A poderosa imagem de Patti Smith segundo KT Tunstall em “Suddenly I See”

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KT Tunstall
KT Tunstall

Eu sempre achei essa música, “Suddenly I See”, legal. Isso mesmo: apenas legal, agradável, uma bela canção pop com pegada meio bluesy ou soul – soul de branco, mas ainda soul. É daquelas que você fica cantarolando o dia inteiro sem perceber, e que sempre que toca no rádio dá um ânimo e uma alegriazinha. A letra sempre me remeteu à descrição de uma garota independente e jovem, mas de uma maneira meio genérica.

Porém, ao descobrir a verdadeira inspiração de KT Tunstall para escrever seu maior hit, a singela canção torna-se muito mais do que genericamente “legal”, mas uma comovente declaração sobre inspiração e referência artística. É um daqueles casos em que saber o real significado da canção para o autor contribui e muito para a beleza da letra. De fato, ela fala sobre uma garota independente e jovem, mas sobre uma específica: Patti Smith.

A letra de “Suddenly I See” descreve o momento em que KT, com seus 27 anos, descobre o porquê de estar fazendo o que ela está fazendo, e buscando o que estava buscando. No caso, ela estava há quase dez anos vivendo uma vida de perrengue, abrindo mão de dinheiro, viagens, conforto, para se dedicar à música, tocando em barzinhos e na rua. Até que ela decidiu que deveria gravar um disco e buscar um contrato em uma gravadora. É aquele ponto em que sentimos uma necessidade estranha de justificar nossas escolhas, tanto perante o mundo, quanto perante nós mesmos, e decidimos dar um passo adiante. Isso a fez refletir algo do tipo “Afinal, que tipo de artista eu quero ser?”. E, segundo a cantora, a resposta veio através da capa do “Horses” (1975).

Patti Smith é uma das artistas favoritas de KT. Naquele momento de reflexão, enquanto contemplava a capa de “Horses”, a icônica foto da Patti Smith mostrou uma jovem cheia de ‘maturidade e sabedoria’ [palavras da própria KT, estilosa e convicta. Suddenly I see this is what I want for me/ De repente eu vejo que é isso que eu quero para mim.

A partir daí, a letra de “Suddenly I See” surgiu como uma declaração de admiração, e com um tom afirmativo do que a artista não só admira, mas também busca para ela mesma. A maneira fascinada com que a jovem KT descreve a jovem Patti chega a ser comovente e contagiante. E, principalmente, é linda a maneira com que sua heroína lhe inspira e dá forças.

And she’s taller than most
And she’s looking at me
I can see her eyes looking from a page in a magazine

[Adoro essa última parte:]

She makes me feel like I could be a tower
A big strong tower, yeah
The power to be
The power to give
The power to see

[E ela é mais alta que a maioria/e ela está olhando para mim/eu consigo ver seus olhos me olhando de uma página em uma revista/ela me faz sentir como se eu pudesse ser uma torre, uma torre grande e forte/o poder de ser/ o poder de dar/ o poder de ver]

Afinal, a melhor admiração é aquela que, além de nos inspirar, nos faz sentir fortes e nos ajuda a encontrarmos a nossa própria essência. E é essa a lição que KT Tunstall nos ensina com sua homenagem à ‘ídola’ Patti Smith.

Entre o Machado de Assis e de Xangô, Baco Exu do Blues marca o rap nacional com “Esú”

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Primeiro álbum de Baco Exu do Blues, Esú

Na última semana viralizou nas timelines de quem nem é habituado a ouvir rap a música “Te amo Disgraça”. Pessoas de vários nichos sociais diferentes estão compartilhando e escutando rap e, dessa vez, não é não é um cantor classe média, não é um rapper diplomático que só conversa com universitários e, principalmente, não é um grupo de brancos falando de futilidades e nem alguém do sudeste. É um negro, nordestino, que fala de forma suja ainda que cante sobre literatura. É o rap sujismundo, como ele mesmo diz em uma das músicas que canta e traduz bem a realidade que o leva a compor.

Baco Exú do Blues é um compositor impecável, está acima de muitos compositores da música de elite e a importância sociocultural de um artista do rap, música de favela, ter esse nível, tem que ser reconhecida. Em tempos onde as composições ficam cada vez mais rasas, com conteúdos que falam de uma realidade que soa distópica, a profundidade vir dos ditos “marginais” é um fenômeno social, é uma revolução.
“Esú”, o primeiro álbum de Baco, é mergulhado em referências da literatura brasileira, com grande ênfase na obra de Jorge Amado. Ele é filho de professora de literatura, o que deixa claro que essa influência não é proveniente de prepotência intelectual alguma, mas da vivência pessoal do autor, além do quê, a própria obra de Jorge Amado, que influenciou muito a construção de “Esú”, é um ode à Bahia e ao Nordeste em sua forma mais nua e crua, com louvores à tudo que é visto de maneira marginalizada pelo sudeste, essa mesma intenção foi refletida em cada detalhe do álbum.

Baco consegue levar o privilégio do conhecimento que tem à todos os públicos. Sem ser pedante e elitizado, ele consegue falar, entre tantas outras coisas, de Almodóvar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Baden Powell, mitologia grega, negritude, desigualdade social, distúrbios psicológicos e suicídio. Muitas vezes a música e a arte em geral não conversam com todos, principalmente com a periferia, mas a linguagem, a simplicidade e a genuinidade que ele carrega na atitude, leva essas mensagens à lugares onde não existe o debate sobre esses temas. Essa linguagem aparentemente “chula” que Baco adota propositalmente é no mínimo genial e faz parte desse ato. Ela incomoda, ela traz desconforto, principalmente para os ouvidos do sudeste ou de quem não pertence à realidades marginalizadas, parar para refletir sobre os porquês desse incômodo é fundamental para quebrar barreiras de comunicação, é um desaforo aos preconceitos linguísticos. Ela conversa com um público além dos universitários e bem-letrados, ela transmite informação para fora dos nichos sociais de praxe, coisa que muitos artistas, inclusive do rap, pararam de fazer. Esse compartilhamento de informações que quase sempre são restritas à classe média, vai na contramão do comportamento de muitos artistas e pseudo-intelectuais. Hoje vemos pessoas com ciúmes dos seus autores, artistas e bandas favoritos, rindo da cara de quem não tem o mesmo conhecimento musical, com toques de preconceito linguístico, usando de “privilégios intelectuais” para se sobressair socialmente, como se quem não conhecesse milhares de livros ou músicos requintados fossem menores, ignorando o fato de que nem todos têm o mesmo acesso cultural e a mesma realidade social.

Baco sempre criticou todo tipo de segregação sociocultural, estourou ano passado com a música “Sulicídio”, feita em parceria com Diomedes Chinaski, com produção de Mazili e Sly. A diss virou o rap nacional de cabeça pra baixo ao questionar de forma agressiva como o rap nordestino era desvalorizado enquanto o do sudeste era supervalorizado, atacando diretamente os grandes rappers que estavam em evidência. A intenção era mostrar como existem barreiras sociais que impedem a música nordestina de ter o devido reconhecimento e, só um grito escandaloso poderia acordar o país para essa questão. Com “Sulicídio”, o rap do nordeste voltou a ter visibilidade e o questionamento sobre a segregação no hip hop veio à tona, paralelamente, Baco recebeu uma grande notoriedade acompanhada de ameaças, um paradoxo de amor e ódio que o levou à uma depressão, descrita em vários momentos nas faixas de “Esú”. Essa crise ficou clara em En Tu Mira, que foi divulgada em prelúdio para o álbum, ali ele falava das cobranças e conflitos durante o processo criativo e sobre o tão falado “ano lírico” que foi prometido em Poetas no Topo 2, uma provocação às composições rasas que estavam no mainstream do rap nacional. De fato, 2017 trouxe composições mais profundas, protagonizadas por diversos artistas do rap, Baco veio com Esú para coroar de vez esse ano como lírico.

A intro, de cara, traz scratches de KL Jay (Racionais MC´s), participação da Orquestra Afro Brasileira e beat feito por Scooby Mauricio. A criação dos beats das outras músicas do álbum ficou por conta de Nansy Silvvs que ousou em trazer cânticos em Iorubá, maracatu, guitarra baiana e batuques de candomblé. As fotografias do livro “Laróyè”, de Mario Cravo Neto compõem a parte artística, cada imagem traz um significado único às faixas com maestria. Em tempos conservadores e de intolerância religiosa, uma obra que ataca os pilares racistas, religiosos e morais da sociedade desde a arte da capa até os beats, é um ato revolucionário.

Sobre as faixas, vale destacar três:

“Esú”:
Música destaque do álbum. Novos Baianos sendo homenageados no sample, letra impecável repleta de referências e versos de peso:

“Garçom, traz outra dose, por favor, que eu tô entre o Machado de Assis e de Xangô”

“Dance com as musas entre os bosques e vinhedas. Nesse sertão veredas e sentir é um mar profundo, nele me afundo até o fundo, insatisfeito com o tamanho do mundo”

“Capitães de Areia”:
Título que homenageia a maravilhosa obra de Jorge Amado que contesta as diferenças sociais em Salvador. Clara referência musical à Nação Zumbi e ao mangue beat. Essa música mostra que o álbum utiliza em vários pontos a mesma fórmula de “Da Lama Ao Caos” . A letra ataca sem piedade:

“Eu tô brindando e assistindo um homofóbico xenófobo apanhando de um gay nordestino. Eu tô rindo vendo uma mãe solteira espancando o PM que matou seu filho. Me olho no espelho, vejo caos sorrindo”



“Te Amo Disgraça”:
A música mais popular do álbum, acredito que por falar de amor e sexo de uma forma escrachada, sem ser pudico. Fez muito sucesso entre mulheres que, com certeza, estão cansadas de canções que falam de romances perfeitos e triviais. Ninguém quer mais ser a “Minha Namorada” de Vinícius de Moraes, os tabus foram quebrados e os relacionamentos não têm mais a obrigatoriedade do moralismo. A priori, o termo “disgraça” (com essa grafia mesmo) chocou alguns, mas Baco já explicou que esse é um termo comum em sua região. Inserir um termo tão chocante, ao meu ver, é parte da construção lírica e da intenção dessa música.

Louvamos Kendrick Lamar, mas no Brasil temos material à altura. “Esú” é, sem dúvidas, um dos álbuns do ano. Um marco não só no rap nacional mas também na música. Baco Exu do Blues de fato é o karma da cena, criado pela cena pra matar a cena, que precisa morrer para renascer lapidada e sem cabresto social.

O álbum completo está disponível gratuitamente em diversas plataformas virtuais: https://onerpm.lnk.to/BacoExuDoBlues

Sugiro conhecer o álbum através do Youtube, acompanhando as fotografias de Mario Cravo Neto e as letras simultaneamente:

Festival PIB – Produto Instrumental Bruto comemora 10 anos de resistência

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O PIB – Produto Instrumental Bruto é um festival de bandas instrumentais que acontece desde 2007 e visa promover a cultura da música instrumental contemporânea e inovadora em toda a sua diversidade de estilos musicais. Nesses 10 anos, o festival já apresentou 65 shows de 52 novas bandas instrumentais de 14 estados brasileiros e em 2017 completa 10 anos, sempre em busca de um panorama atual da nova música instrumental brasileira. O Festival PIB  desde sua primeira edição trouxe um novo olhar para a música instrumental, fazendo um contraste entre o primitivo e o moderno, o bruto e o lapidado, a natureza e a cultura.

O Festival realizará uma edição comemorativa de 10 anos, que acontecerá no dia 08 de outubro, das 16h as 22h, na Casa das Caldeiras e apresentará os shows das bandas: Amoradia do Som (SP/ SP), E a Terra Nunca me Pareceu tão Distante (SP/SP), Ema Stoned (SP/SP), Mais Valia (Jau / SP) e Rocktrash (Guarulhos / SP). Além dos shows, o festival terá outras atividades ao longo do dia. A exposição deste ano apresentará trabalhos de artistas visuais que também são músicos de bandas da cena: Andre Astro da banda O Grande Ogro apresentará suas fotografias e Yuri Sopa, da banda Kaoll apresenta seu trabalho de ilustrações de lendas brasileiras. Completam o festival: a oficina de percussão em sucata com Loop B e uma feira cultural. Todas as atividades do festival são gratuitas e a censura é livre. Atualmente o festival está em campanha pelo Catarse para arrecadar fundos para realizar esta edição. Apoie: https://www.catarse.me/festival_pib_10_anos_a84d

Desde 2014, a curadoria do projeto é assinada por Inti Queiroz, produtora executiva e criadora do festival e que também participou das curadorias anteriores. Conversamos com ela sobre o festival e o atual momento da produção cultural no Brasil. Confira:

– A música instrumental brasileira sempre teve uma imagem muito tradicional. Como foi criar o Festival Pib e ajudar a desconstruir isso?

Uma das missões quando criamos o Festival era justamente mostrar que existia uma nova música instrumental sendo feita que ia muito além do choro e do jazz brasileiro, ou mesmo do jazz contemporâneo. Em 2006 já existiam algumas bandas deste tipo, então o PIB veio para tentar unir essas bandas que surgiam com essa nova sonoridade. Na primeira edição em 2007, tivemos 45 inscrições de bandas, sendo que metade tinha esse viés novo. Em 2015, tivemos 208 inscrições e 67 bandas com esse novo viés. Nesta edição de 2017, fizemos um mapeamento com sugestões do público. Tivemos mais de 500 sugestões e destas conseguimos extrair 252 bandas com essa nova sonoridade. Isso é um crescimento e tanto. Acho que cooperamos para isso. Não somos contra a música instrumental tradicional longe disso. Mas achamos importante ter esse espaço para essa nova sonoridade. Hoje em dia até os festivais de música instrumental mais tradicional já estão aceitando bandas com essa nova sonoridade. Isso deixa a gente bem feliz. Estamos rompendo a hegemonia.

– Depois de 10 anos recebendo inscrições para a programação, você acha que as bandas evoluíram na forma como apresentam seus trabalhos para esse tipo de curadoria e seleção? Qual o papel da internet nisso?

Sem dúvida a internet ajudou bastante nessa evolução. Em 2007, primeiro ano de festival, ainda estávamos no início do Facebook e de aplicativos de música para bandas independentes. Até 2011 fizemos as inscrições com materiais enviados pelo correio. A partir de 2012 as inscrições eram via internet, ou com formulário ou pelo email. Ficou muito mais fácil e melhor fazer a curadoria e conhecer mais a fundo as bandas. Nem todas as bandas apresentam um material realmente satisfatório. Mas a grande maioria é bastante profissional quanto a isso. Se compararmos a 10 anos atrás fica ainda mais nítida a melhora. Até porque me parece que as bandas puderam conhecer o modelo de divulgação de outras bandas e assim tornar ainda melhor a forma de apresentar seus trabalhos e se divulgar. Com isso ganhamos muito nos materiais recebidos cada vez melhores. Mas a concorrência entre as bandas também aumenta. Pena que a grana é pouca e não dá pra chamar todo mundo pra tocar.

– O Festival Pib está com um projeto de apoio através do Catarse. Quais as dificuldades em se fazer cultura no país? Acha que o financiamento coletivo surge como opção definitiva para suprir uma lacuna criada pelo Estado no setor cultural?

De uns 5 anos para cá ficou bem mais difícil conseguir fazer um festival com apoio público. A primeira edição do PIB em 2007 foi feito via edital do Proac e já tivemos bons patrocínios. Mas isso foi antigamente. Além da concorrência ter aumentado bastante, a verba pública para cultura só tem diminuído. Para quem trabalha com música independente, sem viés comercial é ainda mais difícil. Quando optamos pelo Catarse, pensamos que pelo menos nos ajudaria um pouco. Mas mesmo assim ainda é bem difícil. Raramente as pessoas apoiam. Acaba ficando muito na bolha dos amigos mais próximos. Hoje eu vejo muitas bandas gravando seus CDs via campanhas colaborativas e tem dado certo. Provavelmente esse tipo de campanha seja uma modalidade quase que obrigatória daqui pra frente. Com os cortes no setor da cultura chegando ao patamar quase zero, talvez seja a única alternativa, já que bilheteria não consegue pagar um festival.

– O que podemos esperar para a próxima edição? Alguma mudança com relação as edições anteriores?

Esta é uma edição comemorativa de 10 anos. Será apenas um dia de shows como foi em 2011 e 2014 e tivemos um público bem grande. A grande novidade desta edição é que pela primeira vez teremos uma banda 100% feminina, a Ema Stoned. Era nosso sonho ter uma banda só de mulheres no Festival, afinal o PIB é um festival produzido principalmente por mulheres. Até então nunca tinha aparecido uma com a sonoridade buscada entre as bandas inscritas. Isso pra gente é um presente de 10 anos de batalha! E que surjam outras bandas de mulheres para as próximas edições.

Cinnamon Tapes inicia caminhada com excelência confessional e crueza sutil

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Cinnamon Tapes

É fato que me alegra muito perceber que os lançamentos que mais gostei em 2017 são de artistas da cena independente, basicamente do mesmo rolê que costumo frequentar, ou seja, pessoas potencialmente próximas, fazendo música pela música, livres. Outra coisa que me chama atenção é que todos esses projetos são liderados por mulheres. Já era tempo de ver isso acontecer.

Não que isso seja algo extremamente inusitado, longe disso, mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a predominância do viés masculino nas artes é brutal, a ponto de parecer boicote. Acha exagero? Então tenta contar quantas diretoras de cinema de renome você conhece, ou quantas guitarristas, pintoras, grafiteiras, romancistas… Bem, como tudo nessa vida carece de um meio termo (Aristóteles e Sidarta não podem estar errados), estamos sendo presenteados com um período de gratas mudanças de comportamento, ao menos nesse aspecto de gêneros. E o tema deste texto é um belo exemplo disso.

Fruto de Susan Souza, cantora, guitarrista, violonista e compositora, o Cinnamon Tapes chega até nós como um projeto contundente, bem-acabado e belo. Esta muito claro que em Nabia” (Balaclava Records) cada canção foi pensada, repensada e aprimorada com muito cuidado, até chegar a este resultado incrível.

O lançamento funciona bem considerando cada faixa separadamente, mas também traz requintes de um álbum conceitual. Isso porque Nabia seria uma personagem, uma espécie de alter ego de Susan, que já afirmou que “Ela [Nabia] é um tipo de sereia mística que se permite viver em terra firme e suas vivências são contadas nas músicas”. Sendo assim, tudo que está ali parece ser verdadeiro, vivido por Susan e transmutado em arte.

Brisa, umidade, azul, zodíaco, sal, ciclos, areia, lágrimas, caminhadas, petricor, escuridão, isolamento, esperança, esoterismo e mulher. Pessoalmente falando, essa enigmática figura evoca todos esses elementos. Está tudo lá, no som e nas palavras.

Apesar de ser fácil notar que em toda a tracklist há uma profunda marca da individualidade da compositora, não posso deixar de ressaltar a importância do produtor e baterista do play, Steve Shelley, o impecável membro do Sonic Youth, que ornamentou o álbum com aquela perspicaz expressividade tão marcante que ele carrega (quem manja de SY sabe do que estou dizendo). Há uma sinergia muito bonita entre os dois em todo o disco, tudo executado e pensado de forma vaporosa, discreta. O peso está na mensagem que fica. Afinal, um bom disco guarda essa habilidade. O discurso musical de Nabia é bastante pessoal, sem aquela maquiagem pesada, quase nu, o que por si só o torna um projeto notável.

A primeira coisa que senti quando ouvi “Sol” foi uma mistura de acolhimento e conforto com uma instantânea identificação. A letra é humana, despida de artifícios, um som extremamente certeiro, honesto e puro, como pouco se ouve de uns tempos pra cá. Que música incrível. Ela fica na sua cabeça e persiste como um sabor agradável.

“Road” é outra faixa impecável e que resume o trabalho de forma certeira: sons limpos de guitarra, bateria minimalista, baixo profundo e uma dobra de vozes bem destacadas. Aliás, o grave e belo vocal de Susan é o que tem de mais denso em todo esse conjunto. Embora o timbre não seja similar, é inevitável deixar de pensar em algum momento em Cat Power, talvez pelo fato de que Steve também a produziu, no início da carreira.

Em “Estrela” temos uma densa melancolia com um quê de astrologia e um cenário de depressão, falando de quadratura de Plutão e diabo. Talvez seja o momento mais vulnerável de “Nabia”, na verdade, talvez seja o momento mais vulnerável que escutei há um bom tempo, o que é artisticamente muito bom. Não há como não deixar de se comover minimamente com esse som. Susan faz letras corajosas. “Faz quantos anos que este minuto existe?”, um belo verso.

A levada arrastada de “Skull” embala uma letra cheia de duras confissões e uma atmosfera de tons escuros. O sentimento transborda. Acho que muita gente que curte aquele clima do pós-punk vai curtir essa faixa. O mesmo acontece com “Lua”, e aí notamos como Steve Shelley é um baita produtor: poucos elementos, uma grande quantidade de espaço, sutileza e dinâmica. Você pode até achar que isso é fácil de se conseguir, mas se assim fosse seria mais comum encontrar álbuns tão redondinhos como este.

As agradáveis “Sacred Waves” e “Salty Eyes” incorporam uma persona ligeiramente inclinada ao folk rock, chegando a resvalar em Neil Young e até no sadcore dos anos 1990. A sensação é de estar caminhando na beira de uma praia, com aquele sol tímido pouco colorido. A envolvente trama de guitarras forma uma paisagem quase etérea em “Cinnamon Sea”, e não há como deixar de reparar na alta carga de PJ Harvey e Sonic Youth que a compositora carrega na bagagem, independe de Shelley estar na jogada. As referências estão acentuadas em todo o disco, porém “Nabia” tem uma cara, um corpo e uma voz autênticos.

“Ventre” fecha a tracklist exaltando a feminidade com uma intenção redentora, guiada por um belo piano. É um ótimo desfecho. Aí então você para e pensa nessas nove faixas e percebe que Nabia, essa personagem quase arquetípica, parece ter travado uma conversa franca, aberta, como poucas pessoas são capazes de fazê-lo. Isso é um dom. Um dom ainda maior quando você fala por meio da língua da arte.

Pegando o taoísmo emprestado, acima de tudo, “Nabia” é um álbum “yin”, com uma estética legítima, decorado de introspecções notáveis e uma linguagem arrebatadora. Faz falta ouvir coisas novas que priorizam o espaço, o silêncio, a natureza dos timbres de cada elemento que ali está, e isso este álbum supre com maestria. Com certeza um dos melhores discos do ano. Mulheres, continuem assim. Susan, continue assim.

McGee and the Lost Hope reverencia os deuses do rock com o pé na porta no EP “Sensitive Woman”

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McGee and the Lost Hope
McGee and the Lost Hope

Mezzo-carioca, mezzo-norte americana, McGee and the Lost Hope surgiu da união de dois músicos apaixonados pelas raízes do rock and roll e do blues, a vocalista de Seattle Mauren McGee e o guitarrista Bernardo Barbosa, ou B.B, como prefere ser creditado, que já rodou a Europa tocando com o bluesman Gwyn Ashton. Com muitas afinidades musicais, como o amor por Led Zeppelin, The Doors, Creedence Clearwater Revival e Suzi Quatro, entre muitos outros deuses do rock, a dupla firmou a banda no começo deste ano e já saiu em turnê para mostrar seu som em alto volume. O som é uma mistura do classic rock com momentos blueseiros e influências notáveis de psicodelia e stoner rock.

O EP “Sensitive Woman” mostra um pouco disso, com quatro faixas que pisam fundo na melancolia blueseira sem deixar de lado o peso dos pedais do rock e do stoner. A voz de McGee casa perfeitamente com o estilo, transparecendo todo o sentimento que um verdadeiro blues deve ter. A banda já prepara seu segundo trabalho, que deve ser lançado ainda este ano.

– Como a banda começou?

McGee: A banda começou quando nos conhecemos em um show de rock e percebemos instantaneamente a conexão musical entre nós. De lá pra cá fizemos músicas, gravamos e fizemos muitos shows juntos.

– Como surgiu o nome da banda?

McGee: Essa parte do nome da banda foi sugerida pelo B.B, e estou fazendo o meu melhor para que a sua esperança realmente não seja perdida (risos). Mas tenho certeza de que nada está perdido por aqui, muito pelo contrário, estamos embarcando em uma longa estrada cheia de surpresas e conquistas!

BB: Pode ter vários significados, inclusive pra nós que criamos. Mas particularmente pra mim tem um significado muito forte, que remete a quando nos conhecemos, de alguma forma eu sabia que havia encontrado a minha esperança perdida em achar uma grande vocalista capaz de interpretar e representar tão bem essas canções.

– Quais as suas principais influências?

McGee: Os clássicos do rock’n’roll não podem ficar de fora nessa lista: Neil Young, Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Suzi Quatro, The Doors, você sabe… Mas também estamos bem antenados em bandas contemporâneas como os Spiders, Blues Pills, Wucan, Electric Citizen

– Como vocês definiriam o som da banda pra alguém que nunca ouviu?

McGee: Rock and roll, baby! Com umas pitadas de stoner, psicodelia e blues, é o som perfeito pra se divertir. 🙂

McGee and the Lost Hope

– Contem mais sobre o material que vocês já lançaram.

McGee: O EP “Sensitive Woman” foi nosso pontapé inicial, através dele mostramos ao público nossas composições e influências. É um convite para os shows ao vivo, onde todos podem conhecer mais e curtir altas jams com a gente, nenhum show é igual ao outro!

– O que vocês acham da cena independente hoje em dia?

McGee: É demais! Conhecemos ótimas bandas, tocamos em lugares que nos acolhem muito bem e o público sempre se deixa envolver pela atmosfera de rock’n’roll presente nos nossos shows. É claro que poderia ser maior e movimentar mais grana, mas estrutura vem com o tempo.

– Porque o rock está tão fora das paradas de sucesso hoje em dia?

McGee: O eock incomoda. É muito passional, muito agressivo e sempre passa uma mensagem de liberdade e rebeldia e isso não é muito bom para a manutenção do status quo. O que o mainstream prego é justamente o oposto do eock, não nos surpreende que ele esteja longe do mainstream atualmente.

– Vocês estão planejando lançar um disco completo em breve? Vocês acham que a cultura do disco morreu com a chegada dos serviços de streaming?

McGee: Nosso próximo lançamento será um EP. Álbuns ainda são relevantes, mas precisam ser especiais, devem fazer sentido como um todo e não apenas um punhado de canções – queremos lançar um album que faça as pessoas quererem ouvir aquelas músicas como um álbum, seja lá como elas escolherem o formato físico ou serviço de streaming. Independente disso, nossos shows continuarão cheios de energia rock’n’roll e visceralidade, como sempre fazemos!

McGee and the Lost Hope

– Quais os próximos passos da banda?

McGee: O lançamento do nosso próximo single e o nosso próximo EP, que sairá em breve!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamara sua atenção nos últimos tempos.

McGee: Carbo, Old Shack Band, Blind Horse, LoFi, Deb and The Mentals, Hammerhead Blues, Stone House on Fire, Gods and Punks e todas as outras bandas que trombamos pela estrada, essa galera é demais – pode confiar!

Tricky transformou o grunge do Alice in Chains em um trip hop com pitadas globais

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Quando Tricky lançou “Adrian Thaws” em 2014, seu 11º registro fonográfico e que também leva seu nome de nascimento, houve uma tour mundial, que passou pelo Brasil. Convidou Mallu Magalhães pra gravar “Something In The Way”, tomando o lugar de Francesca Belmonte na divulgação de seu álbum por aqui. Ele também já teve um relacionamento amoroso com Bjork e é um dos muitos pais do trip hop, ao ter participado dos dois primeiros álbuns do Massive Attack.

Continuando com a herança do hip hop, suas composições se baseiam em samples, muitas vezes de artistas extremamente consagrados, como Michael Jackson e Alice In Chains. E esse texto é exatamente sobre essa interessante mistura pessoal de Seattle com os guetos londrinos. “Heaven Beside You”, a música sampleada, faz parte do terceiro disco do Alice in Chains. A música que fez sucesso tanto como single, no lançamento do álbum, quanto na participação da banda no “MTV Unplugged”, em 1996.

Essa fusão mostra a genialidade de um artista seguro de si, que sabe extrair o melhor para sua obra, independente do estilo e da exposição da música original, fazendo tudo soar novo, como se fosse feito para ele.

Tricky se apropria dos 5 segundos iniciais em “Keep Me In Your Shake”, fazendo um loop que se repete por 47 segundos enquanto o músico acende um baseado e reclama da segunda (Can’t wait for Sunday / It’s heartbreak Monday). Adicione ao itinerário da nossa viagem a Nigéria, país de Nneka, que divide os vocais e tem, em seu currículo, a música “Viva Africa”, tema da Copa do Mundo de 2010. Perceba que a conexão mundial segue fluindo.

Curiosamente, no canal de You Tube do artista, o sample não está presente. Foi substituído por uma guitarra com melodia parecida com a criação de Jerry Cantrell, mantendo boa parte da sua essência.

O groove do Black Mantra tomou conta da Choperia do Sesc Pompeia

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Não era uma terça-feira (12) qualquer. O motivo? O octeto de funk, jazz e afrobeat chamado Black Mantra se apresentaria logo mais na Choperia do Sesc Pompeia. Show marcado para começar às 21h. A fila para pegar o ingresso, uma hora antes do show, estava imensa. Ainda na fila, não havia como não reparar no público diversificado que ali encontrava-se.

Casa lotada, vinil da banda comprado e chopp na mão. Tudo certo. Agora era só esperar.

A banda subiu no palco uns quinze minutos atrasada. O público aplaudiu a entrada do grupo. Depois de uma introdução em formato de vinheta, o BM começou com “Le Mantra Noir“, um som mais neutro. Sabe como é, cedo demais para agitações. Eles queriam esquentar o clima aos poucos. Quando passaram para a segunda música: “Kaiú-Ubi“, a sintonia da banda invadiu a noite com efeitos de wah-wah e delay das guitarras de Ricardo Mastria (também integrante da banda de hardcore Dead Fish). Inevitavelmente, cabeças explodiram com o som dos metais e o ritmo dançante da bateria. James Brown habitava o palco em espirito. Ou não, talvez estivesse em sua tumba mesmo recitando mantras de funk e enviando energias para o BM.

Não havia como negar, a presença de palco dos integrantes era louvável, e deixou a plateia desconcertada. As pessoas embarcaram numa viagem espiritual, e em peso, começaram a bater palmas no ritmo da música em determinados trechos. Foi assim até o final da apresentação.

Black Mantra no Sesc Pompéia 12/09. Crédito da foto: Marcos Bacon.

Eles conseguiam variar, em uma mesma música, de um hit romântico para um dançante, como quem troca de roupa no provador de uma loja de departamento. “Fossa Jazz” exemplifica acertadamente essa variação. A música lembra as Big Bands de swing.

Um solo de bateria no meio do show arrancou gritos empolgados da multidão, os olhos do público não desgrudavam do palco. Não à toa, o groove com influências de funk setentista do baterista Leonardo Marques sacudiu a massa que, a essa hora, estava encharcada de suor. Pouco depois, o tecladista Kiko Bonato teve uma complicação com seu instrumento, que estranhamente, parou de funcionar. A equipe técnica se prontificou a ajudar e rapidamente o problema foi solucionado.

O palco contava com uma iluminação de led belíssima. Para solar, os integrantes do time de metais se dirigiam até o centro do palco, levando os presentes à loucura.

Próximo ao final do show, Ric Mastria solou inacreditavelmente – aliás, a versatilidade deste músico é assustadora e merece ser comentada. Não é fácil sair do hardcore e transitar pelo funk livremente com tamanha facilidade.

Caio Leite, o baixista da banda, anunciou que o show estava chegando ao fim e apresentou todos os integrantes do octeto. O gosto de quero mais era irrevogável. E olha que o espetáculo durou mais de 1h30. Após encerrarem majestosamente com “Tocaia”, voltaram com o bis “Umbabarauma”, uma música intensa e cheia de energia – antenderam os pedidos do público.

A banda saiu do palco ovacionada pela plateia, que entoava em coro “BLACK MANTRA”. É bonito de ver uma banda com apenas 3 anos de formação se portar como uma de 20 anos. Experiência não faltou na forma como conduziram o show.

Já assistiram o seriado “The Get Down? Foi mais ou menos assim…

Black Mantra é formado por Caio Leite (baixo), Leonardo Marques (bateria), Ricardo Mastria (guitarra), Kiko Bonato (teclado), Igor Thomaz (saxofone barítono), Pedro Vithor (saxofone tenor), William Tocalino (trombone) e Felippe Pipeta (trompete). Quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o trabalho do grupo, confira Black Mantra (2017) no link, disco homônimo lançado em junho.

Choperia do Sesc Pompeia lotada. Crédito da foto: Marcos Bacon.

Set list:

Vinheta Intro

1 – Le Mantra Noir

2 – Kaiú-Ubi

3 – Puga Race

4 – Fossa Jazz

5 – Mamabeat

6 – O Ronco do Cacuí

7 – Jazzmatazz

8 – Tranca Rua

9 – Ybytu

10 – Bad White

11 – 5511

12 – Bombardino Invisível

13 – Baby Root

14 – Houdini

15 – Tocaia

BIS

16 – Umbabarauma

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Adailton Moura, do RAPresentando

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Adailton Moura, do RAPresentando
Adailton Moura, do RAPresentando

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Adailton Moura, do RAPresentando:

Princess Nokia“Tomboy”
“A MC Princess Nokia já tem três discos caseiros no currículo. Mas somente agora está conseguindo se destacar. Sempre presente nas festas undergrounds de Nova York, ela chamou a atenção da Rough Trade Records. Agora, com o aporte do selo, Nokia tem conquistado seu espaço. Em suas letras, a rapper fala do machismo que impera no rap, a cultura do estupro e do tratamento dispare entre homens e mulheres”.

Leaf“Gone”
Leaf faz uma ponte entre o rap e o r&b. A voz dela é potente. Formada na LaGuardia, famosa escola de artes de NY, a cantora colocou recentemente nas ruas o disco ‘Trinity’. A sonoridade é incrível. Uma obra de arte”.

Paulo Microfonia“Mudanças, Novidades, Surpresas: Possibilidades”
“O Paulo Microfonia está debutando com o EP “Mudanças, Novidades, Surpresas: Possibilidades”. O trabalho levou cerca de quase quatro anos para ficar pronto. É viciante. Ele está na música há um bom tempo e participa ativamente do cenário independente da região de Campinas, SP. O Microfonia é um poeta. Ele sabe usar muito bem as palavras”.

Madame Gandhi – “Get It Girl”
“A Madame Gandhi é uma DJ e produtora de EDM baseada em LA. Gandhi também foi baterista da cantora M.I.A. Ativista das causas femininas, ela soltou o EP “Voices”. O objetivo dela é dar voz e enaltecer todo o poder feminino”.

Wiki“Pretty Bull”
Wiki tem 23 anos. Ele quebra padrões e alguns esteriótipos do rap, mas entrega um trabalho sólido, reflexivo. “No Mountains in Manhattan” é seu álbum de estreia. Nele, Wiki fala sobre seus vícios, relacionamentos, identidade e responsabilidade. O primeiro projeto dele, a mixtape “Lil Me”, foi apresentado em 2015. Sua energia conquistou o público do senário underground. Agora, ele está alçando voos mais altos, deixando de vez seu território de atividades artísticas: Manhattan, em NY”.

“Piratas do Rock” (2009): a primeira vez que vi meu pai chorar

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Piratas do Rock

The Boat That Rocked (Piratas do Rock)
Lançamento: 2009
Diretor: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco Principal: Tom Sturridge, Philip Seymour HoffmanBill NighyRhys IfansNick FrostKatherine ParkinsonTalulah RileyTom BrookeChris O’DowdRhys DarbyWill AdamsdaleTom Wisdom and Ralph Brown

Antes do Big Boy aqui nas rádios tupiniquins nos anos 70 e bem antes do refrão “Kiss FM: depois de um rock, sempre vem outro rock”, na Inglaterra o filho do blues já tocava via antena. Contudo, em 1966, durante o auge do pop rock inglês, a tal música era ainda muito mal vista no país da rainha, e estações como a BBC tocavam o som “degenerado” apenas uma hora por dia. Mas o rock é o rock, não é? Foi respondendo a essa pergunta que malucos se jogaram em barcos no mar fora da região da legislação britânica e transmitiram Kinks, Turtles, Who, Stones e mais uma porrada de coisa.

O filme “Piratas do Rock” de 2009, remonta esse cenário e mostra a vida dentro dum desses barcos e a guerra constante com o parlamento. Carl (Tom Sturridge), um “fine young man” que foi recentemente expulso da escola por ter sido encontrado fumando maconha, é mandado pela mãe para o barco onde é esperado por Quentin (Bill Nighy), seu padrinho e comandante da rádio e do navio. É nessa marítima estação roqueira que o menino se envolve com o bando de caras, no melhor espírito camaradagem cuzona, num ambiente 100% da zuera, 50% da parceragem e 50% da cuzisse dos fura-olhos (mas porra, todo mundo tem aquele amigo cuzão e fura-olho). Sobre o título, é em parte por conta de todo esse espírito sempre cheio de rock, desafiando um parlamento babaca, que meu pai chorou na última cena (eu e meu irmão, com uns 12 anos, achamos aquilo incrível). Contudo, devo parar por aqui, a fim de não dizer mais nada sobre o final…

Obviamente que a trilha é do caralho! Com Cream, Who, Turtles, Otis Redding, Hollies, Jeff Beck, Jimi Hendrix, Procol Harum, Cat Stevens e mais uma porrada de coisa (ao todo o filme conta com mais de 30 sons diferentes), o musical recria fantasticamente o ambiente sessentista do rock britânico. Vale, contudo, ressaltar algumas das músicas, em parte por elas mesmas, em parte pelas cenas que acompanham.

“Lazy Sunday Afternoon” da banda Small Faces, toca no longa numa cena que explica a alma do rolê dos caras do barco. Eles andando juntos, a cada corte de cena mais bêbados e desalinhados, marchando no ritmo da música é o tipo de imagem que faz todo mundo lembrar de algum rolê da hora que tenha dado com os parças.

“Sunny Afternoon” do Kinks, é outra que toca mostrando o espírito do barco. Ao som desse som é que eles jogam futebol no convés e obviamente perdem a bola pra Poseidon. Além disso, a música ainda acompanha a reação do público em solo, em todos os lugares da Inglaterra, dançando fantasticamente a linda música.

Sem enrolar muito, só pra falar de mais uma, vale citar “So Long Marianne” do canadense Leonard Cohen, o som que acompanha ninguém mais ninguém menos que a jovem Marianne (Talulah Riley), sobrinha do capitão Quentin, quando ela faz uma visita ao barco e é apresentada ao jovem Carl.

Ainda, o filme é cheio de pequenas referências imagéticas ao rock’nroll. Os próprios radialistas, há quem diga que sejam homenagens aos membros da banda The Turtles (sua música “Eleanor”, toca no musical). Além disso, há uma cena que “lembra de leve” o encarte do disco “Eletric Ladylandda banda Jimi Hendrix Experience: o cara que faz o programa da meia noite, Gavin (Rhys Ifans), conhecido como sex symbol, aparece em seu quarto rodeado por uma série de mulheres nuas (uma vez por semana o barco recebe um grupo de fãs da rádio).
             

Segue em link o filme e a trilha sonora!

Filme: http://putlockers.fm/watch/EdZD29xp-the-boat-that-rocked.html

Trilha sonora:

Bom, é isso aí galera. Ouçam, assistam e curtam!

Coloque seu blazer com ombreiras e volte aos anos 80 com estes remixes de sucessos atuais

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Esses dias, nas minhas andanças pelo Youtube, me deparei com um remix que se dizia “80’s” para “Numb”, do Linkin Park. Ouvi e achei incrível como conseguiram transportar a banda para os anos 80 e encaixaram tudo direitinho. Parecia que o grupo fazia parte da década de 80 e poderia tranquilamente fazer parte da trilha sonora de “Miami Vice”:

Mas, como todo mundo sabe, a internet não me permite não ir atrás de mais. Descobri que quem fez esse remix foi um DJ chamado Jerry Galeries, e é claro que eu fiz questão de entrar no canal dele no Youtube para encontrar mais pérolas do tipo. Lá, apareceram versões neon piscantes de “Bad Liar”, da Selena Gomez, e “Shape Of You”, de Ed Sheeran, que ficou simplesmente sensacional:

Eu deveria ter parado por aí? Talvez. Mas ao assistir à versão 80s do ruivo, apareceram mais vídeos dos chamados “80s remix” nos vídeos relacionados, abrindo pra mim um mundo novo de oitentismo desenfreado. O próximo DJ que me chamou a atenção nesse estilo foi o TRONICBOX, que se especializa principalmente neste tipo de mixagem de hits atuais. Lá deu pra fazer a festa: remixes de “Love Me Harder” do The Weeknd, “Cool For The Summer” da Demi Lovato, “Perfect Illusion” e “Bad Romance” de Lady Gaga, “Somebody That I Used To Know” do Gotye, “Firework” da Katy Perry, “What Do You Mean” do Justin Bieber e muito mais. O melhor são as capas dos vídeos, com montagens oitentistas dos artistas remixados. As roupas de aeróbica, mullets e ombreiras são hilários.

Fuçando, soube que o DJ canadense é um dos precursores dessa moda, que é algo meio brincadeira e meio um descontentamento com os rumos da música pop hoje em dia. Os sites E! Music e SpinOrBinMusic chamaram os remixes de “obras de arte” e o RetroSpin chama as versões de “hinos retrô”.

Outro DJ que aposta na nostalgia dos oitenta é o Dubspillaz, do Reino Unido, que faz remixes inacreditáveis de “Starboy” e “I Feel It Coming” de The Weeknd e mostra que ele pode parecer ainda mais com o ídolo Michael Jackson, além de versões para “Moves Like Jagger” do Maroon 5, “This Is What You Came For” de Calvin Harris e “Lush Life”, da Zara Larsson, além de “Just The Way You Are” de Bruno Mars que parece saída diretamente da trilha de “O Último Americano Virgem”:

Recomendo a todos que curtirem estes remixes continuem procurando, pois tem mais um monte de músicas do tipo no Youtube, com DJs como LovProd, Saint-Laurent e David Lo Pan. Além disso, um apelo aos DJs brasileiros: por favor, façam remixes oitentistas de sucessos do pop atual brasileiro? Quero muito ouvir a versão Xou da Xuxa de “Paradinha” e uma coisa meio Kid Abelha para “Hoje” da Ludmilla. Alguém se habilita?