10 bandas pós punk que não tiveram o reconhecimento merecido

10 bandas pós punk que não tiveram o reconhecimento merecido

25 de setembro de 2019 0 Por Lucas Krokodil

Quando pensamos em pós-punk, vem à cabeça delineadores, tristeza, Inglaterra, The Cure e Joy Division. Mas na lista de hoje, vamos elencar excelentes bandas que não tiveram o reconhecimento merecido e que apesar de serem páreo para as grandes bandas do movimento, não emplacaram como deveriam:

10 – The Sound

Falando em tristeza temos o The Sound, quarteto londrino que produziu 5 álbuns de 1979 a 1988. Encabeçado por Adrian Borland, que compunha, cantava e tocava guitarra e chegou a ter alguns ótimos projetos paralelos como o Witch Trials, em 82, com Jello Biafra. Infelizmente, Adrian sofria de depressão e esquizofrenia. O EP de estreia de 1979, “Physical World”, chamou a atenção da crítica e do lendário John Peel, o que resultou no contrato WEA para gravarem um álbum. Em 1980 , lançaram o álbum de estreia, “Jeopardy”, seguido de “From the Lions Mouth” em 1981, ambos reverenciados pela crítica. Mesmo fazendo shows lotados e turnês pela Europa, seus discos não tinham sucesso comercial e ninguém sabia o porquê. Em 1982, pressionados para produzirem um disco mais comercial, responderam em protesto com o disco “All Fall Down”, que não atendeu às expectativas e não chegou ao mainstream, terminando o contrato. De 1982 a 1988, a banda passou por selos menores, lançando mais 3 outros trabalhos que não obtiveram muito sucesso. Em 1985, Adrian sofreu um surto psicótico, foi internado em uma instituição psiquiátrica e diagnosticado com esquizofrenia. A banda terminou em 1988, pois os membros perderam a esperança que o negócio iria virar. Adrian começou sua carreira solo no mesmo ano e lançou vários álbuns, nunca obtendo sucesso comercial. Em 26 de Abril de 1999, ele tirou sua própria vida ao pular na linha do trem em uma estação na Inglaterra. Foi a sua quarta e final tentativa após viver com um quadro grave de depressão por mais de 14 anos. Seu falecimento foi no mesmo dia do lançamento do álbum de B-sides do início do The Sound.

Confira o The Sound com “Golden Soldier” e uma entrevista com Adrian Borland na Holanda em 1987: 

Aqui, o trailer do documentário “Walking In the Opposite Direction”, sobre a trajetória de Adrian, lançado em 2016 na Inglaterra:

9 – Manicured Noise

Junte trilhas de filme com jazz, funk e instrumentos de sopro e você vai ter uma banda de post-punk. Isso, acertou! Por mais que seja uma combinação improvável, temos essa banda como um exemplo de como sonoridades diferentes podem ser transformadas algo único. Formado em 1978, o Manicured Noise foi uma banda obscura que não se tem muitas informações, apenas que são de Manchester. A banda era liderada por Steven Walsh, guitarrista e vocalista (ex-membro da banda Flowers of Romance, de onde saíram alguns membros das bandas Slits, Siouxie and the Banshees e ninguém menos que Sid Vicious, do Sex Pistols), Stephanie Nuttall na bateria (guarde esse nome!), Jodie Taylor no baixo, Peter Bannister no saxofone e clarinete, Owen Gavin nos vocais e Jeff Noon na segunda guitarra. O único álbum deles na verdade não é um álbum, e sim um compilado de singles de 1979 a 82.

Lembram da Stephanie? Depois do Manicured Noise, ela se mudou para a Argentina com Luca Prodan, amigo da banda que saiu da Inglaterra por conta do vício em heroína. Em 1982 eles formaram a banda Sumo, que ficou bem famosa e é reconhecida na Argentina por introduzir o pós-punk na cena local, mesclando com ritmos de reggae:

Stephanie continua viva e atualmente voltou para Inglaterra. Luca faleceu em 1987, mas até hoje é reverenciado como uma figura para o rock argentino. Abaixo um mini documentário sobre ele da VH1:

3 – Blitz

Para quem não conhece, o Blitz foi uma banda de oi!/street punk que esteve ativa entre 1980 a 1982, subsidiados pelo selo No Future como artistas principais do catálogo, mas devido a uma disputa interna da banda eles mudaram da noite pro dia de punk para pós punk. Alguns membros não queriam se desvincular de sua base de fãs e proposta, enquanto outros buscavam mais aproximação comercial e utilizar o nome da banda que já tinha um certo reconhecimento para ter mais approach. O “Second Empire Justice” é um álbum lançado em 1983 que quando se está escutando parece que é um meio termo entre Joy Division e New Order. Eles foram os precursores da utilização de sobreposição de drum machines, antes mesmo do Sisters of Mercy. O álbum foi gravado e produzido pelo Cris Nagle, que já havia feito alguns trabalhos com o Joy Division. A curiosidade é que a produção foi abandonada no meio do processo e o Cris terminou os instrumentos e lançou o material:

4 – Another Sunny Day / The Field Mice

Imagine alguém que cante parecido com o Morrissey e toque parecido com o Johnny Marr. Agora imagine que esse alguém faça os dois ao mesmo tempo e você terá o Harvey Williams! Ele participou desses dois projetos incríveis, ambos lançados na década de 80, quando inclusive participou de outra banda chamada Hit Parade. Apesar de chamar a atenção, seus singles não emplacaram, e na década de 90 Harvey desistiu da música como carreira e começou a trabalhar na BBC, tocando esporadicamente.

5 – Ghost Dance

Criada em 1985, a banda Ghost Dance tinha uma formação promissora: o ex-guitarrista e um dos fundadores do Sisters of Mercy, Gary Marx, com a vocalista do Skeletal Family Annie-Marie Hurst, e apesar de terem músicas originais, eles também não vingaram e em 1989 cessaram atividades depois de passarem por duas gravadoras. Seu maior sucesso foi uma versão mais soturna de “Heart Full of Soul” do Yardbirds:

6 – The Chameleons (ou Chameleons UK)

Fundada em 1981 na cidade de Manchester, a The Chameleons – muitas vezes chamados de Chameleons UK pelo fato de outra banda existir com o mesmo nome nos EUA – era formado por Mark Burgess no baixo e vozes, Reg Smithies e Dave Fielding nas guitarras e John Lever nas baterias. Após tocarem no programa do John Peel em 1982, eles conseguiram um contrato com a gravadora lançando o EP “In Shreds” no mesmo ano:

No mesmo ano, eles saíram da gravadora por conflitos de interesses: enquanto a gravadora queria que eles tivessem mais apelo comercial, os Chameleons queriam continuar independentes.

Em 1983, lançaram o álbum “Script of the Bridge” pela gravadora pela Statik Records, que foi aclamado pela crítica. O grupo foi chamado de “arquitetos sônicos” devido à ambiência que criavam em suas gravações e apresentações. Este álbum não teve impacto comercial, pois a Statik era uma subsidiária da Virgin Records na Inglaterra e isso os impossibilitava de serem enquadrados nas paradas musicais das rádios como banda independente. Isso também resultou em menos cobertura da mídia especializada inglesa, sendo que a divulgação do material nos EUA – mercado alvo para as bandas da época – também não foi muito intensa, sendo que o lançamento lá foi reduzido: das 12, apenas 8 faixas foram lançadas na versão norte-americana do álbum.

O segundo álbum de 1985 foi “What Does Anything Mean? Basically”, que consolidou a banda e permitiu que assinassem um contrato com uma gravadora maior em 1986: a Geffen Records, lançando o último disco da banda: “Strange Times”. A banda terminou no ano de 1986. Em entrevistas, Mark Burgess cita alguns motivos como atritos internos, a vontade da banda de se manter independente, a falta de investimentos das gravadoras em videoclipes e a descrença de que meios midiáticos como a MTV novos trariam algum retorno financeiro. O motivo “oficial” foi que nesse mesmo ano o empresário da banda faleceu devido a um ataque cardíaco fulminante. Depois do fim da banda, emergiram dois novos projetos:

The Sun and The Moon, projeto de Mark com John Lever:

E a banda The Reegs, de Reg Smithies com Dave Fielding:

John Lever faleceu em 2017, e Mark Burgress tentou uma carreira solo que não deu muito certo na década de 90. Atualmente ele faz shows e turnês com o Chameleons Vox, projeto que toca as músicas da banda com uma banda de apoio :

7 – Skeletal Family

Annie-Marie Hurst aparece de novo em nossa dobradinha com o Skeletal Family, formada também na Inglaterra no ano de 1982. Em 83 lançaram o primeiro single, “Trees”, e conseguiram um contrato com a gravadora Red Rhino. Após várias mudanças na formação da banda, lançaram o álbum “Burning Oil”, gravado em quatro dias e custando apenas 640£. O disco ficou no top 10 de bandas independentes do Reino Unido durante um ano, chamando a atenção e rendendo um convite para a tour de lançamento do álbum “First Last and Always” do Sisters of Mercy. Até 1986 a banda lançou mais alguns singles depois de assinar com a Chrysalis Records, mas terminou logo, pois Annie queria seguir com um novo projeto com Gary Marx, que tinha saído recentemente do Sisters of Mercy, o Ghost Dance.

Em 2017 eles se reuniram para tocar em um dos principais festivais góticos, o Wave-Gotik-Treffen na Alemanha.

8 – Kleenex / LiLiPUT

Finalmente na nossa lista uma banda que não é da Inglaterra! O Kleenex é uma banda formada em 1978 em Zurique. No mesmo ano lançaram o EP de estreia, que chamou a atenção da Rough Trade, que assinou um contrato com a banda. Em 79 tiveram mudanças na formação da banda e lançaram o primeiro single pelo selo, “Ain’t You“, mas foram processadas pelas indústrias Kimberly-Clark por uso indevido do nome Kleenex, produto mais comercializado da marca na época, forçando a banda a mudar de nome para LiLiPUT (desse jeito mesmo). A banda terminou em 1983 após lançar dois singles e dois álbuns. A mudança de nome foi algo desgastante para banda, junto com as mudanças dos integrantes e por fim a vocalista Astrid Spirit ficou grávida e decidiu não seguir mais com os compromissos da banda.

9 – A Certain Ratio

A Certain Ratio começou com Simon Topping na guitarra e Peter Terrell nos sintetizadores como um duo. Pouco depois vieram Jez Kerr no baixo e vozes e o trompetista e guitarrista Martin Moscrop. A banda tocou durante um ano sem um baterista. Em 1979 eles lançaram o single “All Night Party” pela Factory Records, sendo empresariados pelo lendário Tony Wilson – empresário do Joy Division, New Order e muitas outras bandas de Manchester, além de ser um dos sócios da gravadora e da lendária casa noturna Hacienda – que os anunciou como “os novos Sex Pistols”. O single vendeu 5.000 cípias e em outubro do mesmo ano eles foram convidados para participar do programa BBC1 do John Peel. Aí sim eles precisaram de um baterista e quem preencheu a posição foi Donald Johnson. No video abaixo, temos um trecho do filme “24h Party People” de Steven Walsh em que o ator que representa o Tony Wilson comenta sobre a banda:

1980 foi um ano de muitos acontecimentos para a banda: foi lançado o álbum “The Graveyard and the Ballroom”, um compilado de demos e gravações ao vivo, lançaram o single “Shack Up”, que foi sucesso nas paradas da Inglaterra e em 1981 chegou na posição numero 46 da Billboard dos Estados Unidos. Neste mesmo ano foi fundada a banda Kalima (que inicialmente se chamou Swamp Children), com todos os membros do A Certain Ratio exceto o baterista Donald Johnson. Em 1982 a banda se dissolveu após um ano do lançamento do primeiro álbum da banda, “To Each”. Enquanto alguns seguiram na banda Kalima, outros seguiram projetos paralelos e ao longo dos anos 80 e 90 eles fizeram alguns lançamentos esporádicos. Nos anos 2000 se reuniram novamente e lançaram o último álbum, “Mind Made Up”, em 2008. Por mais que a banda seja uma das precursoras do gênero, a maior influência sempre foi o R&B e funk norte americano, sempre citando Earth Wind and Fire, Parliament e Funkadelic. Ao longo da carreira a banda foi se diversificando e incluindo sonoridades latinas e groove, se distanciando um pouco do post-punk, mas sempre foram citados como influência por Ian Curtis, David Byrne e até o Red Hot Chilli Peppers.

10 – Slits

Terminando nossa lista com uma das bandas mais importantes do gênero, considerada umas das precursoras, o Slits! Banda formada após o termino do Flowers of Romance – já mencionado acima – em 1976 na Inglaterra, passou por várias formações, mas teve como formação inicial Ari Up nos vocais, Viv Albertine nas guitarras e Palmolive na bateria. Todos os membros dessa banda possuem trajetórias muito particulares: Ari Up começou o Slits aos 14 anos, vinda de uma familia progressista, e seu padrinho era nada menos que Jon Anderson, vocalista da banda Yes. Sua mãe, Nora foi amiga de Jimi Hendrix e em 1979 se casou com John Lydon (vulgo Johnny Rotten do Sex Pistols). Ela aprendeu a tocar guitarra com Joe Strummer e sua casa era conhecida como um refúgio punk, sua mãe Nora costumava receber e hospedar punks que não tinham como se manter. Palmolive vem de uma família espanhola e se mudou para uma ocupação hippie em Londres com seu companheiro Graham Mellor, que ao se juntar ao The Clash mudou de nome para Joe Strummer. Em 1976 conheceu Ari Up em um show da Patti Smith. Viv Albertine era da Austrália mas se mudou para Londres para estudar arte, era membra do fã clube do Sex Pistols e na época tinha um relacionamento com Mick Jones. Ao sair da banda na decada de 80 tocou na banda Raincoats. Em 1978, a banda seguiu em turnê junto dos Innocents como banda de apoio para o The Clash, mas no período entre 76 a 78 a banda chamou atenção da cena underground devido a suas apresentações energéticas e com personalidade única. Ao longo desses anos, a banda veio a incrementar sua sonoridade tornado-a mais “palatável”. Após tocarem no programa de John Peel lançaram seu único disco em 1979, o “Cut” que foi considerado como um dos guias do movimento pós-punk.

O grupo nunca se deixou contaminar por interesses comerciais e sempre tiveram uma atitude de contestar o machismo que imperava na época. Como primeira banda feminina com espaço na Inglaterra não se renderam ao sex appeal que era esperado e construíram sua narrativa em seus próprios termos, o que chocou muito a sociedade machista da época.

Com o fim da banda em 1982, Ari Up se mudou para Belize e depois para Jamaica, montando projetos Dub, vindo a falecer em 2008. Viv Albertine se tornou uma diretora cinematográfica e fez vários trabalhos para a BBC. Em 2010 lançou o EP “Flesh” pelo selo musical de Thurston Moore (Sonic Youth), Palmolive também tocou no Raincoats e em 1979 fizeram uma tour com o Kleenex.

Trecho de show e entrevista da banda em 1970:

O disco “Cut” na íntegra: