre.

– Como você vê a cena independente do rock hoje em dia?

Cara, isso é uma coisa muito complicada. A gente sempre ouve que “no meu tempo era melhor”. e eu acho que realmente era. Vejo muita gente falando que a cena é desunida, só tem vaidade. E eu até concordo. Mas eu to cheio de camarada que faz a cena acontecer, ta cheio de gente querendo se unir, dando o sangue pela cena. Seja no hardcore, no punk rock, no hard rock, no ska, no instrumental, surf music. Acho que o que fodeu com a cena foi a internet e a forma de consumir musica. Banalizaram a musica, por isso acredito não termos mais espaços que tínhamos antes. A cena independente sempre vai existir. Acho que temos uma herança dos anos 90 onde o mainstream comprou o underground. Você tinha programas na TV aberta durante a tarde em dias de semana ou domingos, com bandas autorais ao vivo. Hoje isso já diminuiu bastante… Mas como disse, o underground sempre existe, cheio de banda fazendo corre ha milianos, tipo Cólera, RDP, Dead Fish, Dance of Days, o próprio Autoramas, Hurtmold… E tem muita coisa nova boa com gente que corre atrás, tipo Não Há Mais Volta, Der Baum, Horace Green, Emicaeli, Chalk Outlines, Poltergat, Rakta, Fingerfingerrr, entre TANTAS outras… Acho que estamos num momento diferente, mas que sempre devemos nos unir e nos ajudar. Nunca separar, segregar.

Sheila Cretina

– Mas a internet ao mesmo tempo criou uma facilidade para as bandas independentes divulgarem seu trabalho… Ou não?

Facilidade pra divulgar sim… Mas com a facilidade em baixar músicas, ouvir no Youtube, a música virou algo descartável. Uma capa não é algo mais totalmente importante. Guardar o CD nao é mais importante, é só baixar. E nunca mais ouve. Quando eu era moleque, o cara mais legal do rolê era aquele que tinha fitinha demo da banda que ninguém conhecia, essa banda ia tocar 4 bandas antes do Dead Fish e neguinho sabia cantar a música. Hoje não existe mais demo quase. Hoje não existe mais muito público pra ver banda de abertura em show underground. Assim como a cena é ruim, mas é boa. A internet faz bem, mas fez mal… Faca de dois gumes.

– Quais os próximos passos da banda?

Difícil prever, mas queremos trabalhar esse disco novo, fazer algum material legal com ele e já partir para novas composições e produções.

– Pra finalizar: recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamara sua atenção nos últimos tempos!

Tem MUITA coisa boa por aí. Já citei alguns em outra resposta nessa entrevista: Emicaeli, FingerFingerrr, Futuro, BloodMary Una Chica Band, Gogo Boy From Alabama, Repeat Repeat, Otoboke Beaver, Chalk Outlines, Der Baum, Câimbra, Faca Preta, disco solo do Saico, Combover, Rakta, Comodoro, Lloyd, O Inimigo, Twist Connection, Winteryard e tem a Desiree do Harmônicos do Universo, ela também faz participações em outros shows. Mas meu preferido hoje é a carreira solo do Lee Ranaldo e Human Trash. Muita coisa mesmo!

– Aliás, deixa eu estender a pergunta: já que você tem viajado bastante, tem algumas do exterior que você recomenda?

Les Deuxluxes (Canadá), Otoboke Beaver (Japão), Ninet Tayeb (Israel), Tokyo Ska Paradise Orchestra (Japão) e tem duas que não consigo lembrar o nome (risos). Ah, e Novedades Carmiña (Espanha)!

Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?

Construindo Amphères: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Amphères

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o trio Amphères que indica suas 20 canções indispensáveis.

Joe Cocker“With a Little Help From My Friends”
Jota Amaral: A versão 1969 de Joe Cocker naquele Woodstock foi a primeira vez que vi a música sair dos poros de alguém.

Pixies“Gigantic”
Jota Amaral: O dia que conheci a Paula ela estava se preparando para ensaiar com uma banda, timbrando o baixo e dedilhando esta música.  “Você gosta de Pixies?”, perguntei… Um mês depois estávamos com uma banda montada e mandando vários covers de Pixies. Era uma banda de fãs. Foi muito maneiro irmos todos juntos num show que teve no Lollapalooza anos depois.
Pink Floyd“Echoes”
Jota Amaral: Comecei a tocar com o Thiago numa banda que ele já tinha, substituindo nosso grande amigo Luizão. O nome da banda era Echoes. Em meados dos anos 90 eles, junto com o baixista e compositor Sansei, gravaram um EP que eu adoro. Uma pena não ter nada disso no Spotify. Posso dizer que esse som me influenciou muito, já que tive que tirar as linhasdoidas de batera do Luiz. As músicas próprias não tinham tanto a ver com essa música do Floyd, mas sempre tinha o momento de tocarmos Echoes nos ensaios.

Caetano Veloso“Jokerman”
Jota Amaral: É muita camada sonora numa única música. O arranjo é construído de forma progressiva. Um entra-e-sai de instrumentos diversos … Vários elementos percussivos somados a textura de um flatless com timbrão de avião mono motor passando longe no céu. Tem características brasileiras mas é universal. Poderia fazer uma dissertação sobre essa versão do Caetano pra canção de mister Bob Dylan.


John Zorn
“You will be Shot”
Jota Amaral: Sempre brincamos nos ensaios com essa coisa da tempestade e calmaria. Da mudança brusca de climas sonoros que John Zorn explora em níveis de insanidade bem altos.

Jorge Drexler“Tres Mil Millones de Latidos”
Jota Amaral: Como baterista, a ideia de subverter o instrumento é um desafio. Tocar pela busca do som que se deseja e não pelas convenções…Se estamos nesse mundo de passagem, porque o chimbal tem que ficar onde fica? porque a caixa tem que ter a esteira sempre ligada? E se meu coração bater apenas três bilhões de vezes? O que me impede de substituir as baquetas pelas mãos? Foda-se! Vou montar uma percuteria e morar em São Tomé.

Astor Piazzolla“Libertango”
Jota Amaral: Pode não parecer, mas isso é uma música de rock com um “vocal” triste e sexy. O bandoneón fala uma língua própria. Ele tem essa propriedade que alguns instrumentos de sopro tem, de conseguir expressar quase que literalmente os sentimentos. O casal batera & baixo vai muito bem, obrigado.

Sex Pistols“Bodies”
Thiago Santos: Se o rock bateu em mim quando pré adolescente, começou mesmo pela simplicidade e agressividade de Pistols e Ramones.
Pink Floyd“Remember a Day”
Thiago Santos: Ainda moleque, depois de ouvir muita música pesada, descobrir o Floyd foi abrir uma nova dimensão sonora e sentimental. Crescendo no fim dos 80, começo dos 90, fiz o caminho inverso do rock, e enjoei da crueza do punk/heavy pra descobrir a psicodelia dos 70.
Sonic Youth“Cinderella’s Big Score”
Thiago Santos: a primeira vez que ouvi achei que tinham me dado a fita por engano, tamanha estranheza… depois de compreender as dissonâncias, Sonic Youth (junto com Pixies) expandiram bem os horizontes.
Chico Buarque“Construção”
Thiago Santos: Ao admitir ouvir samba novamente e redescobrir esse arranjo, imaginava se John e Paul tivessem escutado essa música o que eles comentariam lá em Abbey Road.
Novos Baianos“Tinindo Trincando”
Thiago Santos: Junção perfeita do samba rock, antes dos anos 80 separarem Pepeu, Baby, Moraes e detonar eles individualmente…
Deerhunter“Helicopter”
Thiago Santos: um nova abordagem de efeitos sonoros sobre uma melancolia a la Syd Barrett.
Nação Zumbi“Um Sonho”
Thiago Santos: O Lucio Maia é um dos mais inventivos guitarristas brasileiros e nessa música, num estilo mais balada que o de costume, junto com uma puta letra e o clipe (com a filha do Chico Science e o filho do Jorge Du Peixe), ficaram melhor que nunca.
 

Siouxsie & The Banshees“Happy House”
Paula Martins: Cresci ouvindo o som de bandas inglesas dos anos 80 e essa foi uma das que mais teve influência na minha formação desde muito cedo. Nessa música, uma sonoridade muito particular vem do encontro da voz poderosa da Siouxsie com a cozinha incrível do Steve Severin e do Budgie e ainda,  na versão ao vivo, do álbum “Nocturne”, da guitarra do Robert Smith (The Cure) que é outra influência central dessa época.

Slowdive“Souvlaki Space Station”
Paula Martins: Se fosse para escolher uma só seria essa! Eu costumava ouvir com um amigo querido que morava no último andar de um prédio na Av. Paulista, contemplando a vista e as estrelas que desse para ver. O álbum todo é incrível mas aqui tem uma atmosfera espacial produzida por muito delay e reverb e conduzida por uma linha de baixo hipnótica que faz dela uma influência bem marcante.

Breeders“Cannonball”
Paula Martins: Kim Deal. Não precisa dizer mais nada. O baixo das músicas do Pixies sempre foram uma referência importante, mas essa música, que me fazia pular nas pistas da Der Temple e do Cais, tem pra mim a identidade cativante das composições dela. O baixo icônico aqui é da Josephine Wiggs.

Radiohead“How to Disappear Completely”
Paula Martins: Tem dias que eu chego a pensar que o Thom Yorke tem acesso a informações de um microchip instalado na minha cabeça. Quando ouço essa música é um desses momentos. A melancolia dela é definitivamente uma influência.

Warpaint“Biggy”
Paula Martins: Adoro tudo nessa música, o baixo é maravilhoso, gostaria muito de fazer uma linha um dia que tivesse efeito nas pessoas que essa tem mim! Tudo nela é sexy, em especial letra e vocais.

Jennifer Lo Fi“Bacon”
Paula Martins: Essa é uma descoberta bem recente, mas certamente já tem impacto na produção do nosso som. Em primeiro lugar pela decisão de passar a escrever em português. Mas principalmente por me fazer lembrar onde é possível chegar quando músicos loucos se encontram.

O duo de Brighton Skinny Milk prepara-se para dominar o mundo com seu terceiro EP, “Creature”

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O Skinny Milk, de Brighton, segue o formato consagrado por bandas como Black Keys e White Stripes, com apenas duas pessoas e muita emoção, mas com um porém: eles substituem a guitarra por um baixo cheio de distorção. Formada em 2016 e com dois EPs na bagagem (um auto-intitulado, de 2016, e “Daydream”, lançado em fevereiro deste ano), a banda agora trabalha em seu próximo EP, “Creature”, a ser lançado no verão inglês.

Com influências de garage punk, psicodelia, fuzz e até metal, o duo formado por Johnny Hart (baixo e vocais) e Tim Cox (bateria) é selvagem ao vivo. Esta é a descrição de uma apresentação da banda pelo jornal “The News”, de Portsmouth: “O baixista/cantor Johnny Hart oferece sozinho um som de rock psicodélico repleto de reverb, digno de cinco músicos em um nível feroz. Enquanto isso, o baterista Tim Cox complementa com um ataque forte e poderoso em seu kit. Músicas rápidas e furiosas como “Creatures” colocam o pequeno público a se enfiar ainda mais fundo na escuridão cavernosa. Despidos da cintura para cima e visualmente deslumbrantes sob as luzes em espiral, o Skinny Milk é certamente destinado a deixar uma multidão maior de boca aberta. Beberei a isso”.

Conversei com Johnny sobre a carreira da banda recém-formada, seus EPs, influências e o que podemos esperar de “Creature”:

– Como a banda começou?

Formamos quando nossa banda anterior, The Vril, implodiu. O Skinny Milk começou em janeiro de 2016 comigo, Johnny Hart, no baixo e vocais, e Tim Cox na bateria.

– Como vocês chegaram no nome Skinny Milk?

Criamos o nome puramente por acidente. Estávamos brincando com palavras diferentes e gostamos da maneira como elas soavam juntas. Foi assim, na verdade…

– Quais são suas principais influências musicais?

Bem, temos uma gama muito ampla de influências. Eu definitivamente sou mais influenciado pelas bandas de psych/garage/punk, como os Stooges, os Ramones, o Black Sabbath, bem como bandas de garagem dos anos 60 como The Litter e The Shag, bem como as mais modernas como a Coachwhips e Thee Oh Sees. Tim definitivamente é mais inspirado pelo lado hardcore e metal de coisas como Pantera, Slayer e hardcore como Sick of it All e Kid Dynamite.

– Conte mais sobre o material que vocês lançaram até agora.

Até agora lançamos um Single (“YGD”), gravado por Andy Robinson, um EP auto-intitulado e o nosso segundo EP, “Daydream”, ambos gravados por Rob Quickenden no Ford Lane Studios. Estamos prestes a lançar o nosso terceiro, chamado “Creature”, gravado por Eric Tormey da Gang. Deve sair neste verão!

Skinny Milk

– Como você se sente sobre a cena independente hoje em dia?

Há tantas boas bandas na cena underground agora, é muito saudável em Brighton. Há tanta concorrência!

– A queda das gravadoras foi boa ou má para artistas independentes?

Bem, obviamente, a forma como a música funciona mudou muito de como era quando era mais fácil ganhar a vida com a música. A queda de grandes gravadoras pode trazer mais selos decentes, que são mais direcionados para as bandas e música, em vez de puramente para o lucro.

– Como é seu processo de composição?

Nós escrevemos de forma muito diferente do que seria numa situação de banda normal. Às vezes Tim tem um loop de bateria legal ou eu tenho um riff sólido, então normalmente nós apenas ficamos presos até que algo sai. Eu uso o meu vocal como outro instrumento, adicionando camadas ao nosso som.

– Vocês está trabalhando atualmente em novo material?

Sim, estamos atualmente trabalhando no lançamento de nosso terceiro EP, “Creature”, que deve estar pronto no verão, e temos outro single que estamos gravando em julho.

Skinny Milk

– Quais são os próximos passos da banda?

Os próximos passos são lançar o próximo EP e continuar a fazer bons shows para multidões crescentes. Queremos tocar em mais festivais e fazer uma turnê novamente no verão. Temos uma mini-tour no início de maio com a dupla francesa The Mirrors e as gatas de Londres Dolls. Vai ser muito legal.

– Recomende bandas (especialmente se forem independentes!) que chamaram sua atenção ultimamente!

Uau! São muitas para mencionar! Vamos ver… Nossos bons amigos Fuoco, Gang, Atlas Wynd, The Get Rids, Buddha Blood, Inevitable Daydream, Bigman Solution, Scab Hand, Clever Thing, Dirty. Tem muitas, isso é apenas o que saiu de bate pronto de nossas cabeças!

10 bandas e artistas com nomes que ficam bem esquisitos no Brasil

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Sabe aqueles falsos cognatos que fazem qualquer um passar vergonha quando viaja, como naquela velha história de que paletó em espanhol se fala “saco”? Pois bem: tem bandas e artistas que lá fora têm nomes bem inofensivos, mas que aqui ficam hilários. Reuni 10 exemplos de nomes que ficam bizarros no Brasil:

Poliça

Formada por Ryan Olson e Channy Leaneagh, a banda de indie rock de Minneapolis tem um som com influências de eletrônico e R&B e começou sua carreira em 2011. Não, eles não tem relações com as forças armadas e não prendem ladrões, pode ficar tranquilo.

Pinto

Sim, a banda chama Pinto. O quarteto de Chicago se inspirou em um carro de mesmo nome que fez muito sucesso nos Estados Unidos, o Ford Pinto, que por motivos óbvios não chegou a ser importado para o Brasil.

Chris Bunda

Sinceramente, eu não sei muito sobre o rapaz que se chama Chris Bunda. Só sabemos que mesmo com este nome, ele não canta axé ou funk carioca e não bate com a bunda no chão. O som dele é um pop rock muito do inofensivo que parece aqueles cantores de barzinho sem experiência.

Pirocan

Não é nada disso que você está pensando: o Pirocan, da gravadora Aşanlar Müzik, faz música típica árabe (eu acho, me perdoem se eu estiver errado), com suas danças e tudo. E sem envolver membros sexuais girando.

Bussetti

Não, o Bussetti não é italiano. Formado em 2001 em Londres, o grupo fazia um som que misturava hip hop, funk, jazz, indie e pop e lançou dois discos até 2007, quando terminou.

DJ Foder

Esse DJ é foda.

Meleka

A cantora Meleka, de Londres, já colaborou com gente como Basement Jaxx, Kelis e muita gente boa. No momento, está trabalhando com diversos produtores e compositores para lançar seu primeiro álbum.

Teta

Sério, existe um músico chamado Teta. De Madagascar, Teta cresceu em Taspiky, um dos locais tradicionais pela música na região. Sua habilidade no violão é notável, com harmonias inesperadas e ritmos diferenciados. Mas não dá pra não rir ao falar seu nome.

Charles Boquet

O francês Charles Boquet tem uma Big Band e o tanto de trocadilhos que dá pra fazer com essa frase não tá no gibi.

Cagarro

Cagarro é uma música eletrônica daquelas genéricas que às vezes você ouve na C&A enquanto procura uma bermuda a um preço razoável, não acha e acaba levando somente um kit com 5 meias. Ah, e o nome é hilário.

O som de hoje 40 anos atrás: David Bowie – “Low” (1977)

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David Bowie - Low

Bolachas Finas, por Victor José

Mesmo que a icônica capa de Aladdin Sane” (1973) tenha sobrevivido intacta e soberana no imaginário da cultura pop e levado a personagem de David Bowie quase que à banalidade em termos visuais, o legado do britânico ecoa ainda mais forte por conta de seu extraordinário conteúdo musical. Se por algum motivo a incessante busca por sintéticas texturas sonoras entra e sai de moda entre bandas de rock e de outros gêneros, muito disso é fruto das sugestões apontadas por Bowie e sua essencial “Trilogia de Berlim”, sobretudo o álbum Low”, de 1977.

Parece redundante hoje em dia destacar a importância do britânico para a música popular, mas fato é que neste ano Low fez 40 anos e permanece ileso e incontestavelmente rico em proposta estética. Aliás, por mais que Bowie seja um gigante da música do século XX, este disco jamais deixará de ser assunto de uma infindável discussão sobre até onde pode chegar um cantor pop.

Produzido pelo próprio Bowie e seu parceiro de longa data, Tony Visconti, “Low” abriu um novo caminho na carreira do músico. Se antes já havia causado espanto geral por flertar facilmente com pop barroco, soul e glam rock, a partir de 1977 passaram a vê-lo como um artista desafiador, que expandia os limites sugerindo à música o uso expansivo da artificialidade sonora.

Com o objetivo maior de largar seu vício em cocaína, Bowie viveu modestamente na Alemanha Ocidental, em Berlim, recluso e longe dos holofotes. Como forma de ocupação, em meados de 1976 chegou a produzir o álbum solo de seu amigo Iggy Pop, o fundamental The Idiot”. Logo ali já podia ser notada uma pitada do que David estava preparando.

Fortemente influenciado pelo som de grupos como Neu! e Kraftwerk, Bowie reuniu uma série de músicos como Carlos Alomar (guitarras), George Murray (baixo), Ricky Gardener (guitarras) e Brian Eno (sintetizadores) para recriar a seu modo a atmosfera dessas bandas. O resultado foi “Low”, um disco metade instrumental, metade pop experimental e distinto por completo.

O curioso é que alguns atribuem a Eno importância igual ou maior que o próprio Bowie na concepção de “Low”. Polêmicas à parte, certamente o modo de criação do ex-Roxy Music foi uma grande influência, tanto que o próprio alega que participou da produção do LP e não foi creditado.

Não é que bandas do rock progressivo, expoentes do krautrock ou o próprio Eno com sua ambient music não houvessem sugerido aquilo até então, mas o fato surpreendente (além do resultado final do LP) foi a abrupta ruptura de David Bowie, que há um ano antes vinha fazendo soul e mesmo assim assumiu o eletrônico sem quaisquer restrições.

Outro fator que contribui para a notoriedade de “Low” é a incessante capacidade de algumas de suas canções se ajustarem naturalmente ao presente momento, como no caso de “A New Career in a New Town” ou “Breaking  Glass”, que com seus quase dois minutos representa o que inúmeras bandas contemporâneas tentam recriar direta ou indiretamente. “Sound and Vision” e “Be My Wife”, mesmo sem seguirem a fórmula linear de canção pop, traçaram no panorama musical da época o que viria a ressoar com muita força em conjuntos de pós-punk e new wave do início dos anos 1980.

Todas as onze composições são capazes de levar o ouvinte a uma interessante experiência sensorial, mas de fato as últimas quatro faixas de “Low”, “Warszawa”, “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans”, verdadeiros exemplos de ambient music, carregam peso maior do status de obra-prima atribuído ao LP. Qualquer um acostumado apenas com as irresistíveis facilidades do camaleão do rock (coisas como “The Jean Genie”, “Rebel Rebel” ou “Changes”) passará pela primeira vez pelo desfecho de “Low” e a partir de então encarará Bowie de maneira absolutamente diferente.

Com todo o reconhecimento obtido anos depois, a desconfiança da RCA (então gravadora do músico) para com o disco virou mero detalhe. Das onze faixas, seis eram basicamente instrumentais e a empresa teve sérias dificuldades em encontrar na obra alguma “música de trabalho”. No final das contas, “Sound and Vision” foi a escolhida como single.

O disco saiu em janeiro de 1977. Inicialmente seria lançado em dezembro de 1976, porém a RCA cancelou com a justificativa de que não via “Low” com um potencial presente de Natal.

Seria “Low” o ápice criativo de Bowie? O próprio afirma que sim, e até chegou a tocá-lo na íntegra em 2002, num único show em Londres. Mas fato é que, gostando ou não gostando, ao escutar o álbum todo não há como relevá-lo e não perceber nele uma infinidade de outros artistas.

David Bowie - Low

RockALT #10 – Porcas Borboletas, Ween, O Terno e Pissed Jeans

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RockALT, por Jaison Sampedro

Eu admiro bandas que conseguem injetar humor em suas composições. É reconfortante ver bandas que não se levam a sério o tempo todo, ainda mais nesta época de redes sociais que a imagem é tudo. No rock o que mais se vê são bandas cheias de pose ou então de vocalistas que ficam bancando os sedutores e etc… Meu querido Alex Turner, quem o senhor pensa que é? Wando? Olha, falta muito raio, estrela e luar para o senhor chegar ao nível do nosso saudoso Wanderley Alves dos Reis. O humor é uma ferramenta poderosíssima para a crítica e a reflexão. Entretanto o humor pode ser descompromissado, isso não significa que ele precisa ser bobo, e sim espontâneo e original. Nesta coluna vou citar algumas bandas que fazem isso com maestria.

Porcas Borboletas
A primeira vez que escutei o sexteto de Uberlândia foi com a música “Tudo Que Tentei Falhou”. Com um título como este, é praticamente impossível não gostar da banda. O humor desta faixa é certeiro e confesso que vários itens citados na letra da música fazem parte da minha lista pessoal de fracassos. Mas o álbum “Porcas Borboletas” lançado em 2013 não se trata apenas de músicas engraçadas, a sexta faixa, “Only Life”, é um poema de Paulo Leminski musicado. E é neste momento que percebemos a complexidade do álbum que começa leve e aos poucos vai ficando mais denso e interessante, tanto nas letras como em sua musicalidade.

Ween
A criação dessa banda já começa com uma brincadeira: os falsos irmãos Gene and Dean Ween (alter ego de Aaron Freeman e Mickey Melchiondo) fundaram o Ween em 1984, mas só foram lançar o seu primeiro álbum em 1990 com “GodWeenSatan: The Oneness”. O meu primeiro contato com o banda foi com seu trabalho mais “acessível”, o sexto álbum chamado “The Mollusk”. Este disco é um pastiche musical dos anos 90, e a banda não perdoa nem a si mesma: em “Polka Dot Tail” fica claro que a música é uma referência satírica ao segundo álbum da dupla, o “The Pod”. Pra finalizar, o exemplo mais claro do escracho dos Ween é o título da décima primeira faixa do “The Mollusk”, a maravilhosa “Waving My Dick in the Wind”. Vale a pena conferir este belo trabalho! Lisérgico, cômico, pirado, despretensioso e inteligente. Ween, senhoras e senhores.

O Terno
Lá na introdução da coluna eu disse que tem um monte de banda que é cheia de pose. Esse não é o caso dos paulistanos d’O Terno. A não ser que você considere bom humor como um dos passos de bancar pose. O álbum “66”, primeiro do grupo de SP, tem ao mesmo tempo uma certa musicalidade sessentista e contemporânea, e o mesmo pode-se dizer da faixa título. A minha faixa favorita é “Zé, Assassino Compulsivo”. Esta música conta a história de um psicopata desde sua infância até o momento que se apaixona por outra psicopata. Juntos eles cometem vários assassinatos ao som do descontraído refrão “laralarala tchop tchop tchop tchop / como gostamos de matar / nada nos deixa mais contentes / e felizes a saltitar”. Brilhante!

Pissed Jeans
Tenho alguns amigos que iriam se sentir contemplados com a tradução direta do nome dessa banda, principalmente aqueles que bebem até cair. Nem sempre o humor é engraçadinho e divertido. Dito isto, não se deixe enganar pela brutalidade sonora do Pissed Jeans. Em seu mais recente álbum, “Why Love Now” lançado em fevereiro deste ano, o grupo americano de Allentown na Pennsylvania, faz uma crítica pesada à personificação do macho alpha e ridiculariza seus comportamentos machistas. A cereja do bolo está na sexta faixa do disco, em “I’m a Man” o grupo resolveu colocar a escritora Lindsay Hunter para fazer um monólogo musicado ridicularizando pérolas machistas comumente faladas no ambiente de trabalho. Embora o grupo tenha uma sonoridade punk dos anos 80, sua formação aconteceu no ano de 2005 e todos os seus cinco álbuns foram lançados pelo lendário selo da Sub Pop. Pissed Jeans é a representação perfeita de um humor ácido e bruto. E bota bruto nisso.

Se você curtiu essa coluna, não deixe de escutar o RockALT! O nosso programa vai ao ar toda quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br. E nossos mais de 100 programas estão disponíveis no link abaixo! https://www.mixcloud.com/rockalt/

Cantarolando: “He Was My Brother”, a homenagem a um ‘freedom rider’ de Simon & Garfunkel

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Simon e Garfunkel

Cantarolando, por Elisa Oieno

O single “He Was My Brother”, presente no disco de estréia do Simon & Garfunkel, “Wednesday Morning, 3 A.M” (1964) é uma canção folk super simples e muito comovente, não só pela melodia, mas também pelo tema: a morte de um estudante envolvido em um importante movimento pela igualdade racial e pela afirmação de direitos civis nos EUA.

Freedom rider
They cursed my brother to his face
“go home, outsider”
This town’s gonna be your burying place

“Freedom rider”, algo como “cavaleiro da liberdade”, já seria uma expressão estilosa o suficiente para falar de alguém lutando pelos direitos civis, aquela coisa romântica que fazemos com alguma figura que admiramos muito. Mas na verdade, se refere ao movimento dos “Freedom Riders”, pessoas que viajavam pelos EUA para se dirigir aos hostis terrenos do Sul, não com seus cavalos – ou motocicletas, como o nosso inconsciente pode presumir -, mas de ônibus interestaduais, com a finalidade de forçar o cumprimento de uma decisão inédita da Suprema Corte dos EUA.

Esse novo precedente da Suprema Corte reconhecia que leis estaduais de políticas de segregação racial – as quais ainda eram vigentes em diversos estados no Sul dos Estados Unidos – não se aplicavam em estabelecimentos localizados em terminais rodoviários, uma vez que a segregação racial em ônibus interestaduais já era considerada inconstitucional. Tratou-se de um primeiro passo para o enfraquecimento de leis racistas naqueles territórios.

Assim, os Freedom Riders, compostos necessariamente por negros e brancos sentados em bancos misturados nos ônibus, cruzavam o país de ônibus e se dirigiam aos estabelecimentos que serviam as rodoviárias para simplesmente exercerem seu direito de, por exemplo, sendo negros, sentarem-se em uma área do balcão da lanchonete “só para brancos” e serem servidos normalmente. Claro que os donos de estabelecimentos, moradores e autoridades locais não gostaram muito da idéia, causando a hostilização e a prisão e de diversos riders.

Houve também a reação violenta de grupos organizados, as mobs, tais como o infame Ku Klux Klan, responsáveis por ataques ferozes aos ônibus, linchamentos e até mortes. Como foi o caso de três ativistas, mortos em 1964, no Mississipi. Entre eles, estava Andrew Goodman, que era amigo e colega de faculdade de Paul Simon e Art Garfunkel. Apesar de não se saber ao certo se a música foi escrita antes ou após o incidente da morte, a homenagem ao amigo é óbvia.

 

He was singing on his knees
An angry mob trailed along
They shot my brother dead
Because he hated what was wrong

Apesar da reprovação massiva da mídia, tratando o movimento como “suscitação à violência”, “incentivo à perturbação da paz” – ainda bem que isso não acontece por aqui, né – , e com as autoridades do Sul contando com uma bela ‘passada de pano’ do governo Kennedy, os Freedom Riders abriram caminho para mudanças reais e o fortalecimento de diversos movimentos Black Power e da influência do discurso de Martin Luther King.

Assim, mais do que uma canção simpática a uma causa, seguindo o protocolo do quase sempre obrigatório engajamento do artista folk dos anos 60, “He Was My Brother” é um relato meio emocionado e comovido, cheio de admiração sobre um amigo que simplesmente não se conformava com o que estava errado. Esse sentimento ainda soa tão atual, e pelo menos em mim dá aquele misto de inconformação, emoçãozinha e esperança.