Donnie Darko: A lua sangrenta, o coelho das trevas e a trilha apocalíptica para o fim do mundo

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Donnie Darko
arte por Rogue Wombat

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Filmes muitas vezes por mais ~sessão da tarde~ que aparentem ser, podem conter trilhas sonoras um tanto quanto maravilhosas e cheias de pérolas musicais. Alguns são mais lembrados que outros, outros são imortalizados por alguma espécie de cult hype.

Donnie Darko (2001)

E esse é o caso de Donnie Darko!

Eu sei que alguns amam esse filme e outros ficam confusos, tanto com a trama quanto por seu desfecho. O filme de 2001 mescla estilos como ficção científica, drama e terror e não teve sucesso comercial imediato. Porém, com o passar dos anos, numa espécie de boca-a-boca, foi resgatado e ganhou ares de “clásssico cult”.

Boa parte disso é por conta da obra ser a primeira aventura cinematográfica de Richard Kelly. O filme chegou até a estrelar e ganhar várias premiações técnicas pela trama, e principalmente por ela… Sua incrível e respeitável trilha sonora.

Mas antes disso, vamos falar do elenco de Donnie Darko, afinal de contas ele é de tamanho respeito – e de dar inveja a muito filme vencedor de Oscar. Quem ainda jovem teve a árdua tarefa de interpretar o neurótico Donnie foi ninguém mais, ninguém menos que Jake Gyllenhaal (de Brokeback Mountain, pelo qual foi indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante, Prince Of Persia: The Sands Of Time e O Dia Depois de Amanhã e da comédia Jimmy Bolha). O crítico de cinema Gary Mairs (CultureVulture.net) comenta:

“Gyllenhaal alça o truque difícil de parecer tanto uma pessoa suavemente normal como uma profundamente perturbada, frequentemente dentro de uma mesma cena”.

O elenco ainda conta com Drew Barrymore (E.T. (1985), Pânico, As Panteras, Batman Forever, Como Se Fosse A Primeira Vez), Ashley Tisdale (Cantora e atriz com participação em High School Musical, Todo Mundo Em Pânico 5 e vozes em Vida de Inseto e Phineas And Ferb), Noah Wyle (Piratas do Vale do Silício e do seriado de TV E.R.), Maggie Gyllenhaal (irmã de Jake e participou de vários filmes, incluindo Mais Estranho que a Ficção e Batman: The Dark Knight), Jena Malone (Jogos Vorazes, Batman Vs. Superman, Suckerpunch), Mary McDonnell (Independence Day, Pânico 4, E.R.), Daveigh Chase (O Chamado, Lilo & Stitch, Inteligência Artificial) e o ator mais icônico das décadas de 80/90, que infelizmente nos deixou, devido a um câncer, em 2009: Patrick Swayze.

Ou seja, só pelos filmes citados – alguns grandes trabalhos e atuações, outros alguns grandes blockbusters – percebemos que o filme ajudou a revelar para o mundo grandes nomes do cinema dos 00’s.

SUIT

A história de Donnie Darko se desenvolve numa cidade suburbana estadounidense, no fim dos anos 80. Donnie, é um garoto considerado problemático que inclusive já foi preso por atear fogo na casa de sua família. Certa noite, um coelho gigante todo dark ~maligno~ acorda Donnie, e o leva até um campo de golf onde ele passa a noite. Quando acorda, descobre que o coelho na verdade salvou sua vida, pois naquele noite uma turbina de avião despencou do céu caindo exatamente em sua cama. Numa espécie de Alice no País das Maravilhas, o coelho profetiza que o mundo acabará em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

Tempo

Ouriçado, Donnie começa a aventura de tentar desvendar todo mistério por trás das intenções do coelho perverso. E faz todas as “loucuras” que o coelho lhe pede, como destruir o encanamento da escola durante a noite – o que causa uma enchente em grandes proporções, e queimar a casa de um palestrante motivacional.

Nessa fase nebulosa, ele questiona ao coelho se ele acredita em viagem no tempo. A partir disso, ele fica entusiasmado pelo tema e pesquisa sem parar sobre, inclusive entrando no campo de teorias de física quântica, tirando as dúvidas com seu professor. Tudo isso tendo como base o livro do lendário lorde do terror Stephen King, Uma Breve História do Tempo.

Curiosidade: O diretor Richard Kelly é filho de um físico da NASA. Ou seja, toda essa “brisa” tem sim fundamento científico qualificado. Não foi apenas uma discussão jogada ao vento.

O professor, por sua vez, vendo este interesse de Donnie, indica o livro que começa a pautar sua vida e as coincidências: o filosófico Filosofia da Viagem no Tempo – escrito por uma vizinha idosa do protagonista, Roberta Sparrow. Sendo assim, Donnie Darko é sobre o tema filosófico do existencialismo. Sobre o que é o mundo real, a noção de espaço metafísico e uma crítica sobre como vivemos nossa vida. Em certo momento do famoso diálogo entre o Coelho e Donnie podemos notar essa discussão:

“- Por que você usa essa fantasia idiota de coelho? – Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de homem?”

O filme também tenta ditar como será o futuro de uma maneira um tanto quanto orgânica, graças às habilidades de Donnie, que através de uma bolha quase líquida que sai do seu peito indica o caminho a ser seguido.

O conflito entre o destino e o livre arbítrio. A história sobre um anti-herói que vive além dos dramas adolescentes, atrelado a um senso crítico, metódico e calculista sobre a realidade. O que só serve de combustível para se rebelar contra ela.

Como disse, o filme é um pouco complicado para quem acha que vai ser um blockbuster óbvio. Tanto é que no site do filme, após seu relançamento (2004), foram colocados trechos do livro Filosofia da Viagem no Tempo para melhor compreensão. No Youtube podemos encontrar diversos vídeos tentando ajudar os mais ~perdidos~.

PS: O vídeo abaixo contém SPOILERS. Veja apenas se já tiver assistido o filme:

A Trilha

Mas estamos para falar sobre a trilha e não para confundir vocês. E ela, meu amigo, é demais. Lançada em 2002, contando as faixas da primeira versão do filme, contém 18 canções, sendo 16 delas autorais por Michael Andrews e a originalmente escrita pelo Tears For Fears “Mad World”, originalmente na trilha de 2001 performada por Gary Jules e Michael Andrews.

Inclusive, “Mad World”, escrita por Roland Orzabel e lançada em 1982 no álbum “The Hurting” foi influenciada pelo escritor Arthur Janov,  que escreveu Primal Therapy: The Cure for Neurosis”datado de 1970, onde relata suas experiências com seus pacientes durante os meses da descoberta da terapia do grito primal.

O método “Primal Therapy” criado por Arthur argumenta que a neurose é causada pela repressão da dor durante o período da juventude, o que faz com que quem sofre dela entre num ciclo eterno em re-experimentar toda a dor que ele sentiu e foi de certa forma armazenada no subconsciente. Ou seja, é uma terapia um tanto quanto masoquista, visto que se baseia em voltar a sofrer para enfrentar seus traumas, frustrações, raivas, histeria e violência.

Algo que nos ajuda de forma involuntária a entender perfeitamente a paranoia de Donnie Darko. Sim, a música poderia facilmente ter sido composta pelo R.E.M.

Donnie Darko (2002): Soundtrack por Michael Andrews

“Carpathian Ridge” – 1:35
“The Tangent Universe” – 1:50
“The Artifact and Living” – 2:30
“Middlesex Times” – 1:41
“Manipulated Living” – 2:08
“Philosophy of Time Travel” – 2:02
“Liquid Spear Waltz” – 1:32
“Gretchen Ross” – 0:51
“Burn It to the Ground” – 1:58
“Slipping Away” – 1:17
“Rosie Darko” – 1:25
“Cellar Door” – 1:03
“Ensurance Trap” – 3:11
“Waltz in the 4th Dimension” – 2:46
“Time Travel” – 3:01
“Did You Know Him?” – 1:46
“Mad World” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:08
“Mad World (Alternate Mix)” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:37

Porém, o disco que estamos aqui para revisitar e encher de elogios é Donnie Darko (2004): Disc 2. Este que coincidiu com o relançamento de Donnie Darko, em 2004, e foi lançado como expansão de sua trilha sonora. Ele conta com hits dos anos 80 que são a marca registrada do filme cult. Vamos analisá-las então!

De cara temos “Never Tear Us Apart” do INXS. A banda australiana de 1977 perdeu seu vocalista 20 anos depois em uma morte – estranha – em um motel, envolvendo práticas sexuais nada ortodoxas segundo alguns. Outros dizem que ele tinha mesmo era uma doença grave – e resolveu por um ponto final em sua vida. A banda encerrou suas atividades em 2012. A canção é linda e perturbada, ou seja, perfeita para a profundidade da narrativa de Donnie Darko. O sax tem um ar de morte e ecoa diretamente em sua alma, na melancólica balada.

O Tears For Fears vem em seguida para arrepiar ainda mais. “Head Over Heels” cria uma atmosfera ainda mais intimista e desesperada, soando como um conflito desde o começo de sua melodia. Ao ouvir essa música a primeira coisa que me remete é um fim de tarde de domingo chuvoso, ou seja, uma bela de uma fossa.

Para nos jogar nos subúrbios dos anos 80, na mesma linha de New Model Army, vem “Under The Milky Way”, single de 1988 do The Church, com um certo cheiro de morte e elementos que marcaram a década. Solos precisos na linha dark wave e neo-psicodelia aliados a uma interessante gaita de fole… uma viagem no tempo.

Em seguida temos duas faixas compostas por Sam Bauer e Gerard Bauer. A instrumental “Lucid Memory” conta com guitarradas e percussão com cara de trilha sonora de video-game. Já “Lucid Assembly” vem numa levada 8-Bits que me remete a esse vídeo feito por fãs da trama:

Logo depois vem a fantástica ópera “Ave Maria” composta por Giulio Caccini & Paul Prichard, em uma vibe completamente pós-apocalíptica. A bonita canção é capaz de destruir bem mais do que a turbina do avião da trama. Aliás, é bem paradoxal termos essa música na trilha, já que o filme questiona a religiosidade e a hipocrisia familiar.

Talvez a música responsável por um dos momentos mais dramáticos do roteiro seja “For Whom The Bell Tolls”. Não, não estou falando da canção do Metallica, e sim a erudita canção do duo Steve Baker & Carmen Dave. Ao final da canção você se questiona: porque você está usando essa estúpida fantasia de homem?

Ainda na linha mais Enya, temos Quito Colayco e Tony Hertz com “Show Me [Part. 1]”, com uma densa cantiga erudita. Nesta altura o tom dramático e existencial ganha outro nível de densidade. Tudo para logo depois te colocar na pista de dança ao som do potente baixo a la Flea de “Notorious”, do Duran Duran. Quer mais anos 80 que isso? Impossível. Clássico demais, a chance de você colocar no VH1 e estar passando o clipe é razoavelmente significativa. Hit que lota as festas Trash 80’s, sem sombra de dúvidas. Neste momento você se vê vestindo ombreiras e dançando com o manequim da loja que estiver passando o video.

Chover no molhado é elogiar “Stay” do Oingo Boingo. Baita canção né? Daquelas que te colocam no DeLorean a caminho dos anos 80. A balada romântica tem uma levada que brinca com a temática country e fez a alegria das pistas de dança da época. Tem até metais que me remetem ao belo ska do Madness – e sua loucura, literalmente.

Para quebrar as pernas de todo mundo, a trilha ainda tem algo para culminar com o desfecho de nosso amigo Donnie: “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division. Um filme sobre os anos 80 com trilha post-punk e personagem com esquizofrenia não poderia JAMAIS deixar este clássico de fora. Um tremendo gol de letra da trilha. Para fechar o disco com muita dignidade e vendo o mundo desabar, nada mais NADA como “The Killing Moon”. Cheia de trevas, escuridão, apocalipse e veneno, o hit do Echo & The Bunnymen é talvez a mais lembrada e querida pelos fãs.

Em 2009 saiu uma espécie de sequência do filme, S. Darko – Um Conto de Donnie Darko, esta focada na vida da irmã de Donnie, Samantha (Daveigh Chase). A sequência foi trucidada pela crítica e não tem quaisquer relação com a obra de Richard Kelly, segundo ele mesmo. A direção do fiasco ficou por conta de Chris Fisher. Mas como não se vive do passado, vai aí uma dica para fãs da série: em março deste ano a DarkSide Books lançou uma nova edição do livro Donnie Darko. Segundo amigos que já compraram, além da incrível capa, a obra vem com um marcador de página do avião do filme. Demais, né?

O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books
O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books

Rogério Skylab navega por novos caminhos em seu novo projeto, “Skylab + Tragtenberg Vol.1”

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Rogerio Skylab
(Alexandre Rezende/Folhapress ILUSTRADA)

A sátira, o lirismo, o rock, a MPB e a música experimental são alguns dos inúmeros ingredientes que compõem a carreira de Rogério Skylab, artista multifacetado que não cansa de surpreender seus ouvintes. Alguns o acham engraçado. Outros, bizarro. Há os que digam que sua obra é um retrato sujo do ser humano. Mas uma coisa é certa: não dá pra ficar sem opinião após uma audição de “Skylab & Tragtenberg Vol. 1”, o mais novo projeto do compositor.

Obcecado por séries, após finalizar sua popular coleção de 10 discos iniciada em 1999 com o álbum “Skylab X”, começou imediatamente mais uma: a “Trilogia dos Carnavais”, (“Abismo e Carnaval”, “Melancolia e Carnaval” e “Desterro e Carnaval”) que vai virar DVD em breve. Sempre independente, agora ele dá início a uma nova trilogia com “Skylab & Tragtenberg Vol. 1”, em parceria com o compositor e saxofonista Lívio Tragtenberg.

“Faço parte dos primórdios da música independente no Brasil. E toda minha carreira primou por uma independência que me permitiu fazer do jeito que sempre quis, com absoluta liberdade. Vivi a fase de transição do mercado, quando a indústria fonográfica era pujante e depois passou por uma série crise com o advento da internet. Conheci, portanto, os dois lados da moeda e sou um sobrevivente. Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB”, define Skylab.

Conversei com ele sobre o novo disco, sua obsessão por séries, o humor em sua obra, a guinada conservadora que o mundo está sofrendo e muito mais:

– Como surgiu esta parceria?

Eu já manjava o Lívio Tragtenberg. Mais pelos livros escritos que pelos seus trabalhos musicais. Vim a entrevistá-lo no programa “Matador de Passarinho”, que era um programa que eu apresentava no Canal Brasil. Daí foi um pulo para convidá-lo a fazermos um disco juntos. Lívio é de uma geração anterior a minha. Conheceu os poetas concretas, participou de bienais. É de uma inteligência selvagem. Como um bom judeu, me lembra Kafka. Quando desafiado, é capaz de encontrar soluções impossíveis. Acho que esse nosso primeiro disco é um bom exemplo disso.

– O trabalho difere bastante do que foi realizado até Skylab X. Quais são as principais diferenças, na sua opinião?

Acho que a diferença fundamental está na mixagem. Hoje em dia a mixagem é tão importante quanto a composição. Não adianta você fazer um disco com composições ricas e complexas, se o tratamento que essas composições vir a sofrer, na pós-produção, tiver algum ranço conservador. O trabalho da série dos “Skylabs” é espontâneo e bem livre. É quase um trabalho coletivo. Tem sua importância. Mas continuá-lo seria ficar no mesmo.

– Quais são as principais influências para este álbum?

Não daria pra transcrever todos os nomes que, de uma forma ou de outra, estão presentes nesse trabalho: da literatura à música. Afinal, tanto eu quanto ele, não nascemos ontem. Acumulam-se informações. Beckett, Severo Sarduy, “Araçá Azul”, Syd Barret, Joyce, Arrigo Barnabé, John Cage, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Cadu Tenório, Jonas Sá

– Este disco parece mais sério, apesar de você sempre ter dito que seu trabalho não ser “humorístico”. Já recebeu alguma resposta dos fãs que levam seu trabalho como humor?

Isso é uma bobagem até porque vejo no humor uma potência, presente em trabalhos como do grupo Monty Python. E nem precisamos ir tão longe: André Dahmer e Lourenço Mutarelli são exemplos de um humor estranho nacional. Isso me interessa. Não é o humor de Casseta e Planeta, nem Porta dos Fundos. Muito menos dos nossos humoristas fascistas que pululam na mídia. Quanto a esse disco, tem algumas passagens bem humoradas. Com um certo comedimento, mas o humor não deixa de estar presente.

Rogerio Skylab

– Como você definiria o som deste disco?

Sinceramente, não saberia defini-lo. Até porque estamos pesquisando, não temos nenhuma resposta pronta. É um work in progress. Sem esquecermos que foi projetado para uma trilogia. Gosto dessas coisas: decálogo, trilogia… O meu trabalho anterior, calcado em sambas e na música popular, também é uma trilogia. E vai sair em breve um DVD, lançado pelo Canal Brasil, que vai ser um resumo desses 3 discos lançados: “Abismo e Carnaval”, “Melancolia e Carnaval”, “Desterro e Carnaval”. Esse DVD vai se chamar “Trilogia dos Carnavais”. Enfim, o segundo volume desse “Skylab & Tragtenberg” pode ser completamente diferente do primeiro.

– Vocês estão fazendo shows de divulgação deste trabalho?

Pretendemos fazer em breve, vai ser inevitável. Mas já estamos começando a trabalhar o segundo volume.

Rogerio Skylab

– Pretende lançar mais trabalhos em parceria?

Sim, esse é o nosso desafio: o “Skylab e Tragtenberg” vão ser 3 discos.

– O que você acha da cena musical brasileira que acontece hoje em dia?

A atual cena musical brasileira é um espelho da nossa sociedade: tem segmentos, como o sertanejo e o axé, que representam o arcaico; e tem outros segmentos, menos visíveis mas não menos potentes, que me orgulham e me deixam cheio de esperança. Afinal, ouvir Chinese Cookie Poets é um luxo e um sinal inequívoco de que a nossa sociedade pode mudar e mudar pra melhor.

– Você já se declarou infeliz com a situação política do país hoje em dia. Isso e as respostas do setor conservador e de direita da população de alguma forma inspiram novas músicas?

Pra mim, existe uma relação entre música e política. Assim como há relação entre cultura e política. Só que não é uma relação de espelho. Essa relação não é tão óbvia, se dá por vias indiretas, complexas. Se esse setor conservador e de direita podem me inspirar a compor novas músicas, não há dúvida. O que não significa que as músicas façam menção direta a isso.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Tatá Aeroplano, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Chinese Cookie Poets, Cadu Tenório, Jonas Sá…

Breaking News: 8 clipes e singles independentes lançados esta semana que você precisa conhecer

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Skating Polly
Skating Polly

Skating Polly“For The View”

A dupla dinâmica acaba de lançar mais um clipe de seu mais novo disco, “The Big Fit”, antes de fazerem uma mini turnê pelo Reino Unido. Kelli e Peyton aparecem aqui em uma versão hard rocker setentista com aquele velho abuso de chroma key que era peculiar aos vídeos da época. Inclusive, Kelli com aquele bigodão tá a cara do Bill Ward jovem.

Poltergat“Suicidal Citizens”

Preste atenção no Poltergat, uma das melhores bandas independentes por aí. O clipe de “Suicidal Citizens”, produzido pela Radioativo Filmes, é simples, direto e pé na porta, como o som deles. A música fará parte do primeiro álbum da banda, “Blanka”.

The Interrupters“By My Side”

Quem gosta de Rancid, Offspring e da segunda explosão do punk e ska nos anos 90 vai adorar o novo single do The Interrupters. Ska de qualidade que parece saído diretamente de 1997. A faixa fará parte de “Say It Out Loud” que sai dia 24 de junho. Ah, a banda faz parte da Hellcat Records, de Tim Armstrong.

The Good Life“Diving Bell”

Primeiramente: não consigo falar o nome dessa banda sem cantarolar a música do Weezer. Agora sim, sobre o clipe dirigido por Stefanie Drootin-Senseney: dê uma volta de carro melancólica que pode te levar a lugares que você nem imagina com The Good Life em “Diving Bell”, faixa de “Everybody’s Coming Down”:

Oh Pep!“Doctor Doctor”

O clipe dirigido pela Ambiguous Fiddle Media é daqueles que mostram histórias de juventude, sabe? A faixa fará parte do disco “Stadium Cake”, que sai dia 24 de junho.

Videocassetes“O Assassino”

O clipe caseiro dos Videocassetes (ex-3éD+) mostra um pouco da vida de uma banda independente no underground paulistano. Shows, bares, estúdios, cerveja…

Captain Martini and The Key Stoners“Stock Car”

Eu nunca tinha reparado que tudo que os motoristas de Stock Car fazem é acelerar e virar o volante para a esquerda até que algum outro carro bata… até que assisti esse clipe.

Stitched Up Heart“Monster”

O novo clipe da banda de metal Stitched Up Heart foi dirigido por Robert Graves e faz parte do disco “Never Alone”. Para os mais trevosos é um prato cheio: metal com toques de nu metal bem tocado com um belo vocal.

O quinteto Penhasco trabalha em novo disco “mais pesado, mais técnico e mais profundo”

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Penhasco

O quinteto paulistano Penhasco está passando os últimos meses praticamente morando dentro de estúdios, gravando, lapidando e reimaginando as músicas que farão parte de seu primeiro álbum. Depois de criar um EP “de rascunho” que nunca viu a luz do dia, a banda ganhou muitos admiradores nos shows energéticos e selvagens que fizeram desde então. Com uma sonoridade que passeia entre o rock alternativo, o metal e o math rock, o grupo conseguiu definir uma identidade muito forte para seu som, forte e pesado na medida certa.

Formado por Bruno (bateria), Luciano (baixo), Fernando (guitarra, backing vocais e teclado), Dija (guitarra e backing vocais) e Boqa (vocais), o Penhasco pretende nos próximos meses fazer shows junto das demais bandas de seu selo, a Howlin’ Records, além de intensificar os trabalhos das gravações de seu debut. “Não podemos firmar uma data para lançamento mas ainda há tempo!”, diz Bruno.

Conversei com a banda sobre sua carreira, letras políticas, o EP que ficou no baú e a cena independente brasileira:

– Primeiro eu queria saber como a banda começou.

Boqa: Eu e Bruno trabalhávamos juntos numa empresa de marketing digital. E ficávamos trocando ideia de som nos almoços. Num surto de irresponsabilidade chegamos à conclusão que devíamos montar uma banda. Acredito que esse surto ocorreu porque tínhamos ouvido o “All We Love We Leave Behind” do Converge. Convocamos o Luciano, que tocava baixo no Sem Registro e já esteve em projetos comigo há uns anos atrás. E Pier para a outra guitarra. Ainda tivemos a participação do Hamilton, que trabalhava conosco e tocava no Centeio. Depois de uns ensaios, Hamilton saiu. Continuamos as sessões até o dia que definimos o nome da banda.

Dija: Bom, eu fui o último a entrar na banda, então só posso contar a história a partir da minha entrada.

Luciano: Eu fui chamado para o que seria a primeira formação. Na época o Boqa disse que só faltava um baixista. Comentou isso logo após eu ter o readicionado no Facebook.

Boqa: Fizemos uma apresentação com essa formação. E depois o Pier foi desligado. Aí o Dija continua.

Bruno: Após compor algumas músicas, um único show e uns tropeços aqui e acolá, houve uma mudança no line up agora contando com o Dija e o Fernando nas guitarras trazendo uma bagagem um pouco diferente e essencialmente o EP inicial que gravamos, mas ainda não viu a luz do dia, era uma mistura das músicas que tínhamos feito e o entrosamento ainda em evolução.

– Esse EP que ainda não saiu tem data para ser lançado? Está em processo de gravação?

Dija: Tivemos diversas dificuldades em relação ao EP e hoje pensamos que ele não representa exatamente a sonoridade que buscávamos para banda. Certamente, ele verá a luz do dia, mas nossa prioridade passou a ser a composição de novas músicas que correspondessem a este desejo de consolidar uma sonoridade na banda.

– Me contem um pouco mais sobre esse EP “experimental” que ficou na gaveta. O que ele tinha de diferente? Como o som da banda evoluiu desde então?

Luciano: De início nós pensávamos muito em nossas influências, pensávamos também em como soaríamos. O EP tem seus altos e baixos (para todo o grupo, mais baixos que altos) devido às circunstâncias de produção e em parte nossa imaturidade na hora de gravar. Após esse EP, uma coisa ficou clara: poderíamos ir além dentro do que buscávamos. Poderíamos buscar nossas referências, mas ao mesmo tempo ter nossa identidade. E é isso que fazemos desde então.

Dija: O EP tinha algumas ideias desenvolvidas pela formação inicial da banda. Com a minha entrada e a do Nando, nós tentamos absorver as ideias daquelas canções. No entanto, conforme fomos nos adaptando à banda, fomos ficando mais amigos e isso resultou num panorama onde ficamos mais à vontade para imprimir nossa identidade no som. Em um dado momento, vimos que o que havia sido feito não tinha exatamente a nossa cara. Era algo meio Tomahawk, meio Black Flag. Estamos concluindo os arranjos das músicas que irão compor o primeiro full-length. A partir daí, vamos imergir no processo de composição. Estamos já explorando temas como o conflito no Oriente Médio, sobre a dualidade do virtual versus realidade e outros temas que achamos interessante explorar.

Bruno: Ele tinha uma mistura de músicas que não necessariamente tinham uma “conversa” entre si, mas sim algumas referências aos artistas iniciais que saíram das conversas de formação da banda. Já as novas parecem ter mais a ver umas com as outras e isso se deve ao tempo que estamos trabalhando juntos.

Penhasco

– Foi meio que um EP de “teste”. Algo como um rascunho pra depois fazer valendo.

Luciano: Eu iria além, foi uma busca de identidade sonora mesmo. Que só foi adquirida após a entrada do Nando e do Dija.

– E como está sendo o processo de gravação do novo EP? Ele já tem nome? O que podem adiantar dele?

Bruno: A base que mantivemos é a temática mezzo política/mezzo intimista que guia a expressão agressiva da banda, agora com mais peso e trabalhos específicos pra 2 guitarras que mudou bastante a sonoridade.

Luciano: O disco novo é um full. Até então com nove sons. Ainda estamos em processo de acerto nas instrumentais e composição das letras. Não há nomes definidos.

Dija: Acabamos de gravar a versão de “Disneylândia” para o tributo aos Titãs “O Pulso Ainda Pulsa” (*nota do editor: aguardem novidades sobre isso!) Apesar de ser uma versão, ela reflete de alguma maneira o nosso atual momento. A pretensão é que o próximo trabalho seja um full-lenght. Ainda não cravamos um nome, mas o que podemos garantir é que ele será mais pesado, mais técnico e mais profundo do que o que vinhamos produzindo antes.

– As letras da banda tocam no viés político. Como esse caos em que o Brasil se transformou têm influenciado o trabalho de vocês? Essa politização rasa da população feita por memes tendenciosos e páginas do Facebook foi o começo do declínio?

Dija: Eu creio que o que vemos nas redes sociais é um mero retrato de uma maneira de pensar que já existia antes da própria internet. Ainda estamos nos descobrindo como país, como um povo e o fato das diferenças e as feridas estarem expostas é positiva em um determinado sentido. Apesar dos muitos problemas, há debate e isso é essencial para o amadurecimento de um consciente coletivo.

Luciano: Acho que há uma perda de sentido de ambos os lados. Não vemos mais o outro como semelhante. É uma sociedade de espelhos quebrados. Onde o diálogo morre.

Dija: Vou além: acho que nunca houve um diálogo em um nível que fizesse com que parássemos para pensar o que somos como país. O que está acontecendo está deixando claro que somos uma terra cheia de pessoas pensando apenas nos próprios problemas. Os debates, na maioria das vezes, objetivam sobrepor ideias e não compartilhá-las e desenvolvê-las.

Bruno: Sem dúvidas que isso reflete no trampo que fazemos, na verdade nos inspira em fazer algo que podemos considerar relevante e informativo através da música a gente tenta passar mensagem e informação sobre o que anda de errado com a sociedade, fazer música para nós, querendo ou não, é uma luta em diversos sentidos.

Dija: Nenhuma democracia foi construída da noite para o dia e se pensarmos que não tem nem 30 anos da nossa primeira eleição direta pós-ditadura, a população ainda precisa passar por muita coisa para adquirir uma consciência social e política efetiva.

Bruno: Abrir os olhos (ouvidos no caso) das pessoas que se identificam com o rock e reforçam que temos que combater e não só ficar de braços cruzados nesse cenário é fundamental.

Penhasco

– E vocês acham que faltam bandas com mensagens políticas na grande mídia, já que a situação está em um debate diário? (Ou talvez uma briga de torcidas diária, se formos ser exatos)

Dija: Eu diria que falta mais fundamentação, antes das bandas e das mensagens. O artista, ao passar uma mensagem, precisa ter profundo conhecimento do que está falando, tem que ter ideia do alcance da mensagem e saber justificar isso.

Bruno: Com certeza… E além disso, mesmo as bandas estando aí, talvez a grande mídia não seja realmente o caminho para esse perfil de banda e mensagem porque o posicionamento deles é bem conhecido: a favor da manutenção dos interesses.

Boqa: A grande mídia cria mecanismos para que as bandas de rock se adequem à um tom conservador. É, de certo modo, tragicômico, mas não deixa de ser uma estratégia efetiva. E muitas vezes subliminar.

– E de onde surgiu o nome “Penhasco”?

Bruno: O nome Penhasco tem muitas explicações, algumas realmente sérias e embasadas, algumas com alusões e interpretações de acordo com cada membro.

Boqa: No Livro “Demian” de Hermann Hesse tem um trecho que conta a fábula de um jovem que se apaixona por uma estrela… Todo final de tarde, esse jovem ia até um penhasco, ponto mais alto, para admirar o fruto de sua devoção, uma estrela inatingível. Ele se fodia por isso, né? Amar uma estrela, algo que nunca tocaria além das críticas que a sociedade acometia. Eis que febril de amor ele foi ao penhasco decidido que ia tocar sua amada, a estrela. Pulou do penhasco acreditando que ia alcançá-la a fim de consolidar sua devoção. E foi de encontro ao chão. Se ele subiu ou desceu, não sabemos, mas é a nossa percepção de vida, arte, procurarmos atingir algo, nos dedicarmos por algo que talvez seja inalcançável. Penhasco representa isso para nós, mesmo distante de tocarmos a estrela, iremos seguir devotos de nossa convicção e amor pelo que nos edifica.

Bruno: Além disso, queríamos um nome forte, que representasse o que a gente estava se propondo sonoramente, simples, com um apelo que também tivesse um impacto visual.

Dija: Herman Hesse foi uma referência importante também por conta dos seus ensaios sobre música. Há uma frase dele que gosto muito: “O simples fato da música existir e de poder um ser humano ficar, por vezes, comovido até o âmago por uns poucos compassos e inundado por harmonias, sempre significou para mim um profundo consolo e uma justificação de vida”.

Boqa: Hesse é foda! Nós amamos ele! Será que vão reclamar de spoiler do livro? (risos)

– Como vocês definiriam o som da banda?

Boqa: Por sermos um quinteto e termos as duas guitarras trabalhando de uma forma mais aprofundada nessa nova fase, eu acredito que estamos mais próximos do metal alternativo, mas saímos da zona de conforto do Metal em algumas canções. Por exemplo, nas canções mais intimistas e menos agressivas.

Bruno: Tem bastante dinâmica entre as músicas e também dentro de uma mesma música, mas de forma geral é um som pesado (agora mais do que antes) e “bem na cara” mesmo!

Boqa: Não consigo pensar algo do tipo, nós Penhasco somos uma banda disso ou aquilo, acredito que isso nos dá liberdade para explorar inúmeras possibilidades sonoras. Obviamente, sem perder nosso norte que é a música pesada que bebe do Metal e por vezes, um pouco do Hardcore e Math-Rock.

– Se vocês pudessem trabalhar com qualquer pessoa do meio musical, quem seria?

Dija: Minha lista, por ordem de preferência:
1) J. Robbins
2) Steven Albini
3) Will Yip

Boqa: Odair José, Juçara Marçal, Fábio do Animal Fado e Kevin Abstract.

Dija: No caso, eu mencionei músicos que também são produtores e inclusive são influências que trago comigo ao tocar no Penhasco, no caso do J. Robbins, por conta do Jawbox e do Burning Airlines, e no caso do Steven Albini, por conta de Big Black e Shellac. Incluiria na lista um referência nacional também, o Sérgio Ugeda, do Diagonal e do Debate.

Bruno: Eu particularmente nunca pensei nisso, por enquanto eu passo mas é uma boa coisa a se pensar (risos).

Penhasco

– Quais os próximos planos da Penhasco em 2016?

Bruno: Voltar a fazer shows com certa frequência é uma certeza, junto das demais bandas do selo (Howlin’ Records) que está na ativa e lançando material! Também pretendemos pelo menos entrar no estúdio para iniciar as gravações do nosso debut. Não podemos firmar uma data para lançamento mas ainda há tempo! Estamos repensando as músicas do EP que ainda não foram lançadas, mas a produção de material está a todo vapor.

Dija: Assim que for lançado “O Pulso Ainda Pulsa”, é certo que apareceremos por aí, tocando em algum lugar.

– Por falar na Howlin’ Records, o que vocês acham da cena independente brasileira atualmente? Como pode melhorar?

Boqa: Eu creio que já estamos próximos do que pode ser considerado uma melhora. Apesar de ainda em ilhas, algumas bandas resolveram observar outras bandas, consumir produção de outros artistas independentes e colar nos shows. É como se estivéssemos recuperando um importante senso de comunidade na ascensão do “Façamos Nós Mesmos”, uma ótica de agir com sinergia. Um fator importante é intensificar a produção e lançamento de materiais.

Bruno: Além desse trabalho por parte das bandas e consequentemente dos selos, seria mais legal ainda criar uma cultura e um “mercado” relacionando o público com os produtores.

Dija: “Cena” é uma palavra que eu procuro usar com cuidado, pois, na prática, isso não existe. O que existe são diversas pessoas trabalhando com música independente, cada uma de acordo com as suas possibilidades e sem haver muita integração entre elas. Este ultimo ponto até tem melhorado, mas falta muito ainda para chegar perto do ideal.

Bruno: A mídia física apesar de diminuir bastante ainda é interessante em alguns casos, seja CD ou vinil… A produção de artes pra capas, posters, flyers dá oportunidade pra designers… Estamparias pra vender camisetas e outros equipos… Tudo isso também ajuda a manter tanto as bandas quanto outros pequenos negócios circulando e divulgando o trampo de cada um. Portais de notícias fazendo o papel de resenhas e indicações que as revistas faziam antigamente, rádios na web com programação pra mostrar pro público que existem pessoas dispostas… todo mundo ganha com isso, o que falta talvez seja uma conexão, mas aos poucos isso está caminhando!

Penhasco

– Recomendem bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Boqa: Vixe! (risos) A lista é longa e extensa!

Dija: A princípio, sem condescendência alguma, recomendamos todas as bandas da Howlin’ e da Bichano Records.

Boqa: As bandas do Mónó (Chabad, Blues Drive Monster, Vapor, Hollowood e o finado We Are Piano), Bufalo, Blear, Poltergat, In Venus, Gomalakka, Sky Down, Chalk Outlines, The Hexx, Stase e Billy Negra. Todas da casa. The Shorts de Curitiba, El Toro Fuerte, Jonathan Tadeu, gorduratrans, e a terra nunca me pareceu tão distante, Der Baum, O Grande Ogro, Ronca, Empate, Issa Paz, Senzala Hi-Tech, Rincón Sapiência, Hellbenders, Huey, Mais Valia, Herod, St. Louis Disaster, Orange Disaster, O Jovem Werther, Pense, menores atos, Attöm Dë, Massacre em Alphaville, DPR, VIOLINS… Tem muita gente! Ah sim, Krokodil, Projeto Trator e La Burca. Esqueci uma penca, mas esses são altamente recomendáveis.

Dija: Tem as bandas da Sinewave também.

Boqa: Loyal Gun (risos). Todas as bandas do Dija!

Dija: (risos)

Boqa: Ah sim, Lava Divers da massa!

“Rock’n’Roll Theater”, o musical punk DIY de Tim Armstrong inspirado nos clássicos dos 50’s

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Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Em 2013, o site especializado no nicho punk/ska/hardcore Dying Scene fez uma lista para tentar calcular “aproximadamente” a fortuna de figuras ilustres do punk americano. Nessa lista na oitava posição estava Timothy Ross Armstrong, mais conhecido como Tim Armstrong. Para quem não está familiarizado, Tim é vocalista do Rancid, co-fundador do lendário Operation Ivy, vocalista e guitarrista do Transplants (ao lado de Travis Barker e Skinhead Rob) e dono da – subsidiária da Epitaph Recods – Hellcat Records.

Além disso ele tem um modelo Gretsch assinado por ele, réplica da que usa em seus shows. Além disso, também é produtor musical e tem em seu currículo um excelente disco solo (“A Poet’s Life”) em que é acompanhado ninguém mais ninguém menos que o Aggrolities.
Ah, ele também ganhou um Grammy pela produção do disco de Jimmy Cliff, Rebirth”, não podemos esquecer deste detalhe. Segundo o portal, sua fortuna gira em torno de uns 13 milhões de dólares.

Davey Havok é o sétimo da lista. O vocalista do AFI – que esteve na Lollapalooza de 2014 – conseguiu ao longo de sua carreira uma boa grana. Em parte por acordos milionários com majors. Alguns consideram isso vender a alma para o diabo (guarde essa informação).

Tendo como curiosidade ter participado até de um filme com Rob Lowe, o drama policial: Knife Fight” (2012). Um dos poucos músicos que pode dizer em alto e bom som: vive da música que faz. Na matéria, o Dying Scene estimou sua fortuna em cerca de 20 milhões de dólares, nada mal, não?

Tudo isso é só para explicar que para eles, dinheiro não é problema, especialmente para convencer pessoas influentes a toparem suas aventuras. E eles têm uma mente brilhante e um nível cultural invejável, então acredite: sabem o que fazem. Tim sempre foi um artista engajado, sempre apoiou artistas, participando de inúmeras parcerias e videoclipes de outras bandas, o que o tornou um cara bastante querido por todos ao seu redor. Mas ele não tem limites e a cada dia prova isso: há pouco tempo ele fez um ambicioso projeto em que lançou mais de 60 versões de músicas em estilos inusitados, o Tim Timebomb and Friends. Nele fez versões curiosas de Bob Dylan, The Selector, The Specials, Sham 69, clássicos oldies, reggae, entre outros. Mas o mais legal mesmo era o carinho e como trabalhava para que cada clássico soasse “vintage” e respeitoso.

O projeto ganhou vida um ano depois do outro que falaremos hoje. Depois dessa senhora introdução, vamos ao assunto de hoje: Rock’n’Roll Theatre.

Pois é, Tim estava animado em fazer algo inédito em sua carreira: um “Tv Show” musical. Porém em um formato não muito convencional (ao menos em 2011, ok?). O músico, inspirado por coisas como Twilight ZoneThe Rocky Horror Picture ShowThe Outer LimitsThrillerOne Step BehindAlfred Hitchcock Presents – em sua maioria shows de TV da década de 50 – resolveu fazer um mash-up desses antológicos shows e fazer seu próprio musical.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

De uma maneira um pouco diferente do habitual: lançar de pouco em pouco pela plataforma VEVO. Ele apropriou-se da voz do narrador, e ao invés de atuar, ele é a voz oculta que te conduz durante a história toda em episódios curtos em formato de websérie. Mas ele não caiu de paraquedas nesse projeto ambicioso sem respaldo de pessoas importantes e que sabiam o que estavam fazendo. Ele convocou um senhor time para o acompanhar:

  • David Robertson: Produtor do Eminem, Metallica, Britney Spears e Madonna. Convocado para ser o produtor da série.
  • Para diretor, ele escalou Kevin Kerslake, responsável por guiar a direção estética de toda uma geração rockeira que entrou na MTV na década de 90 como Nirvana, Smashing Pumpkins, Green Day e, claro, Rancid.
  • Michael Rooney, diretor de coreografia: conhecido pelo seu trabalho no premiado clipe “Praise You” do Fatboy Slim, dirigido por ninguém menos que Spike Jonze. Outro coreógrafo que participou do projeto foi o ator Christopher Walken.
  • A conhecida atriz Marie Vernieu (“Cisne Negro”, “Sin City”, “O Lutador”) participa.
  • Os episódioscontam com figuras ainda mais ilustres em seu elenco, os músicos e amigos do peito Lars Frederiksen (Rancid, The Old Firm Casuals, Lars Frederiksen And The Bastards, ex-U.K. Subs), Dayvey Havok (AFI) e Fishbone.
  • Logo no primeiro episódio, “Dante”, Robert David Hall, da popular série “CSI” faz uma participação. Mas a série de 12 episódios não se limita a isso.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

O plot é divertido e em entrevistas, Tim contou como o espírito colaborativo ajudou no processo. O papel de Dante, por exemplo, foi interpretado por Lars Frederiksen. Dante é um corporativista caricato e toda sua indústria está focada na dominação, opressão, humilhação e milhões de inimigos. Suas relações humanas todas são palpadas a troco de dinheiro e favores devidos. Algo meio máfia, no melhor estilo “O Poderoso Chefão”… Mas um pouco menos romantizado. A primeira parte da série é justamente sobre sua queda e sua chegada ao Inferno. Isso seria um spoiler, se não fosse tão óbvia a sequência de narrativa. Através de cenas divertidas e clichês de danças coreografadas em escritório e atuação mandrake de Lars, ele tem sua morte consumada.

Ainda no limbo, quando descobre que morreu, é abordado por Fishbone, que toca seu trompete com uma máscara macabra de caveira para anunciar seu destino: a ida para o Inferno. Chegando lá, Dante descobre que para ele o inferno na real é um grande paraíso. Isso, claro, antes de descobrir que teria que vender sua alma para o Diabo. Lembram da informação que falei que era para guardar? Pois bem, chegou a hora. O diabo traja um elegante terno rosa e tem seu penteado lambuzado em gel. Com essa classe e estilo fica difícil esconder que o Diabo na realidade é Davey Havok. Segundo Tim, o vocalista do AFI amou fazer o capeta, e ao menos para mim ele encara o tinhoso com a mesma astúcia que teria se tivesse interpretando a Pantera Cor de Rosa. O pior de tudo é que ele atua bem e convence no papel.  Mas sem spoilers, porque vocês vão ter que ver!

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

Aproveitando o fato de ser músico e a dificuldade de vender discos na era do download e streaming, Armstrong conta que compor um disco para a série foi uma das coisas mais divertidas. Pegou o telefone e começou a discar para seus famosos amigos como Jack Grisham (vocalista do T.S.O.L.), os próprios  Fishbone e Davey Havok, entre outros. Diz que o ânimo foi tanto que em poucos dias tinha 50 canções prontas para seus 12 episódios. O disco foi entregue como “bônus” para quem comprasse o DVD do primeiro episódio da websérie. Pois é, nem sempre se vive apenas de contratos milionários…

“Pessoas não estão comprando tantos discos como elas costumavam fazer, então você tem que descobrir outras maneiras para conseguir divulgar seu trabalho. E eu definitivamente estou aberto a qualquer ideia que faça com que as músicas cheguem a elas”, contou em entrevista para a revista Rolling Stone.

Tim então propôs até em nota através do site da série que quem pagasse a quantia de 5 dólares receberia o episódio em alta resolução e o disco para download. Ele ainda faz um apelo no site através do recado: “Olá a todos, estamos lançando hoje o primeiro episódio de Rock’n’Roll Theatre, chamado “Dante”, em sua totalidade, mais um álbum meu cantando canções compostas para diferentes episódios da série em que estamos trabalhando.  ‘Rock’n’Roll Theater’ é uma série 100% D.I.Y., então se vocês realmente comprarem por $5 dólares, no lugar de baixá-lo ilegalmente, eu ficaria entusiasmado. Obrigado pela sua ajuda. – Tim.”

Bom, como podemos ver num rápida procura pela internet, o sonho de Tim de ter uma série com 12 episódios desmoronou. Talvez porque em sua tentativa em 2011, Tim ainda não tinha entendido como a indústria passou a funcionar. A base do consumo e pouco afeto pelo produto ou arte consumida, tudo virou meio descartável após duas ou três audições. E não foi só ele que errou muitas vezes tentando entender um mundo onde música/cinema/artes em geral eram consumidas para gerarem dinheiro para o topo da cadeia.

A pirataria de certa forma se transformou e solidificou, sendo um pé nas costas dos produtores de conteúdo e cultura. Uma pena, pois quem assiste “Dante” quer ver a brincadeira com os musicais – com um tom de humor sarcástico e cheio de boas inspirações e repletos de pastelão – continuar por mais tempo. Bom, não percam tempo e assistam, vale a pena.

The Weatherman traz influências de rock inglês em seu quarto disco, “Eyeglasses for the Masses”

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The Weatherman

No último mês, o nome The Weatherman apareceu nas notícias graças à um show para um público distinto e acrobático: os macacos do zoológico de Maia, que ganharam uma apresentação da canção de denúncia dos erros da humanidade “Calling All Monkeys” composta pela cabeça responsável pelo projeto, Alexandre Mourinho. A música faz parte de “Eyeglasses for the Masses”, recém-lançado quarto disco do músico português do Porto.

Citando como influências em sua página músicos tão díspares como Mozart, Elvis e Ramones, The Weatherman é um projeto solo de Alexandre, que conta com músicos de apoio em suas gravações e apresentações ao vivo. Seus três lançamentos anteriores (“Cruisin’ Alaska”, “Jamboree Park at the Milky Way” e “WEATHERMAN”) já mostravam o poder de sua criatividade, passeando por diversos estilos sem perder a personalidade, algo que só se pronunciou mais em seu quarto trabalho.

Conversei com Alexandre sobre The Weatherman, suas influências, músicas em português e a cena musical em Portugal:

– Como começou a banda?

Na verdade é um projecto solo, não uma banda. Começou quando em 2006, quando foi editado o primeiro disco, “Cruisin’ Alaska”. Esse disco foi totalmente gravado e tocado por mim, e desde então tenho tido colaborações de outros músicos, quer em disco quer ao vivo.

– De onde surgiu o nome The Weatherman?

Eu estava a ler por acaso sobre o movimento Weather Underground, que existiu durante os anos 60, e lembrei-me que The Weatherman seria um bom nome para o meu projecto… achei que encaixava bem e identificava-me com ele.

– Quais são as principais influências do projeto?

Particularmente discos que saíram entre a segunda metade da década de 60 e a primeira de 70, com primazia para coisas vindas de Inglaterra. Já agora, os Mutantes são uma das influências. Que grande banda e que grande inspiração!

– Me falem um pouco mais sobre o disco “Eyeglasses For The Masses”.

É um disco de canções pop, sempre com as melodias como prato principal. Fala sobre a minha desilusão/ esperança em relação às pessoas, principalmente no que toca a maltratarmos o planeta, e a nós mesmos.

The Weatherman

– Como o som de vocês evoluiu do álbum anterior, “Weatherman”, de 2013?

Este disco para mim é o que melhor define o som” Weatherman”. Uma mistura entre clássico e moderno, que quanto a mim resulta em algo intemporal.

– O rock feito em português está em baixa? Porque tantas bandas cantam usando a língua inglesa?

Penso que isso terá a ver com o facto de sermos um país periférico, susceptível de receber as culturas exteriores de uma forma muito aberta. Portugal por tradição nunca foi um país de proteger a sua própria cultura, infelizmente. Mas há boa música cantada em português, como também o há cantada em inglês. O importante, pelo menos do meu ponto de vista, é que a música seja boa, independente da língua em que é cantada.

– Como está a cena musical independente de Portugal hoje em dia?

Criativamente, a música feita em Portugal encontra-se numa fase extremamente produtiva e prolífera, com imensas coisas novas a aparecer todos os dias. É difícil vingar na música em Portugal, ainda por cima sendo independente. Mas sendo persistente as coisas normalmente acabam por acontecer.

Qual a opinião de vocês sobre os serviços de streaming? Eles são benéficos para bandas independentes?

Eu pessoalmente conseguiria viver bem sem o streaming. Penso que não faz justiça aos discos e às bandas. Mas admito que talvez sejam benéficos para bandas independentes, no sentido em que torna-se mais acessível para as pessoas conhecerem o nosso trabalho.

The Weatherman

– Quais os próximos passos do The Weatherman em 2016?

Continuar a apresentar este disco, a promovê-lo em todo o lado que seja possível, e dar concertos.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Soko, Of Montreal, Temples.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Fernanda Gamarano, vocalista do Der Baum

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Fernanda Gamarano
Fernanda Gamarano, do Der Baum

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Fernanda Gamarano, vocalista e guitarrista do Der Baum e da Intrínseco, além de fotógrafa e cozinheira, tendo participado inclusive da primeira temporada do reality show Cozinheiros em Ação do canal GNT.

Grafton Primary“All Stars”

“Essa banda australiana tem um som que remete os anos 80, mas tem aquele toque do eletrônico moderno com rock, conheci eles faz uns dois anos e não canso de ouvi los! Um som dançante e mto contagiante, o mais legal que eles são em tres, um batera, um vocal e um tecladista. Essa musica all star é viciante! Merece ser ouvida repetidas vezes”.

Polysics“Let’s Daba Daba”

“Esse som, essa banda é insana! Quem me mostrou eles foi o baixista da minha banda. Os caras existem faz um bom tempo, mas o som é mto original e diferente, pode se dizer que é um punk rock maluco eletrônico new wave! Só ouvindo e vendo eles pra entender o que estou falando!”

Lindemann“Praise Abort”

“Eu sou suspeita para falar do Till Lindemann (vocal do Rammstein). Esse projeto solo dele é muito recente, e esse som é duca***** ! O clipe da musica é insano a la Rammstein, e tem um tema bem polemico, o Aborto! Pra quem curte Rammstein e estilos parecidos vai curtir esse som!”

IAMX“Oh Cruel Darkness Embrace Me”

“Ta aí um som e uma banda que ninguém conhece e que é muito, muito foda! Elementos eletrock, um vocal que remete ao look do Marylin Manson! Essa musica é deliciosa de ouvir do começo ao fim! De o play e tente não balançar a cabeça ou bater os pés ao ouvi-la!”

Miami Nights 1984“Ocean Drive”

“Esse som é pra ouvir em uma pista de dança e ficar lá curtindo até altas horas! Relembrando as discotecas dos anos 80 mesmo sendo uma banda nova, o som é super original! Pra quem curte vibe electro dance indico esse som!”

Breaking News – 14 clipes e singles independentes lançados esta semana que você precisa conhecer

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Ryan Cassata
Ryan Cassata

Boogarins“Benzin”

Dirigido por Cléver Cardoso (Granada Filmes) com a atriz Salma Jô, o novo clipe dos Boogarins foi gravado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e é o primeiro feito para “Manual”, segundo disco da banda. O diretor explorou as belas paisagens e cachoeiras do local, em um clipe de encher os olhos (e que deve incentivar algumas viagens para o local).

Bumsonico“Muerta”

A banda mexicana lançou um clipe soturno para “Muerta”, faixa de seu segundo EP, “Meteora”. “A história do vídeo é contada ao contrário, começando pelo final. Uma garota com uma estranha doença que a faz entrar em crises destrutivas tem um parceiro que adora isso e a prende em um porão”, contam.

Peter 118“Need You More”

O Peter 118 é uma banda inglesa de punk cristão, puxando para o pop punk. A faixa “Need You More” ganhou um clipe dirigido por Ed Jervis faz parte de seu mais novo EP, lançado em 2016. Nele, os membros da banda assistem à vocalista na TV, quando descobrem que podem entrar na máquina de fazer doido com um desajeitado pulo diretamente do braço do sofá.

The Strollers“Six Foot Dirty Looking Beast”

O som sessentista do The Strollers ganha um clipe bem com cara de 60s produzido pela Crusher Records. A música faz parte do single “Gotta Get Away”, o mais recente trabalho da banda, lançado em abril.

Perro“Ediciones Reptiliano”

Os espanhois do Perro (que já entrevistamos aqui no blog) acaba de lançar o clipe para “Ediciones Reptiliano”, faixa do álbum “Estudias, Navajas”, de 2015. No vídeo, a banda deixa um pouco de seu humor de lado e mostra a história de um garoto negro que aparece em seu dia a dia lidando com preconceito e repressão dentro da escola.

Killimanjaro “Hurry, Bury”

Lindaço o clipe novo do Killimanjaro para “Hurry, Bury”. Dirigido por André MendesDiogo Lima, o trabalho de animação é de encher os olhos. A faixa faz parte do EP “Shroud”, que será lançado pela banda portuguesa dia 16 de junho pela Lovers & Lollypops.

Pinkwash“Gumdrop”

Pra quem gosta de pixelização e psicodelia visual extrema, o clipe do duo stoner Pinkwash para “Gumdrop” é um prato cheio. A faixa faz parte do álbum “Collective Sigh”, lançado pela grande Don Giovanni Records.

Bárbara Eugênia“Doppelganger Love”

Em um clipe mezzo-BDSM mezzo-narcisista (beijar a si mesmo seria considerado masturbação?), Bárbara Eugênia apresenta a ótima faixa “Doppelganger Love”. Com roteiro, direção de arte, produção e direção de Gustavo Guimarães, o vídeo apresenta ótimas intervenções de animação e estética inspirada no noir.

Black Coffee“Come With Me”

Com participação de Mque, a música “Come With Me” ganhou videoclipe nesta semana filmado em uma festa em um galpão no Brooklyn. Dirigido por Stacey Lee, o single mostra um pouco do trabalho do DJ sul-africano Black Coffee e conta com a apresentação de dançarinos profissionais.

The 69 Eyes “Jerusalem”

O que esperar do The 69 Eyes além de um clipe trevoso e gótico? Tirado do disco “Universal Monsters”, o clipe foi filmado e dirigido por Jyrki 69 e é, claro, em preto e branco. Ou você queria um gótico coloridinho? A música te leva de volta aos anos 80 em 5 minutos.

USé“Respire”

Tirado do disco “Chien d’la Casse”, o clipe de USé para “Respire” é uma doideira claustrofóbica com ares de anos 80 cheia de sintetizadores e ritmo frenético de fuga.

Arms“Stellary”

As simpáticas caveirinhas dirigidas por Lavinia Jones Wright para o clipe de “Stellary”, do Arms, dão o tom arrastado e gostoso da música, misturando texto . O som fará parte do disco “Patterns”, que sai no dia 3 de junho.

Ryan Cassata“Bedroom Eyes”

O cantor, compositor, ator, YouTuber, e ativista LGBTQ transgênero novaiorquino Ryan Cassata mostra sua bela voz no clipe de “Bedroom Eyes”, dirigido por Melanie Vesey. O clipe em preto e branco transmite o clima de Nova York e ajuda a música a grudar ainda mais na cabeça. Tá, o clipe foi gravado em um quarto de hotel em Los Angeles, mas eu achei bem novaiorquino, tá? Hunf.

Eric Krasno“Waiting On Your Love”

O guitarrista Eric Krasno já está na estrada há mais de 20 anos e traz um som moderno e bluesy em “Waiting On Your Love”, que acaba de ganhar um videoclipe. Seu novo disco, “Blood From A Stone”, será lançado dia 8 de julho pela Feel Music.

The Total Bettys lutam contra machismo no mundo da música: “As mulheres precisam se apoiar!”

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The Total Bettys

O punk não morreu, e para o quarteto de São Francisco The Total Bettys, o pop punk também não. “Nos identificarmos como band pop punk pode não ser “cool” como já foi, mas ainda existe um milhão de bandas pop punk por aí”, explica a vocalista e guitarrista do quarteto de São Francisco, Maggie Grabmeier. “Enquanto continuarmos fazendo música, manteremos o gênero vivo”. Também formada Bri Barrett (guitarra), Anthony Adani (baixo) e Chris Nolasco (bateria), a banda lançou o EP “Connect With The Couch” recentemente e está na estrada tocando pelos Estados Unidos e preparando-se para a gravação de seu primeiro álbum ainda este ano.

A líder da banda é firme quando o assunto é machismo no mundo da música e toda a dificuldade que mulheres infelizmente ainda enfrentam quando fazem parte de uma banda. “É difícil subir no palco sabendo que é possível que alguém grite comentários sobre seu corpo ou ver que não há nenhuma mulher na formação de bandas que tocam por aí”, diz. “A melhor arma contra o machismo no mundo da música é que as mulheres se apoiem e deem força ao sucesso umas das outras”.

Conversei com Maggie sobre este assunto, a carreira da banda, a conexão com o pop punk e o EP “Connect With The Couch”:

Bandcamp: https://thetotalbettys.bandcamp.com/
Facebook: https://www.facebook.com/thetotalbettys
Twitter: https://twitter.com/thetotalbettys

– Como a banda começou?

Eu me mudei para São Francisco depois de me formar na faculdade na Filadélfia, e estava muito motivada desde o começo em formar uma banda pop punk. Existe uma abundância de bandas punk incríveis em São Francisco, e eu estava morrendo de vontade de me inserir na cena. Primeiro eu conheci a guitarrista do The Total Bettys, Bri, por um anúncio no Craigslist que ela postou sobre querer fazer música com outras mulheres que amassem Sleater-Kinney e Ex Hex. Eu basicamente a amei imediatamente. Nós também conhecemos Anthony, nosso baixista, no Craigslist. Conhecemos nosso baterista Chris em uma noite de open mic onde ele tocou um medley de músicas do desenho Mulan.

– Quais as principais influências da banda?

Apesar de nós todos termos crescido ouvindo aquele pop punk icônico do começo dos anos 2000, pegamos muito de nosso energia de composição de músicos contemporâneos que estão fazendo barulho na cena atual. Eu especialmente acho que mulheres músicas me inspiram e me motivam. Bandas como Bully, Best Coast, Tacocat, Charly Bliss, Tancred… Eu amo todas.

– Como surgiu o nome The Total Bettys?

É uma frase do filme “As Patricinhas de Beverly Hills” (“Clueless”)! É um dos meus filmes preferidos, é super engraçado e eu me identifico muito com a personagem principal, Cher (além de amar seu estilo). A frase “total betty” significa uma mulher maravilhosa, e acho que nós quatro realmente simbolizamos isso.

– Me contem mais sobre o disco “Connect With The Couch”. De onde surgiu este nome?

“Connect with the couch” (“se conectar com o sofá”) é parte da letra de nosso primeiro single, “No Kings”. A música é toda sobre o conforto de ter um melhor amigo e todas as coisas gratificantes que melhores amigos compartilham. “Se conectar com o sofá” é uma das muitas coisas que faço com meus melhores amigos. Outras coisas (como é explicado na música) incluem ir à mercado de pulgas, ir à praia e tomar café da manhã, apenas para citar algumas.

– E como foi o processo de gravação do EP?

Bri e eu gravamos e produzimos esse EP juntas no apartamento dela. Honestamente, foi um trabalho duro, mas foi um dos sentimentos mais gratificantes quando ficou pronto. A Hand and a Half Records de Matt, amigo do meu irmão, nos ajudou na mixagem, e nós lançamos por conta própria. Bri e eu funcionamos muito bem juntas e ter o ouvido de produtora dela realmente ajudou o EP a ser o que é.

– Vocês se consideram uma banda pop punk, gênero que já foi considerado decadente (ou até morto). O que acham dessas afirmações?

Bom, nos identificarmos como band pop punk pode não ser “cool” como já foi, mas ainda existe um milhão de bandas pop punk por aí. Enquanto continuarmos fazendo música, manteremos o gênero vivo. Eu sou uma amante orgulhosa de pop punk, e não só porque me lembra de minha juventude rebelde; Eu me identifico com o estilo e o sinto em meu coração.

The Total Bettys

– Qual a opinião de vocês sobre o machismo na indústria musical? Vocês já sofreram com isso, sendo uma banda com integrantes mulheres?

Sim, o machismo ainda existe na indústria musical. Não apenas acho difícil para mulheres para se inserirem na cena e conseguirem sucesso (acredite em mim, ainda estou tentando), é difícil para mulheres subirem no palco sabendo que é possível que alguém vá gritar um comentário sobre seu corpo. É difícil comprar na Guitar Center quando os funcionários acham que ela não sabem de nada. É difícil fazer uma passagem de som quando o técnico de som dá em cima dela. É difícil olhar no calendários das casas de show locais e ver que frequentemente não tem nenhuma mulher na formação de nenhuma das bandas que se apresentarão. Infelizmente, a lista continua. Se tem alguma mulher e música lendo isso que queira falar sobre seus sentimentos ou experiências com machismo, por favor, entre em contato. A melhor arma contra o machismo no mundo da música é que as mulheres se apóiem e deem força ao sucesso umas das outras.

– Como é o processo de composição da banda?

Nós não seguimos sempre o mesmo processo especificamente! Normalmente, uma nova música começa com uma ideia de letra ou melodia vocal, mas Bri e eu estivemos trabalhando em começar música de riffs de guitarra ou progressões de acordes fora do comum. Cada membro da banda escreve sua parte da música, e editamos juntos. É um processo muito cheio de amor.

– Quais os próximos passos de The Total Bettys em 2016?

Tanta coisa! Estamos abrindo para os queridos do pop punk The Dollyrots em sua tour por São Francisco dia 3 de junho, e temos datas reservadas em julho para nosso próximo álbum, aí em agosto vamos fazer uma tour pelo sul da california, incluindo um show no Ladyfest em San Luis Obispo em 6 de agosto. Lançaremos nosso próximo disco antes do fim do ano, então fiquem de olho nisso!

– Recomendem bandas e artistas (especialmente se forem independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Agora estamos ouvindo muito de nossos novos amigos Jay Som, Horrible/Adorable e All Dogs!

Don’t Dream It, Be It: os delírios punks de The Rocky Horror Picture Show

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Rocky Horror Picture Show

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Não é de hoje que o punk rock se mistura com cabarés no melhor estilo Moulin Rouge. New York Dolls disse olá. Musicais são um território a parte como o maravilhoso “Hedwig & Angry Inch”, “O Fantasma da Ópera”, entre outros. Tributos punk sempre são divertidos porque você simplesmente não imagina que aqueles caras iam se meter a fazer um lance desses. Tributo à Disneyworld, Tributo aos cartoons de sábado de manhã… acredite se quiser: existem.

Seriados têm trilhas tão emblemáticas que não devem ser ignorados, alguns são verdadeiras escolas musicais, como a audaciosa trilha de How I Met Your Mother, que se atreveu a mostrar grupos como Guided By Voices, The Walkmen e Pavement para uma galera que talvez nunca daria a mínima para eles.

E pensando nisso que em uma conversa com o João ele chegou com a ideia de me oferecer uma coluna por aqui. Aceitei sem pensar duas vezes esse voto de confiança pois sempre me interessei por esse tipo de assunto e corria para ver a ficha técnica de filmes, séries, além da curiosidade por esses tributos de certa forma “exóticos”.

rocky-horror-poster

E nada melhor como começar com um senhor tributo, a talvez um dos mais cultuados musicais da história do cinema: The Rocky Horror Picture Show. Mas antes vocês precisam saber de um detalhe que muda tudo: antes de se tornar um filme, existia um musical (de teatro) e um livro escrito por Richard O’Brien.

O enredo na verdade é um bem humorado tributo aos filmes de ficção científica e filmes B do período de 1940-1970. Sendo assim, o musical conta a história de um casal recém casado que é pego de surpresa por uma tempestade. Com medo do temporal, eles acabam batendo na porta de uma casa com um ar freakie mal assombrado e são recepcionados por um travesti cientista que está no meio de um projeto audacioso: uma espécie de Frankenstein feito artificialmente, um crescido e musculoso “homem” chamado Rocky Horror, que leva consigo “um cabelo loiro e um bronzeado para ninguém colocar defeito”, segundo o cientista maluco.

The Rocky Horror Show ao vivo no Royal Court Theatre (Londres) em 1973.
The Rocky Horror Show ao vivo no Royal Court Theatre (Londres) em 1973.

A partir daí a confusão está montada e a jornada desesperada do casal se inicia (mas sem spoilers, por aqui não teremos esse tipo de estupidez: podem ficar tranquilos). A primeira vez que o espetáculo foi encenado foi no dia 16/06/1973 no Royal Court Theatre, em Londres, e teve como diretor Jim Sharman.

Scrypt da peça original
Scrypt da peça original

O sucesso foi tão grande que a peça ficou em cartaz por 7 anos. Foram quase 3000 apresentações e muitos prêmios por parte da academia local. Não demorou muito para a Broadway abrir o olho e ver uma oportunidade. Em 1974, Los Angeles teve sua primeira versão em território norte-americano. mas o destaque na terra do Tio Sam foi no ano seguinte, quando o Belasco Theatre foi palco para a versão da Broadway.

Sucesso em todo lugar que passou, o musical tem uma trilha de dar inveja a qualquer compositor. As letras são teatrais em sua essência e os diálogos são bastante ricos e filosóficos. Se tornar um símbolo cult era apenas questão de tempo.

filme
O filme teve a participação de elenco de todas as principais peças no eixo EUA-Inglaterra

Em paralelo a isso veio a ideia do musical para o cinema, uma parceira dos norte-americanos com os ingleses, com Jim Sharman no comando mais uma vez. O musical contou com atores de primeira linha como Tim Curry, Susan Sarandon Barry Bostwick, além do casting da Royal Court, do Roxy Theatre e do Belasco. Para manter a essência, o filme foi gravado em Londres. Curiosidade para os cinéfilos: alguns cenários foram reutilizados da produtora que participou do projeto, a Hammer Film Productions, que já tinha em seu currículo um vasto catálogo de filmes de terror.

Sue Blane foi a grande responsável pelo figurino e depois ganhou um grande reconhecimento e uma verdadeira legião de seguidores. A aproximação com o punk vem desde aí, quando Sue foi atrás da vestimenta e características do punk para montar o figurino. A maquiagem pesada, as tachinhas e o exagero na vestimenta das personagens no filme não são mera coincidência.

Os croquis de Sue Blane
Os croquis de Sue Blane

Tanto que anos depois de ser lançado, além de ser mantido em cartaz, muitos iam trajados com os figurinos das personagens às sessões. A cena era comum na cidade de Nova Iorque. Uma outra curiosidade é que mesmo mais de 40 anos depois de seu lançamento, ainda é a peça musical mais longa da história do cinema.

Cosplayers na Comic Con de Nova Iorque
Cosplayers na Comic Con de Nova Iorque

Seu legado até hoje chega às novas gerações e as conquista rapidamente. O tom de deboche, as causas sociais e o mundo mágico do teatro ainda fazem da peça-musical-filme um tremendo produto e a porta de entrada para esse encantado universo da dramaturgia.

Na segunda temporada de Glee, mais precisamente no episódio 5, que foi ao ar em 2010, rolou um tributo ao musical, “The Rocky Horror Glee Show”. Um senhor tiro no pé, diga-se de passagem. Quem não gostou nada disso foi o criador Richard O’Brien, que se expressou de maneira muito desapontante sobre a diluição do tema do musical. Achou super pejorativa e desqualificada a abordagem.

A releitura feita pelo pessoal do Glee os deixou em uma tremenda saia justa
A releitura feita pelo pessoal do Glee os deixou em uma tremenda saia justa.

Quem não ficou nada feliz também foi um representante da organização Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, que criticou o episódio como pejorativo pelo uso do termo “tranny” (uma versão debochada e pejorativa do termo “travesti”). Por outro lado, a revista Rolling Stone disse que foi o melhor episódio da história. Já o pessoal da A.V. Club falou: “a pior hora na história da série”.

Enfim chegamos ao tributo do dia: The Rocky Horror Punk Show. E que tributo, meu amigo. A iniciativa partiu pelo selo indie californiano Springsman Records no ano de 2003. A ideia era simples… E se as músicas do importante musical fossem tocadas em versões punk em seus diversos seguimentos?

Tributo punk ao musical contou com figurinhas carimbadas do punk californiano.

E a curadoria foi um show a parte.

O supergroup Me First & The Gimme Gimmes não poderia ficar de fora de um tributo de um selo californiano. O grupo tem integrantes de importantes bandas da região como NOFX, Swingin’ Utters, Foo Fighters e Lagwagon. Então a missão foi até que tranquila para eles, já que o projeto realiza covers desde o dia 1 de banda, estando juntos desde 1995. A versão escolhida foi a de “Science Fiction/Double Feature”. Quem canta na faixa é Joey Cape (Lagwagon), e a versão ficou com uma levada oldies mesclada com punk rock. Sing-alongs e aquela vibe powerpop são perceptíveis no conjunto da obra. Moshar ao som de The Rocky Horror Picture Show nunca foi tão possível.

“Dammit, Janet” foi a escolhida pelo Love Equals Death e tem uma levada mais pesada, quase hardcore, com bateria 1-2 e descendo a marretada no bumbo. A banda que já não existe mais contava com membros de bandas como Tsunami Bomb e chegou a estrelar no casting da Fat Wreck Chords.

O Alkaline Trio não poderia ser escolha mais do que acertada neste tributo. O vocalista Matt Skiba, que tem se aventurado paralelamente hoje em dia no Blink 182, é fã fervoroso do universo dos filmes de terror e do ocultismo a muito tempo. Tanto que algumas músicas do grupo soam um pouco macabras, misturando drogas, filmes B e poesia gótica. “Over at the Frankenstein Place” ficou perfeita, cheia de escuridão e melodia acertada nos vocais.

“The Time Warp” foi interpretada pelo The Groovie Ghoulies. Uma das bandas mais legais que já existiram no cenário punk/bubblegum dos EUA. Escola Ramones, The Queers, Riverdales e tantas outras que nunca nos cansamos de ouvir. A versão ganhou uma levada surf rock punkanesca que te tira para dançar com uma facilidade que assusta.

“Sweet Transvestite” é interpretada pelos obscuros Apocalypse Hoboken, uma banda seminal de Chicago que durou de 1987-2001. Algo na linha do Hudson Falcons com Mudhoney, eu diria. E se surpreende quem acha que a versão ficou qualquer coisa. É incrível, com uma levada Stooges misturada ao punk nova iorquino dos anos 70. Ela consegue evocar o espírito do strip-tease.

The Independents ficou encarregado de fazer a versão de “The Sword of Damocles”, uma banda de horror punk/ska. Que fez uma versão desgracenta na levada ~Elvis Presley is dead~, com o recurso de um órgão na melhor levada rocksteady e guitarradas distorcidas com o melhor dos 50’s.

Os pouco conhecidos mas com muita quilometragem do Pansy Division ficaram o desafio de tocar “I Can Make You a Man”. Eles colocaram trechos das falas do musical como introdução da música e a música é cheia de loopings e guitarras sem muita perfeição, cheio que quebras a cada “ato” da canção.

Já o The Phenomenauts, com sua levada powerpop / garage punk / 77 revival / New Wave mandaram ver em “Hot Patootie (Bless My Soul)”. Talvez a versão mais interessante e transgressora do tributo, guitarradas a la New York Dolls e a transgressão de grupos como The Weirdos e X são perceptíveis. A festa e o mosh estão realmente completos depois desse som. Temos até que tomar um pouco de ar depois de ouvir.

The Secretions foi responsável pela cota Devo do disco. “Devo Hillbilly”, eu diria, tudo isso com intervenções de vocais femininos. “I Can Make You A Man (Reprise)” é rápida feito um tiro.

Chubbies é a cota Hole do tributo. “Touch-A, Touch-A, Touch Me” ganhou uma versão sedutora, açucarada e perigosa. Ela sensualiza com a canção de uma maneira que jamais poderia ser cantada por marmanjo algum.

Já a cota Ska/Reggae/Rocksteady fica por conta da banda de Boston Big D & The Kids Table“Once in a While” é interpretada com um vocal sutil, os metais calmamente ganham seu espaço e o tributo mostra sim que o ritmo caribenho é um tremendo acerto na miscelânea do tributo.

Os mestres do Swingin’ Utters pegaram a bucha de regravar “Eddie’s Teddy”. Quem viu o filme sabe do que eu estou falando, ela é um dos pontos altos do enredo, e uma tremenda responsabilidade. O vocal é inconfundível, e o baixo não deixa mentir: é a marca registrada do grupo. Os membros interpretam os personagens através da entonação, o que resulta como a cereja do bolo.

Tsunami Bomb ficou responsável por dar (sobre)vida a “Planet, Schmanet, Janet”. A banda riot girl chega com tudo, solando a face de quem se atrever a passar pela frente. Uma levada rockabilly é perceptível na levada do baixo. Uma grande homenagem ao rock, com elementos como piano e diálogos interpretados com vigor.

“Rose Tint My World/Floor Show” ganhou vida através dos pouco conhecidos do Luckie Strike. Fique tranquilo que não é vinheta da marca de cigarro, ok? Mais uma vez, as meninas ganham espaço, mas a atmosfera é mais hillbilly/punk, o famoso punkabilly. Impossível não tirar o pé do chão.

“Fanfare/Don’t Dream It” caiu na mão do Stunt Monkey que fez uma versão bem com a cara das bandas californianas da década de 90, pop punk. Com um adendo: parece que o vocalista tem verdadeira obsessão pelo Ramones, se vocês pararem para reparar. Impossível não cantar, para mim é a melhor canção/cena do musical. A letra é transgressora em tantos sentidos. A libertação sexual e viver dos seus sonhos é a melhor mensagem que sintetiza com supremacia o musical.

“Wild and Untamed Thing” ficou por conta do Gametime, que fez uma versão a la Descendents de encontro com o Screeching Weasel. Com direito a um solo muito bem calculado servindo de quebra na rápida canção que é cheia de altos e baixos. Se gostou, procure por uma banda chamada The Masked Intruder.

The Migranes executa “I’m Going Home”, com uma atmosfera dark como os Misfits cansaram de fazer. Punk rock básico com sing-a-longs, a cara da Califórnia. Mas longe de ser o ponto alto do disco. Talvez até descartável.

“Super Heroes”, performada por Ruth’s Hat, é a penúltima faixa do disquinho. É melancólica, me lembrou um pouco a versão de “My Way” que Sid Vicious fez por algum motivo que não consigo explicar direito para vocês. Mas é super gostosa de ouvir, soa toda estranha e destaca a música que é sensacional por si só desde o musical.

Para fechar o disco com chave de ouro, nada como chamar o The Ataris. Banda que tem canção de noivado citando a Disney até. Musicais são importantes na vida do vocalista, pelo visto. Apesar disso a versão foi gravada meio em qualidade lo-fi como se ele tivesse tentando imitar Joey Ramone em seus discos solo. Não sei se foi bem essa intenção, mas para mim soou como.

O tributo serve como uma bela homenagem a toda essa história. E caiu como uma luva naquele ano de 2003. Já que como contei no meio do texto, o punk – sua cultura e emancipação – estiveram presentes desde o início das filmagens do musical. A transgressão de valores, a liberdade de escolha sexual, a queda de valores de uma sociedade hostil são temas presentes desde o livro. Ou seja, nada como o punk para erguer mais uma vez essas bandeiras que ambos cultivam.

Algo que funcionou perfeitamente. Já o Glee fez um episódio que denigre a imagem da obra e ofende quem não deveria ser ofendido de forma alguma: a comunidade LGBT. Ou seja, uma baita bola fora. Mas fica a lição, se for mexer na obra, que seja com tremenda delicadeza, bom gosto e despido de qualquer preconceito. Don’t Dream It, Be It!