Cantarolando a versão que o Scott Walker fez para “Maria Bethania” (1973)

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Scott Walker
Scott Walker

Cantarolando, por Elisa Oieno

Scott Walker é um cara intrigante. Muito lembrado como um ícone pop dos anos 60, o garoto bonitão de voz aveludada e jeitão charmoso de crooner americano hoje é também associado à música de vanguarda e ao experimentalismo.

Inicialmente, Scott Walker tornou-se conhecido por ser a voz principal do grupo The Walker Brothers. Apesar do nome, os três membros não eram irmãos. Os Walker Brothers, com seu pop meio bom-moço, fizeram bastante sucesso comercial em meados dos anos 60, principalmente nas paradas britânicas, apesar de o grupo ser americano. Porém, em 1967 a banda se desfez, e Scott Walker iniciou sua carreira solo.


Quando se fala em Scott Walker, vale a pena lembrar do seu período mais brilhante, que resultou nos quatro primeiros discos de sua carreira solo: “Scott” (1967), “Scott 2” (1968), “Scott 3” (1969) e meu preferido pessoal, “Scott 4” (1969). É nesses trabalhos que é possível perceber o lado não convencional do cantor começando a aflorar com suas canções exageradamente densas e cinematográficas, existencialistas e escuras, em contrapartida à tendência colorida e florida do pop da época. Seu jeito de cantar é especialmente ecoado em David Bowie, assumidamente influenciado por Walker.

Os primeiros discos da carreira solo de Walker eram até reconhecidos pela crítica, porém atingiam cada vez menos sucesso comercial. A personalidade do cantor também não ajudava – ele preferia ficar recluso sozinho lendo seus livros e mergulhar em seus pensamentos profundos a participar das festas e da vida do showbizz. Quem antes arrancava suspiros das menininhas, agora começava a ser visto como um esquisitão.

Após o disco “Scott 4”, o cantor entrou em um período de declínio criativo, fazendo seus próximos trabalhos apenas para cumprir contrato com a gravadora. Em um desses discos, chamado “Any Day Now”, de 1973, é que está a versão de “Maria Bethania”, de Caetano Veloso.

A canção foi escolhida por Walker para constar em seu disco, muito provavelmente porque ele e Caetano faziam parte da mesma gravadora, a Philips. Sem grandes alterações no arranjo, e com uma vibe ainda mais “exótica” do que a original, a versão de “Maria Bethania” é cantada por um Scott Walker com uma bela voz até um pouco sem brilho, mas com um sotaque bizarro que parece mais jamaicano que brasileiro.


É realmente uma pena que Scott Walker não estivesse em sua melhor forma quando gravou sua a versão para esta canção tão intimista e criativa de Caetano Veloso, do disco homônimo de 1971. Mesmo assim, a versão vale a pena ser conferida, e é bem boa no fim das contas. Mas imagine só se Scott Walker tivesse realmente abraçado os traços inusitados e sutilezas dramáticas de um cara brasileiro exilado em Londres…

Construindo Serapicos: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Construindo Serapicos

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo se baseia: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Serapicos, que indica suas 20 canções indispensáveis.

The Magnetic Fields“The Nun’s Litany”
‘Considero o Stephin Merrit, compositor do Magnetic Fields, o melhor letrista de todos os tempos. Sua obra deveria estar ao lado de Shakespeare, Camões e Cervantes. Essa canção é só uma amostra do que esse desgraçado é capaz de fazer.’

Leonard Cohen“Bird on a Wire”
‘Muito difícil escolher apenas uma música do Cohen. Mas se tivesse que apresentar apenas uma música dele para os alienígenas seria “Bird on a Wire”. Essa música é um soco no estômago, a síntese da vida de um poeta.’

Rufus Wainwright“Going to a Town”
‘O Rufus é incrível. Letrista fudido, baita cantor e uns arranjos muito cabeçudos e lindos.’

Nina Simone“Sinner Man”
‘Essa música veio de um espiritual tradicional americano. E a Nina Simone é ridícula. Que artista catártica!

Judy Garland“Somewhere Over The Rainbow”
‘O salto de oitava entre as duas primeiras notas já dá toda vibe dessa masterpiece cinematográfica. Depois fizeram aquela versão no ukulelê tirando esse salto e estragaram a música. Escrita por Harold Arlen, que também compôs “Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive”, outra pérola.’

System of a Down“B.Y.O.B.”
‘System é uma das bandas mais criativas dos últimos 150 anos. Adoro o ritmo frenéticos de melodias diferentes, quebradas ritmicas e berros ensandecidos. Influencia muito meu pensamento de forma musical e como estruturar canções sem seguir a fórmula óbvia verso-refrão.’

Green Day“Basket Case”
‘Talvez a música que mais tenha mudado minha vida. A primeira frase da melodia acompanhada pela guitarra mutada de power-chord foi minha obsessão dos 11 aos 27 anos, quando comecei a compor.’

Tuva Semmingsen“Lascia ch’io pianga”
‘Essa é uma ária de Handel que toca na abertura do filme “Anti-Cristo” do Lars Von Trier. É uma melodia devastadora e essa música resume bem minha adoração pela música sacra.’

Bajaga“Muzika na struju”
‘Esse é um rock iogulsavo com um refrão super-catchy embora seja impossível cantar junto. Gosto bastante do sotaque musical de melodias do leste europeu. Os caras mandam bem.’

Ella Fitzgerald“Let’s Do It”
‘A Ella é uma das grandes intérpretes da obra do Cole Porter, talvez o maior compositor e letrista da primeira leva Broadway. Essa música é uma aula de como falar de putaria sem ser nada vulgar.’

Linda Scott“I’ve Told Every Little Star”
‘Essa música toca no filme “Mulholland Drive” do David Lynch. Gosto músicas que tocam em um filme e conseguem resumir toda a atmosfera da história. Escrita por Jerome Kern, outro monstro do Early Broadway.’

Adoniran Barbosa“Iracema”
‘Pra não escolher “Trem das Onze”, vou de Iracema. Melodia linda e melancólica. E o que dizer desses backings femininos que entram harmonizando em coro? Fudido.’

Rogério Skylab“Você Vai Continuar Fazendo Música”
‘Skylab é o maior poeta vivo que temos nesse país. Essa música é um super desincentivo pra quem quer ser artista.

Cérebro Eletrônico“Cama”
‘Conheci essa música ao vivo em um show do Cérebro e assim que veio o refrão pensei ‘Caralho’.

Júpiter Maçã“Um Lugar do Caralho”
‘O Júpiter foi um dos primeiros cancioneiros da música brasileira que me identifiquei. Essa música é um hino negligenciado pela grande mídia.’

“Se Essa Rua Fosse Minha”
‘Essa canção é de autoria anônima, tem cara de ser portuguesa. Que melodia assombrosa e atemporal.’

Jefferson Airplane“White Rabbit”
‘Essa música foi escrita pela Grace Slick, frontgirl do Jefferson Airplane. É a minha favorita da fase psicodélica do rock. Muito melhor que Rolling Stones.’

Johnny Cash“The Man Comes Around”
‘Nessa canção, Cash descreve o Apocalipse. Lembro de ouvir nos créditos de um filme de zumbi antes de saber quem era Johnny Cash. Esse foi o último disco dele antes de morrer e dá pra ouvir o sopro da morte saindo de voz sussurrada e salivada.’

4 Non Blondes“What’s Up?”
‘Todo mundo que nasceu em 1990 foi influenciado por essa música. Refrão grudento demais, quebrada pro falsete de eriçar os pelos da nuca. Escrita por Linda Perry.’

Enya“Orinoco Flow”
‘Essa é uma obra-prima da World Music. Melodia e arranjo hipnóticas. Parabéns para Enya.’

Frank Sinatra“My Way”
‘Essa música foi traduzida do francês pelo grande Paul Anka. Tudo é perfeito nesse arranjo cantando pelo Frank Sinatra. E é dessas canções que exemplificam perfeitamente um pensamento e uma sensação universal.’

“The In-Between” pavimenta a transição do hard rock para a sujeira stoner da Carbo

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Carbo

Com seu mais recente disco, “The In-Between”, o trio carioca Carbo deixa definitivamente para trás o hard rock puro e seus tempos com o nome Carbonara. Formada em 2011 em Volta Redonda por Leonardo Moore (guitarra e voz), Maria Mergener (baixo e voz) e Andre Leal (bateria), a banda gravou o álbum no Estúdio Jukebox, com uma força de Kleber Mariano na mixagem e masterização. A sensacional capa do trabalho é do próprio Leonardo. Neste disco, o power trio se aventura um pouco mais no campo do stoner rock, como podemos perceber já na faixa de abertura “Eletric Heritage” e no groove de “Borderline”.

Conversei com a banda sobre o álbum, os dias de hard rock sendo deixados para trás, a cena independente atual, o papel do mainstream no rock e muito mais:

– Como a banda começou?

Leonardo: A Carbo nasceu de uma outra banda que eu, o antigo baixista (Rillian) e um amigo nosso (outro André) tínhamos. Ela se chamava Carbonara e a gente fazia uns hard rocks cheio de fritação de guitarra e tal. A banda durou até 2010, acho… e aí depois eu e o Rillian decidimos gravar 4 das músicas da Carbonara pra registro, coisa póstuma mesmo, já que eu tinha que gravar a trilha pra uma animação que eu tava fazendo. Aí surgiu uma demozinha, que foi um cado elogiada. A gente acabou empolgando e resolveu continuar a banda. Como nome sempre foi uma tristeza pra gente, apenas retiramos parte do antigo nome pra ficar mais direto e batemos o martelo. Daí em diante foi caçar baterista e rever o som, que foi mudando bastante, até pelas trocas de formação que vieram a seguir. Foi marromeni issae (risos).

Maria: Quando eu entrei e o André voltou pra banda na bateria, entramos na fase mais grunge e stoner.

Leonardo: A banda já flertava com essas coisas a um tempo, mas acabou ficando mais forte nissae pela Maria curtir muito grunge também e o André ter mais influências 60/70.

– Já que falou nisso, quais as principais influências musicais da banda?

Leonardo: Bicho, isso aqui é uma miscelânea da porra (risos). A gente nunca parou na real e decidiu o tipo de som que a gente queria fazer… só fomos puxando influência… cada um das suas. Minhas, por exemplo, tem pitadas de tudo que escuto, de Paco de Lucia a Mastodon, mas algumas bandas, como Turbowolf, Queens of the Stone Age e Alice in Chains, por exemplo, certamente tem mais peso quando tô escrevendo algo.

Maria: Quando eu tento definir o som da banda, falo sempre de Alice In Chains e Queens of the Stone Age, mas também tem alguma coisa de Nirvana, Black Sabbath (entre os clássicos), e o Leo e o André trazem umas influências loucas das bandas alternativas que eles conhecem de todo canto do mundo (risos)

Leonardo: Nirvana tem um peso forte também… André pira bastante e eu fui curtindo cada vez mais (sabe como é, eu era da vibe mais hard rocker né (risos)).

– Vocês acabaram de lançar um disco. Podem de falar mais dele?

Maria: O disco é uma transição da fase hard rock da banda pra essa nova stoner/heavy rock. Tem músicas da fase antiga que foram totalmente transformadas e também músicas novas, que foram feitas pela formação atual. O álbum se chama “The In-Between”, em referência ao “entremeio” das mudanças de estilo. Tem muitos elementos de psicodelia, blues, southern e até algo de metal, todos flertando com o stoner rock que é a base da banda.

Leonardo: O álbum é um registro de uma transição… da transição da banda e de alguns momentos de um personagem implícito. Como a Maria falou, mostra muito bem a mudança de som da banda (de forma semi linear, pode-se dizer) e, como uma mixtape gravada ao longo de dias ou num tempo mais longo, vai mostrando a sequência de vibes e o caminho do personagem e tal… da alegria/escapismo até uma decadência da braba.

– O stoner rock pegou forte nas bandas novas que estão surgindo. Como vocês veem isso?

Maria: Eu acho sensacional. É uma forma de rock que tá emergindo com força e que abre espaço pra bandas que tem sons mais alternativos, sujos, psicodélicos, mas que agradam o público da mesma maneira que os estilos convencionais.

Leonardo: Stoner tá um termo um pouco tendência, né? (risos) É meio que um resgate, eu acho bacana. O único problema, pra mim é que o rótulo fica vago – são muitos stoners diferentes debaixo da mesma bandeira, fica difícil saber. O nosso puxa pra uma onda mais 90, flerta ali com o grunge e tal. O que não é um problema de verdade. O que eu mais curto é que a ascensão disso traz um bocado de atenção, até de hype mesmo, pra alguns elementos bem bacanas dos roques né, um pouco de experimentação, psicodelia, de veias temáticas e tal. Acho legal não perder isso não, faz parte do que fez do roque o que ele é hoje e eu acho essa valorização bacana. Sem contar que o stoner dá uma enaltecida na sujeira, isso muito me agrada (risos)

Carbo

– Isso que você falou eu tenho visto mesmo, um retorno da psicodelia nas bandas independentes, que antes investiam bastante em punk e em letras mais engraçadinhas. Acho que são ciclos que de tempos em tempos mudam.

Maria: Acho que é isso mesmo. Nada se cria, tudo se copia. As bandas atuais tão revivendo influências de sons mais antigos, incorporando elas nessa gama enorme de sons que se encaixam no stoner.

Leonardo: Pêndulo, né… Acho que ir contrafaz parte do que é feito no rock. Até mesmo dentro do próprio rock, rola aquilo de querer ir contra a  corrente, a tendência. Eu acho que é doido por que se diversifica e tal.

– Como vocês veem a cena independente brasileira hoje em dia?

Leonardo: Cara, eu tenho visto muita coisa foda nessa cena… eu tenho visto produção de muita qualidade, muita banda boa, muito blog e site fazendo uns trampos animais. A única coisa que eu tenho visto e que me deixa triste é que os eventos em si não estão sendo tão valorizados… Não é sempre, não é em todo lugar, mas é uma discussão que sempre rola por aqui na cidade, por exemplo. O rock feito hoje não é do mainstream, o que é muito compreensível, mas a falta de presença no próprio meio underground acaba reduzindo a participação na coisa que é mais importante no rock, que é a cultura da parada mesmo, a vivência. Rock é um gênero musical sim, mas não se limita a isso, e essa coisa de só curtir o som pelo seu fone é bem paia, bem cancerígeno pra cena toda. Não sei se é uma falta de conexão com o público, se é por uma comodidade paia, se é a falta do espetáculo ou evento que era antes, ou da própria cultura mas sei que é algo essencial e que tá meio que em falta.

Maria: Eu vejo a cena independente como uma promessa, algo que pode dar muito certo. As bandas cada vez mais se unem em coletivos, turnês colaborativas, zines, rádios e eventos de todos os tipos. Vai nascendo um sentimento de coletividade e cooperação; como todos sabem a brabeira que é ter uma banda independente no Brasil, acaba que geral vai se ajudando, subindo uns com os outros. Temos muitas bandas fodas com potencial pra rodar o país e até fora dele, e algumas já estão chegando lá.

Maria: É, falta mais animação do público pra ir aos shows underground.

Carbo

– E como se resolve isso? Como fazer as pessoas “se animarem” e as bandas se unirem? Como fazer essa cena crescer?

Maria: Na minha opinião, parte da solução tá sendo via internet. As bandas divulgam às vezes exclusivamente online os shows e mesmo assim conseguem público (quando conseguem). Pras bandas, a ideia é ter um material interessante e saber divulgá-lo. Pro público, a mensagem tem que ser de incentivo. O problema não é falta de dinheiro, porque tem até show de graça por aí – o problema é a preguiça. Mas os fãs de sertanejo e funk lotam as casas; os roqueiros tem que se mobilizar mais. Às vezes, pagar 10 reais pra entrar em um show de uma banda independente não vai ser um esforço muito grande pro cara que vai, mas pra banda, qualquer cabeça a mais sendo batida pelo nosso som já faz a diferença.

Leonardo: Pergunta complicada (risos), mas acho que é trabalhando bem mesmo, dialogando e sendo transparente e autêntico no trabalho todo, saca? É um processo. Eu sou otimista quanto ao futuro da cena, sou otimista quanto ao futuro do gênero. Acho que tem muita coisa boa a ser oferecida e que esse trabalho consegue sim o seu espaço. Claro que rola uma parte de ‘reeducar’ talvez, ou até mesmo das bandas descobrirem linguagens novas…sei lá. Mas quando o discurso da banda se afina com o que o público quer falar e não tem voz, isso rola lindamente. É se sentir representado. Acho que isso já está acontecendo, acho que a ascensão do termo stoner, o underground fervilhando e a atmosférica mais enérgica são parte disso já.

– Voltando: o hard rock que vocês faziam antes ainda tem espaço no som da banda? O Carbonara ainda vive no Carbo?

Leonardo: Bicho, acho que eu não vou conseguir me livrar disso nunca. Eu curto mesmo, comecei a ver e ouvir rock com Guns, por um primo meu. E parte imensa do que eu toco e curto esbarrou ali de alguma forma. Dá pra ver quando eu faço um solim, dá pra ver nuns riffs e no vocal… acho que isso não vai sair muito da gente não. Pelo menos, de mim, eu duvido muito que saia completamente… afinal sempre vai tocar um Bon Jovi e você vai estar bebaço pra cantar até ficar rouco (risos).

– Como é o processo de composição do Carbo?

Maria: Basicamente, alguém chega com um riff e uma letra, ou só uma base instrumental, e vamos fazendo jams até a música ficar completa. Aí, como diz o André, chega o Leo com as ideias dele e muda tudo até estar completamente diferente da música original (risos). Quando a música é minha, caso de Heavy Rain, eu levo a música e só construímos o arranjo. Mas se o Leo que levou a base, demooooora……. (risos)

Leonardo: (risos) Eu nem refuto, que sou chataço mesmo. Reviso letra e arranjos inúmeras vezes.

Andre: Às vezes fica melhor, às vezes pior (risos). Eu geralmente associo um riff a uma ideia e construo o resto da música e letra a partir dessa ideia ou tema mesmo.

Leonardo: Andre, sempre melhor. SEMPRE. SEM PRE. Só dá mais trabalho, muito mais (risos).

– Vocês acham que a presença da Mtv Brasil antiga e das rádios rock que rolavam antigamente fazem falta para a cena independente? Faltam veículos mais “mainstream” que deem força?

Leonardo: Até certo ponto faz falta sim, acho que principalmente na produção das coisas, mas elas foram embora por não serem adaptáveis né… Afinal de contas, o pessoal passou a consumir cada vez menos rádio e TV pra ficar cada vez mais nas interwebs. Aqui o DIY tem mais vez…ele só encontra um mar de informação (risos). Talvez com veículos desse tipo a cena conseguisse mais destaque sim, não ser tão marginalizada e ia ser doido. Contanto que pra isso a cena não precisasse perder a essência, não precisasse se desfazer do seu jeito de se expressar. Paia demais ocê ter que não xingar numa música de protesto pra ser trilha de um filme ou novela, né…

– Quais os próximos passos da banda?

Maria: Estamos com planos pra shows e mini tours de lançamento do CD, passar um tempo divulgando o “The In-Between”, esse novo trabalho, mas na real, já temos gás pra voltar a compor novos sons hahaha então singles e segundo CD com certeza estão no futuro da banda.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Leonardo: Começa você, Maria… você que é mais moderninha hipster (risos).

Maria: Cara, indico algumas da cena do RJ, que é onde eu atualmente moro, tipo Stereophant, Vênus Café e Barizon.

Leonardo: Piro em Barizon…show deles é animal…sassinhora!

Andre: Eu curto demais a Muff Burn Grace de SP, Cattarse de Porto Alegre, Hierofante de SP, Jimmy Chong do Rio… Tudo dentro do nosso nicho!

Leonardo: Tenho escutado demais Colour for Shane, Munoz, My Magical Glowing Lens, Graveyard, Deaf Kids, Sick Visions, 5,6,7,8’s, Cancer Bats, Kylesa, Cantrell, Queens of the Stone Age e o primeiro do Turbowolf, sempre mistureba da porra.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Elisa Oieno, do Antiprisma

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Elisa Oieno, do Antiprisma
Elisa Oieno, do Antiprisma

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje a convidada é Elisa Oieno, do Antiprisma e nossa mais recente colunista, com o Cantarolando às terças-feiras.

Linda Perachs“Paper Mountain Man” (1970)

“Adoro esse disco inteiro da Linda Perachs, ela faz umas sobreposições de vozes e umas melodias lindonas, é muito inspirador. Eu gosto do jeito que ela canta, que é bem tranquilo e natural, sem exageros. Essa música tem uma vibe um pouco diferente das outras, é mais grooveada e com uma dinâmica no vocal muito foda, cantando quase sussurrando umas horas. Aliás, pra mim esse é um disco com uma energia feminina muito forte, seja lá o que isso queira dizer”.

Mission of Burma“Dead Pool” (1982)

“Essa é uma música que eu gostaria de ter feito. Melodia, timbre de guitarra. Esse disco “Vs” do Mission of Burma pra mim é perfeito, de verdade”.

Giorgio Moroder“Looky Looky” (1969)

“Essa eu sei que não é tão desconhecida, pelo menos eu sei que tocava nas rádios uns quarenta anos atrás. Mas eu acho ela tão divertida que deveria tocar mais nas festinhas da vida de hoje em dia. Ia ser legal, vai”.

Amber Arcades – “Right Now” (2016)

“Conheci Amber Arcades por uma postagem de Facebook de um amigo, e gostei logo de cara. Essa música é das que eu mais gostei, e tem tudo que me atrai numa canção, principalmente por ser simples e ter uma melodia bonita pop e direta, em uma vibe bem própria”.

Logh“The Smoke Will Lead You Home” (2005)

“Encontrei essa música por acaso, nas sugestões do Youtube. Ela me dá uma emoçãozinha, e esse timbre de guitarra é dos que eu mais gosto. Nunca tinha ouvido falar dessa banda sueca. Depois de ouvir a música, baixei o disco “Sunset Panorama”. O disco é bonito, mas não me pegou tanto quanto essa música em especial, que acho linda”.

Além da aparência macabra: Bauhaus – “In The Flat Field” (1980)

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Bauhaus

Bolachas Finas, por Victor José

Nunca vou me esquecer da primeira vez que escutei a música “In The Flat Field”. Medo, frio, melancolia, agressividade, confusão, drama, peso e uma boa dose de liberdade. Eu tinha uns 16 anos, aquilo mexeu de verdade comigo. Até hoje, foi umas das poucas vezes que um som fez eu repensar tão a fundo nas possibilidades do rock.

Bauhaus faz uma música que evoca um bocado de sensações, e é uma besteira absurda pensar só no termo “gótico” quando se fala sobre essa grande banda. É inegável a qualidade e importância do longo single “Bela Lugosi’s Dead”, mas a banda não para por aí, a discografia é muito interessante. O grupo, formado por Peter Murphy (vocais), Daniel Ash (guitarra), David J (baixo) e Kevin Haskins (bateria) em 1978 em Northampton, na Inglaterra, durou até 1983. Lançaram nesse período quatro álbuns, mais um ao vivo.

O LP de estreia, “In The Flat Field”, lançado pelo selo 4AD em 1980, mostra uma banda altamente artística, vigorosa e aberta a possibilidades diversas. Ali você percebe com clareza as influências de Roxy Music, Sex Pistols, Kraftwerk, Velvet Undergound e David Bowie. Some tudo isso com o expressionismo alemão e uma boa dose daquela vibe cinzenta dos britânicos e você tem o Bauhaus, no som e no visual. A música do grupo evoca uma personalidade forte, convicta de sua estética.


Começando por “Double Dare”, logo de cara percebemos que não nos deparamos com uma banda convencional. O baixo distorcido, a levada inusitada da bateria e aquela guitarra fragmentada que sem dúvida alguma influenciou a galera que faz noise ou pós-rock embalam a superexpressiva voz de Murphy, densa como todo o resto, sombria e confusa como todo o resto – mas ainda assim completamente coerente.

Essa corajosa fórmula segue sem perder o gás na faixa-título, um clássico alternativo. Já “God In a Alcove” sugere um som menos denso, meio noir, enquanto que “Spy In The Cab” evoca uma profunda melancolia, em contraste com as dançantes “Dive” (com direito a um sax todo torto e bem legal de Daniel Ash), “St. Vitus Dance” e “Small Talk Stinks”. Ao longo de todo o disco o Bauhaus oferece uma pequena novidade, seja um ruído esquisito, um timbre diferente de baixo, ou algum instrumento não convencional.

Mas a banda faz a gente dar o braço a torcer para o clima gótico na sinistra “Sigmata Martyr”, que com sua sonoridade beirando o heavy metal simula uma crucificação, com direito a latim, gemidos, berros e tudo mais. O disco acaba com outra meio macabra, “Nerves”, onde um piano assume o papel principal da banda com um riff pegajoso e aponta para as várias experimentações que abordariam nos próximos álbuns.

É interessante o fato de a própria banda ter produzido “In The Flat Field”. Aparentemente a liberdade era total, e isso reflete no som. Não há nada naquele LP que você possa dizer que é uma repetição. Impressiona a coragem dessa banda, que mesmo com essa proposta conseguiu atingir um grande público, influenciou muita gente e até emplacou alguns singles nas rádios da época.


O grupo chegou a se reunir duas vezes. Uma em 1998, quando lançaram o maravilhoso ao vivo “Gotham” e outra em 2008, quando trabalharam juntos novamente em estúdio com “Go Away White”, que não é lá essas coisas, meio desnecessário.

Também vale ressaltar que do Bauhaus nasceu a Love and Rockets, que na verdade é a mesma formação, porém sem Peter Murphy. O som é um pouco mais acessível e bastante diferente da antiga banda. Vale muito a pena escutar.

Poderia escolher qualquer um dos grupos rotulados como gótico, mas vejo no Bauhaus a maior prova de que essa fase do rock é uma das mais mal interpretadas e assimiladas pelo público e pela crítica. Observando de perto, não seria exagero dizer que a partir dessa vertente – inclua aí bandas como Siouxsie and The Banshees ou The Cure – você percebe um dos momentos mais criativos da indústria pop.

Bauhaus ofereceu a possibilidade de percebermos como a arte soturna pode também ser colorida por outros adjetivos sem parecer bobagem de moleque.

Ouça abaixo o álbum. Nesta versão consta uma porção de ótimos singles e b sides. “In The Flat Field” na íntegra está entre as faixas 2 e 10.

Construindo Molodoys: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Contruindo Molodoys
Molodoys

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Molodoys, que indica suas 20 canções indispensáveis. ” São músicas que me influenciam bastante no modo como são criadas e no que elas conseguem atingir na questão de criatividade e inovação seja em letra ou em melodia”, explicou Leo Fazio, guitarrista e vocalista. “Eu não uso músicas em especifico para me influenciar na hora de compor pra Molodoys, mas ultimamente quando to compondo to tentando pensar nessas, mais na questão de como se é feita a música do que na sonoridade em si”, esclareceu Vitor Marsula, tecladista .Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Cartola“Preciso Me Encontrar”
Leonardo: Música do Candeia gravada por Cartola em seu segundo disco. Eu a considero uma das músicas mais belas já feitas, seja em arranjo, progressão, letra ou melodia. A primeira vez que a ouvi fiquei completamente obcecado, seu lirismo e todo o sentimento que a letra passa em conjunto com a música já me serviram muito de inspiração quando ela está em falta, minha meta de vida é fazer algo comparável a essa música, (que é algo quase impossível, eu sei).

Pink Floyd“Take Up Thy Stethoscope And Walk”
Leonardo: Talvez minha preferida do Pink Floyd, já bebi muito dessa fonte e acho que dá pra perceber em algumas músicas do “Tropicaos”, nosso primeiro disco. Todo o peso e toda a visceralidade que essa música carrega me influenciam bastante dependendo do que eu estou criando, essas são características que eu gosto muito de trabalhar. E eu também sou apaixonado pela guitarrada do Syd Barrett, acho um estilo único e muito subestimado.

Bob Dylan“It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)”
Leonardo: Uma obra prima, seu lirismo é algo que me influencia profundamente, me inspiro muito em como o Dylan desenvolve a poesia das suas músicas, em como ele consegue usar de temas e fonemas pra te tranportar pra outro lugar enquanto a musica toca.

Chico Buarque“Construção”
Leonardo: O modo como a música vai crescendo e se desenvolvendo envolta dela mesma é genial, ando bebendo muito dessa fonte na hora de criar, atualmente tenho escrito bastante e essa é uma música que sempre me vem à cabeça quando procuro inspiração, tanto em letra quanto em arranjos.

The Velvet Underground“Heroin”
Leonardo: Acho que a Molodoys busca muito por uma boa ambientação nas músicas e a gente tenta trabalhar bastante no modo como elas transmitem as sensações ao ouvinte, e, pelo menos da minha parte, isso tem muita influência desse som do Velvet, totalmente visceral e criativo.

Arctic Monkeys“Still Take You Home”
Jairo: Acho a bateria do Matt Helders incrível, todo o peso e técnica que ela carrega me inspiram muito, e principalmente o fato de ele saber o que usar em diferentes partes da música para passar diferentes sensações, procuro muito isso em minhas baterias.

Queen“Melancholy Blues”
Jairo: Queen tem uma forte influência em mim há anos, acho que em toda bateria que eu crio tem um pouco deles. E esse som mais especificamente mostra como um drama pode ser perfeitamente passado à uma música. Essa em específico me inspira em todo o drama que ela carrega, acho sensacional como ela é trabalhada, é uma grande referência pra mim.

Beatles“A Day In The Life”
Jairo: Eu aprendi a tocar bateria acompanhando os discos dos Beatles, assim como o Queen, acho que é algo que está dentro de mim e das baterias que crio pra Molodoys, Ringo é um dos bateristas mais subestimados que existem, mas pra mim ele é inigualável. Além de que os Beatles servem de inspiração para eu criar em vários campos da música, eles são mestres em diversidade de estilo e sonoridades, foram pioneiros em muita coisa.

Miles Davis“All Blues”
Jairo: Uma das baterias mais lindas e suaves na minha opinião, e ao mesmo tempo carrega um peso tremendo, mas de outra forma, a bateria caminha e dança junto com outros os instrumentos, e isso é algo que eu procuro fazer em minhas composições pra bateria.

Muse“Uprising”
Jairo: Ouvi-la remete a algo importante pra mim, saber compor uma música forte e marcante sem perder a qualidade, acho que é uma grande preocupação pra mim na hora de compor pra Molodoys.

Chico Science e Nação Zumbi“Coco Dub”
Camilla: Eu e Léo somos muito fãs de Nação Zumbi e por isso essa referência partiu de nós, ficamos meses pirando horrores na grande maior parte da discografia, mas a “Coco Dub” tem uma essência experimental e livre. Foi a música que tínhamos como referência para a música “Tropicaos”. Lembro de ter ouvido ela a viagem toda repetidamente, quando fomos gravar em Amparo (interior de São Paulo).

Jupiter Maçã“Act Not Surprised”
Camilla: O baixo dessa musica é uma das minhas maiores referências de arranjo da vida. Eu gosto do jeito que ele é executado, é muito peculiar e até meio bruto, com um groove único. A psicodelia do Júpiter num geral também foi uma referência muito forte para nossas musicas, principalmente as do disco.

Som Imaginário“A3”
Camilla: Baita música dessa banda maravilhosa! Som imaginário é uma baita referência pra nós em questão de misturas de ritmos. Nessa musica, eles criam uma atmosfera tão brasileira mas de uma sonoridade tão futurista e cheia de groove e elementos não convencionais, é uma mistura de elementos muito bonita ❤

Tom Zé“Menina Jesus”
Camilla: Eu e Leo ficamos viciados nela pouco antes de gravarmos nosso segundo single. Acredito que ele se inspirou na letra e no fluxo dela para escrever a letra de “Ácido”. E Tom Zé continuará sendo o maior roqueiro da historia do MPB e maravilhoso.

Mutantes“Ave, Lucifer”
Camilla: Além de Pink Floyd, a mixagem dos Mutantes influenciou muuuito a mixagem do “Tropicaos”, uma pegada mais stereo. A “Ave Lucifer” é um belo exemplo de uma mix que fica perambulando sua cabeça (risos). PS: Use fones de ouvido para uma experiência mais completa!

Moving Gelatine Plates“Breakdown”
Vitor: Do álbum “Removing”, ela consegue ter tudo que uma música completa precisa, tanto na questão da estrutura, do começo, meio e fim, clímax e essas coisas, quanto pela questão do arranjo instrumental e de como eles conseguem conversar com o vocal e com os outros instrumentos.

Vangelis“Movement 1”
Vitor: Pois é uma das músicas que acho que chegou ao ápice do que é necessário para uma ambientação, que é algo que prezo muito.

Los Jaivas“La Poderosa Muerte”
Vitor: Pelo “feeling” que ela passa e por conseguir apresentar uma série de mudanças sem perder a característica principal.

Pink Floyd“Echoes”
Vitor: Por motivos de forças maiores agindo sobre mim.

Nine Feet Underground“Caravan”
Vitor: Pois ela é outra música que considero que tem tudo que uma música precisa.

Ouça a playlist aqui e siga o Crush em Hi-Fi no Spotify:

Cantarolando: “Black Waterside”, Bert Jansch (1967)

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Bert Jansch
Bert Jansch

Cantarolando, por Elisa Oieno

No mundo da música folk, muitas canções tradicionais de origem desconhecida são regravadas, alteradas ou transformadas em novas. Especialmente quando se fala em folk britânico, em que as músicas tradicionais podem surgir desde a Idade Média, e ter fortes influências de música dos povos celtas da região.

Ao longo da história, especialmente a partir do século 18, houve diversos movimentos na música e nas artes com a intenção de preservar e manter vivas as peças culturais tradicionais. Traçando um paralelo aqui no Brasil, por exemplo, isso foi muito forte no início Modernismo, em que se buscava trazer as raízes indígenas para as artes plásticas, música e literatura.

Porém, hoje em dia quando se fala em “folk”, estamos nos referindo ao fenômeno de transportar a música tradicional britânica para o mundo pop, como começou a acontecer nos no final da década de 1940 e teve seu auge nos anos 60.

Isso ficou conhecido como “folk revival” (ou renascimento folk) e teve diversos expoentes importantes nos EUA, como Woody Guthrie, Pete Seeger, Odetta e, claro, Bob Dylan. A maioria dos artistas deste estilo tinham um discurso engajado anti-guerra, anti-racismo e eram tidos como representantes da classe operária. Isso acabou continuando nos anos seguintes e foi posteriormente incorporado pelo movimento hippie.

Acompanhando esta tendência, artistas britânicos também se tornaram expoentes do “folk revival”, entre eles o escocês Bert Jansch, a inglesa Anne Briggs, sem contar as bandas como Pentangle, Fairport Convention e Incredible String Band.

É nesse contexto que “Black Water Side” saiu da esfera somente tradicional e tomou forma de canção pop, gravada por Bert Jansch e lançada no disco – discaço, aliás –  “Jack Orion” (1967). O arranjo feito por ele, nada tradicional e típico de seu estilo, remete ao jazz e a improvisações livres intercaladas a um riff marcante. Tão marcante que um rapaz chamado Jimmy Page, sabidamente um fã do estilo de Bert, resolveu chamar de seu e gravou a faixa “Black Mountain Side” do disco de estreia do Led Zeppelin, de 1969. Os arranjos da versão de Bert e da “Black Mountain Side” são praticamente idênticos.

Aliás, os “empréstimos” criativos de Jimmy Page sem dar o devido crédito são muito mais frequentes do que nós, fãs de Led Zeppelin, gostaríamos. Lembremos do caso de “Dazed and Confused”, na verdade escrita pelo cantor Jake Holmes: houve processo, que terminou em um acordo extrajudicial – hoje a canção é creditada como escrita por Page e inspirada em Jake Holmes. Sem contar o mais recente e controverso caso da “Stairway to Heaven”, cuja sequencia de acordes seria plágio da música “Taurus” do Spirit, já decidido nos tribunais a favor de Page.

Obviamente, Bert Jansch não ficou feliz com a “homenagem”. Foi desencorajado pela gravadora a processar Page por plágio, por falta de interesse e possibilidade de arcar com os custos de um litígio judicial. Porém, “Black Water Side”, o velho cântico sobre uma moça que foi ludibriada por um rapaz irlandês que na verdade só queria transar e pular fora, permanece. E é isso que importa para uma canção folk.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes: urgente, descontrolado e sem freios

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Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

Se você gosta da cena independente nacional, com certeza ouviu o nome de Jonnata Doll & Os Garotos Solventes aparecer por aí diversas vezes nos últimos tempos. Se não foi impactado pelo ótimo disco de 2014, auto-intitulado, deve ter escutado algo do mais recente álbum da trupe, “Crocodilo”, lançado em novembro de 2016 com produção de Kassin e Kalil e participação de Dado Villa Lobos. Desse contato com o guitarrista da Legião Urbana veio o convite para Jonnata participar de alguns shows da turnê em comemoração aos 30 anos do primeiro disco da banda de Brasília, onde o vocalista de Fortaleza roubou a cena e recebeu elogios por sua performance em diversos jornais e revistas. “Há um animal do rock solto no palco, com algum mistério setentista no ar, e ele sabe exatamente o que fazer. Sua banda, Garotos Solventes, é algo a se prestar atenção”, disse Márvio dos Anjos, d’O Globo

A performance sem freios e incontrolável de Jonnata no palco é algo que chama a atenção de qualquer um. As comparações com Iggy Pop são inevitáveis, já que como o vocalista dos Stooges, ele parece um animal selvagem que acaba de sair da gaiola e precisa gastar toda sua energia de forma urgente. A banda, formada por Joaquim Loiro Sujo (baixo), Edson Van Gohg (guitarra), Léo Breedlove (guitarra) e Felipe Maia (bateria), também não fica atrás, oferecendo uma versão muito mais feroz das músicas da banda.

Conversei um pouco com Jonnata sobre a formação dos Garotos Solventes, seus dois discos, as performances sem freio (e muitas vezes sem roupas), a parceria com Dado Villa Lobos e a possibilidade de um novo disco ainda em 2017:

– Começamos pelo começo: como começou sua carreira? Já foi com o Garotos Solventes?

Não, foi participando de uma banda cover de Ramones, quando tinha 15 anos. A gente participava de um programa que acontecia no polo de lazer da Sargento Hermínio, em Fortaleza, de um cara das antigas do Rádio, o Praciano. Era o show da Praça, ia lá e cantava Ramones. Essa banda deu origem depois à minha primeira banda de fato, com as minhas músicas. Em 97 nascia a Kohbaia.

– E como era o som da Kohbaia? Mais puxado pro punk, mesmo?

Sim, teve várias formações e foi até 2009, mas a gente sempre curtiu o pós punk e teve uma época que a banda ficou mais retrô, meia Stones, assim como houve uma época que a gente se influenciava pelas guitar bands da época, tipo Dago Red, Brincando de Deus, Second Come, Pavement… Tem umas coisas no Youtube, inclusive um clipe de “Prostituta Adolescente”, que a gente fez no Motel 90, um puteiro. Essa festa do clipe acabou virando um festival periódico lá que movimentava muito a cena.

– Esse festival ainda rola por lá? Como ela se desenvolveu?

Não, porque o puteiro fechou. Era uma época mais inocente, o publico da banda se misturava com o público do puteiro, as garotas viraram estrelas e os strips eram aguardadíssimos… Tinha Valéria, que virou uma super star… Hoje tudo seria encarado como machismo, mas a verdade é que a gente empoderava as prostitutas.

– E foi logo depois do fim da Kohbaia que surgiu o Garotos Solventes?

Sim, foi uma espécie de continuidade. Teve um momento que todo mundo da Kohbaia tava envolvido com drogas de uma forma tão intensa que não sobrou para musica. Aí, eu resolvi formar uma nova banda com os fãs da Kohbaia
que já tinham outras bandas e eu curtia e tal.

– Então você saiu do Kohbaia principalmente por causa das drogas, e aproveitou até algumas músicas no projeto Garotos Solventes, correto? Sair do Kohbaia foi uma forma de sair de uma abuso de drogas, também?

Foi, mas logo depois eu recomecei tudo. Mas pelo menos era só eu! Sim, o primeiro disco dos Solventes tem varias músicas que eram da Kohbaia.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

– Como foi esse começo dos Solventes?

A gente queria formar uma banda que fosse mais profissional, a postura da galera fosse mais séria, que não esperasse sempre que o contexto e modos de produção underground se adaptassem à nossa loucura e nem o contrário. Que a gente fosse como uns surfistas cheira cola, cortando e ao mesmo tempo aproveitando a onda nosso favor. Um pouco antes, na Kohbaia, a formação em que ela tinha estacionado era composta por fãs de rock sessentista e setentista, que negava tudo que vinha depois, e eu sempre amei os anos 80, a década que  a musica pop continuou a criar ao invés de só reciclar. O Edson, Leo, Saulo (único que ficou da Kohbaia) e o Rony , nosso primeiro batera, não tinham nenhum tipo de restrição, e a partir daí criamos “Esperando por Você”, que é a música que fundou os Garotos Solventes.

– E como foi a produção do primeiro disco?

Foi quando eu cheguei do sitio  da família, onde passei a desintoxicação final, que mudou meu estilo de vida, pois nunca mais voltei a morar numa funhouse lotada de amigos junkies e não junkies e também alguns traficantes. Eu passei anos dependente de morfina e durante um tempo misturava com cocaína. Nesse speedball três amigos se foram por overdose e um suicídio. John Jonas, nosso tecladista, se matou no meu quintal. Tudo isso fez eu dar a última cartada, falo disso em “Swing de Fogo”. Nesse sítio encontrei a psicomagia e me apaixonei por uma espanhola andaluz, Carmen. A paixão foi tão avassaladora que mal passei por abstinência e me deu uma explosão criativa
que me fez compor todo o “Crocodilo”. Quando cheguei em Fortaleza para gravar o primeiro disco através de um edital da prefeitura, já tinha composto o “Crocodilo” inteiro. Mas aí focamos no repertório da época e inauguramos nossa parceria com o Kalil.

– E como rolou a composição do “Crocodilo” e o reconhecimento que este álbum está tendo?

A primeira parte foi composta no sítio, na minha recuperação, depois a gente entrou no projeto do Porto Iracema das Artes, um edital do estado, que bancou a gravação. Aí a gente criou os arranjos ao lado do Kassin e do Kalil, a dupla de produtores. O Kassin queria algo mais cru, como o primeiro, a ideia dele era reproduzir o clima esporrento do show, mas eu tava com uma vibe diferente, fazendo dança tribal, do ventre com a Lenna Beauty (que participa nos shows e no disco). Absorvi as influências ibéricas da minha namorada na época e o resultado é que o disco é mais amplo, tem aquelas referências arabescas, umas coisas acústicas também, e coisas mais sujas, como “Táxi”, “Ruth”, “Cheira Cola”. O disco tem sido bem recebido, nas críticas tem sido unanimidade que ele é mais leve que o outro, mas eu não afirmaria isso. Entendo que as pessoas falam isso por causa das baladas acústicas, mas eu não chamaria de leve, assim como não acho o unplugged do Nirvana leve.

– Como rolou essa aproximação com o Dado Villa Lobos e a participação elogiada no Legião Urbana XXX?

Foi quando o Catatau me levou para Sampa. A primeira vez que cheguei por aqui ele armou um show na festa do programa de Rádio Vozes do Brasil, depois participei como convidado de um Show do Cidadão junto com o Dado. Antes do show passamos o dia na casa do Catatau, ouvindo som, tocando violão. Um pouco depois ele me chamou para cantar “Namorada Fantasma” em um show dele em Fortaleza. Depois disso convidei ele para tocar com os Solventes e ele gravou os arranjos de “Quem é que Precisa” e uma guitarra solo em “Swing de Fogo”. Aí foi natural o convite para integrar a turnê de trinta anos do primeiro disco do Legião, já que todo mundo é da praia não tão gélida do pós punk Brasil.

– Tem muito “roqueiro” que xinga o Legião e as bandas dos anos 80. Dizem que é “uma bosta”. O que acha disso?

Cara, os anos 80 foram incríveis, quando musicas que tinham algo a dizer, crítica social, ou mesmo um conto musicado como “Faroeste Caboclo” se tornavam sucesso popular. E essas bandas. a maioria, começaram do underground, como o Titãs, Legião, Ira… Claro que tem alguns problemas, como várias versões em português de clássicos do Bowie e do Iggy Pop, meio que se aproveitando, intencionalmente ou não, do fato do público não sacar os originais. O Camisa de Vênus, por exemplo, pegou umas coisas do Buzzcocks e do Jam e não creditou! Também as gravações eram meia pasteurizadas e tinham poucas exceções que faziam uma gravação mais legal. Mesmo assim, foi uma época mágica em que o rock foi uma força de expressão de massa, e o nossos anos 80 foram a abertura, tudo era influência, dos anos 60 ao new wave, por isso se criou um estilo que lá fora é conhecido com BRock. Vendo de hoje, com distanciamento, a gente consegue ver quem era real e quem era fake.

– Vocês soam muito mais viscerais ao vivo do que no estúdio. Algo como uma banda punk gravando sons pós punk. Como é o processo de composição? Ele é diferente do que vocês fazem ao vivo?

(Risos) Na real é que ao vivo fica tudo uma bagaceira, fica difícil na empolgação soar do jeito que foi gravado, mas acho que aos poucos tamos chegando. Há um equilíbrio, o Kassin queria fazer exatamente isso, um disco que parecesse ao vivo, mas como eu tava vindo com uma parada bem diferente, cnações acústicas e tal… Na real somos meio Ramones mesmo, nesse quesito de diferença de disco de estúdio e show ao vivo.

– Uma coisa que sempre é comentada são suas apresentações, pois você tem uma presença de palco selvagem e sem amarras. Vi numa entrevista que você sempre foi meio assim, pois desde moleque fazia coisas escatológicas para fazer seus amigos rirem. O que eram essas coisas? Isso já era o início do seu jeito de ser no palco?

Ah, com certeza! (Risos) Eram nojeiras, imitar um cachorro e morder os sapatos dos colegas, virar o homem minhoca, comer insetos, catarro. Também tinha uma mania que ia além de chamar atenção, que era comer borracha daquelas bicolor, vermelho e azul, só rolava se fosse essa, e comia barro de parede. Sem contar meu jeito que as vezes era confundido com autismo. Com certeza eu achei um lugar para esses mugangos no rock’n’roll.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

– Vi um show em que vocês tocavam na rua e estavam super a vontade com os moradores de rua. Qual é a sua relação com as ruas?

A rua é o lugar que eu sempre busquei para me apresentar, nessas horas eu vejo que o rock pode se identificar muito com os excluídos da rua se você fizer com intensidade. Na real eu cantei muito sobre a rua, a rua é um elemento sempre presente nas letras. Fiz uma música recente sobre o vale do Anhangabaú, citando aquelas pessoas que moram ali debaixo do Viaduto do Chá!

– Como é ser uma banda de rock absolutamente verdadeira, em uma época onde o público é cada vez menor?

Cara, o público com certeza diminuiu, mas ele está lá e ainda pode crescer outra vez. O que faz ele crescer é a verdade, ter algo a dizer. Agora em Fortaleza botamos 800 pessoas no lançamento do “Crocodilo”. Se fizemos isso em Fortaleza, podemos fazer em outros lugares! Mas todos nós no fundo sabemos disso, sabemos que o lance é continuar no caminho, sem saber aonde vai parar. O importante não é o ponto final, mas a reta, a linha sinuosa onde a gente ganha a verdadeira velocidade. Para continuar na estrada basta estar vivo e se permitindo ter novas experiências.

– Quais os planos da banda pra 2017?

A gente quer tocar muito, circular mais… A gente foi em poucos lugares até agora. A gente vai lançar dois clipes em breve, tamos participando de um filme, “A Cidade Onde Envelheço”, da Marília Rocha, que vai entrar agora em circuito nacional depois que ganhou o festival de Brasília. Quero dar continuidade aos dois festivais que realizo com a ajuda dos Solventes e outras bandas próximas, o Volume Morto e Festival Fortaleza Cidade Marginal. Pretendo dar continuidade a essa parceria com o Dado também, se tudo der certo ele vai gravar uma musica minha no próximo disco dele e também se tudo der certo, queria gravar o terceiro disco dos Solventes no fim do ano. Devo estar esquecendo algo… Mas o principal é isso!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Cara, curto muito as meninas do Rakta, que fazem um pós punk pós estruturalista. Curto muito o Readymades, adoro a voz da vocalista japa. Curto muito o show do Der Baum, banda de pós punk, Feiticeiro Julião, que faz um acid jazz, e tem uma performance muito massa ao vivo. Tem o Vitor Colares e o Juliano Gauche, que fazem um som mais intimista e são uns puta compositores. Tem o Intuición e o Monquiboy Boo lá de Fortaleza também, que fazem um som agressivo, com ares lo-fi. Tem muita gente, cara… Cidadão Instigado, Verônica Decide Morrer

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Alexandre Giglio, do Minuto Indie

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Alexandre Giglio, do Minuto Indie
Alexandre Giglio, do Minuto Indie

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é Alexandre Giglio, do Minuto Indie!

Inky – “Parallax”
“Banda paulistana que eu gosto muito! Eles cantam em inglês mas vai ser bem difícil reclamar do sotaque.  Uma música bem harmoniosa e ao mesmo tempo experimental.  Sou pouco fã de banda experimental (risos). O som deles nesse último álbum, “Animarnia” tá mais coeso e muito mais com a cara deles.  Definiram um som, sabe? Essa banda foi achada no Spotify graças às minhas experimentações durante o trabalho.  O show deles é bem agitado e vale muito o ingresso que na maioria das vezes são de graça ou muito baratos.  Liderados por uma mulher no vocal você se apaixona mais ainda.  Ela tocando aquele synth,  juntando com o baixo e a batera faz estrago! Já tocaram no Primavera Sound e queria muito ver eles nesse Lollapalooza,  quem sabe no ano que vem”.

Mild High Club“You and Me”
“Eu era viciado em Arctic Monkeys com uns 13 anos,  e aos 23 sou viciado em Mild High Club,  será que nos 33 vicio em outra? A banda liderada pelo Alex…  Putz, mais um Alex na minha vida, hein. (Risos) Brincadeiras à parte,  fazia tempo que não pirava numa banda.  De ser fã mesmo de pesquisar e tudo mais.  Banda de rock psicodélico do bom. De você viajar e não parar mais.  Você escuta os CDs deles e acabam passando muito rápido que você não percebe! Eles são americanos e fazem um som maravilhoso.  Gosto muito do estilo de cantar do vocalista e de como interagem no palco, parece que cada um está em sua transe.  Assisti eles no Balaclava Fest 2016, melhor show do ano sem dúvida, fiquei hipnotizado.  Vale muito conferir essa banda”.

Mndsgn“Cameçblues”
Pelo nome você deve estar pensando ‘que nome estranho é esse?’.  Mas é abreviação de mind design.  Já pegou a brisa, né? Um cara americano descendente de filipinos, o cara faz um som bem semelhante ao Mild High. Mas imagino um cara catando com teclado e brisa. Algumas dessas músicas acabam sendo mais lentas e até um pouco românticas. Mas é aquele som que você para e pensa e relaxa. Totalmente na sua mente! Ele tem diversos trabalhos e ele manda muito com teclado e batida.  #melhorquetimbaland Gosto muito do CD mais recente dele.  As músicas me trazem boas lembranças da minha vida.  Um som que te faz pensar”.

Gudicarmas“Ávido”
Banda que recente que me indicaram lá no Minuto Indie.  Ainda não pesquisei muito sobre a banda, mas o riff e a voz do vocalista me encantaram. Uma música calma que depois te faz dançar. Com certeza vou escutar muito nesse ano de 2017. Vamos dizer que foi a minha primeira paixão desse ano.  A música que me encantou foi a “Ávido”.  Mas o CD deles inteiro é bom demais com sons do Brasil inteiro.  Aqueles instrumentos típicos do Norte, sopro, violão e muito mais. Uma salada mista!”

Bike“Enigma do Dente Falso”
“Se você curte Tame Impala, Pink Floyd, Boogarins… Bike é a junção de todos eles. Eu já conheço a banda a um bom tempo, fiquei viciado um tempo e voltei agora no final de 2016 a escutar eles novamente após assistir um show deles na Casa do Mancha em SP.  Me senti em Woodstock no meio de uma psicodelia louca. Um show com diversas vibes e me surpreendeu tanto. Se você curte brisar, ficar viajando, escutar chapado as músicas…  Aconselho você a escutar o CD deles, “1943”, do começo ao fim, que vai te surpreender e muito. A minha música favorita é o “Enigma do Dente Falso”. Nessa música vou longe, com sons espaciais e solos intermináveis que te deixam numa vibe sensacional.  Essa música foi a minha favorita de 2016.  Podem ter certeza que vocês vão escutar muito sobre esses caras!”

Deformando o rock ‘n’ roll: Quicksilver Messenger Service – “Happy Trails” (1969)

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Quicksilver Messenger Service

Bolachas Finas, por Victor José

No final da década de 1960, no auge da cena de São Francisco, uma apresentação ao vivo era como um ritual, onde o público embalado pelas drogas psicodélicas buscava uma experiência sem padrões ou regras preestabelecidas. E a música – quase sempre improvisada, chapada e estendida ao máximo – servia como pano de fundo ao mesmo tempo em que o próprio público estimulava essas possibilidades encorajando a banda. Era uma troca e, na medida do possível, um sincero sentido de comunhão.

Talvez por isso, um detalhe bastante interessante que ocorreu nesse período foi o lançamento de álbuns ao vivo – ou parcialmente gravados em estúdio – contendo repertórios de faixas inéditas. E considerando a fertilidade artística do período, somada ao poder de performance de algumas bandas e ao clima efervescente das casas de show, dá para perceber que a vibe orgânica presente naquelas gravações eram de fato um ingrediente a mais. Os casos mais clássicos são “Cheap Thrills” (1968), “Anthem Of The Sun” (1968) e “Happy Trails” (1969), do Big Brother and The Holding Company, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, respectivamente.

Embora amplamente celebrado na região da Costa Oeste, o Quicksilver não ganhou a mesma notoriedade que seus conterrâneos Jefferson Airplane e Santana, mas de fato foi um dos pilares que ajudaram a moldar o som da cena hippie e de toda uma ideia em torno da arte do improviso.

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Em “Happy Trails”, segundo álbum do grupo formado por John Cipollina (guitarra e vocais), Greg Elmore (bateria e vocais), Gary Duncan (guitarra e vocais) e David Freiberg (baixo e vocais), percebemos como o rock‘n’roll tinha se transformado até então, isso porque o lado A do disco é uma suíte de pouco mais de 25 minutos do clássico “Who Do You Love”, de Bo Diddley, um dos roqueiros pioneiros dos anos 1950.

Alguns poderão imaginar que deve ser um pé no saco escutar quase meia hora de piração em torno de um rock básico, mas eu digo com toda certeza que não: aí está um dos momentos mais criativos, dinâmicos, entorpecentes e inspirados da música pop. Exagero? Então imagina você há quase 50 anos atrás escutando a releitura de uma música lançada há pouco mais de dez anos, de modo que em alguns trechos você se confunde e mal sabe se ainda se trata do mesmo tema ou se está ouvido rock, jazz, pura dissonância ou sabe-se lá o quê. Pois bem… É um daqueles casos na história da música em que se percebe de modo gritante que houve um verdadeiro salto estético dentro de uma vertente específica – neste caso, o rock‘n’roll.

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De fato, é como se a banda quisesse depositar na música as possibilidades psíquicas proporcionadas pelo LSD, mostrando que é possível descaracterizar o “ego” de uma canção, indicando que ao ir além dos dois minutos da versão original você encontra um vasto “inconsciente” a ser explorado.

O legal é que a versão do Quicksilver tem divisões bem delimitadas, ao todo seis: “Who Do You Love Part 1”, “When Do You Love”, “Where You Love”, “How You Love”, “Which Do You Love” e “Who Do You Love Part 2”. Cada uma das quatro partes do meio da suíte contempla um membro específico da banda, então em um momento a música enfatiza mais no baixo, em outro na guitarra e assim por diante.

O lado B de “Happy Trails” continua na linha do improviso e da experimentação, mantendo a qualidade em um nível invejável. “Mona”, outro cover de Bo Didldey, demonstra uma banda no auge de seu vigor no palco, enquanto que “Maiden Of The Cancer Moon” e “Calvary” (esta última sendo a única gravada em um estúdio) ressaltam o compromisso das bandas do período com o rompimento de estruturas. O som é livre e irresistivelmente volátil, como deveria ser o comportamento do público das lendárias casas de show Fillmore East e West, onde o grupo gravou as faixas ao vivo. O álbum acaba com a faixa-título, que também dá título ao programa de TV estrelado por Roy Rogers e Dale Evans nos anos 50.

Hoje pode até ser que a obra-prima do Quicksilver Messenger Service não pareça assim tão revolucionária, e realmente é bem provável que os próprios integrantes não estivessem interessados em soarem pretensiosos. Mas, embora sutilmente, esse disco contribuiu muito para um arsenal de bandas naturalmente ousadas.
Para quem gosta de guitarras e improviso, “Happy Trails” é um prato cheio, em todos os sentidos.